Vocação da Maria

A mulher do Evangelho

No coração do tempo do Advento que nos conduz ao Natal, no dia 8 de Dezembro, celebramos a Imaculada Conceição de Maria; o concebimento muito particular de uma vida com um destino singular. Com uma vocação única. Proponho que meditemos nela, a partir da narração de Lucas (1,26-38). O seu segredo permanece escondido no mistério de Deus. Mas o seu reflexo luminoso no tempo e na História é fonte inexaurível de riquezas que continua a fascinar a mente e a encher de doçura o coração dos crentes.

Em Maria Deus diz-nos: Não temas!

Maria é introduzida no mistério da sua vocação pelo anjo Gabriel: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo!» Tal saudação faz sobressaltar o coração de Maria. O anjo tranquiliza-a: «Não temas, Maria: encontraste graça diante de Deus.» Quando Deus encontra o homem, a primeira palavra que lhe dirige é: «Não temas!…» Encontramos na Bíblia 369 vezes este convite tranquilizador de Deus. Uma vez por cada dia do ano, com algumas suplementares para momentos particulares!…

O medo paira como ameaça contínua nas nossas vidas. O medo radical da morte, com os seus mil tentáculos, segue-nos como uma sombra sinistra a cada passo. Impede-nos de apreciar a vida, de saborear os seus momentos bons. Acabamos por ter medo de tudo e de todos. Inclusive de Deus. Ou sobretudo de Deus! Resultado da imagem perversa de um «deus inimigo dos homens». O «Adversário» conseguiu insinuar no nosso subconsciente que Deus é um juiz implacável, uma espécie de espia omnipresente, o estraga-festas da nossa vida. Pobre Deus, que se vê continuamente temido, quando o seu desejo é de amar e ser amado!

Em Maria Deus faz-se Pequenino!

Deus procura entrar nas nossas vidas com pezinhos de lã, para conquistar a nossa confiança, de passarinhos amedrontados. Receado pela sua grandeza, foi-se retirando para nos deixar todo o espaço que queríamos. Mesmo assim não deixou de ser temido. Decidiu, por fim, tornar-se um de nós, pequeno e frágil, no seio de Maria. Quem teria medo de um menino? De um Deus criança, que chora e sorri, que se abandona nos nossos braços? Como é grande e surpreendente o mistério do Natal!…

Este é o facto mais surpreendente e singular dos anais religiosos da humanidade. Deus que renuncia ao seu poder para tornar-se um de nós, fraco e humilde, desarmado e impotente! Saber que Deus se fez «em tudo igual a nós» (Hebreus 4,15), que sofre connosco e como nós, de por si não dá uma «explicação» do mal mas é um potente reconforto, na medida em que nos assegura que Deus «está connosco».

Talvez passemos demasiado depressa da visão e adoração do Deus Menino ao Jesus adulto baptizado no Jordão. Teríamos necessidade de mais tempo para assimilar a «graça» do Natal. O olhar passa com excessiva celeridade da contemplação do sorriso de Jesus-criança à vida do Cristo-adulto, marcada pelo destino dramático da cruz. Havia que tomar todo o tempo necessário para saborear e interiorizar a sua fase infantil. Aliás, o Filho de Deus encarnou-se para «ficar» connosco. Ele «tem» todas as idades. Continua a ser o «Menino Jesus» e a renascer em cada criança. E a vocação maternal de Maria prolonga-se ao longo dos tempos: oferecer ao mundo o Filho de Deus Infante.

Natal: sonho etéreo?

Deus é uma criança à procura de berço no nosso coração. É de um Deus-Criança que o mundo continua a ter necessidade. Com efeito, não é fácil dissipar o obscuro temor de Deus que se apoderou da humanidade. E nós cristãos, por vezes, com a nossa «seriedade» acabamos por reavivar ainda mais tais medos e fazer uma má propaganda ao Deus amigo dos homens, condenado a ser o «papão» dos meninos.

Para vencer tal medo, muitos recorrem hoje a um novo estratagema: negar a existência de Deus! Ele não seria mais que um fantasma dos pesadelos da infância da humanidade! Pela mesma razão, o Natal quase desapareceu como «tempo religioso» para ser celebrado a nível comercial e social. Secularizado, no melhor dos casos tornou-se uma festa da família e das crianças. Uma ocasião para «fazer finta» que o mundo não é assim tão mau como se pinta. Por uns momentos, fechamos os olhos para sonhar um mundo encantador, bonito e fraternal! O festejado, o Menino de Deus, esse é ignorado. Continua a não haver lugar para Ele. Deus é condenado a ser o que é: invisível!… Naturalmente, depois da festa, ao abrirmos de novo os olhos, o sonho esvanece-se como uma bola de sabão. O regresso à realidade é ainda mais deprimente!…

Natal: tempo de Boa Nova!

Apesar de tudo, o tempo litúrgico de Advento e Natal continua a ser particularmente propício para proclamar a Boa Nova. Tal anúncio é confiado a três figuras, cada uma com uma palavra-chave e uma atitude específica correspondente: Alegrai-vos com a promessa, convida-nos Isaías; Convertei-vos para preparar a sua vinda, grita João Baptista; Acolhei-o no vosso coração, sussurra-nos Maria.

Os três completam-se. Isaías com a sua erudição seduz a nossa mente e alimenta a nossa esperança. João Baptista inflama a nossa vontade e leva-a à decisão da conversão. Maria, com a sua presença discreta, toca as fibras mais profundas do nosso coração e faz nascer nele a ternura.

Qual dos três poderia ser o tipo de evangelizador adequado para o nosso tempo, para a nova evangelização a que somos convocados? Que modelo de apóstolo suscitaria menos resistências e recolheria mais êxito neste tipo de sociedade pós-moderna?

À procura de um novo tipo de missionário

Qual dos três escolher? O profeta Isaías? É sem dúvida um missionário cativante: com uma forte experiência de Deus, generoso (oferece-se voluntário como mensageiro divino: Isaías 6), versado nas Escrituras, culto, escritor e poeta refinado, personalidade forte (cap. 7), homem de elite, optimista e visionário (cap. 12), um profeta cujo influxo se prolongou durante séculos!…

Sem dúvida que a sua palavra erudita e iluminada, o seu ideal e mensagem reconfortantes continuam a ter impacto no nosso tempo. Há, porém, um senão: Isaías é um visionário que vem «de longe», sete séculos antes de Cristo. Não é uma «testemunha dos factos»!…

Passemos a João Baptista. As suas qualificações são diversas mas não menos importantes. Trata-se do «Precursor do Messias»! Uma vida marcada desde a sua concepção por um destino singular que suscita maravilha ao seu redor (Lc 1,62). Uma figura caracterizada pelo rigor ascético (Mc 1,6). Uma Voz profética forte que ressoa por toda a Palestina, atraindo discípulos e multidões! Uma testemunha que acaba por selar a sua missão com o martírio. «O maior dos filhos nascidos de mulher», dirá Jesus (Lc 7,28).

Sem dúvida que este homem de carácter rude e forte, que desafia as instâncias do poder corrompido, com uma voz profética que agita as consciências, encontrará sempre simpatizantes. Mas talvez não seja o tipo de evangelizador que procuramos. A estratégia de «choque» utilizada pelo Baptista deu muito fruto noutras épocas. Hoje parece encontrar escasso resultado. Por causa talvez de um uso exagerado feito por certos «pregadores de mau agoiro», em voga em alguns meios sectários. Depois do impacto inicial, tornam-se frequentemente objecto de troça!…

Com as Sandálias de Isaías e a Voz do Baptista

Sem ter de tecer a «litania» das qualificações de Maria, acho que Ela poderia ser a porta-voz deste trio escolhido por Deus para preparar os corações a acolher Seu Filho. Isaías poderia oferecer-lhe as suas sandálias de mensageiro e o Baptista ceder-lhe a sua voz de profeta. A Palavra encontraria nela agilidade e leveza, simplicidade e pureza, graciosidade e beleza. A jovem donzela Maria de Nazaré daria um novo fôlego ao anúncio da Boa Nova. Despojá-la-ia de tantos acessórios e atavios que acabam por fazer-lhe sombra. A Palavra recuperaria o seu esplendor e vitalidade. Libertá-la-ia da armadura inútil e paralisadora, com que se revestiu na luta contra os «Golias» do nosso tempo, que torna lento e pesado o seu passo e suscita não poucas reacções de desconfiança e resistência. A Palavra recuperaria a destreza, a confiança e a simpatia do jovem David!

Uma Donzela, oferecendo um Deus-Criança: eis a missionária ideal da nova evangelização. Percorrer de novo os caminhos do mundo com a ligeireza e a solicitude de um coração a quem o Amor deu asas (Is 40), para que o sorriso e a voz do seu filho cheguem a todo o lado.

Menino Jesus, não cresças!

Maria, oferece-nos o teu filho criança, que sorri para nós e se abandona com confiança nos nossos braços; que abre os nossos lábios ao sorriso e o coração à ternura; que desperta a criança adormecida em cada um de nós. Deste Deus Menino não temos nós medo. Mas que Ele não cresça! Eternamente Pequenino! Cresceremos nós, contemplando nos seus olhos a eterna infância! Até que um dia, vencidos todos os medos, nele nos descubramos filhos! E então correremos ao encontro do Pai para nos lançarmos confiantes no seu infinito Abraço. Nele, felizes, repousaremos enfim, todos crianças!…

P. Manuel João Pereira Correia