3° Domingo de Páscoa (A)
Lucas 24,13-35

Referências bíblicas:
- 1ª leitura: Atos 2,14. 22-33
- 2ª leitura: 1 Pedro 1,17-21
- Evangelho: Lucas 24,13-35
A morte superada
Marcel Domergue, SJ
A primeira leitura, de Atos dos Apóstolos, recapitula de alguma forma as explicações dadas por Jesus aos dois discípulos, no caminho de Emaús. Esta leitura põe em evidência uma distinção que nem sempre alcançamos e que, no entanto, é de importância capital: muitos imaginam ter sido Deus quem quis que o Cristo morresse na cruz, para pagar as nossas dívidas para com ele, e sofrer em nosso lugar o castigo que merecemos. Mas não é isto o que diz o texto: «Este homem, entregue segundo o desígnio e a vontade de Deus, vós o matastes, crucificando-o pela mão dos pagãos.» Devemos ponderar as palavras: Deus quis certamente nos entregar o Cristo, ou seja, quis colocar-se, por ele e nele, à disposição da liberdade humana. A questão é: e nós, o que fizemos com ele? Nós o temos crucificado, eliminado das nossas cidades, das nossas vidas, e, no momento das decisões importantes, o temos reduzido ao silêncio. No coração de nossa história, Jesus vem revelar este drama quase sempre escondido e ignorado. Mas ao mesmo tempo ficamos sabendo que este assassinato do amor por nós perpetrado veio dar em nada menos do que na morte da morte. A peça necessária à formação da convicção, o cadáver, nos foi furtado; as mulheres que foram ao túmulo «não encontraram o corpo», dizem os discípulos de Emaús. E falam, no entanto, exatamente de um ser corporal, mas sobre este corpo não têm mais interferência alguma: o homem ômega superou a morte.
O acidentado caminho da fé
Os dois discípulos estão fugindo da cidade em que, acreditavam, veriam concretizadas as suas esperanças: Jerusalém! O lugar onde, para Lucas, tudo aconteceu. Um falso caminho, uma estrada de decepção e tristeza. «Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel!» Se o evangelista nos conta com tantos detalhes este episódio a que Marcos não consagra mais do que dois versículos e que é ignorado por Mateus e João, é sem dúvida para nos convidar a que nos projetemos no desespero destes dois discípulos. Isto acontece também conosco, ver a nossa fé anuviar-se ou até mesmo desaparecer. E este eclipse avança muitas vezes para um segundo grau: duplica-se com a angústia por não crermos mais. É difícil, nesse momento, compreender que esta angústia esconde de fato uma forma sutil da própria fé. Lucas nos revela que nossas falhas e fraquezas não são nem anormais nem condenadas à catástrofe. O mais comum é que, do mesmo modo que os discípulos de Emaús, estamos em vias de perder uma fé ingênua demais, para passarmos a uma forma de fé mais autêntica; e este processo não termina nunca. No versículo 32, vemos os discípulos tomados pela alegria de uma fé inteiramente nova; mas no versículo 37 (fora da leitura), a fé desaparece de novo, dando lugar ao «espanto e temor». Como no caso dos primeiros discípulos estas fraquezas foram previstas e toleradas, não devemos surpreender-nos por encontrá-las também em nós. Sejamos mais indulgentes no que nos diz respeito.
“Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles”
Eles não o reconheceram porque «estavam como que cegos». As Escrituras levam em conta muitas vezes esta cegueira. Por exemplo, depois do sonho em que viu a escada que une a terra e o céu, Jacó diz: «Na verdade, Deus está neste lugar e eu não o sabia!» (Gênesis 28,16). Para tomar consciência da presença divina, foi preciso que Ele se revelasse. O mesmo acontece conosco: de tempos em tempos, tomamos consciência de que o Cristo caminhava conosco enquanto pensávamos estar passando pela maior solidão. De fato, Deus está sempre aqui, ao nosso lado, ou melhor, dentro de nós, e a ausência d’Aquele que nos faz ser significaria o nosso desaparecimento. Por isso Inácio de Loyola nos recomenda que, em momentos de abandono e solidão, lembremos os instantes em que «o nosso coração estava ardendo» com a presença divina. O Cristo jamais nos deixa sozinhos; intangível, Ele é sempre o nosso companheiro de estrada e não temos de nos preocupar quando nós também nos encontramos «lentos para crer». Um lembrete: os discípulos de Emaús são os nossos precursores. Assim como nós, estão já nos três pilares da fé que são próprios aos que nunca viram Jesus: as Escrituras, que Jesus fez com que compreendessem; o pão partido e repartido, que é o símbolo do amor que deve nos unir; a comunidade que chamamos Igreja e que os dois discípulos reencontram no final do relato.
Marcel Domergue
http://www.ihu.unisinos.br
Ver Jesus
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Ao celebrar o mistério da Páscoa de Jesus, que nestes 50 dias de uma forma muito especial nós estamos a celebrar, a viver, a refletir, podemos pensar que a grande questão é: presença/ausência. Perceber se Jesus está ou não presente, se nós O vemos presente na vida, O entendemos assim ou se somos devorados, destabilizados pelo terrível peso de uma ausência a que nós não conseguimos dar significado, a que não conseguimos dar sentido.
Presença/ausência: Onde é que está Jesus? Onde é que O encontraremos? Onde é que O veremos? No fundo, qual é que é o núcleo da fé pascal?
Este texto memorável do Evangelho de S. Lucas funciona como uma espécie de pequeno Evangelho, de resumo, de síntese do próprio Evangelho de Lucas. Diz-nos que o importante para nós não é ficarmos capturados pelo debate entre a presença e a ausência de Jesus, que presença ou que sentido dar à ausência. A grande questão do modo como nós, discípulos e discípulas do Senhor, somos chamados a viver a Páscoa e esta Páscoa é a questão de quando é que os nossos olhos se vão abrir? Quando é que vamos ver verdadeiramente? E uma das coisas que faz este texto, uma das operações mais importantes, é desligar a presença e ausência do ver ou do não ver. Porque, Jesus estava com os discípulos e eles não O viam.
Então, o importante não é saber se Ele está mesmo ou não está, se é a presença, se é o vazio, mas é o drama do ver, a dramática do ver. O ver tem a ver com a forma como nós compreendemos a Páscoa. Porque, depois, no final do Evangelho, quando ao partir do pão Jesus Se ausenta, a ausência de Jesus deixa de ser um problema. Então, o problema para nós não é se Jesus está presente ou se o sepulcro está vazio, o problema não é esse. O problema é: onde é que nós vemos Jesus? Onde é que nós O vemos? Onde é que nós O encontramos? Como é que nós compreendemos? Que visão nós temos da Páscoa do Senhor?
O Evangelho de Lucas apresenta-nos três lugares que são, ao mesmo tempo, três lugares existenciais e teológicos, são lugares da nossa vida: apresenta-nos o caminho, apresenta-nos a Palavra e apresenta-nos a mesa. O caminho, a Palavra, e a mesa. Todos nós fazemos caminho, somos caminhantes, o nosso dia a dia é um somatório de passos para lá e para cá que nós damos e nesses passos está Jesus, está a conversa sobre Jesus. Os dois discípulos iam numa fuga envergonhada, iam numa fuga desiludida, deixavam Jerusalém e iam para a periferia a 60 estádios para esta povoação chamada Emaús. E neste caminho, que é o caminho da sua desilusão, da sua ferida, do absurdo a que eles não conseguiam dar resposta, de uma coisa mais pesada do que eles podiam carregar e eles dizem: “Desistimos, vamos embora.” Neste caminho Jesus vem ao encontro deles.
Então, é importante nós descobrirmos que o caminho da nossa vida é um caminho teológico, que o caminho que nós estamos a fazer é um caminho onde Jesus vem ao nosso encontro. O caminho torna-se uma espécie de sacramento ou uma espécie de sacramental. Porque, qualquer que seja o nosso caminho (mais solitário, mais acompanhado, mais esperançoso, mais desiludido, mais luminoso, mais ferido, mais com fé, mais cravado de dúvidas), esse caminho é precioso. O nosso caminho é precioso porque é no caminho que Ele se vem colocar ao nosso lado, mesmo que os nossos olhos estejam impedidos de O ver. E tantas vezes nós sabemos que é assim. Parece que estamos a caminhar sozinhos com o nosso peso e com a nossa dificuldade, depois, mais tarde, nós vamos perceber que não estivemos sozinhos e que o caminho foi, de uma forma misteriosa, um lugar de encontro, um lugar de audição. Muitas vezes estes momentos de crise, estes caminhos palmilhados nas horas de crise são momentos de auscultação profunda, necessária na nossa própria vida. Os apóstolos tinham de chorar a morte de Jesus, tinham de chorar não compreender aquilo, tinham de chorar as esperanças quebradas a meio. “Nós esperávamos isto, nós esperávamos aquilo e nada disso aconteceu.” Eles tinham de explicitar a sua desilusão, e é muito importante dizer isso, e o caminho é o espaço para isso. De maneira que aprendamos também a dar valor ao nosso caminho, mesmo que ele pareça uma coisa sem sentido, mesmo que ele pareça só uma fuga, um fracasso. Aprendamos a valorizar o nosso caminho como lugar de construção da fé, e da fé pascal, porque o caminho é esse lugar, é esse lugar onde o Ressuscitado vem caminhar connosco.
Depois, nós temos a Palavra. E a Palavra é um lugar fundamental. Jesus começou por Moisés e pelos profetas a explicar em todas as Escrituras o que lhes dizia respeito. Nós precisamos iluminar o nosso sentimento, a nossa vida, a nossa experiência existencial pela luz de uma Palavra e isso liga-se àquilo que nós vemos nos Atos dos Apóstolos, Pedro e a comunidade primitiva, fazerem. O que é que os cristãos começam a fazer à luz da Páscoa? Começam a fazer uma releitura das Escrituras à luz do acontecimento pascal. No caso, S. Pedro pega num salmo do rei David, escrito tantos séculos antes e diz: Este salmo ilumina o que nós vemos acontecer com Jesus, o que nós acreditamos que está a acontecer com Jesus.
Então, a Palavra é muito importante. Às vezes o que nos dói é o silêncio. Porque, aquilo que nos desorganiza é a falta de uma Palavra. No fundo, o tempo pascal é também o tempo que nos dá uma Palavra que serve como de fio de Ariadne no meio do labirinto e organiza as nossas dúvidas, as nossas perplexidades, o absurdo daquela morte, do sofrimento, as nossas lágrimas. Tudo tem a possibilidade de se organizar pela Palavra. E é interessante que Jesus dá uma longa aula de Bíblia, de Escritura aos Seus discípulos. Nós também precisamos de Palavra. Não há fé pascal que não esteja sustentada numa Palavra, numa revelação e numa releitura. O Cristianismo, em grande medida, é uma releitura do Antigo Testamento, é uma releitura do Judaísmo e não só, é uma releitura da história da Humanidade, como depois S. Paulo fará. E nós precisamos reler, precisamos meditar.
Este é o tempo da Palavra, este é o tempo da Palavra. Porque a Palavra é aquilo que pode curar o nosso coração, pode colocar uma luz no nosso coração, e se estamos às escuras e se não descobrimos o sentido a Palavra é luz para os nossos passos. Por isso, nós precisamos ouvir, este é o tempo para escutar a Palavra, para reler, para reinterpretar a Palavra à luz de Jesus e aí encontrar um sentido.
Temos o caminho e temos a Palavra, e temos o terceiro momento. No meio daquela viagem, a viagem daquele dia, começa a escurecer, o dia cai. E os discípulos dizem a Jesus: “Senhor, fica connosco porque o dia vai cair.” E Jesus entra e senta-Se à mesa com eles.
Os primeiros cristãos (por exemplo estes dois homens: Cléofas e o outro anónimo de que nem sabemos o nome, não sabiam nada do que ia ser o futuro, mas eles tinham aprendido uma coisa com Jesus. O que é que eles aprenderam com Jesus? Aprenderam a hospitalidade, aprenderam que a fé é hospitalidade, a fé é responsabilização pelo outro, a fé é a capacidade de acolher o outro na nossa vida, na nossa casa e na nossa mesa. Porque Jesus, neste momento, para eles era um perfeito desconhecido, era apenas um outro viajante que caminhava com eles no caminho, sem identidade. Quando eles fazem este gesto de hospitalidade, de acolhimento, finalmente aquilo que eles eram incapazes de ver agora compreendem. Compreendem que é o próprio Jesus que parte o pão, isto é, o próprio Jesus que garante a hospitalidade, que faz a condivisão. E quando Jesus desaparece dos olhos deles, tudo deixa de ser um problema porque eles perceberam que aquele momento de encontro é um momento de descoberta de que Jesus está vivo, mas não só: é o momento de descoberta da grande transmissão de vida, do grande ensinamento que Jesus nos faz.
Queridos irmãos, no centro desta casa que é nossa está uma mesa, está uma mesa e estão as portas abertas e esta mesa está aberta para todos. Onde é que nós vamos reconhecer Jesus? Onde é que nós O vamos encontrar? Ele vai estar nos nossos caminhos mesmo que nós não O vejamos, ele vai estar na Palavra mesmo que nós ainda não consigamos ver que é Ele que nos fala nas palavras. Mas, quando nos responsabilizarmos pelo outro e dissermos “Não, tu não vais andar para aí sozinho no escuro. Não, fica connosco.”, quando nós sentirmos a responsabilidade do irmão e fizermos da hospitalidade também o sentido natural das nossas vidas, dos nossos trabalhos (E o amor o que é se não uma radical hospitalidade?), quando amarmos verdadeiramente e dissermos “Não, fica connosco” e convidarmos o outro a sentar à nossa mesa, então vamos descobrir que aquele misterioso companheiro, aquele silencioso, aquele que nos explicou, aquele que nos fez arder o coração é o próprio Jesus. Então, os discípulos saem a correr de Emaús e regressam a Jerusalém e regressam à comunidade.
Queridos irmãos, este evangelho de Emaús é uma catequese, é uma catequese sobre o que é a fé, sobre o que é a fé. A fé é o caminho, e o caminho em grande medida é a nossa biografia, é a nossa história, é a nossa trajetória, são os nossos encontros e desencontros. A fé é a Palavra, é o encontro com a Palavra, é o encontro com uma Palavra que organiza, que cura, que dá sentido, que relê, que ajuda a reler a própria história. Mas a fé, a fé cristã, fica sem possibilidade de ver Jesus se ela não é hospitalidade, se ela não é franquear de portas, se ela não é abertura de uma mesa universal, se ela não é convite para dizer “fica connosco porque o dia vem cair” – é aí que o Ressuscitado Se revela. Então, os discípulos já não estão tão sós mas sentem a força e a beleza da comunidade quando chegam a Jerusalém.
O que é que nós estamos a viver? Que itinerário, que trajetória? Não é apenas a Páscoa do ano passado ou de há 50 anos, é a mesma e é outra. Porque eu sou outro, porque eu sou diferente. O que é que é para mim a Páscoa? É a ausência? É a presença? Ou é transformar a minha visão, a minha compreensão das coisas? No centro da minha nova compreensão das coisas, sei que há um elemento fundamental. Onde é que Jesus se encontra? No caminho, na Palavra, mas Jesus encontra-Se na hospitalidade e no encontro.
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
Reconheceram-no ao partir o pão
Enzo Bianchi
O relato do encontro entre Jesus ressuscitado e os dois discípulos no caminho a Emaús foi sabiamente colocado por Lucas no último capítulo do seu Evangelho, o que quer significar uma conclusão e, ao mesmo tempo, uma abertura da narrativa que prosseguirá nos Atos dos Apóstolos. Estamos diante de uma síntese de todo o Evangelho, porque esse texto resume não só toda a história de Jesus de Nazaré, mas também toda a história da salvação que Jesus mesmo traça ao “explicar todas as Escrituras” (cf. Lc 24, 27). Justamente a segunda parte da obra lucana, os Atos, será uma interpretação, uma explicação de todas as Escrituras do Antigo Testamento que se completaram em Jesus e, ao mesmo tempo, a narrativa dos eventos ocorridos na recordação das suas palavras.
Com o reconhecimento de Jesus “verdadeiramente ressuscitado” por parte dos Onze, ou seja, daqueles que o tinham seguido – como diz Pedro – “durante todo o tempo em que o Senhor vivia no meio de nós, desde o batismo de João até o dia em que foi levado ao céu” (At 1, 21-22), encerra-se a época do testemunho ocular: aqueles que foram “testemunhas oculares” (Lc 1, 2) devem se tornar “servos da Palavra” (ibid.) e, portanto, “enviados”, “apóstolos” (cf. Lc 24, 49) para “anunciar a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (cf. Lc 24, 47).
Nesse último capítulo, Lucas, narrando eventos encerrados em um único dia, o dia da ressurreição do Senhor, revela-nos que se trata de um dia sem fim, um dia único, o “dia um” (Gn 1, 5) da nova criação, o “dia único que só o Senhor conhece” (Zc 14, 7). Mas é também o dia “nosso”, o nosso tempo, o hoje no qual caminhamos pelas estradas do mundo, enquanto o Ressuscitado caminha conosco, até que o reconheceremos definitivamente à mesa do Reino eterno.
Quanto à estrutura desse capítulo, ele é, evidentemente, composto por três relatos:
1) as mulheres no sepulcro (vv. 1-12);
2) discípulos de Emaús (vv. 13-35);
3) os Onze em Jerusalém (vv. 36-53).
Em primeiro lugar, as mulheres que se dirigiram ao sepulcro no primeiro dia depois do sábado, no início da manhã, encontram a pedra rolada para fora da entrada do túmulo e, ao entrarem, não encontram o corpo morto de Jesus. Enquanto estão na aporia (cf. Lc 24, 4), dois homens se apresentam a elas em vestes fulgurantes e dizem às mulheres assustadas e com o rosto inclinado ao chão: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou! Lembrem-se de como ele falou, quando ainda estava na Galileia: ‘O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado, e ressuscitar no terceiro dia’” (Lc 24, 5-7). Eles pedem a recordação das palavras de Jesus, e as mulheres efetivamente se recordam e, portanto, creem. Logo, voltando do sepulcro, anunciam a boa notícia aos Onze e aos outros. Mas “aquelas palavras lhe pareceram como um devaneio”, uma alucinação, uma tolice, “e não acreditaram nelas. Pedro, porém, levantou-se e correu para o túmulo. Inclinou-se, e viu apenas os lençóis de linho. Então voltou para casa, admirado com o que havia acontecido” (Lc 24, 11-12). No centro dessa primeira parte, há o anúncio da ressurreição, fundamentado nas palavras de Jesus: recordando as suas palavras, chega-se à fé pascal.
Segue o nosso relato, ao qual dedicaremos um espaço adequado. Limito-me, por enquanto, a evidenciar o traço fundamental, que o torna paralelo aos outros dois trechos, em uma sábia construção narrativa e teológica. Os dois discípulos a caminho não reconhecem Jesus ressuscitado, mas veem apenas um viandante que lhes diz que, segundo as palavras de Moisés e dos Profetas, o Cristo devia sofrer e morrer para entrar na sua glória: ele pede a fé nas palavras dos Profetas, nas escrituras (cf. Lc 24, 25).
A última parte nos testemunha que Jesus em pessoa aparece no meio dos Onze reunidos na câmara alta, em Jerusalém (cf. Lc 22, 12; At 1, 13). O Ressuscitado está lá, no meio deles, cumprimenta-os, dando-lhes a paz, mas eles, “espantados e cheios de medo, pensavam estar vendo um espírito” (Lc 24, 37). Jesus, então, faz-se reconhecer nos sinais da paixão impressos para sempre na sua carne, pede que os discípulos o olhem e o toquem, mas os Onze permanecem incrédulos, entre alegria e aturdimento. Jesus, então, anuncia também a eles – como já fizera nos seus dias terrenos – a necessidade do cumprimento na sua vida daquilo que estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. “Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras” (Lc 24, 45), e, com essa operação terapêutica (cf. Lc 24, 31-32), dá-lhes a inteligência das Escrituras, torna-os crentes, habilitando-os a serem “testemunhas” (mártyres: Lc 24, 48).
Para que tudo isso se realize plenamente, Jesus declara que em breve lhes enviará “a promessa do Pai” (Lc 24, 49), o Espírito Santo (cf. At 2, 1-12), depois os conduz para Betânia e, abençoando-os, ascende ao céu. Agora, finalmente, os discípulos, tendo voltado para Jerusalém repletos de alegria, podem elevar a Deus um louvor sem fim.
Eis o resumo do último capítulo do Evangelho segundo Lucas, no qual é revelado a cada leitor, a cada um de nós, o caminho da fé do discípulo. É preciso escutar e compreender as Escrituras do Antigo Testamento, é preciso recordar as palavras de Jesus recolhidas no Novo Testamento, e então será possível crer na sua ressurreição.
Mas passemos para o trecho litúrgico, centro do nosso capítulo e síntese doxológica de todo o Evangelho. Quando Jesus foi capturado, os discípulos fugiram todos pelo medo, pelo desencorajamento, e alguns deles também foram tentados a abandonar a comunidade. Eis, de fato, que dois deles partem de Jerusalém, deixam os outros e vão rumo ao vilarejo de Emaús, onde, quase certamente, era a casa deles.
Estão desapontados, repletos de tristeza – sentimento que também transparece nos seus rostos –, mas conversam, dialogam, trocam palavras, repassando os eventos dos quais haviam sido testemunhas: captura, condenação e crucificação de Jesus. Tudo lhes parece um fracasso, e é grande a frustração das suas esperanças postas em Jesus: tinham-no seguido crendo nele, escutando-o, mas a sua morte foi verdadeiramente o fim para ele, para a sua comunidade, para a expectativa de cada discípulo. Ele era um profeta, tinha uma palavra performativa, fazia ações significativas, mas os chefes dos sacerdotes o entregaram aos romanos, e ele foi crucificado. Já se passaram três dias, então Jesus está morto para sempre, e a sua vida parece não ter mais sentido, direção fundamento. É a condição em que muitas vezes nós também nos encontramos, e, por isso, o anonimato de um dos dois discípulos nos ajuda a nos colocarmos dentro do relato…
Mas, naquele caminho, eis que aparece outro viajante que se aproxima dos dois e lhes faz perguntas. Ele não se aproxima com uma mensagem a proclamar, mas com o desejo de escutar aquele diálogo, de compreender o que os dois têm no coração, de acompanhá-los. Acima de tudo, ele lhes pergunta: “O que são esses discursos que vocês fazem enquanto caminham, pensativos?”. Em resposta, Jesus – do qual, por enquanto, apenas o leitor conhece a identidade – escuta um relato repleto de afeto pelo seu rabi: escuta aquilo que aconteceu, escuta o que dizem sobre ele, escuta as suas esperanças desiludidas, e apenas no fim os interroga com muita delicadeza sobre a sua fé, sobre a sua confiança nas Escrituras. Por que não são capazes de crer nos profetas? Por que não são capazes de ler as Escrituras?
Então, Jesus, como tantas vezes tinha feito com os seus discípulos, relê a Torá de Moisés e os profetas, e, através das Escrituras, faz com que os dois compreendam a necessitas da sua morte. Atenção, não é o destino, mas sim a necessitas que ilumina a morte de Jesus: em um mundo injusto, o justo é rejeitado, hostilizado e tirado do meio do caminho, porque “somente vê-lo já é insuportável” (Sb 2, 14); e se o justo, o Servo do Senhor, permanece fiel a Deus e à sua vontade, rejeitando as tentações do poder, da riqueza e do sucesso, então ele é conduzido à morte, rejeitado por todos.
Esses eventos, que a uma leitura humana significam apenas fracasso e vazio, também podem ser compreendidos de forma diferente, se Deus o concede, com os seus dons. Mas justamente porque esses discípulos não creem nas Escrituras, também não podem reconhecer Jesus no viandante que caminha com eles.
Tendo chegada em casa, o misterioso viandante parece querer continuar sozinho, mas os dois, que, ficando do lado de Jesus, aprenderam com ele ao menos a atenção aos outros, mostram-se hospitaleiros. Por isso, insistem: “Fica conosco, pois já é tarde, e a noite vem chegando”. E assim o viandante permanece com eles, entra na casa deles.
Quando estão à mesa, depois das palavras, ele faz gestos sobre o pão, especialmente o partiu para lhes dar. Diante desse gesto, o mais eloquente realizado por Jesus na última ceia (cf. Lc 22, 19), sinal de uma vida inteira oferecida e dada por amor, “os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus”: mas logo o viandante, o forasteiro, o peregrino desaparece da vista deles. Presença elusiva, mas suficiente para os dois discípulos, que reconhecem que, diante da sua palavra, o coração ardia no peito deles e que, com a sua vida eterna, ele podia se fazer presente e partir o pão.
Nesse admirável relato, fala-se de caminhar juntos, de recordar e pensar, de responder a quem pede a conta e, portanto, de celebrar a presença viva de Jesus, o Ressuscitado para sempre. Mas isso só pode acontecer na plenitude da comunidade cristã, na Igreja: por isso, os dois “voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros”, que os precedem e lhes anunciam a ressurreição.
É isso que também acontece conosco a cada domingo, dia pascal; é o que acontece também hoje, na comunidade reunida pelo Senhor: a Palavra contida nas Escrituras, a Eucaristia e a comunidade são os sinais privilegiados da presença do Ressuscitado, que não se cansa de se dar a nós, “tolos e lentos de coração”, mas por ele amados, perdoados, reunidos na sua comunhão.
De Emaús ao mundo:
para anunciar a experiência do Ressuscitado
Romeo Ballan, MCCJ
A experiência pascal dos dois discípulos de Emaús (Evangelho) apresenta-se em duas etapas bem claras, que se encontram no caminho espiritual de muitas pessoas. Trata-se de uma experiência exemplar, emblemática. O evangelista construiu toda a sua narração à volta da imagem do caminho: um caminho de ida e um de regresso. Um caminho que afasta de Jerusalém (com sentimentos de desilusão, tristeza, isolamento…) e um caminho de regresso (com os olhos abertos, coração ardente, passo acelerado, alegria de levar uma ‘bela notícia’…). O texto de S. Lucas indica também uma clara metodologia missionária e catequética, onde se podem entrever as etapas do método pastoral: ver, julgar, agir, celebrar…
– 1. A experiência parte de uma realidade de desilusão e de derrota: os dois discípulos, incapazes, como os outros, de descobrir o sentido dos acontecimentos daquela Páscoa, isolam-se afastando-se do grupo (V. 13-14), com um rosto triste (v. 17), “nós esperávamos… mas já lá vão três dias” (v.21)…
– 2. A mudança de cenário acontece com a chegada de um viandante, que se revela ignorante dos acontecimentos daqueles dias (v. 15-18). Os dois aceitam partilhar a viagem com ele e escutam-no. Entram assim na fase da iluminação sobre os acontecimentos, feita pelo próprio Jesus, que lhes explica “em todas as Escrituras aquilo que se referia a Ele (v. 27).
– 3. Agora estão preparados para a celebração e a contemplação: o coração dos dois discípulos arde (v. 32); rezam juntos ao Ressuscitado: “Fica connosco” (v.29); encontram-se à mesa, juntos (v. 30); Jesus realiza o gesto ritual de tomar o pão, recita a bênção, parte-o e o dá (v.30); abrem-se os seus olhos e eles reconhecem-no (v.31).
– 4. E finalmente chega o momento de agir, a hora da missão: partem sem demora de regresso a Jerusalém, como que movidos por uma força imperiosa que nasce do encontro com Jesus. Juntam-se à comunidade dos outros discípulos e comunicam uns aos outros as respectivas experiências com o Ressuscitado (v. 33-35). Agora, os discípulos estão certos de que Cristo ressuscitou e eles são todos suas testemunhas, como Pedro proclama corajosamente (I leitura) la praça de Jerusalém, naquela manhã de Pentecostes (v. 32).
O que mudou? O caminho de Jerusalém a Emaús, o panorama, os quilómetros da ida e da volta, os acontecimentos da morte de Jesus e top sepulcro vazio… Os factos continuam a ser os mesmos. Mas agora há uma perspectiva nova (a fé), mudou definitivamente a maneira de os ver e viver. “A narração evangélica atribui a transformação à explicação das Sagradas Escrituras… O itinerário revelado na palavra de Jesus cruza-se com a viagem desolada do regresso dos dois discípulos e transforma-o em caminho de esperança, um progressivo aproximar-se ao projecto de Deus, uma peregrinação em direcção à Páscoa, a Eucaristia, a Igreja, a missão até aos últimos confins da terra” (Carlo M. Martíni).
Fica connosco, porque anoitece” (v. 29). É a primeira e a mais comovente oração que a comunidade cristã dirige a Jesus ressuscitado. O Papa João Paulo II, falecido no clima pascal a 2 de Abril de 2005, escreveu uma carta apostólica usando estas mesmas palavras como título, comentando em chave eucarística e missionária o episódio dos dois discípulos de Emaús, e apresentando a Eucaristia como mistério de luz, nascente e epifania de comunhão, princípio e projecto de missão. Deixamo-nos guiar pelo papa, que na carta Mane Nobiscum Domine (Fica connosco, Senhor) põe em evidência o dinamismo missionário que nasce da Eucaristia.