27° Domingo
Tempo Comum (A)
Mateus 21, 33-43

Referências bíblicas:
1ª leitura: O Senhor está decepcionado com a sua vinha tão amada (Isaías 5,1-7)
2ª leitura: Deus oferece a sua paz aos que lhe são fiéis (Filipenses 4,6-9)
Evangelho: Parábola dos vinhateiros assassinos (Mateus 21,33-43)
Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo: «Ouvi outra parábola: Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. Quando chegou a época das colheitas, mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no. Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros. E eles trataram-nos do mesmo modo. Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’? Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».
O REINO DE DEUS
Marcel Domergue
Bons e maus frutos
Comparando o evangelho de hoje com o texto de Isaías (1ª leitura), constatamos que Jesus retoma quase exatamente a cena descrita pelo profeta. Nos dois textos, um homem possui uma vinha e cuida dela com amor. O que isto quer dizer? O que representa o dono da vinha e a própria vinha? Claro que o «amigo» da primeira leitura é o próprio Deus, que não só possui a vinha, mas também a faz existir e dá a ela todo o necessário para que dê frutos. Já a vinha pode representar várias realidades. Nesta leitura, trata-se da «casa de Israel», o povo que Deus fundou, escolheu, acompanhou, cuidou e alimentou por toda a sua história. E este povo, que foi arrancado da escravidão, perverteu-se ao longo do tempo. O profeta prevê a sua ruína. Este esquema é por assim dizer universal e aplicável a qualquer decadência (ver versículo 7). Israel, o povo testemunha, põe em cena aos olhos de todos e em sua própria história a parábola do drama vivido por todas as sociedades que zombam «do direito e da justiça» (versículo 7). Outros textos irão falar da restauração de Israel. No longo prazo não podemos subsistir se não «produzimos frutos» para alimentar os que são derrubados pela fome e esmagados pela injustiça. Os versículos que seguem a este texto de Isaías traduzem esta «injustiça» como sendo a corrida à riqueza e à vontade de poder.
Dar graças a Deus
O nosso evangelho pretende também recapitular a história do Povo de Deus. Mas, depois de descrever uma cena idêntica (os cuidados dispensados à vinha), a paisagem se modifica. Eis que agora aparecem personagens que estavam ausentes em Isaías: os vinhateiros. Da mesma forma que em Gênesis 1,28-31, Deus confia aos homens o mundo que havia criado. Logo após, Ele se vai. E esta ausência de Deus deixa aos homens a responsabilidade de dominar o mundo, explorá-lo, domesticar as suas nocividades e fazê-lo produzir frutos. Por aí é que o homem se faz livremente «imagem e semelhança de Deus», aproximando-se também do seu repouso do sétimo dia. Conforme todo dia podemos constatar, se Deus se ausentou é porque, dali em diante, será pelo homem e no homem que Ele se fará presente. Mas uma questão se põe: será que podemos comparar Deus a um proprietário que põe os empregados a trabalhar e que, no final, exige deles um preço pelos frutos que produziram? Bom, nesta parábola a questão não é de salário. E nem podemos lê-la na lógica do empregador e do assalariado, tal como a conhecemos. Aqui, os frutos todos pertencem ao Senhor! Será um egoísmo divino? O que Deus exige de nós? Uma só coisa: o reconhecimento, no sentido forte do termo. Ou seja, que entremos no universo da reciprocidade, do intercâmbio e da doação mútua. Não podemos trancar-nos no mundo que nos foi dado; temos de, a partir dele, voltarmos à Origem.
Uma história que sempre recomeça
Trata-se, pois, novamente, de estabelecermos uma relação verdadeira com quem nos faz produzir frutos. Porque, ao contrário do texto de Isaías, a vinha da parábola produz frutos. Significa não monopolizá-los, não nos fecharmos neles. De fato, a tentação de apoderar-se, de tomar posse, conduz diretamente ao contrário da verdadeira relação, ou seja, à violência. Vem daí a enumeração das brutalidades exercidas pelos vinhateiros contra os enviados do Senhor. Lembremos que Gênesis inicia a história humana fora do paraíso por um assassinato: o de Abel por Caim. E se este assassinato deveu-se a uma rivalidade, a rivalidade é onipresente; nos escritórios, nas oficinas, nas empresas, entre os políticos… Por isso a história bíblica está marcada pelos conflitos dos irmãos inimigos: Jacó e Esaú, Davi e Saul, Israel e Judá, judeus e pagãos. Até ouvirmos Paulo afirmar que «não há mais Judeu nem Grego», foi preciso esperar o assassinato do Filho. Os irmãos inimigos puseram-se de acordo, primeiro, para matar o Filho; depois, para «olhar para aquele que traspassaram». A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular (versículos 42-43). A pedra angular de uma nova casa, de um novo povo. É preciso compreender que estamos aqui num sobrevoo da história de Israel. Mas não só, é um sobrevoo também da história de toda a humanidade. E seria um erro acreditar que isto tudo seria coisa do passado: o mistério da recusa do Filho não cessa de estar sempre recomeçando na história de todos e de cada um de nós. Temos inumeráveis maneiras de matar em nós o Filho de Deus: sentimentos de superioridade, palavras enganosas, hipocrisias diversas. Mas Ele, a Palavra primeira, é que terá em nós e no mundo a última palavra.
Deus prefere aqueles que as pessoas descartam
Enzo Bianchi
Estamos ainda no Templo de Jerusalém, onde Jesus dirige aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo uma segunda parábola, depois daquela sobre os dois filhos, ouvida no domingo passado.
Um proprietário “plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda” (cf. Is 5,2). São palavras extraídas do “cântico da vinha” do profeta Isaías, bem conhecido pelos ouvintes de Jesus: essa página expressa de modo admirável a história do amor de Deus pela sua vinha, isto é, o povo de Israel (cf. Is 5,7; Sl 80), mas também a Igreja e toda a humanidade.
É o Senhor quem cria, conserva e preenche de dons a sua vinha, instaura com ela aquela relação que é fonte de fecundidade: porém, é preciso que as pessoas acolham esse amor, porque Deus precisa de parceiros que acreditem no seu amor e lhe respondam com um amor capaz de dar frutos abundantes.
Depois de iniciar a obra, o proprietário confia a vinha a agricultores e parte em viagem. No momento da colheita, ele enviar alguns servos para retirarem as uvas, mas eis que ocorre o impensável: “Os vinhateiros, porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro apedrejaram; e o mesmo ocorre uma segunda vez, quando o proprietário manda servos mais numerosos do que os anteriores.
Quanto mais ele cuida da sua vinha, mais cresce a hostilidade daqueles que deveriam simplesmente colaborar com ele na colheita dos frutos. Mas o proprietário não desanima, mas continua perseverando em uma lógica de louca gratuidade, até enviar o seu próprio filho, dizendo: “Ao meu filho eles vão respeitar!”.
Ao verem este último, o ódio dos vinhateiros atinge o seu ápice. Eles primeiro conspiram contra ele, certos de que, assim que o herdeiro for eliminado, a herança passará para eles. Depois, passam para a ação: “Agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o mataram”.
Essa afirmação é fundamental para decodificar a parábola e, consequentemente, iluminar a autoconsciência de Jesus: ele é o Filho que será crucificado fora dos muros de Jerusalém (cf. Mt 27,31-33); é ele quem “padeceu fora da porta da cidade” (Hb 13,12). E, então, fica claro que os servos enviados anteriormente são os profetas, doados com carinho por Deus e, mesmo assim, sempre hostilizados pelo povo, particularmente pelos seus guias religiosos: basta pensar nas perseguições sofridas por Jeremias por obra dos sacerdotes do templo…
Jesus tem diante de si precisamente alguns líderes religiosos, mas significativamente não emite nenhum julgamento; limita-se a fazer uma pergunta, deixando-se que eles mesmos tomem consciência da sua situação: “Quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?”. Eles respondem sem hesitar: “Com certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”. Eles pensam provavelmente que o duro veredito não os atinge diretamente, mas diz respeito a outros…
É por isso que Jesus novamente os remete à autoridade das Escrituras: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos’?” (Sl 118,22-23).
Certamente, eles haviam lido o Salmo, assim como conheciam a passagem de Isaías, mas não haviam compreendido a Palavra contida nas Escrituras em profundidade: eles não podiam aceitar a lógica paradoxal de Deus, as suas maravilhas operadas por ele através daquilo que é desprezado pelas pessoas (cf. 1Cor 1,18), a sua salvação do mundo através do escândalo de um Messias impotente e crucificado (cf. 1Cor 1,17-25)!
Nesse ponto, finalmente, os interlocutores de Jesus entendem que ele está falando deles e tentam capturá-lo (cf. Mt 21,45-46): desta vez, não conseguem, mas para Jesus o fim se aproxima…
Antes de concluir esse difícil diálogo, Jesus afirma: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”. Essas palavras não dizem respeito apenas aos seus interlocutores históricos, mas são dirigidas também a nós, sempre tentados a pensar que o julgamento não nos afeta, nem pessoalmente, nem como Igreja. Elas solicitam a nossa responsabilidade de deixar Deus reine sobre nós.
Como? Fazendo de Jesus a Rocha sobre a qual devemos fundamentar a nossa vida (cf. 1Pd 2,4-5), não “uma pedra de tropeço, de escândalo” (cf. 1Pd 2,8). Isto é, confiando na sua promessa: “Bem-aventurado quem não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11,6).
Dar vigor à fé – promover os frutos da Missão
Romeo Ballan, MCCJ
A vinha tem o seu cantor. “A vinha do Senhor é o seu povo”, canta o salmo responsorial. Trata-se de uma vinha plantada com amor, cuidada e protegida com alegria e esperança, como canta o profeta Isaías (I leitura) num dos seus famosos cânticos poéticos, razão pela qual lhe chamam o “Dante da literatura bíblica”. Infelizmente, porém, a vinha – isto é o povo – foi infiel: chegado o tempo da colheita as esperanças deixam lugar a desilusões e amargura; em lugar de frutos de justiça e rectidão o povo produziu frutos de sangue e de opressão (v. 7). De facto, na parábola de Jesus, os vinhateiros, além de se apropriarem da colheita, tornam-se homicidas: espancam, lapidam e matam não só os enviados do dono da vinha, mas o seu próprio filho. Não é difícil ver a semelhança com os acontecimentos da morte de Jesus (v. 39). Mas Deus recupera ‘a pedra’ – Jesus! – pedra rejeitada por alguns construtores, e faz dela o fundamento da salvação, para todos os povos. Só quem o aceita e permanece nele produz muito fruto, porque sem ele nada podemos fazer (cf Jn 15,5). Por isso mesmo, Deus não desiste, não cede perante a desilusão, volta a tentar depois de cada recusa, não renuncia aos frutos: Apresenta sempre a outros povos o mesmo Salvador para que, unidos a ele, dêem frutos de salvação (v. 34.41.43).
A história das missões vai registando os acontecimentos e um contínuo suceder-se de povos que, uma época depois de outra, acolhem ou recusam o anúncio do Evangelho, com as respectivas consequências de bem ou de mal. Por certo que nenhum povo se pode definir como melhor do que os outros, mas sempre nos convida a uma séria reflexão missionária o facto do nascer e florescer de tantas comunidades cristãs que mais tarde desapareceram, em várias regiões do mundo. De tantas comunidades cristãs que em outros tempos floresciam no Norte de Africa e no Médio Oriente, hoje restam só os nomes. Entretanto, outros continentes se abriram ao Evangelho e continuam a dar frutos; enquanto que alguns povos que cresceram na fé agora dão sinais de cansaço e de decadência, com frutos que escasseiam. Como recuperar o vigor fresco da fé? É esteo grande desafio para uma pastoral missionária eficaz.
Paulo, na carta aos Filipenses (II leitura) fala de uma comunidade que, a seu tempo, deu bons frutos. No texto de hoje ele oferece uma lista de oito frutos que urge cultivar e procurar: tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso, digno de louvor (v. 8), como garantia da paz dom Deus e uns com os outros (v.7.9). São valores que convidam a pensar positivamente, e que constituem as bases para os caminhos principais e mais urgentes da missão da Igreja no mundo: o diálogo com as outras religiões, a inculturação, o diálogo ecuménico, a promoção da justiça, a defesa da criação…
Paulo recomenda estes valores humanos e religiosos aos cristãos da comunidade de Filipos, a primeira que ele mesmo fundou na Europa durante a sua segunda viagem missionária (nos anos 49-50); uma comunidade com a qual mantinha um relacionamento particularmente afectuoso. As origens desta comunidade de Filipos oferecem sugestões interessantes para a missão. Depois do concílio de Jerusalém, Paulo visitara de novo as comunidades do Médio Oriente, onde instituiu responsáveis de comunidade, e procurava novas zonas para evangelizar (Actos 16,6-7), até que uma vez, em Troas, a visão de um macedónio lhe abriu o caminho para entrar num mundo novo: “Passa à Macedónia e ajuda-nos!” (Actos 16,9.10). O mar a atravessar era estreito, mas ia ser uma passagem deveras significativa: para Paulo e os seus companheiros tratava-se da entrada na Europa; os projectos de Paulo apontavam já para Roma, a capital do império. Os inícios em Filipos e o convite do Macedónio (“Passa à Macedónia e ajuda-nos!”) constituem um facto emblemático e um chamamento missionário às comunidades eclesiais de todo o tempo e lugar, para que estejam atentas ao grito, claro ou silencioso, de tantos macedónios de hoje (pessoas, povos, acontecimentos e situações), sobretudo quando nos aproximamos do Dia Mundial das Missões.
Toda a autoridade vem de Deus
Antonio Couto
1. Como já anotámos no início do Comentário ao Evangelho do Domingo passado (XXVI do Tempo Comum), Jesus encontra-se no Templo, no grande Átrio dos Pagãos (13,5 hectares). Tinha acabado de expulsar daí vendedores e compradores (Mateus 21,12), tinha curado cegos e coxos (Mateus 21,14), e tinha sido aclamado pelas crianças com o hino de colorido messiânico: «Hossana ao Filho de David!» (Mateus 21,15). Vendo e ouvindo tudo isto, vieram ao encontro de Jesus as autoridades judaicas, religiosas e civis, nomeadamente os «chefes dos sacerdotes» e os «anciãos do povo». Nada de estranho, pois competia a estas autoridades velar e zelar pela boa ordem no Templo, sobretudo no vasto Átrio dos Pagãos, onde era usual surgirem mestres e pregadores de toda a espécie e feitio. As referidas autoridades judaicas aproximam-se de Jesus e pedem-lhe, por assim dizer, as suas credenciais: «Com que autoridade fazes estas coisas, e quem te deu essa autoridade?» (Mateus 21,23). A estas perguntas, Jesus não respondeu diretamente, mas avançou também ele uma pergunta prévia, condicionando a sua resposta ao facto de os seus interlocutores responderem à questão que Ele ia pôr, método muito em voga neste tipo de discussões e disputas. Recuperamos aqui a pergunta de Jesus aos seus interlocutores: «O batismo de João de onde (póthen) era? Do céu ou dos homens?» (Mateus 21,25). Os chefes dos judeus conversaram entre si, e concluíram que a pergunta de Jesus era uma armadilha, pois fosse qual fosse a resposta que dessem, ficavam sempre entalados. Se dissessem que era do céu, Jesus retorquir-lhes-ia: «Então por que não lhe destes ouvidos?»; se dissessem que era dos homens, seria o povo que lhes cairia em cima, pois todos consideravam João como profeta. Por isso, diplomaticamente responderam: «Não sabemos», o que levou Jesus a responder à questão que lhe tinham posto: «Também Eu não vos digo com que autoridade faço estas coisas» (Mateus 21,27).
2. Chegados a este ponto, Jesus dispara contra os seus interlocutores três parábolas seguidas, que formam um bloco textual maciço (Mateus 21,28-22,14), sem intervalos e sem tempo para respirar: a «parábola dos dois filhos» (Mateus 21,28-32), a «parábola dos vinhateiros homicidas» (Mateus 21,33-46) e a «parábola do banquete nupcial» (Mateus 22,1-14). No Domingo passado (XXVI) foi-nos dado escutar a «parábola dos dois filhos» (Mateus 21,28-32). Neste Domingo XXVII, escutaremos a «parábola dos vinhateiros homicidas» (Mateus 21,33-43), que começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7 que, por sinal, também teremos a graça de escutar na liturgia deste Domingo. Depois de descrever os gestos de amor pela sua vinha, o texto continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo…), dado que estas parábolas são a eles dirigidas (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem a elas (Mateus 21,45-46). Os SERVOS, sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens, são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Mateus 23,34-35; cf. Lucas 11,50-51). O FILHO tem muitas coisas em comum com os SERVOS: também Ele é enviado, ainda que seja o último enviado, também vem recolher os frutos, e é igualmente assassinado de modo violento. Salta à vista que este FILHO é JESUS, prolepse do que está para lhe acontecer.
3. Os CHEFES DOS SACERDOTES e os ANCIÃOS DO POVO, a quem a parábola está a ser contada são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e direto, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre, roubada e comida à mesa do rico (cf. 2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41). E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-vos-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).
4. Descodificando a parábola: o dono da vinha, que a trata com tanto carinho, é DEUS. A vinha é Israel: sem equívocos: «A vinha do Senhor é a Casa de ISRAEL» (Isaías 5,7). Os SERVOS, que são enviados, são os PROFETAS, como refere com acerto Jeremias 25,4. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos dos judeus, escribas, fariseus, etc., que não cuidam da vinha e maltratam todos os enviados veem-se claramente alinhados com os VINHATEIROS violentos e assassinos. Mas já, entretanto, se vislumbra no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Então, sim, a vinha do Senhor, novo Israel de Deus (Gálatas 6,16), será devidamente cuidada e dará os frutos esperados. Não nos esqueçamos de que é aqui que nos devemos encontrar, deve ser este o nosso retrato, somos nós a vinha do Senhor, reunida à volta do último enviado de Deus, que fará frutificar a sua vinha.
5. Se repararmos bem, esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e o modo em que esse amor se manifesta através dos Profetas que nos são enviados, mas deixa igualmente à vista o modo violento como os temos tratado. Por fim, depois de uma longa lista de Profetas, é enviado o próprio Filho de Deus, que terá a mesma sorte dos Profetas. E a culpa cai sempre sobre nós. Agora, que tudo vai ficando mais claro, faz-se ver a nós também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar, uma vez que somos informados que a vinha será entregue a um povo novo, que saberá cuidar dela. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d.C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!». Alegria a transbordar.
6. O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperava mishpath [= retidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido. Assim é a história da vinha do Senhor.
7. O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo, atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a história da videira, que simboliza Israel. Contando a história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de onde Deus a arrancou para a transplantar para outra terra (v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v. 11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20). É o caminho do Perdão e da Salvação.
8. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1 Coríntios 11,1).
António Couto
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