Festa do Corpus Domini (A)
João 6,51-58

A Eucaristia é Jesus inteiro que se dá a cada um de nós

Solemnity of Corpus Domini1

Queridos irmãs e irmãos,
Por vezes as dúvidas dos outros iluminam as nossas próprias dúvidas, aquelas que não conseguimos nomear.

Esta pergunta que os judeus, interlocutores de Jesus nesta página do Evangelho de São João, fazem ao Senhor ajuda ou desperta-nos para fazermos também um caminho em torno às palavras de Jesus.

Eles perguntam: Como é que Ele pode dar-nos a sua carne a comer? E é, de facto, uma pergunta importante para nós que dominicalmente nos sentamos à volta desta mesa para nos alimentarmos do corpo e sangue do Senhor.

É importante que nós perguntemos: Mas como é que é isso? Como é que Ele pode dar-nos a sua carne a comer?

A resposta mais simples que nós cristãos temos para tudo é: é um mistério, é um mistério. Nós não sabemos como é, mas sabemos que acontece.

Ora, por vezes, o mistério é uma forma de adiarmos o mergulho mais fundo que temos que fazer. Por vezes, dizer é um mistério é a mesma coisa que dizer: não é para mim, não tenho de entender, é só uma coisa que eu tenho de aceitar, que eu tenho de consumir, sem perceber, sem compreender.

A mesa da eucaristia foi o grande sinal que Jesus deixou aos seus, o grande sinal. Jesus não deixou outro. O grande sinal é estarmos juntos à volta de uma mesa. Jesus quis que este sinal fosse compreensível, que nós o pudéssemos ler, o pudéssemos entender facilmente, desde os pequeninos até a uma idade adulta avançada.

Nós precisamos compreender o que se passa aqui em cima desta mesa e à volta desta mesa, porque só compreendendo é que nós podemos viver. É claro que a nossa fome de maravilhoso e de milagre prefere muitas vezes partir para mais longe e não olhar para o óbvio. Sem interrogar esse lado de mistério que a eucaristia também tem, claro, eu gostava que nós olhássemos para o óbvio, porque o óbvio também diz coisas fundamentais ao nosso coração e à nossa fé.

O que é que é o óbvio? É a resposta à pergunta que fazem a Jesus: Como é que um homem pode dar a sua carne a comer a outros? Como é que isso é possível?

Isso é possível se nós pensarmos nas nossas mesas, nas nossas refeições. Porque é que nos sentamos à mesa uns com os outros? Porque é que não comemos sozinhos? Eu tenho uma amiga querida que vive sozinha. Uma coisa que me faz sofrer é ela ter dito que comendo sozinha – ela tem dois gatinhos e vive em casa com essa companhia – não há refeição nenhuma que não se lembre que comer é gregário. Comer é gregário. Contudo, a maior parte das vezes, ela come sozinha. E tantos, na nossa sociedade, comem sozinhos. Mas nós sabemos, no fundo de nós, que comer é gregário, Isto é, que comer é um ato comunitário.

E porquê? Porque é que é tão saboroso comermos com a nossa família, com os nossos amigos, aproveitarmos a mesa para sabermos uns dos outros, o que é que tu andas a fazer, combinarmos à volta da mesa questões fundamentais da vida, ou então, as grandes celebrações, os pequenos e os grandes marcos da nossa vida? Porque é que é tão bom à volta da mesa?

É claro que há petiscos fantásticos, há uma cozinheira óptima, há um cozinheiro muito bom e então é muito agradável estar à mesa. Ora, mesmo quando o cozinheiro é genial, não é isso que nos faz sentar à volta de uma mesa. Porque mesmo quando a cozinha é um desastre, nós continuamos a sentarmo-nos à volta da mesa.

Isto quer dizer que o mais importante não é a cozinha, o mais importante é estarmos à volta da mesa.

E porque é que é importante estarmos à volta da mesa? Porque nos alimentamos do mesmo pão? Sem dúvida! Mas porque nos alimentamos uns dos outros. Nós sentamo-nos à volta da mesa, porque nos alimentamos uns dos outros, porque precisamos de interiorizar a presença uns dos outros, a palavra uns dos outros, o carinho, a presença, o afeto, a amizade, a inteligência, o humor. Precisamos alimentarmo-nos disso. E isso torna-se um verdadeiro alimento para nós.

Quando Jesus se sentava à volta da mesa, e sentou-se muitas vezes ao longo da vida, de uma forma deliberada e quando se sentou à volta da mesa a última vez com os seus discípulos e disse «Este pão é a minha carne, este vinho é o meu sangue que Eu vou entregar por vós», Jesus não estava a fazer uma coisa que não tem nada a ver nossa realidade.

Jesus estava a partir da nossa realidade, estava a usar a gramática que nos é mais próxima, a dizer: O que Eu fiz não foi senão viver para vós. Viver para vós, entregar, dar a minha vida é tornar-me alimento, é deixar-me ser, é colocar-me ao serviço.

Isso é fazer da Sua carne comida, isso é fazer da Sua carne alimento.

Nós estamos à volta da mesa para nos alimentarmos de Jesus. Hoje celebramos a festa da Eucaristia. A Eucaristia não é uma migalhinha de Jesus, um bocadinho de Jesus que é distribuído por cada um de nós. Não. A Eucaristia é Jesus inteiro que se dá a cada um de nós. Jesus inteiro. Nós temos de nos alimentar da sua palavra, da sua paixão, da sua revelação, do seu estilo de viver, da sua alegria, do seu entusiasmo, do que Ele nos deu a ver, das coisas únicas que só Ele nos deu a ver. Nós alimentamo-nos disso. Isso torna-se para nós força, torna-se energia, torna-se para nós capacidade de ser.

É por isso que nós não conseguimos viver sem eucaristia. É por isso que nós Igreja nascemos e renascemos sempre à volta desta mesa. Porquê? Porque Ele é o nosso alimento, porque Ele nos alimenta.

Alimenta-nos porque se faz dom. As palavras que Jesus diz: A minha carne é verdadeira comida.

Eu penso, e pergunto-me: e a nossa carne? Estarmos juntos dominicalmente para celebrarmos o dom que Jesus dá de si, a oferta, o transformar a vida em alimento, o transformar a vida em comida, o transformar a vida em dom que Jesus fez o que nos leva a nós a fazer? Será que a nossa vida é alimento? Será que a nossa vida é comida?

Porque não é automático, não é automático O nosso corpo será comida para bichinhos, um dia. Mas, de resto, nós podemos viver uma vida inteira sem que o nosso corpo seja alimento para ninguém. Nós podemos viver no egoísmo, na indiferença, no deixa-me em paz, numa zona de conforto que impermeabiliza a nossa vida. Não deixamos ninguém tocar, ninguém nos pede nada, ninguém nos conta nada, ninguém vem ao nosso encontro porque também nós vivemos dentro de uma cápsula, nós vivemos a guardar e resguardar, a proteger a nossa vida.

Quando nós fazemos isso a nossa vida não se torna comida para ninguém. É uma vida inteira óptima, fantástica, mas não é pão. Essa vida não é pão.

Quando Jesus diz “a minha carne é comida”, o grande desafio Dele é que eu torne a minha carne comida, que eu torne a minha vida oferta, que eu torne a minha vida dom.

Por isso, já os Padres da Igreja, os primeiros teólogos, diziam : «O cristão que celebra a eucaristia sai eucaristificado». Isto é, Jesus contagia-nos com o seu exemplo.

O que nós temos que fazer é celebrar a eucaristia na vida. Isto é, de dizer: Olha, eu sou pão para ti, usa, come, leva, reparte, alimenta-te, eu estou aqui, eu posso, eu vou.

É, no fundo, esta disponibilidade para servir que torna a nossa vida uma vida semelhante à de Jesus, semelhante à de Jesus.

Queridos irmãs e irmãos, à volta da mesa Jesus dá-nos a grande prova de amor, mas também a grande lição. A eucaristia é uma lição. Uma lição insistente que Jesus nos dá. Nós vimos aqui aprender com Jesus como se faz e todos precisamos de aprender como fazer dos meus dias, como fazer do que eu tenho, como fazer do que eu sei, como fazer do que eu sonho, do que eu desejo, como fazer da força que eu transporto comida, verdadeira comida. Como tornar a minha carne verdadeiro alimento. É, no fundo, esse o verdadeiro desafio que Jesus faz a cada um de nós.

Nós sabemos que o pão pode ficar duro no saco. O pão fica duro no saco. Se o pão não é colocado sobre a mesa e não é servido, ele endurece e perde-se.

E nós podemos perder a nossa vida. Podemos perder a nossa vida. Por isso, a palavra do Evangelho: quem quer ganhar a vida, tem que perdê-la, tem que se dar, tem que se entregar.

A grande lição de Jesus é essa: Entrega-te. Entrega-te. Torna-te alimento, faz-te pão. Oferece-te. Dá-te. Porque só assim é que nós percebemos a plenitude. A plenitude divina da nossa humaníssima vida.

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org

CADA DOMINGO
José A. Pagola

Para celebrar a Eucaristia dominical, não basta seguir as normas prescritas ou pronunciar as palavras obrigatórias. Não basta, tampouco, cantar, abençoar-nos ou darmos a paz no momento adequado. É muito fácil assistir à missa e não celebrar nada no coração; ouvir as leituras correspondentes e não escutar a voz de Deus; comungar piedosamente sem comungar Cristo; darmos a paz sem nos reconciliarmos com ninguém. Como viver a missa do domingo como uma experiência que renova e fortalece a nossa fé?

Para começar, temos de escutar com atenção e alegria a Palavra de Deus, e em concreto o evangelho de Jesus. Durante a semana, vimos a televisão, ouvimos a rádio e lemos a imprensa. Vivemos confundidos por todos os tipos de mensagens, vozes, notícias, informações e publicidade. Precisamos escutar outra voz diferente que nos cure por dentro.

É um respiro escutar as palavras diretas e simples de Jesus. Trazem verdade à nossa vida. Libertam-nos de enganos, medos e egoísmos que nos fazem mal. Ensinam-nos a viver com mais simplicidade e dignidade, com mais sentido e esperança. É uma sorte fazer o percurso da vida guiados, cada domingo, pela luz do evangelho.

A oração eucarística constitui o momento central. Não podemos distrair-nos. «Levantamos o coração» para dar graças a Deus. É bom, é justo e necessário agradecer a Deus pela vida, por toda a criação e pelo presente que é Jesus Cristo. A vida não é apenas trabalho, esforço e agitação. É também celebração, ação de graças e louvor a Deus. É bom reunir-nos cada domingo para sentir a vida como um presente e dar graças ao Criador.

A comunhão com Cristo é decisiva. É o momento de acolher Jesus na nossa vida para experimentá-lo em nós, para nos identificarmos com Ele e trabalhar, confortar e fortalecer pelo seu Espírito. Tudo isto não vivemos encerrados no nosso pequeno mundo. Cantamos juntos o Pai Nosso sentindo-nos irmãos de todos. Pedimos que a ninguém falte o pão nem o perdão. Damos a paz e procuramos para todos.

http://www.ihu.unisinos.br

A Eucaristia, Viático para a Missão no deserto do mundo
Romeo Ballan mccj

No deserto do mundo (I leitura), Jesus Cristo na Eucaristia é o viático, o Pão da vida (Evangelho), para que a Igreja possa viver e anunciar a fraternidade (II leitura). A linguagem de Jesus na sinagoga de Cafarnaum (Evangelho) é realista e insistente: o seu corpo e o seu sangue não são somente ‘coisas sagradas’ são o próprio Cristo. Ele é o Pão da vida que acolhemos e recebemos com fé, para viver a vida presente e também a vida futura. No-lo assegura Aquele que tem palavras de vida eterna (cf Jo 6,68).

Apenas se libertou da escravidão do Egipto, o povo teve que enfrentar o deserto (I leitura) “grande e espaventoso, lugar de serpentes venenosas e de escorpiões, terra sedenta, sem água” (v.15). No duro caminho para a liberdade, o Senhor acompanha o povo comos seus dons, a sua palavra e as suas intervenções: em particular o dom da água que nasce da rocha duríssima e o dom do maná (v. 16). São dons a recordar e não esquecer! (v. 2.14).

Jesus (Evangelho) promete um dom superior ao dom do maná (v.58). Um dom a descobrir, a apresentar e a partilhar com os outros: “Se tu conhecesses o dom de Deus!” dizia Jesus à mulher samaritana (Jo 4,10). A Eucaristia é o dom novo e definitivo que Cristo confia à Igreja peregrina e missionária através do deserto do mundo. É muito mais do que a simples recordação de um acontecimento belo do passado: no nosso ‘hoje’ é o dom que nos faz Aquele que Vive! “A memória bíblica introduz de novo o fiel nos acontecimentos da salvação actualizando no presente os acontecimentos do passado. É mesmo este o valor da palavra memorial que o Novo Testamento aplica à Eucaristia… A Eucaristia é memória a morte e ressurreição de Cristo, mas é certeza da sua contínua presença como alimento de quem peregrina esperando a sua vinda. (G. Ravasi).

A Eucaristia é fonte e selo autenticador de unidade (II leitura): sendo comunhão com o corpo e sangue de Cristo, deve levar todos quantos nela participam a viver a comunhão fraterna. Da Eucaristia nasce necessariamente um generoso impulso ao encontro ecuménico e à actividade missionária, “para que uma só fé possa iluminar e uma só caridade possa reunir a humanidade dispersa por toda a terra” (Prefácio). A pessoa e a comunidade que fazem experiência viva de Cristo na Eucaristia sentem-se motivadas a partilhar com os outros o dom recebido na Palavra e no Sacramento: a missão nasce da Eucaristia e a ela reconduz. Fortalecido com a sua experiência pessoal e testemunha dos mais variados acontecimentos da vida humana, o missionário leva para o deserto do mundo a única resposta válida, que é Cristo, boa nova de vida para todos os povos.

A Eucaristia ensina-nos a abater as barreiras que impedem ou dificultam o desenvolvimento da vida: Dá-nos a força para defender a vida de toda a pessoa, na convicção de que ‘ninguém está a mais’ na aldeia global da humanidade; para vencer a espiral da violência mediante o diálogo, o perdão e o sacrifício de si mesmo; para romper as cadeias da acumulação de bens, promovendo por toda a parte a partilha e a solidariedade.

A aldeia global precisa necessariamente de ter também um banquete global, ao qual todos os povos têm igual direito de participar, e do qual ninguém deve ser excluído ou discriminado, por nenhum motivo. Desde  sempre este é, e somente este, o projecto do Pai comum de toda a família humana (cf Is 25,6-9). É o sonho que ele confia à comunidade dos crestes, para que o realize.