Solenidade
São Pedro e São Paulo
29 junho

PEDRO, COBRE-TE COM A TUA CAPA E SEGUE-ME
Hoje celebramos a solenidade de São Pedro e São Paulo. Na primeira leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos, é relatada a experiência de Pedro, que é libertado da prisão por um anjo, a tal ponto que Pedro dirá: “Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus”. É uma experiência que deve ser lida e compreendida à luz do que a própria Comunidade faz por Pedro: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus”. A “libertação” deve, pois, estar intimamente ligada à oração de intercessão que se eleva a Deus por parte da Comunidade.
Isto recorda-nos que não somos salvos sozinhos, mas que Deus entra na história de cada um de nós também graças à oração que se eleva até Ele, graças ao interesse daqueles que nos são próximos. Talvez também nós, tal como Pedro, nos encontremos agrilhoados pelos nossos medos, pelo nosso cansaço e pela nossa fragilidade. Presos pelos nossos sentimentos de culpa ou pela ideia de que nada mudará. E, no entanto, a cada momento, uma oração eleva-se a Deus pela nossa libertação; a cada momento, sem que sequer o saibamos, alguém também reza por nós, e aqueles que rezam talvez não saibam quem beneficiará da sua oração. É a força da fé, a alegria de ser uma Comunidade, uma Igreja, um Povo de Deus a caminho do céu. Devemos deixar-nos interpelar por esta oração silenciosa e respeitosa que nos alcança como o “murmúrio de uma brisa ligeira” (ver 1Re 19,12). Uma palavra que, como a de Pedro, nos alcança e nos diz: “Levanta-te depressa… cinge-te e calça as tuas sandálias… cobre-te com a tua capa e segue-me”. Se olharmos agora para este texto como um todo, notaremos que ele segue a história da fuga do povo hebreu da escravatura no Egito: a referência à Páscoa (“A festa dos pães sem fermento”, diz o texto; ver Ex 12,15-20); a maldade de Herodes faz lembrar a do rei do Egito (Ex 3 e 10); a noite recorda a noite da libertação do povo (Ex 11,4); a ordem do anjo recorda a ordem dirigida ao povo: “tereis cingidos os vossos rins, vossas sandálias nos pés e vosso cajado na mão…” (ver Ex 12,11). O autor quer ajudar-nos a reler a experiência de Pedro como um novo Êxodo, no qual Deus interveio mais uma vez em favor dos seus. E, tal como aconteceu com Pedro, Jesus age em relação a cada um de nós.
COMBATI O BOM COMBATE
A segunda leitura apresenta-nos a figura do apóstolo Paulo que confia a sua experiência ao discípulo Timóteo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará…”. E conclui: “Contudo, o Senhor me assistiu e me deu forças… fui salvo… O Senhor me salvará de todo mal… e me preservará para o seu Reino celestial”. Paulo, tal como Pedro, também experimentou a libertação. Experimentou o quão próximo está o Senhor e o quanto Ele dá força àqueles que n’Ele confiam. Uma coisa é certa: coragem, confiança, força… Paulo encontra-as mantendo o olhar fixo na Meta, onde o Senhor o espera e o revestirá com a coroa da justiça. Nestas breves palavras, o testemunho de Paulo impele-nos a reavivar em nós o dom da fé, a certeza de que, ao longo do caminho, não estamos sós, mas Deus está connosco e acompanha-nos, por caminhos muitas vezes ocultos, em direção ao céu, a nossa verdadeira pátria.
TU ÉS O CRISTO
O texto do Evangelho, por fim, apresenta-nos o primado de Pedro, o papel particular que o próprio Senhor lhe confia. E fá-lo a partir de uma pergunta: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. É uma questão de fé. Jesus não se contenta em ser um nome entre muitos, um autor entre muitos. Em última análise, o Senhor quer tirar-nos das fórmulas clássicas que tentam reduzir e, por vezes, manipular Deus, para o colocar ao nosso alcance. Jesus não é um salvador como os outros. Será Pedro quem revelará a identidade de Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. E Jesus responderá: “[…] tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja…”. Note-se que Jesus não espera que Pedro se torne perfeito – ele nunca se tornará perfeito de qualquer maneira! Jesus confia à vida frágil de Pedro a tarefa de ser um guardião, de ser o primeiro na caridade. Não importa se então o negará, o abandonará… Pedro será ainda capaz de reconhecer o seu próprio erro, estará disposto a encontrar o olhar de Jesus, poderá recomeçar a seguir o Senhor e, por Ele e com Ele, continuar a lançar as redes da sua vida para o Senhor (ver Mc 1,14ss; Jo 21). O Senhor Jesus, porém, sabe que chamou um homem, um pescador, e não um anjo. E Pedro compreendeu, e compreenderá cada vez mais, que só em Jesus e com Ele poderá cumprir a tarefa que lhe foi confiada.
NO MUNDO, APOIADOS PELO EXEMPLO E PELA ORAÇÃO DOS SANTOS PEDRO E PAULO
Que a experiência e o testemunho dos Santos Pedro e Paulo nos sirvam de encorajamento na nossa caminhada de vida. Para terminar, recordemos por um momento o caminho litúrgico que percorremos até agora (recentemente celebrámos a solenidade do Pentecostes, depois a da Santíssima Trindade e a do Corpo de Deus): hoje, temos a oportunidade de celebrar a solenidade dos Santos Pedro e Paulo, quase como que para nos lembrar que é o dom do Espírito Santo que nos impele, como outrora impeliu os Santos Pedro e Paulo, a testemunhar a todos que Deus Trindade é Amor; foi o Espírito Santo que lhes infundiu a coragem para se reencontrarem, correndo todos os riscos daquele período, para celebrar a Eucaristia no dia da ressurreição do Senhor; foi o Espírito Santo que lhes fez compreender que “sem a Eucaristia não podemos viver”, à custa da morte. Assim, Pedro, aparentemente fraco, morrerá em Roma pelo Senhor Jesus; e Paulo, o perseguidor, também morrerá por Aquele que morreu por ele. Que estes dois grandes Santos nos ajudem a ser os primeiros a encontrar a coragem para amar como eles amaram, seguindo o exemplo de Jesus, nosso Senhor.
Pedro e Paulo, unidos em um mesmo abraço
Enzo Bianchi
A solenidade dos santos apóstolos Pedro e Paulo reúne em uma única celebração Pedro – o primeiro discípulo chamado nas narrativas dos sinóticos, o primeiro dos 12 apóstolos – e Paulo, que não foi discípulo de Jesus nem fez parte do grupo dos Doze, mas a quem a Igreja chama de “o Apóstolo”, o enviado por excelência, embora esse título, que ele mesmo reivindica para si, nunca lhe seja reconhecido nos Atos dos Apóstolos.
É uma festa já atestada no calendário litúrgico mais antigo que chegou até nós, a Depositio marthyrum do século III, que reúne dois apóstolos de Jesus mortos em Roma em tempos diferentes, mas ambos mártires, vítimas das perseguições contra os cristãos: duas vidas oferecidas em libação por causa de Jesus e do Evangelho.
Os dois apóstolos são, assim, unidos na celebração litúrgica, depois de suas histórias terrenas os terem visto até se oporem: uma comunhão vivida na parrésia evangélica e, justamente por isso, nem sempre fácil, pelo contrário, muitas vezes fatigante.
O baixo-relevo em calcário conservado em Aquileia [imagem acima], assim como a iconografia tradicional que narra o abraço entre os dois, quer exprimir precisamente essa custosa comunhão que garantiu a obra de cada um dos dois como fundamento da Igreja de Roma, o lugar onde terminou a corrida deles, o lugar que viu ambos serem mártires no tempo de Nero, condenados à morte pela mesma motivação.
Pedro está entre os primeiros chamados por Jesus: um pescador de Betsaida no lago Tiberíades, um homem que certamente não deu muito espaço a uma formação intelectual e que vivia a própria fé sobretudo graças ao culto da sinagoga aos sábados e depois, após o chamado de Jesus, por meio do ensinamento daquele mestre que falava como nenhum outro antes dele. Homem generoso e impulsivo, Pedro seguiu Jesus respondendo impulsivamente ao chamado, permanecendo como um homem inconstante, presa fácil do medo, capaz até de covardia, a ponto de desconhecer aquele que ele seguia como discípulo.
Sempre próximo de Jesus, às vezes ele aparece como porta-voz dos outros discípulos, no meio dos quais ocupava uma posição de destaque: não se poderia falar dos acontecimentos de Jesus sem mencionar Pedro, que foi o primeiro que ousou confessar audazmente a fé em Jesus como Messias. Os discípulos, como muitos na multidão, perguntavam-se se Jesus era um profeta ou até “o” profeta dos últimos tempos, se ele era o Messias, o Ungido do Senhor: foi Pedro quem, instado por Jesus, fez uma confissão de fé com palavras que soam diferentes nos quatro Evangelhos, mas que atestam, todas, sua prioridade no reconhecimento da verdadeira identidade de Jesus.
Pedro fez essa confissão não como “porta-voz” dos Doze, mas movido por uma força interior, por uma revelação que só podia vir de Deus. Crer que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, não era possível apenas analisando e interpretando o eventual cumprimento das Escrituras: foi o próprio Deus, o Pai que está nos céus, quem revelou a Pedro a identidade de Jesus (cf. Mt 16,17). Jesus, assim, reconheceu no discípulo Simão uma “rocha”, Kefa, uma pedra em cuja fé a comunidade, a Igreja podia encontrar um fundamento.
Pedro, chamado de “bem-aventurado” por Jesus, declarado rocha sólida capaz de confirmar seus irmãos na fé, não estará isento de erros, quedas, infidelidades a seu Senhor. Logo após a confissão de fé que mencionamos, ele manifestaria seu pensamento mundano demais sobre o caminho da paixão de Jesus, a ponto de este o chamar de “Satanás”, e, no fim da história terrena de Jesus, Pedro declarará nada menos do que três vezes que nunca o havia conhecido: medo e vontade de salvar a si mesmo o levarão a declarar com força que “não conhecia” aquele Jesus cujo conhecimento havia recebido até mesmo de Deus!
Jesus, que tinha lhe assegurado sua oração para que sua fé não desfalecesse, depois da ressurreição o reconfirmará em seu lugar, pedindo-lhe, porém, três vezes, que ateste seu amor por ele: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15.16.17). Impactado com essa pergunta de Jesus, Pedro se tornará o apóstolo de Jesus, o pastor de suas ovelhas primeiro em Jerusalém, depois junto às comunidades judaicas da Palestina, depois em Antioquia e finalmente em Roma, onde, por sua vez, deporá sua vida a exemplo de seu Senhor e Mestre.
E, em Roma, Pedro encontrará também Paulo: não sabemos se no cotidiano do testemunho cristão, mas certamente no grande sinal do martírio.
Paulo, “o outro”, o apóstolo diferente, posto ao lado de Pedro em sua alteridade, como que para garantir desde os primeiros passos que a Igreja cristã seja sempre plural e se alimente de diversidade. Judeu da diáspora, natural de Tarso, capital da Cilícia, subiu a Jerusalém para se tornar escriba e rabi no seguimento de Gamaliel, um dos mais famosos mestres da tradição rabínica.
Paulo era fariseu, especialista e zeloso da lei de Moisés, que não conheceu nem Jesus nem seus primeiros discípulos, mas que se distinguiu na oposição e na perseguição do nascente movimento cristão. Paulo define-se como um “aborto” (cf. 1Cor 15,8) em relação aos outros apóstolos que viram o Senhor Jesus ressuscitado, mas pedia para ser considerado um enviado, servo, apóstolo de Jesus Cristo como eles, porque tinha posto sua vida a serviço do Evangelho, fizera-se imitador de Cristo também nos sofrimentos, havia dado o seu máximo em viagens apostólicas por todo o Mediterrâneo oriental, era habitado por uma solicitude por todas as Igrejas de Deus.
Sua paixão, sua inteligência, seu empenho em anunciar o Senhor Jesus transparecem em todas as suas cartas, e também os Atos dos Apóstolos dão um sincero testemunho disso. Por sua própria definição, ele é “o apóstolo dos gentios”, assim como Pedro é “o apóstolo dos circuncisos” (Gl 2,8).
Pedro e Paulo, ambos discípulos e apóstolos de Cristo, mas tão diferentes: Pedro, um pobre pescador, Paulo, um rigoroso intelectual; Pedro, um judeu palestino de um vilarejo obscuro, Paulo, um judeu da diáspora e cidadão romano; Pedro, lento para entender e para agir em consequência, Paulo, consumido pela urgência escatológica…
Foram apóstolos com dois estilos diferentes, serviram ao Senhor com modalidades muito diferentes, viveram a Igreja de forma às vezes dialética, senão até contraposta, mas ambos buscaram seguir o Senhor e sua vontade, e juntos, precisamente graças à sua diversidade, souberam dar um rosto à missão cristã e um fundamento à Igreja de Roma que preside na caridade.
Juntos, então, é justo celebrar sua memória, que é memória de unidade na diversidade, de vida entregue por amor do Senhor, de caridade vivida na expectativa da volta de Cristo.
A iconografia os representa unidos em um abraço ou enquanto sustentam a única Igreja que juntos ajudaram a edificar: uma sinfonia que é memória e profecia da única comunhão eclesial na qual Pedro deve abraçar Paulo, e Paulo deve abraçar Pedro.
Três amores irrenunciáveis:
Eucaristia, Maria, Papa
Romeo Ballan, MCCJ
Pedro e Paulo emergem como anunciadores do Evangelho aos povos, fundadores de comunidades cristãs e testemunhas de Cristo até ao martírio. A festa de hoje associa-os na fé em Cristo e na fundação da Igreja de Roma. Com uma atenção privilegiada de alto valor teológico, o autor dos Actos evidencia a sintonia entre Pedro na prisão e a comunidade cristã (I leitura): “Da Igreja subia incessantemente a Deus uma oração por ele” (v.5). A libertação milagrosa de Pedro do cárcere na Palestina deixa-o livre para outros horizontes missionários. Paulo, no cárcere, faz um balanço da sua vida (II leitura), agradece a Deus que ficou sempre perto dele e lhe deu a força para poder “completar o anúncio do Evangelho e para que todos os povos o aceitassem” (v.17).
O serviço missionário de Pedro, dos apóstolos e de cada cristão afunda necessariamente as suas raízes na experiência vivida de um chamamento e de uma resposta de amor. “Dei bem em quem pus a minha confiança”, afirma Paulo sem hesitar (2 Tim 1,12). Pedro cresce progressivamente na confiança e o abandono ao seu Mestre. Em Cesaréia de Filipe (Evangelho) é claro que a gente colocava Jesus ao nível de um dos profetas de Israel (v. 13-14); o que já se aproxima da sua verdade, mas ainda ao nível do espectacular, fixados no passado. Pedro passa além da opinião corrente, a ponto de acolher a novidade de Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo” (v.16). Uma tal resposta supera o entendimento humano (a carne e o sangue), porque é fruto de uma revelação que vem do Pai (v.17). Jesus, então, naquele clima de abertura, revela a Pedro e aos outros discípulos o seu projecto para uma nova comunidade: a sua Igreja, que durará nos séculos (v. 18). Depois da crise da paixão, a confiança de Pedro em Cristo será total: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17).
Apesar das dificuldades históricas e das resistências oposta a estes textos de Mateus e de João, o plano de Jesus a respeito da sua Igreja subsiste no tempo, segundo a interpretação católica tradicional das três metáforas: a pedra (v. 18), as chaves (v.19), o binómio ligar-desligar (v. 19), que se completam na entrega post-pascal a Pedro do serviço de apascentar, no amor, no povo da nova aliança (cfr Jo 21,15s). Porém, nem toda a autoridade é boa para o povo. Segundo Jesus, que é “o Senhor e o Mestre” (Jo 13,14), que “não veio para ser servido mas para servire dar a sua vida” (Mt 20,28), a autoridade (as chaves) é dada a Pedro e à Igreja para um serviço ao povo de Deus numa diaconia de amor sem fim.
O Concílio apresenta-nos a dimensão teológica e missionária deste projecto: “Em todos os tempos e em todas as nações é bem aceite a Deus quem o teme e opera a justiça (cfr Actos 10,35). Todavia, Deus quer santificar e salvar os homens não individualmente e sem ligação entre eles, mas quis constitui-los como um povo” (LG 9(. De facto, “A Igreja peregrina é missionário por sua própria natureza” (AG 2). Porque “ela existe para evangelizar” (EN 14). Não é marginal o facto que Jesus fale deste seu projecto encontrando-se num território pagão (região de Cesaréia de Filipe), num contexto geográfico semelhante ao da mulher cananeia: estes dois factos narrados por Mateus revelam o carácter universal da missão de Cristo e da Igreja.
Quanto mais ampla é a autoridade tanto mais intenso deve ser o amor, generoso o serviço, aberto o acolhimento, plural a capacidade de harmonizar dons diferentes. O bispo Tonino Bello, de Molfetta (+1993) aspirava à “convivialidade das diferenças”. E o Papa Bento XVI, ao lado do túmulo do Dom Tonino Bello, recorda os apóstolos Pedro e Paulo, que foram pescados por Cristo para se tornarem por sua vez pescadores, fala, significativamente, da “comunhão das diversidades”.
A festa dos dois apóstolos e o dia do Santo Padre recordam-nos o tema da pertença à Igreja. Em 30 anos de vida missionária na África e na América Latina, convenci-me que temos três elementos típicos no identikit do católico, que o caracterizam neste mundo religioso um pouco confuso do nosso tempo, identificando-o perante ele mesmo, perante os não cristãos e perante outros grupos cristãos (protestantes, ortodoxos, anglicanos…). São estes os valores: a fé na Eucaristia, a devoção a Nossa Senhora, o amor ao Papa. São três amores irrenunciáveis que enchem de alegria e dão consistência à vida e à missão do cristão católico no mundo inteiro.