O cardeal Carlo Maria Martini, em artigo para o jornal Il Sole-24 Ore, 12-04-2009, reflete sobre o significado da Páscoa a partir do seu fato originário.
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O que é essencial para a Páscoa? Onde está o fato originário que os fiéis celebram? Quem entrou, nestes dias, nas igrejas cristãs e assistiu a como foram celebradas nelas as funções litúrgicas nos diversos dias da Semana Santa pode ter tido a impressão de um repetir-se de gestos, de ritos, de orações, em que se tornava difícil indicar o tema fundamental, entender onde estava a sua unidade.

Muitos, de fato, são os eventos relembrados nesses dias, em que se percorreu o caminho da última semana de Jesus em Jerusalém, desde o solene ingresso na cidade, revivido no “Domingo das Palmas”, até a sua captura, à paixão e morte, à descoberta do sepulcro vazio e às suas aparições aos discípulos. Frente a essa riqueza de eventos, lidos também à luz de uma longa série de outras leituras bíblicas, perguntamo-nos: qual é o fato central, originário, no qual tudo isso junto encontra a sua origem e a sua explicação?

Esse fato não foi descrito por ninguém, não foi vivido por ninguém. A liturgia romana nos diz, no canto solene que precede a função da noite de Páscoa: “Só tu, noite feliz, soubeste a hora em que o Cristo da morte ressurgia”. O que ocorreu nessa hora desconhecida, na obscuridade do túmulo de Jesus? Podemos compreender algo desse evento olhando os efeitos desse mistério com os olhos da fé.

O Espírito Santo desceu com toda a sua potência divina no cadáver de Jesus. Tornou-o “espírito vivificante” (cf. Carta de São Paulo aos Romanos 1, 4), deu-lhe a capacidade de se encontrar presente em todo o lugar, em qualquer lugar e em qualquer tempo da história.

Tornou-se como uma explosão de luz, de alegria, de vida. Lá onde havia um corpo morto e um túmulo sem esperança, iniciou-se uma iluminação do mundo que ainda dura até hoje.

Quando Jesus dizia, no fim do Evangelho segundo Mateus: “Estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”, entendia essa presença de ressuscitado, dessa força de Deus operante em Jesus que qualquer pessoa pode sentir dentro de si, contanto que abra os olhos do coração. Esse espírito não se manifesta com parcimônia, mas com amplitude e liberalidade.

Hoje, repropondo o grito da Páscoa, a Igreja dirige ao mundo um anúncio de esperança. Esse anúncio se refere a todos, toca os indivíduos, as comunidades, as sociedades. Todo homem, toda mulher dessa terra pode ver o Ressuscitado, se se permitir buscá-lo e se deixar buscar. Começa aqui a história da Igreja, que é, sobretudo, história das consequências desse dom. Os homens talvez podem utilizar mal esse dom ou até se opor a ele, mas, na realidade, ele faz o seu caminho na história, cria as multidões de Santos, sejam conhecidos ou desconhecidos. Permite que qualquer um que o deseje sinceramente entre nas intenções de Cristo, no seu amor aos pobres, na sua luta pela justiça, na sua dedicação por cada pessoa, no seu espírito de liberdade, de humildade, de adoração e de oração. Quem olha o mundo de hoje com os olhos da fé, reconhece nele todos os horrores e as distorções, mas vê também o Espírito operando para salvar esse mundo.

Mas quem reconhece hoje a mudança que ocorreu na história? Quem sente a presença do Ressuscitado que nos acompanha?

Quem tem uma fé plena em Jesus, quem se volta para Deus com todo o coração, quem se liberta da escravidão do sucesso e do dinheiro, quem se converte da tristeza e da mesquinhez a uma visão ampla do universo, aberta para a eternidade. Devemos aceitar que o amor de Deus dissolve o medo, que a graça perdoa o pecado, que a iniciativa de Deus vem antes de todo esforço nosso e nos reanima, nos recoloca de pé em toda queda. A fé na ressurreição não é fuga do mundo, pelo contrário, nos faz amar o tempo presente e a terra, é capacidade de viver a fidelidade à terra e ao tempo presente na fidelidade ao céu e ao mundo que deve vir.

Há tempos em que esse reconhecimento é particularmente difícil: são os tempos dos grandes infortúnios, das catástrofes que atingem muitas pessoas, particularmente as crianças. Mas também aqui, para quem sabe ler com os olhos da fé, não falta uma presença do Ressuscitado.

Justamente agora, recebi das zonas onde ocorreu o terremoto em Abruzzo uma mensagem que é mais ou menos assim: “Desde os acampamentos de tendas (…) os mais sinceros votos. O Senhor que veio curar as feridas dos corações despedaçados nos escolheu para que o ajudássemos. Seja esta a nossa verdadeira alegria.

Um fraterno abraço”.

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