Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (ciclo C)
Lucas 9,11-17 


Corpo de Deus

Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: “Melquisedeque trouxe pão e vinho.” (Gênesis 14,18-20).
  • Salmo: Sl. 109(110) – R/ Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem do rei Melquisedeque!
  • 2ª leitura: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha.” (1 Coríntios 11, 23-26).
  • Sequência: Eis o pão que os anjos comem transformado em pão do homem.
  • Evangelho: “Todos comeram e ficaram satisfeitos.” (Lucas 9,11-17).

Em que se tornaram as nossas Eucaristias?
Marcel Domergue sj

O escândalo da cruz

Um Deus moído, como se faz com o trigo… Um Deus esmagado e espremido, como se faz com a uva… São imagens terríveis estas! Pensando bem, até mesmo escandalosas. Muitas pessoas, cristãos inclusive, não suportam os crucifixos nem outras evocações do calvário. O que não os impede, contudo, ao preço de uma emoção passageira, de assistirem reportagens televisivas que mostram cadáveres da guerra na Síria, de migrantes afogados no Mediterrâneo ou de jovens abatidos nas favelas do Rio de Janeiro… Que Deus tivesse chegado a este ponto, de ter sido arrolado entre os derrotados e os massacrados do mundo, este é o escândalo da cruz! Pregado nela, Cristo representa e reúne em Si mesmo todas estas vítimas, para fazê-las viver da sua Vida. A morte é impotente diante de um amor como este. Deus se dá a Si mesmo em alimento, uma vez que nós, das mais diversas formas, nos devoramos mutuamente: “Quando comem o seu pão, é ao meu povo que devoram” (Salmo 14,4). A cruz sozinha, isolada de seu contexto, pode com certeza nos atemorizar. Mas a última Ceia, que representamos através da Eucaristia, adverte-nos que o Corpo de Cristo desta forma oferecido torna-se para nós o alimento vital. Jesus, antecipadamente, entregou o que lhe queriam tirar: “Este é o meu corpo”. Desta forma, a vontade de matar foi pega de surpresa. Deus submete-se ao desejo perverso do homem. Não para aprová-lo, mas para torná-lo inoperante. A morte, toda morte, encontra-se sujeita assim a produzir o seu contrário, a vida.

Pão e vinho

O pão representa a nossa imprescindível relação com a natureza, que alimenta a nossa vida. Natureza considerada, aliás, como uma realidade a ser dominada, a ser transformada. E tudo isso exprime o dom que Deus nos faz de Si mesmo, através da Criação. O vinho é algo prescindível, que está além do necessário: é ligado à alegria das núpcias. Revela o excesso do dom de Deus. Este “supérfluo” mostra que Deus nos preenche para além das nossas necessidades. Apoiados em alguns textos bíblicos, há quem veja no cálice eucarístico uma figura do sofrimento humano. Prefiro aquela primeira interpretação. De todo modo, o pão e o vinho, sinais sensíveis da nossa existência “terrestre” e de nossa alegria de viver, veem na Eucaristia a sua significação alcançar um grau inédito. Põem-nos na presença do dom que Cristo nos fez da sua carne e do seu sangue, verdadeiro pão e verdadeira bebida (ver João 6,48-58). Podemos dizer com certeza que o pão torna-se o corpo de Cristo (fórmula habitual), mas, lendo João 6, podemos dizer também que o corpo de Cristo torna-se pão. Santo Irineu vai mais longe: “(Cristo) confirmou que o cálice que vem da Criação era o seu sangue (…), que o pão que vem da Criação era o seu corpo, pelo qual Ele fortifica o nosso corpo.” Desde que o homem vive desta Criação – ele faz parte dela, então, desde sempre -, é do próprio Deus que ele vive. A Eucaristia nos revela isto. Longe, portanto, do esquema das fórmulas mágicas.

A morte e a vida

Estamos sim diante do mistério do Amor que conduz o universo inteiro à sua perfeição. Vou tentar explicar, ainda que de forma um pouco esquemática: tudo o que existe é impulsionado por uma potência de vida que é a sua fonte. Potência de pensamento, posto que pensamos; potência de vontade, posto que desejamos; potência de amor, posto que amamos. E tudo isso é o ato criador que se desdobra numa história da qual somos todos parte interessada. Quando o Influxo Criador se depara dentro de nós com alguma recusa, ele é neutralizado. A Criação torna-se Paixão e o Criador, o Crucificado. Temos aí, portanto, uma inversão inédita: a carne moída de Cristo torna-se o pão para a nossa vida, e o sangue derramado torna-se bebida para  a nossa alegria. O assassinato não foi por nenhuma razão de amor, mas, tendo havido morte, faz-se necessário o renascimento, para uma vida à prova da morte. O processo criador atravessa as nossas condutas assassinas e, de repente, procedemos a uma “mudança de campo”: deixamos o campo dos que só oferecem a morte e passamos para o lado d’Aquele que deu a sua vida. Participando da Eucaristia, queremos significar que fazemos nossa a atitude fundamental de Cristo que, “sendo de condição divina, não usou de seu direito de “ser tratado como um Deus”, mas aniquilou-se a si mesmo…” para se dar em alimento. Daqui em diante, o nosso projeto só pode ser o mesmo que o d’Ele: “fazer viver”. E vivermos nós mesmos em conformidade.

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Corpo de Deus:
A mesa do Senhor é sempre mesa para o faminto

Enzo Bianchi

Após a festa da Trindade de Deus, celebramos na quinta-feira outra festa “dogmática”, em defesa da doutrina, para recordar a verdade da Eucaristia desejada por Deus como memorial na vida da Igreja até à sua vinda gloriosa. Todos os domingos celebramos a Eucaristia, mas a Igreja pede-nos também para confessar e adorar este mistério inesgotável num dia particular, a quinta-feira da segunda semana após o Pentecostes, ou no segundo domingo a seguir à solenidade do Espírito Santo.

A denominada narração da “multiplicação dos pães” é atestada por seis vezes nos Evangelhos (duas em Marcos e em Mateus, uma em Lucas e em João), o que nos diz como esse acontecimento foi considerado de particular importância na vida de Jesus. O Evangelho segundo Lucas, proclamado na solenidade (9, 11b-17), é antecedido, no versículo 2, pelo envio dos discípulos, por parte de Jesus, a anunciar a vinda do reino de Deus e a curar os doentes, mostrando que a missão a Ele confiada por Deus com a descida do Espírito Santo, revelada na sinagoga de Nazaré, era por Ele estendida também à sua comunidade. Cumprida essa missão, os discípulos regressam a Jesus e descrevem-lhe a sua experiência, ou seja, o quanto fizeram e disseram em obediência à sua ordem.

Jesus toma-os então consigo, conduzindo-os à parte para um retiro, num lugar próximo da cidade de Betsaida. Mas as multidões, sabendo para onde Jesus se tinha retirado, seguem-no obstinadamente. E eis que Jesus as acolhe: tinha procurado um lugar de silêncio, solidão e repouso para os discípulos regressados da missão e para si, mas perante àquela gente que o procura, que vai até Ele e o segue, Jesus, com grande capacidade de misericórdia, acolhe-a. É o estilo de Jesus, estilo hospitaleiro, estilo que não afasta nem declara ninguém como estranho. Estas pessoas querem escutá-lo, sentem que Ele pode dar-lhes confiança e libertá-las, curá-las dos seus males e dos pesos que sobrecarregam as suas vidas, e Jesus, sem se poupar, anuncia-lhes o reino de Deus, e cura-as. Esta é a sua vida, a vida de um servo de Deus, de um anunciador de uma palavra confiada por Deus.

Na Igreja perdeu-se esta inteligência eucarística própria dos primeiros cristãos e dos padres da Igreja, houve um divórcio entre a missa como rito e a partilha do pão com os pobres

Chega, no entanto, a noite, o sol põe-se, a luz declina, e os doze discípulos entram em ansiedade. Dizem por isso a Jesus: «Despede a multidão para que vá para as povoações e campos em redor, para se alojarem e encontrarem alimento: aqui estamos numa região deserta!». O seu pedido é conduzido pela sabedoria humana, nasce de um olhar realístico, todavia Jesus não aprova essa possibilidade racional, mas pede-lhes: «Vós próprios dai-lhes de comer». Com esta ordem, exorta-os a entrar na dinâmica da fé, que é ter confiança, colocar em movimento aquela confiança que está presente em cada coração e que Jesus sabe reavivar. Mas os discípulos não compreendem, e insistem em pôr diante de Jesus a sua pobreza: só têm cinco pães e dois peixes, alimento suficiente só para eles.

Jesus toma então a iniciativa: manda que se faça sentar toda aquela gente no prado, em grupos de cinquenta, porque não se trata só de matar a fome, mas de viver um banquete, uma verdadeira ceia, na hora em que o sol se põe. Depois, diante de todos, toma os pães e os peixes, ergue os olhos ao céu, como ação de oração ao Pai, bendiz Deus e parte os pães, apresentando-os aos discípulos para que os sirvam, como à mesa, àquela gente. É um banquete, o alimento é abundante e é partilhado por todos. Aqueles que conheciam a profecia de Israel, recordam-se que ocorreu um prodígio que já o profeta Eliseu tinha realizado em tempo de carestia, nutrindo o povo esfomeado a partir da partilha de poucos pães (cf. 2 Reis 4, 42-44). O mesmo faz Jesus, e depois do seu gesto permanece uma quantidade de alimento ainda maior: doze cestas. No coração dos discípulos e de alguns dos presentes surge assim a convicção de que Jesus é profeta maior do que Elias e Eliseu, é mesmo maior do que Moisés, que no deserto tinha dado de comer maná ao povo saído do Egito.

Mas aqui surge espontaneamente a pergunta: o que significa este acontecimento? Normalmente fala-se da “multiplicação” dos pães, mas na narrativa o termo não existe. Devemos dizer que aconteceu a partilha do pão, aconteceu a fração do pão, e este gesto é fonte de alimento abundante para todos. Deste modo compreendemos como está aqui uma prefiguração daquilo que Jesus fará em Jerusalém na noite da última ceia: «Tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: “Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”». O mesmo gesto é repetido por Jesus ressuscitado no caminho para Emaús, diante dos dois discípulos. Também nesse caso, ao declinar do dia, convidado pelos dois a ficar com eles, «quando estava à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lhes». Três episódios que trazem a mesma mensagem: as multidões, as gentes, o mundo tem fome do reino de Deus, e Jesus, que dele é o mensageiro e o incarna, sacia esta forme com a partilha do aluimento, com o partir o seu corpo, a sua vida, oferecida a todos.

Se no mundo há fome, se os pobres estão junto de nós e a Eucaristia não tem para eles consequências concretas, então a nossa eucaristia é só cena religiosa e – como diria Paulo – «o nosso há não é um comer a ceia do Senhor»

Eis o mistério eucarístico na sua essência: não nos deixemos encandear por muitas e diferentes doutrinas eucarísticas, mas acolhamos o mistério na sua simplicidade. Cristo dá-se a nós e é alimento abundante para todos; uma vez partido (na cruz), dá-se à Igreja, a nós, a todos aqueles que o procuram e tentam segui-lo, a todos aqueles que têm fome e sede da sua palavra e desejam partilhar a sua vida. Se é verdade que a dinâmica da fração do pão e do partilhá-lo encontra na celebração da ceia eucarística, na liturgia santíssima, um cumprimento, ela é, todavia, também paradigma de partilha do nosso alimento material, o pão de cada dia. A Eucaristia não é só banquete do céu, mesa do corpo e do sangue do Senhor, mas quer ser ensinamento para as nossas mesas do dia a dia, onde o alimento é abundante mas não é partilhado com quantos têm fome e de estão privados. Por isso, se na nossa eucaristia não participam os pobres, se não há partilha do alimento com quem não o tem, então também a celebração eucarística fica vazia, porque lhe falta o essencial. Já não é a ceia do Senhor, mas uma cena ritual que satisfaz as almas dos devotos, mas em profundidade é uma grave diminuição do sinal querido por Jesus para a sua Igreja. A mesa do corpo do Senhor deve ser sempre mesa da palavra do Senhor e, conjuntamente, mesa da partilha com os necessitados.

Com a partilha dos pães e dos peixes com a multidão, Jesus inaugura um novo espaço relacional entre os humanos: o da comunhão na diferença, porque as diferenças não são abolidas mas afirmadas sem que sofra a relação marcada pela fraternidade, solidariedade, partilha. Sim, devemos confessá-lo: na Igreja perdeu-se esta inteligência eucarística própria dos primeiros cristãos e dos padres da Igreja, houve um divórcio entre a missa como rito e a partilha do pão com os pobres. E se no mundo há fome, se os pobres estão junto de nós e a Eucaristia não tem para eles consequências concretas, então a nossa eucaristia é só cena religiosa e – como diria Paulo – «o nosso há não é um comer a ceia do Senhor».

Precisamente diante da Eucaristia, cantamos o hino que afirma “et antiquum documentum novo cedat ritui” («o hino antigo dê lugar à nova liturgia», mas na realidade permanecemos enclausurados nos ritos e não conseguimos celebrar o “rito cristão”, “o culto segundo a Palavra”, que é oferecido em sacrifício pelos nossos corpos a Deus através do serviço dos pobres e do amor fraterno vivido «até ao fim».

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.06.2019
http://www.snpcultura.org