XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
Marcos 13, 24-32


33b2

Referências bíblicas:

1ª leitura: «Neste tempo, teu povo será salvo» (Daniel 12,1-3)
Salmo: Sl 15(16) – R/ Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
2ª leitura: «Com esta única oferenda, levou à perfeição definitiva os que ele santifica» (Hebreus 10,11-14.18)
Evangelho: «Reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu» (Marcos 13,24-32)

Fim do mundo ou mundo novo?
Raymond Gravel


No final de cada ano litúrgico, os textos bíblicos que nos são propostos nos falam do fim dos tempos. Seus autores utilizam uma forma literária que chamamos apocalipse. Mas atenção! Apocalipse não é sinônimo de catástrofe, como entendem alguns contemporâneos. Ao contrário, apocalipse significa revelação, o que quer dizer: anúncio de uma Boa Nova nos momentos difíceis da vida. Hoje, nós temos dois exemplos desses eventos trágicos que servem de trampolim para suscitar a esperança dos crentes.

Apocalipse de Daniel

O livro de Daniel foi escrito em circunstâncias dramáticas. Estamos no ano 164 a.C. O rei grego Antíoco IV, apoiado por um grupo de judeus helenizados, decretou o fim do judaísmo. Imaginem: depois do ano 176 a.C, no império grego, o Templo de Jerusalém foi consagrado a Zeus. A população judia que ficou fiel a Javé, o Deus da Aliança, foi perseguida. O sangue dos mártires se derrama. Então, o autor do livro de Daniel conta os fatos e os interpreta utilizando o estilo apocalíptico. Para ele, trata-se do fim dos tempos, do combate do final que acontecerá com a vitória final do Javé sobre as forças do mal, sobre as divindades pagãs.

A passagem que lemos hoje conta a intervenção divina por intermédio do arcanjo Miguel, o chefe das legiões celeste. No momento em que parece perdido, Israel será salvo por Deus. Porém, surgiu um grande problema. Vocês sabem que os judeus não acreditavam na ressurreição após a morte. Eles acreditavam em uma espécie de retribuição nesta vida, segundo o bem ou o mal que eles faziam, de maneira que, se alguém era bom, Deus abençoava a ele e a sua família. Ele o protegia do mal. Se ele era ruim, Deus o amaldiçoava por toda a vida. Mas eis que durante esse período grego muitos juízes foram martirizados por causa da sua fidelidade ao Deus da Aliança. O que acontecerá com esses que morreram mártires? Eis ali que nasce a ideia da ressurreição. Não é possível que os mártires tenham morrido em vão! O profeta Daniel escreve: “Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a infâmia eternas” (Dn 12,22).

Para os crentes desta difícil época, trata-se de uma questão de justiça: os que ficaram fiéis a Deus devem ser recompensados e os que os martirizaram devem ser punidos. O conceito de retribuição que se aplicava só para esta vida se estendeu para além da morte até a ressurreição. Essa fé na ressurreição individual será adotada pelo judaísmo de tendência farisaica, enquanto que ela será rejeitada pelos saduceus. Podemos vê-lo no evangelho de Marcos, quando os saduceus fazem uma pergunta a Jesus sobre a mulher que morre e que teve sete maridos… Com qual ficará na outra vida? (Mc 12,18-27).

Por outro lado, para os cristãos que leem o livro de Daniel, eles reconhecem o Cristo luz e mestre da justiça no versículo seguinte: “Os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que ensinam a muitos a justiça brilharão para sempre como estrelas” (Dn 12,3).

Apocalipse de Marcos

O evangelista Marcos tem também seu discurso apocalíptico não para predizer uma catástrofe, mas para anunciar um mundo novo. A volta do Senhor que Marcos anuncia, justo antes de iniciar o discurso da paixão de Jesus, é já o anúncio da Páscoa, da Ressurreição. É a vitória da vida sobre a morte; é o dia que vence a noite. É como se nós assistíssemos a um segundo nascimento do mundo, a uma nova criação, a um novo começo. E todo o cosmos participa: “Nesses dias, depois da tribulação, o sol vai ficar escuro, a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados” (Mc 13,24-25), e toda a criação está implicada: “Ele (o Filho de Deus) enviará os anjos dos quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27).

Que quer dizer tudo isso? Marcos escreve seu evangelho em Roma, por volta do ano 70 a.C. O Templo de Jerusalém foi há pouco destruído pelos romanos, os cristãos são denunciados, torturados e massacrados pelos imperadores sucessivos: Nero, Cláudio, Domiciano e os outros. O que o evangelho anuncia não é uma catástrofe: trata-se do fim de um regime opressivo e desumano, e da vinda de um mundo melhor. Os astros que são vistos como divindades pelos romanos se movimentarão, e a salvação será oferecida a todos, sem exceção, dos “quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27). E para mostrar bem que se trata de um mundo novo, de uma vida nova que surge, a comparação com a figueira não anuncia o outono e a estação da morte, mas a primavera deste mundo novo com todas as suas promessas de vida: “Aprendam, portanto, a parábola da figueira: quando seus ramos ficam verdes, e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto” (Mc 13,28). Então, se Cristo ressuscitou, e de fato assim ocorreu, visto que Marcos escreve após a Páscoa, vejam que o verão está próximo e que o mundo novo já nasceu mesmo se ainda não parece.

E quanto à questão de saber o momento quando aparecerá, o Cristo do evangelho de Marcos responde: “Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos no céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe” (Mc 13,32). Isso quer dizer para todas as testemunhas de Jeová do mundo: Chega de predizer o fim do mundo! Não acontecerá absolutamente nada. Ao contrário, participem no crescimento de um mundo novo, que começa na Páscoa e que continua ainda hoje, através de nós. E a única maneira de participar nele é pelo nosso engajamento em fazer um mundo melhor, mais bonito, restabelecendo a justiça para todos, devolvendo a dignidade àquelas e àqueles que a perderam, mantendo a esperança que nos habita.

Terminando, na segunda leitura de hoje, que é continuação da leitura de semana passada, o autor da carta aos hebreus nos diz explicitamente que o sacrifício de Cristo sobre a cruz da Sexta-Feira Santa santifica àquelas e àqueles que o reconhecem: “De fato, com uma só oferta ele tornou perfeitos para sempre os que ele santifica” (Hb 10,14), e o perdão definitivo dos seus limites e dos seus pecados: “Ora, quando os pecados já foram perdoados, não é mais preciso fazer ofertas pelos pecados” (Hb 10,18). E é porque, diz o teólogo belga Jacques Vermeylen: “A partir desse texto cristológico é possível desenvolver uma reflexão sobre as práticas cristãs. O sacerdote cristão não é um especialista do sagrado como os da primeira Aliança e das outras religiões, e é por isso que falar do sacerdote dessa maneira é, pelo menos, ambíguo. Por outro lado, se for verdade que o sacrifício eficaz foi oferecido uma vez por todas por Cristo, então falar do sacrifício da missa não pode ser feito sem precauções”.

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Passa a figura deste mundo
Marcel Domergue

O céu e a terra passarão

O espetáculo apresentado no evangelho, com imagens apocalíticas, é o inverso de Gênesis 1. Certamente, não estão ali enumerados todos os seres criados conforme o relato de Gênesis, mas as menções a “céu e terra” (duas vezes), ao sol, à lua, aos astros e às “forças dos céus” são suficientes para tornar evidente esta alusão. Sem contar que “a origem” e a criação são mencionadas no versículo 19 (fora da leitura). Assim, então, tudo o que foi feito durante os “seis dias” da criação será desfeito. Ora, os relatos da Paixão, sobretudo em Mateus, (mas também em Lucas, com o sol que se apaga) falam de grandes convulsões cósmicas. Aí também, a criação se desfaz. A Palavra criadora crucificada é verdadeiramente o fim do mundo. Paulo, por sua vez, põe no passado o desaparecimento do mundo antigo: “passaram-se as coisas antigas; eis que se fez realidade nova” (2 Coríntios 5,17). A mensagem é a mesma do Apocalipse de João, com o tema dos “novos céus e nova terra”. Aqui também “o sol não iluminará mais” (21,23; cf. Zacarias 14,7). Compreende-se assim, sem ter de mencionar a crença dos primeiros cristãos na iminência da vinda do Cristo, que Jesus pudesse dizer: “Esta geração não passará até que tudo isso aconteça”.

O apocalipse no presente

O “tudo isso” da citação precedente não designa apenas as perturbações cósmicas, mas também as guerras e perseguições do começo do capítulo. As relações entre os homens caíram no caos, assim como toda a natureza. Temos a impressão de que as Escrituras, ao invés de nos prometer um Reino de Deus pacífico sobre a terra, um universo pacificado desde agora, faz-nos entrever uma progressão da divisão do homem com o homem e do homem com a natureza. Mas, por certo, é preciso compreender que com a Páscoa -paroxismo de todas as nossas contradições- tudo está cumprido. Paulo, no entanto, não se contenta com pôr no passado o desaparecimento do mundo antigo; põe-no também no presente: “Pois passa a figura deste mundo” (1 Coríntios 7,31). Significa que o drama do nascimento deste mundo novo reporta-se para toda a história. Cada geração vive este drama por conta própria e a humanidade em seu conjunto o vive até a chegada do sétimo dia, dia do repouso de Deus, da criação perfeita e acabada.

“Veremos o Filho do homem”

O evangelho de hoje não fala do mundo novo: atém-se às imagens da destruição. Mostra-nos, contudo, o Filho do homem vindo com grande poder e grande glória. É o Reino de Deus. Este é o mundo novo. Paulo diz que o Cristo investiu-se em toda a criatura, que ele “preenche o universo”, é “tudo em todos”. Pois, aí também, está no passado, já que foi dado na ressurreição do Cristo; está no presente, já que temos de atualizá-lo; e está no futuro, já que estamos esperando o seu cumprimento. Enfim, as revelações deste evangelho, que à primeira vista nos parecem catastróficas, são de fato revelações de salvação. Só que, para esta salvação, devemos superar as nossas trevas, a nossa violência e o nosso pecado, atravessando-os. Duas palavras chaves deste capítulo 13 do Evangelho de Marcos devem reter a nossa atenção: “Não tenhais medo!” (versículos 7 e 11) e “Atenção, e vigiai!” (versículos 33-37). “Vigiai” Quer dizer: não vos deixeis enganar pelas aparências, é Deus quem vem.

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Marcos usa uma linguagem de meter medo, mas sempre com uma mensagem de salvação e de esperança. É a chamada linguagem “apocalíptica”, rica de imagens e palavras, que os evangelistas usam para exprimir a destruição de Jerusalém e, em perspectiva, os acontecimentos últimos da história humana. O contexto imediato em que viviam as primeiras comunidades cristãs era marcado por tensões internas e por perseguições externas, que provocavam medo, desorientação e muitas interrogações: Quanto tempo durará a provação? Como manter-se fiéis? No fim, quem se salvará?

Marcos e os evangelistas, na linha da pregação apostólica, querem dar às comunidades uma mensagem de esperança e de consolação, centrada na proximidade do Mestre (Evangelho): a Sua ausência é apenas momentânea, Ele voltará de novo, envia os Seus anjos protectores, à dispersão inicial acontecerá uma grande convocação (v. 26-27). Tinha-o previsto também o profeta Daniel (I leitura): depois de um duro período de angústia, o povo encontrará a salvação (v. 1).

A Palavra de Deus neste domingo apresenta várias pessoas que intervêm, a diverso título, na obra da salvação. Em primeiro lugar, Jesus Cristo, como sacerdote e santificador da nova Aliança (II leitura), o único Salvador de todos os povos. Há depois aqueles que colaboram com o plano de Deus e acompanham os eleitos e os irmãos na fé. Daniel reserva um elogio especial «àqueles que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça» (v. 3). Marcos fala de anjos que reúnem os eleitos «dos quatro pontos cardeais» (v. 27). «A salvação dos irmãos da deserção da fé e da dispersão não se dá por uma intervenção prodigiosa do Senhor, mas pela acção dos anjos, os discípulos que, no momento da provação, souberam manter-se firmes na fé. São eles os anjos encarregados de reconduzir os irmãos à unidade da Igreja» (F. Armellini).

É este o papel missionário daqueles que acompanham os outros na caminhada ao encontro de Cristo. O caminho da missão é árduo e tem tempos longos, junto dos diversos povos. A messe é sempre abundante, mas escasseiam os operários (Mt 9,37). E no entanto o próprio Jesus convida a levantar a cabeça e a olhar com esperança em direcção à messe: «Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa» (Jo 4,35).

O Senhor Jesus alimenta a esperança, assegura que «Ele está perto, está mesmo à porta» (v. 29): a cada pessoa oferece a Sua salvação. E convoca os seus amigos para se tornarem portadores de tal anúncio. João Paulo II, na encíclica Redemptoris Missio (1990) afirma com vigor que «a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento… Tal missão está ainda no começo, e devemos empenhar-nos com todas as forças ao seu serviço» (n. 1). Consciente da vastidão e da urgência de tal missão, o Papa convida a elevar os corações à esperança «nesta nova primavera do cristianismo» (n. 2), ao mesmo tempo que vê «alvorecer uma nova época missionária». Será dia radioso e rico de frutos, se todos os cristãos e, em particular, os missionários e as jovens Igrejas corresponderem generosa e santamente aos apelos e desafios do nosso tempo» (n. 92).

O profeta Daniel (I leitura), embora entre cenários de angústia nunca vistos (v. 1), abre horizontes de esplendor e de luz reservados aos sábios e «àqueles que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça» (v.3). Tais são sem dúvida os educadores: isto é, aqueles que de várias formas ajudam outros a caminhar na vida por caminhos rectos. Sejam eles pais, professores, catequistas, escritores, agentes da comunicação social…

A 50 anos do Concílio, a Igreja, e nela todo o crente em Cristo, luz das gentes, é chamada a renovar-se na fé e no amor ao Senhor, para ser no mundo facho de luz e de esperança para todos os que têm sede de verdade e de amor e procuram sair de situações de angústia e de morte. O Concílio Vaticano II, após 50 anos, continua a ser «uma bússola que permite à barca da Igreja avançar em mar aberto, no meio de tempestades ou de ondas tranquilas, para navegar segura e chegar à meta», como afirmou Bento XVI (10.10.2012), recordando também aquele «esplêndido dia» de 11 de Outubro de 1962. Para a «Igreja no mundo» foi um dia carregado de expectativas e de esperança, perante os sempre novos desafios missionários postos ao anúncio do Evangelho.

A aproximação do final do ano litúrgico, que se conclui no próximo domingo com a festa de Cristo Rei, lembra-nos uma verdade que muitas vezes, engolidos pela experiência do tempo, nós esquecemos. Essa verdade é que a experiência cristã é também uma experiência apocalíptica.

Isto o que é que quer dizer? Quer dizer que a experiência cristã olha para o mundo enquanto construção, enquanto representação – esta construção e esta representação que nós conhecemos como provisórias. O cenário do mundo é passageiro. Isto é, tudo aquilo que nós vemos, que nós construímos, que nos serve como lei, como regra, como norma, como cultura, tudo isso tem uma dimensão provisória.

É como se vivêssemos nas verdades penúltimas. E depois, haverá as verdades últimas. Quer dizer, este cenário do mundo, esta ordem do mundo, tem de se confrontar com a verdade definitiva, com o Absoluto, com aquilo que não passa. Esse confronto, esse diálogo do provisório com o Absoluto, é um diálogo que faz estremecer o provisório, que mostra a insuficiência do provisório. Mostra como as nossas obras, as nossas construções, aquilo que nos apaixona, aquilo que nos parece a coisa mais importante e mais prioritária, muitas vezes é relativizado por uma outra ordem, essa sim mais importante.

A verdade é que nós no dia a dia esquecemo-nos muito disso e vivemos como se este formato do mundo fosse para sempre, como se as construções que vemos fossem durar eternamente, como se a nossa cultura, os nossos hábitos, passassem a ser uma regra para todos os homens de todos os tempos e de todas as gerações, e não é assim.

Muito daquilo que nós hoje absolutizamos é absolutamente provisório e será superado, será transformado. Porque isso tem a ver com as coisas penúltimas. E é o confronto, sempre necessário, com a verdade última, com a finalidade última, com aquilo que é eterno, que dá um verdadeiro sentido e uma verdadeira dimensão àquilo que nós vivemos, àquilo que nós somos, àquilo a que nós aspiramos.

Nesse sentido, o Cristianismo é, não apenas foi, uma religião apocalíptica. Porque ele não olha para aquilo que hoje nós temos e aquilo que hoje nós somos como definitivo – isso está em superação, isso será criticado, renovado, reavaliado, no encontro com o Eterno. Ser cristão é saber também isso, é olhar para o mundo, olhar para o presente, olhar para nós próprios, para o nosso próprio mundo, para o nosso próprio presente, e não perder uma dimensão crítica.

Isto é, perceber que isto é o que pode ser agora, ou isto é o que temos agora, mas nem sempre será assim. O último juízo, o último olhar, a última validação, a definitiva, será de Deus. E isso dá-nos um sentido de humildade muito grande. Eu não posso viver a absolutizar as coisas, tenho que manter o sentido do provisório, o sentido do crítico, o sentido da humildade. Sabendo que é assim agora mas poderá ser de outra forma. É o que eu penso, mas eu tenho que me submeter ao juízo de Deus e ao pensamento de Deus. É agora a Lei universal mas só Deus verá, só Deus decidirá o que é que há de restar de tudo isto que agora nós somos e nós vemos.

Para nós cristãos, o critério último de validação é aquele que Deus nos dá na pessoa de Jesus Cristo. Jesus, a sua vida, torna-se o critério da eternidade. Por isso é que nós vemos esta linguagem apocalíptica que diz: “Tudo cairá, tudo soçobrará, o sol já não será o sol, a lua já não será a lua, já não receberemos a luz, as estruturas do mundo todas se alterarão, virão os anjos de Deus e alterarão aquilo que nós vemos de uma forma radical, colocando tudo em causa.” É uma linguagem simbólica muito forte para dizer isto: o nosso presente, o nosso instante precisa ser criticado, iluminado pelo eterno.

Nós temos de construir uma vida que não seja uma vida fechada, trancada, intransigente na sua própria lógica, como se nós tivéssemos a vida na mão, como se nós fossemos os decisores finais. Não somos. Temos de fazer uma vida que ao mesmo tempo não seja uma vida cínica. Isto é, nós não vivemos no mundo desacreditando no mundo, nós não vivemos não gostando da vida, não gostando dos outros porque o nosso coração está noutro lado. Não é isso. Nós amamos a luz do mundo, nós amamo-nos uns aos outros, nós queremos construir alguma coisa com sentido. Sabemos que o Reino começa a ser vivido aqui, mas também sabemos que a chave do sentido não está na nossa mão. Sabemos que a estrutura do mundo é provisória nas suas formas, e sabemos que o último juízo, a última palavra, é a Palavra de Deus.

E isso, a começar por nós próprios, dá-nos uma liberdade muito grande, um desprendimento muito grande. Olhamos para o mundo sabendo aquilo que depois S. João há de lembrar, repetindo o dito de Jesus: “Nós estamos no mundo mas não somos do mundo.” Este estar e não pertencer completamente, não coincidir completamente, obriga-nos a uma dimensão profética, a uma dimensão crítica em relação ao que temos, em relação ao que somos, em relação ao que fazemos no próprio tempo.

Mas viver criticamente o presente, abrir-se à alternativa de Deus, abrir-se ao juízo de Deus perceber que nós habitamos o tempo do fim leva-nos a duas coisas fundamentais que hoje as leituras também nos lembram.

Primeiro, leva-nos a um centramento na pessoa de Jesus. Nós estamos a ler, domingo a domingo, a Carta aos Hebreus que é um texto político muito forte, muito contundente e que diz, no fundo, o seguinte: Cristo é a superação da ordem política, da ordem religiosa, da ordem social, cultural como nós a conhecíamos. Jesus supera, Jesus é a própria alternativa ao que nós absolutizamos.

Isso obriga-nos também a deixar cair tanta coisa, a relativizar tanta coisa. Porque Jesus não apenas superou o Sacerdócio antigo, Jesus vai sempre à frente. Isto previne-nos da tentação de às vezes aprisionarmos Deus na nossa lógica, capturarmos Jesus – nós é que sabemos o que Deus pensa, nós é que sabemos o que Jesus julga. Não, nós não sabemos e o que sabemos é que Ele supera, que o juízo de Deus é sempre maior que o nosso.

Nesse sentido, nós crentes não nos substituímos a Deus. Ser crente não é ser dono de Deus, é ser um servidor humilde, é ser um enamorado de Deus, é ter a paixão, sentir o amor em si. Adorar quer dizer amar muito, mas amar não é prender, não é limitar Deus. Pelo contrário, é com a nossa pobreza, colocando-nos a nós próprios no lugar, ampliarmos o amor de Deus, ampliarmos a misericórdia de Deus.

Aceitar que Jesus nos supera, que Jesus é maior que o nosso coração, que é maior que as nossas palavras. Isso obriga-nos a uma contenção, a uma liberdade muito grande e à liberdade mais difícil que é a liberdade face a nós próprios – face ao nosso eu, às nossas certezas, aos nossos tiques. Ganhar essa liberdade e perceber: Cristo é maior, Cristo é maior e eu tenho de me confiar a Ele, tenho de aceitar que Ele me supera, que Ele vai à minha frente. Tenho de ser discípulo, não mestre de Jesus, tenho de ser Seu discípulo – vivermos aceitando que Jesus nos supera.

De certa forma, aceitar que o Espírito Santo é maior do que a Igreja, que o mistério de Deus é maior do que aquilo que nós sabemos acerca Dele – essa é a verdadeira dimensão mística – e percebermos que somos servidores da sua compaixão, servidores da sua misericórdia.

Um segundo aspeto, que nos lembra o profeta Daniel. É dizer “Num tempo em que a provisoriedade, a fragilidade, a vulnerabilidade do mundo se acentuam.” (e nós olhamos para o nosso mundo e percebemos isso), o que é que está a emergir com esta violência toda? É a insuficiência do mundo, é a sua ferida, é a sua dor, é a sua guerra, é o seu desencontro, é a sua incapacidade de fazer pontes, é a sua loucura. Mas num tempo como este qual deve ser a nossa atitude? A que é que cada um de nós é chamado? O profeta Daniel lembra-nos o chamamento fundamental dizendo: “Os sábios resplandecerão como a luz no firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade.”

Então, o que é que nos é pedido? Uma grande sabedoria, uma grande sabedoria. Este tempo que nós vivemos, um tempo tão difícil, com desafios tão exigentes, com cenários tão contraditórios, tão paradoxais, este é o momento de sabedoria. Não é o momento para perdermos a cabeça, mas é o momento para arrumarmos a cabeça, é o momento para fazermos um verdadeiro discernimento espiritual, é o momento para nos firmarmos naquilo que é importante, é o momento para buscarmos uma prudência que não é só nossa mas também vem de Deus.

Uma verdadeira sabedoria total, que não é apenas a sabedoria que a ciência, que o conhecimento nos dão, mas é também uma sabedoria humana, uma sabedoria espiritual. Este é o momento em que o mundo precisa de homens sábios, de mulheres sábias que no pequenino da vida, no pequenino da história e no grande, possam apontar caminhos de sabedoria.

Os caminhos de sabedoria que sejam ensinar a muitos o caminho da justiça. É essa capacidade de transmitir: transmitir valores, transmitir esperança, transmitir este sentido profundo de uma justiça que sem a caridade é sempre incompleta, fica sempre aquém da sua missão. Mas aqueles que souberem transmitir e ensinar uma justiça assim, esses permaneceram na eternidade como estrelas acesas no céu.

Queridos irmãs e irmãos, o cenário do mundo é passageiro. O mundo é agitado por uma violência muito grande. Nós sabemos que o mundo, na sua construção, é provisória, e tem de ser criticado por aquilo que é eterno, que é o que Deus nos mostra, este amor radical que Deus nos mostra na vida de Jesus Cristo.

Mas é-nos confiada uma missão, e essa missão resume-se bem nas palavras que hoje Daniel nos lembra: vivermos com sabedoria, procurarmos uma sabedoria do alto para a nossa vida. Não ficarmos a reagir apenas às nossas emoções, procurarmos uma verdadeira sabedoria e ensinarmos a muitos uma justiça que seja verdadeiramente justa, transformadora, iluminadora do mundo.

Porque, aquilo que nós fazemos com amor, aquilo que nós investimos de amor, de sagueza, de fraternidade, isso não é abalado, isso não passa, isso é o princípio da eternidade que nós colocamos no aqui e no agora da turbulência do mundo.

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