A minha reflexão dominical.
Festa de Cristo Rei – Lucas 23: 35-43

“E ele disse: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Respondeu-lhe: “Em verdade te digo: HOJE estarás comigo no paraíso”.

O Rei que veio de longe para reclamar o seu reino

Todo o evangelho de Lucas se desdobra em torno desta dupla revelação: Jesus o Filho de Deus e o Rei Messias.

Na primeira parte, Jesus é proclamado Filho de Deus por Deus Pai no seu baptismo e no Monte Tabor, mas apenas Satanás e os emdemoinhados o reconhecem como tal.

Na segunda parte do evangelho de Lucas, o Reino de Deus torna-se o tema preferido da sua pregação e Jesus parte para Jerusalém (9,51) para reclamar o seu título de rei, como ele narra numa parábola, ao subir de Jericó para a Cidade Santa: “Um homem de família nobre partiu para um país distante, para receber o título de rei e depois regressar”. Ele obtém-no, o título, no momento do segundo baptismo (12,50), o baptismo de sangue, no trono da cruz: “Este é o Rei dos Judeus”.

No entanto, durante o caminho da Galileia para Jerusalém, Jesus aliena gradualmente os seus seguidores que esperam um outro (tipo de) rei. Há ainda uma tentativa entusiástica dos seus concidadãos galileus de o proclamar rei, com a entrada triunfal em Jerusalém, que, porém, falha imediatamente. Os líderes religiosos e políticos depressa retomam o controle da situação. E a multidão dos seus simpatizantes, intimidados e desapontados, ficarão a aguardar que os acontecimentos se desenrolem. O mesmo farão os seus discípulos. 

Portanto, um rei sem reino, sem súbditos, sem exército e sem tenentes. O rei vai encontrar-se sozinho!

Um rei na mira da tentação

O seu título de Filho de Deus tinha sido testado três vezes por Satanás: “Se tu és o Filho de Deus…”. Agora é “a hora marcada” para o seu regresso (3:13). De facto, o diabo regressa à carga através de três protagonistas da crucificação: os líderes religiosos, os soldados e um dos malfeitores: “Se tu és o Cristo, o Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo”.

Se na primeira série de tentações Jesus tinha expulsado o tentador com a Palavra, agora fá-lo com o Silêncio. Sim, ele fala ainda três vezes: mas a primeira e terceira vez dirigindo-se ao Pai, antes e depois da tentação. A segunda vez, pelo contrário, em resposta à súplica do segundo malfeitor.

Um rei com apenas um súbdito

Segundo alguns, o diálogo de Jesus com o segundo malfeitor é o clímax do evangelho de Lucas, “o pequeno evangelho” dentro do evangelho. É como “a síntese e consumação da missão de amor e predilecção de Jesus para com os pecadores, para com os perdidos”.

“Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Ele respondeu-lhe: “Em verdade te digo, hoje comigo estarás no paraíso.” Surpreendente! Este malfeitor é o único que reconhece a realeza de Cristo e se torna o primeiro cidadão do seu reino. A tradição apócrifa (o Evangelho de Nicodemos, apócrifo do século IV) atribui-lhe o nome de Dismas, ou Dimas ou Disma, e coloca-o à direita de Jesus, enquanto que o outro que o insultou se chamaria Gestas ou Gesta. E o Dismas torna-se… São Dimas, muito popular na Idade Média, e que a Igreja celebra em… 25 de Março! 

“Santo agora!”, por aclamação directa! Nem mesmo João Paulo II conseguiu tal proeza, apesar da aclamação popular!

 HOJE estarás comigo no paraíso! Esta é a última vez que encontramos este advérbio “hoje” na boca de Cristo, a sua Palavra suprema. Uma Palavra cheia de esperança e consolação, para o chamado “bom ladrão” e para nós, já que este “hoje” ainda dura (Carta aos Hebreus 3,13). De facto, “Deus fixa de novo um dia, hoje” (Hebreus 4:7) para cada um de nós. Como podemos não tirar partido disso?

Gesta ou Disma?

O nome Gesta, numa interpretação algo fantasiosa, poderia significar, do latim ‘gesta’, actos heroicos, e Dimas, do grego, ‘pôr-do-sol’. Gesta e Dimas poderiam espelhar a nossa humanidade. Ambos. E não há vilão nem bom ladrão, mas simplesmente malfeitores, talvez colaboradores de Barrabás, cuja libertação a multidão tinha exigido em vez de Jesus.

Todos nós somos ‘mal-feitores’. Mais cedo ou mais tarde na vida, encontramo-nos de alguma forma na cruz. E então podemos ser como a Gesta, olhando para trás para os “feitos” do nosso passado, desiludidos e amargurados. Ou fazer como Dimas e olhar para a frente, na direcção da cruz do Rei e implorar com confiança: Jesus, lembra-te de mim!

A minha é uma grande comunidade, a maior do instituto, com cerca de sessenta meus irmãos que chegaram ao fim das suas vidas. Conheci muitos deles no passado, grandes missionários ou irmãos comuns. Ora bem, agora estamos todos aqui, numa situação de fragilidade, a precisar de cuidados, atenção, indulgência… No fundo, somos todos uns pobres! E ai de nós se procuramos o valor e o significado das nossas vidas nas “obras” do nosso passado; só amargaríamos a nossa própria existência e a dos outros. O significado das nossas vidas está fora de nós, não no nosso passado mas no nosso futuro. A coisa melhor é fazer como Dimas, olhar ternamente para o crucifixo e repetir: Jesus, lembra-te de mim!

Quando me foi diagnosticada a ELA, pedi ao Senhor que me desse mais alguns anos para me preparar para o pôr-do-sol. O Senhor foi muito generoso. Dez anos mais tarde, porém, cheguei à conclusão de que é inútil tentar remendar a minha vida, e que o tempo extra não passa, em última análise, de mais uma acumulação de … coisas mal feitas! Só o olhar de amor, ternura e confiança para com o Rei pode encher o meu pôr-do-sol com uma luz serena. Jesus, lembra-te de mim! Jesus, lembra-te de mim!

P. Manuel João Pereira Correia, mccj
Castel D’Azzano, Verona

Tradução do P. Manuel Augusto

p.mjoao@gmail.com