Formação Permanente – português 10/2021


Conservar o “deserto” para amar a terra

O divino se manifesta porque justamente no deserto mora o nosso limite

Piero Stefani

“O deserto expõe o limite humano e, portanto, abre ao divino”, escreve Piero Stefani, filósofo, biblista, especialista em judaísmo e em diálogo judaico-cristão e ex-professor das universidades de Urbino e de Ferrara, em artigo publicado por La Lettura, 23-08-2020.
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O deserto torna manifesto o limite humano. Por isso nele ressoa a voz do infinito. Para sobreviver, o ser vivo precisa se relacionar com o “outro de si”. Precisa de sol, ar, água, alimento. No deserto, essas realidades são muito vigorosas ou muito escassas. Os raios solares são excessivamente potentes, se houver areia e vento o ar torna-se irrespirável, o solo árido não dá frutos, a água concentra-se em perdidos oásis, noutros locais tudo é árido. Se um indivíduo se perde no deserto, destino está selado.

Immanuel Kant fala de duas coisas que enchem sua alma de admiração e veneração sempre novas: o céu estrelado acima dele e a lei moral nele. O olho via multidões de estrelas, mas o filósofo sabia que o que ele via era muito pouco: o planeta Terra é um pontinho no universo. Em uma perspectiva física, não somos nada; é apenas a lei moral que nos abre ao infinito.

Mesmo no deserto à noite, as estrelas são muitas e brilhantes; entretanto, na narrativa de fundação do povo hebraico, aquela do êxodo, o céu noturno não desempenha nenhum papel. Para Israel, mais do que uma contemplação atônita, conta uma errância incerta. No deserto do Sinai, o povo judeu levou quarenta anos para superar uma distância de pouco mais de 200 quilômetros.

A Lei teve e tem um grande peso; entretanto, por mais que se raciocine e se examine, ela não é encontrada dentro de nós. A Lei vem de fora, foi de fato revelada por Deus, por meio de Moisés, no Monte Sinai. No coração do deserto, as palavras descem do alto. O deserto expõe o limite humano e, portanto, abre ao divino. É assim quando ocorre a experiência de um maravilhamento suspenso entre a pergunta “quem somos nós?” e a sede de infinito sentida dentro de nós.

A Bíblia não ignora esse estado de espírito (a respeito basta ler o Salmo 8), mas não tem nada a ver com o deserto. Desde sua primeira aparição, ligada à revelação do Senhor a Moisés ocorrida na sarça ardente (Êxodo 3-4), movemo-nos na direção oposta: não é a alma humana que se abre para o divino, mas é o Senhor, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que toma conta do ser humano. Do Horebe (outro nome para o Sinai) o Senhor envia Moisés para libertar seu povo da escravidão egípcia.

O Deus que se manifesta na solidão desértica se preocupa com seu povo. Após a saída do Egito, a história que se passa no deserto é uma história coletiva para Israel. Em lugares remotos e inóspitos, nunca houve tantas pessoas. Coletivamente, há carência de água (saindo milagrosamente da rocha), comida (maná e codornizes): sem a ajuda direta de Deus não se poderia prosseguir. Como povo se recebe a Lei que trata, não por acaso, sobretudo das relações interpessoais (basta pensar nos Dez Mandamentos). Como coletividade, se depara com provas que normalmente não são superadas. A expressão “bezerro de ouro” ainda está carregada de significados simbólicos reconhecíveis.

Tudo, para o bem ou para o mal, parece se concentrar no deserto, inclusive, paradoxalmente, a promessa de sair dele para chegar à terra onde emana leite e mel. Uma vez no país pela voz dos profetas, porém, teria havido uma espécie de nostalgia daquele tempo inicial que foi difícil e dramático: quase todos, inclusive Moisés, morreram antes de chegar à terra. Para Israel, a marca da origem permanece indelével. Moisés e Elias jejuaram 40 dias no deserto, depois de que ambos encontraram Deus.

Os Evangelhos, em vez disso, nos contam que Jesus, no final de sua estada no deserto, se encontrou com o diabo. Não é uma pequena diferença. As tentações, porém, serviram para afirmar perante o “adversário” a unicidade de Deus, o único que deve ser adorado e a quem deve ser prestado culto (Mateus 4,10). Nessas palavras está contida a derrota de Satanás. Logo depois, Jesus iniciou sua missão de pregar a conversão e a proximidade do reino às pessoas.

Na tradição bíblica e corânica, o deserto é um lugar ao qual se é enviado. Foi assim também para Maomé, o profeta do Islã. Os primeiros versos do Alcorão desceram sobre ele vindos de Gabriel quando ele estava em uma caverna no deserto. Foi revelado a Maomé que ele agora era o “Enviado” (Rasul) de Alá. Ele também, longe de ficar no deserto, teria ido em busca de outros seres humanos.