Maria De Coppi trabalhava na África desde 1963. Dois missionários venezianos e outras freiras resgatados. A missão foi incendiada. O cardeal Zuppi afirmou: que o seu sacrifício seja uma semente de paz.

A reportagem é publicada por Avvenire, 07-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.
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“Lamento ter de informar que a nossa comunidade de Chipene, em Moçambique, foi atacada ontem à noite, por volta das 21 horas”. Estas são as primeiras palavras de uma comunicação do secretariado geral das irmãs missionárias combonianas, assinada pela Ir. Enza Carini, secretária geral.

Irmã Maria De Coppi – Foto: Escritório Missionário da Diocese de Concordia-Pordenone

As notícias sobre o ocorrido seguiram com alguma incerteza e, infelizmente, após algumas horas, foi confirmado que uma freira italiana, Maria De Coppi, 83 anos, foi morta no ataque.

Outros quatro religiosos viviam na missão: além de Irmã Maria, também Angeles e Paula, espanholas, Eleonora, italiana e Sandrine de Togo. Dois missionários fidei donum, da diocese de Pordenone, formavam uma comunidade não muito distante. Durante a noite tinham enviado mensagens dramáticas que deixavam temer o pior. “Lembrem-se de mim em suas orações” e “Eu perdoei quem eventualmente me matar”. “Vou tentar protegê-lo de lá”, escreveu um dos dois sacerdotes em um chat. Pela manhã, porém, foi possível entrar em contato com Dom Lorenzo Barro, 56, ex-reitor do seminário de Pordenone, e Dom Loris Vignandel, 45, natural de Corva e ex-pároco de Chions (Pordenone), que felizmente escaparam do ataque. Os dois fugiram e se coloraram a salvo.


Mapa de Moçambique, Nampula e destaque para Cabo Delgado e Pemba
– Fonte: Wikicommons

A freira morta tinha 83 anos, era originária de Santa Lucia di Piave e trabalhava em Moçambique desde 1963. Nascida em Vittorio Veneto em 1939, profissão religiosa em 1960 em Verona. Sempre operou em Moçambique. A idosa foi atingida na cabeça por uma bala ao tentar chegar ao dormitório onde algumas garotas haviam se escondido.

Centro Missionário de Concordia-Pordenone informou que “os rebeldes atacaram a missão, incendiando todas as obras paroquiais”: a escola primária e secundária, o hospital, os dormitórios, a própria igreja. A preocupação dos religiosos sobreviventes agora é com a população local e principalmente com os cristãos.

O assalto à missão Chipene – Foto: Escritório Missionário da Diocese de Concordia-Pordenone

Dramático é o depoimento sobre o ocorrido de Padre Loris, que pela manhã enviou seu relatório à diocese de Pordenone.

“Esta noite os insurgentes passaram por aqui. Queimaram a igreja, os dois dormitórios, as casas dos padres e das freiras, o centro de saúde, alguns armazéns. Os internos já tinham saído ontem. Nem todos as internas conseguiram… No início dos tiroteios, a Irmã Eleonora pegou as meninas e fugiu com elas para o mato. A Irmã Angeles também conseguiu escapar (mesmo tendo sido agarrada pelas costas) com as aspirantes. Infelizmente, um dos primeiros tiros atingiu a irmã Maria no rosto: não foi possível fazer nada por ela, e seu corpo já está a caminho de Carapira para o enterro. Em relação a mim e dom Lorenzo, ficamos em silêncio no quarto durante toda a noite. Queimaram tudo, arrombaram todas as portas. Exceto a nossa. E isso nos deixa muito desconfiados: por que e por que razão as nossas duas portas não foram derrubadas? Parece evidente que as evitaram de propósito, porque sabiam: não há outra explicação.

Esta manhã veio a Angeles para nos avisar que eles já tinham ido embora. E assim saímos dos nossos quartos, incrédulos e contentes, embora também tristes e diferentemente aliviados: ainda temos algo para viver”.

Em uma entrevista recente, dom Lorenzo Barro falava da missão de Chipene, uma paróquia de três mil quilômetros quedados, sem estradas asfaltadas. Uma população atormentada pela fome, ignorância, guerras e inundações, com uma expectativa média de vida de 40 anos. A paróquia acolhe deslocados em fuga dos embates entre o exército e militares de Ruanda de um lado e grupos armados em luta contra o governo do outro e dispõe de escolas, dormitórios e outras instalações recém-inauguradas.

Na missão vivem cerca de oitenta garotos e garotas que foram postos a salvo. O bispo da diocese de Nacala, Alberto Vieira, foi imediatamente para Chipene.

Irmã Maria De Coppi havia denunciado a guerra, a exploração e o terrorismo em Moçambique e os sofrimentos do povo, e estava na linha de frente para ajudar as famílias locais provadas pela fome e pela violência.

Abaixo está um trecho de uma entrevista que Irmã Maria De Coppi deu a uma emissora local enquanto descrevia seu trabalho em Moçambique

“Os últimos dois anos foram muito difíceis. No norte do país há uma guerra pelos campos de gás e as pessoas estão sofrendo e fugindo: na minha paróquia há 400 famílias que vêm da zona de guerra. Depois veio o ciclone. Por fim, no ano passado a seca durou muito tempo. Hoje em Nampula há pobreza extrema. Apesar da pobreza material, a escuta do outro continua a ser uma grande dádiva, é reconhecer a eles a sua dignidade”. A população da zona de Nampula “é bastante fatalista, aguarda que a guerra e as calamidades passem. Dizem: ‘A nossa guerra é não fazer guerra’”.