“A verdadeira sabedoria não nasce da certeza absoluta, mas da capacidade de continuar aprendendo. O problema de nosso tempo não é a ignorância em si — condição inerente a todo ser humano —, mas o orgulho que a transforma em convicção inquestionável”, escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora/MG.

13 Junho 2026
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Um dos fenômenos mais marcantes da sociedade contemporânea é a expansão daquilo que pode ser chamado de ignorância orgulhosa. Diferentemente da simples falta de conhecimento, ela se caracteriza pela recusa em aprender, pela resistência ao diálogo e pela convicção de que não há nada a descobrir além daquilo que já se pensa saber. Trata-se de uma forma de fechamento intelectual que transforma a ignorância em certeza e a opinião em verdade absoluta.
Os sintomas dessa realidade podem ser observados em diversos aspectos da vida social. Um deles é a crescente dificuldade de escutar. Vivemos em uma época em que todos possuem meios para falar, publicar, comentar e opinar, mas cada vez menos pessoas parecem dispostas a ouvir. O diálogo cede espaço ao monólogo, e a busca pela compreensão é substituída pela necessidade de afirmar posições previamente estabelecidas.
Outro sintoma é a desvalorização do conhecimento especializado. Em muitos contextos, anos de estudo, pesquisa e experiência são colocados no mesmo nível de impressões pessoais ou informações superficiais obtidas em poucos minutos. Não se trata de questionar a autoridade de maneira crítica e saudável, mas de rejeitar qualquer forma de conhecimento que desafie crenças já consolidadas.
A ignorância orgulhosa também se manifesta na incapacidade de reconhecer erros. Em vez de admitir equívocos e rever posições, muitas pessoas preferem dobrar suas apostas em narrativas que confirmam suas convicções. A verdade deixa de ser algo a ser buscado e passa a ser aquilo que reforça identidades, interesses ou emoções pessoais.
Há ainda um sintoma particularmente preocupante: a substituição da reflexão pela reação imediata. A velocidade da comunicação digital favorece respostas rápidas, julgamentos instantâneos e opiniões formuladas sem aprofundamento. O tempo necessário para pensar, ponderar e compreender a complexidade dos problemas é frequentemente sacrificado em favor da urgência de emitir uma posição.
Nesse cenário, cresce também a hostilidade diante da divergência. Quem pensa diferente deixa de ser um interlocutor e passa a ser percebido como adversário. O debate transforma-se em disputa, e a diferença de opiniões converte-se em motivo de desqualificação moral. A consequência é o enfraquecimento dos vínculos sociais e da capacidade coletiva de construir consensos mínimos para a convivência.
Tal realidade revela uma contradição profunda de nosso tempo. Nunca houve tanto acesso à informação, e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil confundir informação com conhecimento, opinião com verdade e visibilidade com sabedoria. A abundância de dados não produz necessariamente compreensão; pelo contrário, pode gerar a ilusão de que já sabemos o suficiente.
Por isso, um dos maiores desafios da atualidade não é apenas ampliar o acesso ao conhecimento, mas recuperar a virtude da humildade intelectual. Reconhecer os próprios limites, admitir que não sabemos tudo e permanecer abertos ao aprendizado são atitudes fundamentais para a vida democrática, para a convivência humana e para a construção de uma sociedade mais consciente.
A verdadeira sabedoria não nasce da certeza absoluta, mas da capacidade de continuar aprendendo. O problema de nosso tempo não é a ignorância em si — condição inerente a todo ser humano —, mas o orgulho que a transforma em convicção inquestionável. Quando deixamos de aprender porque acreditamos já saber tudo, fechamos não apenas a porta do conhecimento, mas também a possibilidade de crescimento pessoal e coletivo.