Antonio Spadaro (Messina, 1966) licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Messina em 1988 e doutorou-se em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana em 2000, onde lecionou na Faculdade de Teologia e no Centro Interdisciplinar de Comunicação Social. Participou no Sínodo dos Bispos desde 2014 e integrou a comitiva papal nas viagens apostólicas do Papa Francisco desde 2016. Foi editor da revista La Civiltà Cattolica de 2011 a setembro de 2023. Desde janeiro de 2024, exerce o cargo de subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação.

Assim, Papa Prevost coloca a questão da inteligência artificial como um novo centro de gravidade.
O artigo é do padre jesuíta Antonio Spadaro, publicado por La Repubblica, 26-05-2026. 

26 Mai 2026
Cortesia de
https://www.ihu.unisinos.br

A decisão crucial da Magnifica Humanitas — a primeira encíclica de Leão XIV, assinada em 15 de maio de 2026 — não está onde o leitor espera. Não se encontra na denúncia dos monopólios tecnológicos, nem no apelo à regulamentação de algoritmos, nem na condenação de sistemas de armas autônomas: tudo isso o documento faz, e faz muito bem. A decisão reside numa questão que nenhum white paper do Vale do Silício ou regulamentação europeia jamais teria levantado: o que realmente amamos? O Papa cita Agostinho — “dois amores fizeram duas cidades” — e desloca todo o debate sobre inteligência artificial para o terreno do desejo, a direção interior das escolhas, aquilo que uma civilização considera digno de ser perseguido, mesmo antes de decidir como persegui-lo.

A publicação ocorre cento e trinta e cinco anos depois da Rerum Novarum de Leão XIII, a encíclica de 1891 que colocou a questão operária no centro da reflexão da Igreja. Hoje, o novo Leão exige o mesmo papel para a questão algorítmica. Assim como o primeiro abordou a dignidade do trabalho diante da transformação da fábrica, Prevost aborda a dignidade da pessoa diante da transformação dos dados. Mas o verdadeiro salto é metodológico: assim como Francisco, com a Laudato Si’, projetou a questão ecológica na Doutrina Social da Igreja, Leão atua em prol da inteligência artificial, posicionando-a como um novo centro de gravidade — uma transformação que questiona as categorias da doutrina social a partir de dentro e exige um repensamento. Não um apêndice: o capítulo que reescreve todos os outros.

A arquitetura do texto repousa sobre duas figuras bíblicas que funcionam como modelos políticos. Babel: uma única linguagem, conhecimento abrangente, poder centralizado construído sobre a uniformidade. Leão diagnostica isso como o que ele chama de “síndrome de Babel” — o desejo de traduzir tudo, inclusive o mistério irredutível da pessoa, em dados e desempenho. Neemias, por outro lado, é o judeu exilado que retorna à Jerusalém destruída. Ele não impõe um plano de cima para baixo; observa as ruínas, convoca sua família e confia a cada um um trecho da muralha. A cidade renasce por meio da responsabilidade compartilhada. A escolha não é entre tecnologia e tecnologia, mas entre duas lógicas de poder: concentrá-lo ou distribuí-lo, padronizá-lo ou compô-lo.

As inovações doutrinais são concretas. A destinação universal dos bens — aplicada pela tradição católica à terra — é estendida a patentes, algoritmos e dados. O Papa aplica à economia algorítmica a mesma lógica que a Igreja aplica há séculos às grandes propriedades rurais: quando esses bens permanecem nas mãos de poucos, a desigualdade se estrutura. O princípio da subsidiariedade, que protegia os órgãos intermediários do Estado, é subvertido: no ecossistema digital, não é o governo que absorve o conhecimento especializado, mas as plataformas, que definem o acesso, a visibilidade e as relações. Leão XIV nomeia os “novos monopólios da IA” e uma assimetria epistêmica, econômica e política incompatível com o bem comum. O verbo que ele escolhe — “desarmar” a inteligência artificial — desloca a discussão da conformidade para a estrutura do poder global.

É claro que a metáfora de Babel pressupõe um projeto unificado, enquanto a revolução digital é policêntrica; o destino universal dos dados é um princípio poderoso, e sua tradução em governança ainda precisa ser construída. Onde a encíclica se torna particularmente incisiva é quando interpreta a inteligência artificial como uma questão que diz respeito à própria estrutura da inteligência humana — sua capacidade de conhecimento, desejo, erro e renovação. O paradigma tecnocrático não é apenas um erro de governança: é uma distorção da imaginação, a substituição silenciosa da sabedoria pela eficiência, do relacionamento pelo desempenho, do julgamento pelo cálculo.

Daí as páginas sobre a simulação de relacionamentos: quando as palavras são simuladas, elas não constroem um vínculo, mas uma “aparência” — e o dano não é que alguém confunda a máquina com uma pessoa, mas que perca o próprio desejo de buscar o outro. Sobre os limites: o que aparece como fragilidade é hoje lido como um defeito a ser corrigido, e a encíclica objeta que o humano não floresce apesar dos limites, mas através deles — uma posição que desafia diretamente o transumanismo. Sobre o erro: para um algoritmo, é algo a ser eliminado; para um ser humano, pode ser o início de uma transformação radical. O futuro de uma pessoa é incalculável. Vem à mente o verso declarativo de Emily Dickinson: “Eu habito a possibilidade”.

A encíclica propõe espaços deliberados de vazio nos quais o pensamento possa amadurecer sem a muleta do cálculo. Isso não é ludismo. É a constatação de que a atenção permanentemente mediada por algoritmos acaba atrofiando e que proteger a capacidade de pensar por si mesmo tornou-se uma questão política.

Magnifica Humanitas conclui com o Magnificat de Maria e Tolkien: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que pudermos pela salvação dos anos em que vivemos”. O fato de uma encíclica sobre inteligência artificial encontrar sua expressão definitiva em um hino do século I e em um romance do século XX diz muito sobre a visão de Leão XIV. A resposta ao desafio tecnológico não é um algoritmo melhor. É uma perspectiva diferente sobre a qualidade humana do progresso, que a narrativa e a poesia infalivelmente preservam. E o Papa, à maneira agostiniana, pergunta ao seu leitor: “O que você realmente ama?”

Nota do IHU

A íntegra da Carta Encíclica Magnificat Humanitas pode ser lida, em português, aqui.