Enquanto 26% da área total da Amazônia já foi destruída devido ao desmatamento e à degradação ambiental, lideranças indígenas da Amazônia pedem a proteção de 80% do “pulmão verde” do planeta. Caso contrário, o futuro da humanidade poderá estar “comprometido”.

A reportagem é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 13-09-2022.
A tradução é do Cepat. http://www.ihu.unisinos.br

26%. Essa é a área total da Amazônia já destruída pelo desmatamento e pela degradação ambiental, segundo estudo publicado em 05 de setembro por ocasião da V Cúpula dos Povos Indígenas da Amazônia. Enquanto 66% dessa região tropical está exposta a pressões permanentes, os líderes indígenas da Amazônia e pesquisadores dos nove países abrangidos por sua floresta pedem a proteção de 80% de sua superfície até 2025.

“Sem a Amazônia, a vida na Terra está em perigo”, alertam os autores do relatório A Race Against Time for the Amazon: Where and How to Protect 80% by 2025. Com 26% de áreas degradadas, a Amazônia está, de fato, a caminho de atingir seu ponto de inflexão, esse limiar crítico a partir do qual uma mudança, mesmo que pequena, pode fazer entrar em colapso irreversivelmente um ecossistema.

“Se o desmatamento e a degradação continuarem no ritmo atual, a Amazônia como a conhecemos hoje morrerá e passará rapidamente de floresta tropical úmida a savana, liberando emissões de carbono suficientes para destruir a estabilidade climática do nosso planeta e comprometer o futuro da humanidade”, alertam os pesquisadores da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), entidades responsáveis pelo estudo.

Esse ponto de não retorno já foi amplamente ultrapassado no Brasil e na Bolívia, que concentram 90% das áreas sujeitas a desmatamento e degradação do solo. Se a savanização, ou seja, a transformação de uma região de floresta em savana, se espalhasse para o resto da Amazônia, modificaria substancialmente o ciclo das chuvas e liberaria cerca de 90 bilhões de toneladas de CO2, mais que o dobro das emissões anuais mundiais, de acordo com uma análise publicada em março de 2022 na revista Nature Climate Change.

As atividades antrópicas e extrativistas

Embora 74% da superfície da floresta amazônica ainda não tenha sido destruída, cerca de 66% das áreas da região tropical permanecem sob pressão permanente. Em questão: a exploração antrópica dos solos e dos recursos naturais do “pulmão verde” do mundo. A atividade agrícola sozinha é responsável por 84% do desmatamento, segundo o estudo. O desmatamento causado pela pecuária na floresta amazônica é responsável por quase 2% das emissões globais de CO2 por ano.

A mineração, presente em todos os países da Amazônia, atinge 17% da área. Os blocos petrolíferos ocupam 9,4% da superfície da Amazônia, o equivalente a 80 milhões de hectares, e 43% deles estão localizados em áreas protegidas e territórios indígenas. Além disso, as paisagens dessa floresta tropical são profundamente alteradas pelas cerca de 350 usinas hidrelétricas já presentes no território – outras 483 devem entrar em operação nos próximos anos. De fato, os canteiros de obras de hidrelétricas alteram os cursos de mais de 1.100 afluentes que compõem a bacia amazônica, segundo os autores do relatório.

“Todos nós temos uma responsabilidade compartilhada no surgimento desta crise”, dizem os pesquisadores. A indústria da moda beneficia-se do couro produzido no Brasil; os bancos europeus e americanos financiam o petróleo cru da Amazônia para que seja consumido principalmente na Califórnia; a soja, a carne bovina e outros alimentos básicos para alimentar a humanidade estão desertificando a floresta amazônica”. No entanto, são as comunidades indígenas que mais sofrem com a destruição, enquanto apenas 14% do desmatamento ocorreu em seus territórios e em áreas protegidas.

Objetivo: proteger 80% da Amazônia até 2025

Para preservar a Amazônia e seus recursos, os autores do relatório pedem um compromisso estrito dos dirigentes mundiais para proteger 80% de sua superfície até 2025. “Ainda podemos recuperar 6% para atingir a proteção de 80% da região e evitar o ponto de inflexão, estimam os pesquisadores. Essa meta não é ambiciosa, mas o mínimo que precisamos fazer para que esse megaecossistema sobreviva”.

As soluções propostas para desacelerar, ou mesmo reverter, o avanço rumo ao ponto de não retorno incluem, de modo especial, o reconhecimento de 100 milhões de hectares de territórios indígenas, o estabelecimento de moratórias para salvaguardar os ecossistemas intactos e pouco degradados, um modelo inclusivo de governança compartilhada e uma proposta de anulação condicional da dívida dos países amazônicos.

Os autores do relatório também fazem questão de reconhecer o papel desempenhado pelas comunidades indígenas na Amazônia, “que vivem em harmonia há milênios, em reciprocidade e simbiose, protegendo assim as florestas, os rios e os animais”, e pedem o reconhecimento dos “direitos coletivos e territoriais” dos 511 povos que ali vivem.

Uma reivindicação que visa particularmente o Brasil que, desde a chegada do presidente Jair Bolsonaro ao poder, em 2019, não concluiu nenhum acordo para o reconhecimento dos cerca de 100 territórios indígenas já identificados no país. Além de colocar em perigo essas populações que vivem em terras não reconhecidas legalmente, particularmente vulneráveis a saqueadores e traficantes de madeira, o chefe de Estado brasileiro, notório cético em relação ao clima, é considerado responsável pelo crescente desmatamento da Amazônia, que aumentou 278% em julho de 2019 comparado ao mesmo mês de 2018, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Ao explorar as riquezas da floresta tropical, o governo Bolsonaro é acusado de favorecer a impunidade de garimpeiros, fazendeiros ou traficantes de madeira que desmatam ilegalmente a floresta amazônica. “A política de Jair Bolsonaro a favor dos industriais é absolutamente destrutiva. É um verdadeiro retrocesso que está ocorrendo sob seu mandato, sendo a Amazônia hoje refém um verdadeiro ecocídio”, alerta o Greenpeace.

Uma preocupação que está no centro dos debates, há um mês da eleição presidencial, em cujas campanhas os dois candidatos mais bem colocados, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, prometem proteger a floresta amazônica…