O Pão da Palavra
24° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 15,1-32


XXIV-C (4)

Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo” (Êxodo 32,7-11.13-14).
  • Salmo: Sl. 50(51) – R/ Vou agora levantar-me, volto à casa do meu pai.
  • 2ª leitura: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Timóteo 1,12-17).
  • Evangelho: “Haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converta” (Lucas 15,1-32 ou 1-10).

Para todo pecado, misericórdia!

A idolatria do povo hebreu, o adultério do rei Davi, as perseguições movidas por Paulo, a ingratidão do filho pródigo… O pecado do homem tem múltiplas faces, mas jamais se esgotará a misericórdia divina. Deus vai ao encontro dos pecadores e convida-nos a com Ele alegrarmo-nos pelos que retornam à casa paterna. A reflexão é de Marcel Domergue.
http://www.ihu.unisinos.br

Para além da cólera, o amor

A Liturgia não facilita em nada ao comentarista: o tema deste capítulo 15 de Lucas já foi assunto do 4º Domingo da Páscoa, o Bom Pastor. Por isso evidenciaremos mais, hoje, as analogias com as outras leituras. Quem é de fato, no texto extraído do Êxodo, a ovelha perdida? Israel, inteiramente. E na Carta a Timóteo, quem é a ovelha perdida? O próprio Paulo, que, de filho mimado do judaísmo, como podemos ler em Filipenses 3,4-6, por exemplo, extraviou-se, movendo perseguição aos cristãos.

Notemos que os dois textos do Novo Testamento não fazem menção a nenhuma eventual cólera divina, como o faz a 1ª leitura; referem-se somente à misericórdia (que é o outro nome do amor) e à alegria. Isto mostra muito bem que a “revelação” é progressiva. Mas não passemos rápido demais por este tema da cólera de Deus: notemos corresponder ela à mesma reação que teve o filho mais velho, no evangelho, buscando responder a uma rigorosa exigência de justiça.

Para nós, é de grande valia ficar sabendo que o bem-querer de Deus para conosco origina-se em uma negação da justiça. E que, a rigor, na qualidade de escolhas contrárias à nossa criação, as nossas faltas deveriam nos conduzir à morte. Por sob o direito e a lei, esconde-se uma realidade muito mais importante e fundamental: de morte ou de vida: “Teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado.” Quanto a nós, só estamos vivos em virtude da gratuidade do amor.

A centésima ovelha

Na vida política, social e econômica, parte-se do princípio de que não se pode fazer uma omelete sem que se quebrem os ovos. Assim, todas as crises e reestruturações pelas quais estamos passando, vão deixando para trás milhões de desempregados e excluídos… Mas o que fazer? Dar de ombros em sinal de impotência, aguardando uma futura prosperidade que virá mais adiante? Afinal, o que é o naufrágio de uns poucos, diante do benefício para tantos outros? Não é assim mesmo que caminha a humanidade? Semeando o seu caminho de excluídos e “perdidos”?…

Mas o Cristo não ratifica absolutamente estas nossas fáceis demonstrações de resignação. Podemos imaginá-lo colocando sua mão em nosso ombro, para interromper a nossa marcha triunfal, e convidando-nos a voltar e a dirigir o nosso olhar para as nossas vítimas, para todos os que temos trespassado. Vamos deixar “no deserto”, em sua prosperidade, as noventa e nove que gozam de boa saúde e ocupemo-nos em primeiro lugar da centésima ovelha, a “que se perdeu”: é ela que é importante; é ela que exige todos os nossos cuidados.

Em seus escritos, René Girard observa que a Bíblia, seguidamente, desenterra as nossas vítimas, expondo-as aos nossos olhos. Não para nos fazer sentir culpados, mas para nos fazer reconhecer que matamos, ou que deixamos matar, pessoas justas, ou, se quisermos, nem mais nem menos culpadas do que todas as outras, a exemplo das vítimas de Pilatos ou da torre de Siloé (Lucas 13,1-5).

Sempre temos tendência a desprezar os excluídos de nossa prosperidade. Mas foi para eles que o Cristo veio ao mundo (versículos 1 e 2). E para nós, não? Sim, pois, de alguma forma, nós também estamos “perdidos“.

À imagem do Pai

Podemos nos comparar à ovelha perdida, à moeda extraviada ou ao filho “que estava morto e tornou a viver”. Mas, mudando de posto, podemos também nos identificar com o pai desta parábola, sendo ele a imagem mesma de Deus. Mas como assim? Não seria uma ousadia, pretender fazermo-nos como Deus? Claro, é isso mesmo: o próprio Cristo é quem nos convida a isso, incessantemente. A começar por Mateus 5,43-48, passagem que termina com “deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”, sendo este o único meio de nos mostrarmos filhos semelhantes ao Pai.

Mas o que significa “ser perfeito“? É “fazer o nosso sol nascer sobre os maus e sobre os bons”, é “fazer a nossa chuva cair sobre os justos e os injustos”. Da mesma forma que o “servo sem compaixão“, de Mateus 18,21-35, se viu condenado porque não quis se comportar como o seu mestre. Isto, afinal, é inquietante: recusando-se o homem a agir da mesma forma que Deus age, é o próprio Deus, então, que se põe a imitar o homem. Tu te recusas a perdoar assim como Eu te perdoei? Pois bem, vou fazer o mesmo que fizeste, recusando-te o meu perdão!

Este tema, que volta com muita frequência, significa que sempre podemos nos colocar fora do circuito do perdão, fora do amor. No entanto, só podemos ser cobertos pelo amor se deixamos que ele passe através de nós; este amor que, recebido de Deus, nós lhe abrimos passagem para os outros. E não há outra solução? Não, porque, no final, Deus dá o seu Amor sem condição alguma: este é o mistério da Cruz.

Deus procura e encontra

A parábola do filho pródigo põe em evidência isto, que podemos chamar de paciência de Deus. O pai não fez nada para fazer o filho voltar; não enviou nenhum emissário nem lhe fez chegar qualquer mensagem. Na verdade, outros textos nos falam do envio dos profetas, da insistência permanente de Deus em nos fazer retornar à nossa verdade. Mas o ponto de vista desta terceira parábola é diferente: trata-se de nos fazer tomar consciência de que Deus com certeza nos chama, mas não exerce pressão alguma sobre a nossa liberdade. Deixa-nos experimentar as consequências dos nossos erros. «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a morte (…) escolhe, pois, a vida» (Deuteronômio 30,15).

Invertendo a relação de autoridade, o pai submete-se ao filho e reparte com ele a herança. Percebe-se que é a contragosto que ele aceita esta decisão do filho. O tema de que Deus se submete ao homem é bastante conhecido. As duas pequenas parábolas que precedem à do filho pródigo mostram bem, através do pastor e da dona de casa, um Deus que se agita numa espécie de angústia, até que tenha encontrado o que havia perdido. Este é o trabalho de Deus, a obra pela qual o Verbo veio habitar o mundo a ponto de compartilhar do seu sofrimento e da sua morte.

Nos três casos em que aparece esta figura, termina-se em alegria. Será que Deus poderá estar feliz enquanto lhe faltar alguém? Será que pode Ele renunciar à alegria, aceitando que alguém se perca, sendo que faz parte d’Ele mesmo, a alegria? Certamente, não!

Um Deus de misericórdia

Os pecadores não são mais aqueles que se perdem, mas aqueles que se deixam perder e não querem se alegrar com aqueles que são encontrados. O amor de Deus, que sabe encontrar aqueles que se perderam, deve agora encontrar o coração daqueles que não se acham perdidos. A reflexão é de Raymond Gravel.
http://www.ihu.unisinos.br


Nós continuamos no caminho para Jerusalém, e nas próximas três semanas o Jesus do Evangelho de Lucas faz os seus discípulos compreenderem o tipo de Igreja que ele quer: uma Igreja acolhedora dos pecadores, uma Igreja que sabe investir em valores duradouros e uma Igreja que deve se lembrar de que não pode estar do lado de Deus se se esquece dos pobres, dos abandonados e dos desgarrados da vida. É, portanto, a uma verdadeira revolução que Cristo nos convida hoje: se Deus vem para os pecadores não é para matá-los ou condená-los à exclusão, mas para tomá-los nos braços e levá-los até sua casa, lá onde os anjos se alegram com sua conversão. Jesus nos revelou, portanto, um Deus que nos oferece todas as chances, um Deus cheio de Amor e de misericórdia.

Lucas é, com frequência, chamado de evangelista da misericórdia. Ser misericordioso é abrir seu coração à miséria do outro, dos outros, para detê-la, aliviá-la e transformá-la. Todo o capítulo 15 de Lucas é um ensinamento sobre a misericórdia. Três parábolas se sucedem e seu encadeamento é, sem dúvida, obra de Lucas, que ensina a sua comunidade no final do século I. Semelhantes em muitos aspectos, essas parábolas também têm acentos diferentes. Além disso, as três se dirigem ao mesmo público: aos fariseus e aos escribas, isto é, aos hipócritas que se achavam perfeitos; àqueles que não compreendem que o Cristo do Evangelho possa dar lugares aos publicanos e aos pecadores, isto é, àqueles e àquelas que não valem nada, porque são incrédulos, ladrões, adúlteros, bêbados, prostitutas, homossexuais, etc. Essas três parábolas não são moralizantes; elas querem simplesmente mostrar a gratuidade do perdão, o benefício da misericórdia, a ternura de Deus, seu Amor incondicional e sua alegria quando a esperança é completa.

1. A parábola da ovelha perdida e reencontrada (Lc 15,3-7)

Nesta parábola em que o pastor tem cem ovelhas, como pode abandonar as 99 para procurar aquela que se perdeu? Transposto para o contexto da época de Jesus, os justos e os conformados são as 99 ovelhas que Jesus abandona para procurar a excluída, a ovelha que dizemos perdida. Isso significa que esta ovelha tem sua importância; ela vale as 99 outras. No fundo, a mensagem desta parábola evangélica quer dizer que nós somos salvos não porque somos perfeitos; somos salvos por gratuidade, porque nos deixamos converter por Jesus, e é isso que nos dá a alegria pascal: “Eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15,7). O que fez o exegeta francês Jean Debruynne dizer: “Nós não entramos no céu porque somos certinhos. Ser justo não dá nenhum direito, senão o direito de se converter. Justo ou não, nós nunca acabaremos de nos converter ao Amor, que será sempre gratuidade de Deus”.

2. Parábola da moeda perdida e reencontrada (Lc 15,8-10)

Esta parábola contém um sentido idêntico à primeira. Mas, como se trata de uma moeda, podemos ver nisso todo o valor da moeda perdida; ela vale tanto quanto as outras nove. Transposto para a época de Jesus, a prostituta ou o excluído valem tanto quanto o justo e o perfeito.

3. A parábola do pai e dos dois filhos (Lc 15,11-32)

Esta parábola contém duas sequências: a primeira descreve a atitude do pai para com o filho mais novo (Lc 15,11-24) e a segunda fala de seu comportamento diante do filho mais velho (Lc 15,25-32). Cada um dos filhos tem uma imagem falsa do pai. O mais jovem pensa que após os erros que cometeu seu pai não o reconheceria mais como seu filho e que deve se contentar com o fato de seu pai aceitá-lo com servo. O mais velho sempre se comportou como um servo e não como um filho. Ele mesmo declara ao seu pai: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos” (Lc 15,29). Claramente, no plano da relação com seu pai, os dois filhos tinham a mesma importância. Na época de Jesus, o mais jovem representa o desgarrado da vida; o mais velho, o justo e o perfeito.

Ao contrário das duas parábolas precedentes, o pai não busca, em primeiro lugar, encontrar os seus filhos, ambos perdidos. Ele respeita as suas liberdades. Por outro lado, ele os espera, e quando o mais jovem retorna para ele, o pai corre ao seu encontro para acolhê-lo incondicionalmente, de tal maneira que quando o filho mais novo chega diante de seu pai e lhe quer reconhecer sua falta – “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não mereço que me chamem teu filho” (Lc 15,21) –, o pai não o deixa nem mesmo terminar de falar. Seu perdão é tão grande e gratuito que o simples retorno do filho mais novo lhe restitui sua dignidade de filho e o faz entrar na alegria da festa: “Mas o pai disse aos empregados: ‘Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’. E começaram a festa” (Lc 15,22-24).

Mas há uma grande diferença em relação ao mais velho, o perfeito, o justo. Ao seu retorno dos campos, onde trabalhava como um servo, ele se recusa a entrar e participar da festa, mesmo que o seu pai lhe suplique. Ele se recusa a se converter: “Então o irmão ficou com raiva, e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou este teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo!’” (Lc 15,28-30). O exegeta Alain Marchadour escreve: “Quando o pai se alegra com o retorno daquele que estava perdido, arrisca-se a perder o filho mais velho”. E é isso que acontece. Marchadour continua: “O filho mais velho perdeu algo que nunca encontrará, aquilo que foi dado ao seu irmão. Ele precisa, por sua vez, fazer a experiência da verdadeira paternidade, ele que diante do seu pai comporta-se como um empregado”.

Concluindo, que bela mensagem de perdão, de amor e de esperança para nós, hoje, que devemos nos situar em relação aos diferentes personagens ou atores dessas parábolas de Lucas. O francês Patrick Jacquemont resume o evangelho dizendo: “Cem ovelhas, dez moedas, dois filhos. A insistência vai se afunilando, mas o refrão permanece o mesmo: perdido e encontrado. É do amor de Deus, pastor, senhor da casa, pai de família, que Jesus quer falar àqueles que o cercam e que Lucas quer fazer ecoar às primeiras comunidades cristãs. Para os judeus é vital dizer que ninguém é excluído do Reino. Se uma ovelha se perde é prioritário deixar as outras, os fariseus, para encontrá-la. Para os novos convertidos, é importante compreender que se falta uma moeda, é urgente encontrá-la porque cada uma é preciosa e as nove outras não consolam tanto quanto a perdida. Para todos, é bom lembrar que se um filho quis partir para viver sua vida, não é possível esquecê-lo em detrimento do outro que fica. Todos e todas têm, sempre e em cada situação, o mesmo preço, único, aos olhos de Deus. Se julgamos este ou aquele perdido, é porque o nosso amor não é muito apaixonado, perspicaz e paciente para encontrá-lo. Trata-se de uma verdadeira mudança, de uma radical conversão a fazer. Os pecadores não são mais aqueles que se perdem, mas aqueles que se deixam perder e não querem se alegrar com aqueles que são encontrados. O amor de Deus, que sabe encontrar aqueles que se perderam, deve agora encontrar o coração daqueles que não se acham perdidos. Para encontrarem o Reino”.