Na entrevista ao “Corriere della Sera”, o Papa se referiu ao discurso dirigido à cidade de Milão em 6 de dezembro de 2001 pelo então cardeal arcebispo Carlo Maria Martini. Publicamos aqui o texto integral atendendo ao pedido do Papa conforme ele informou na entrevista ao jornal Corriere della Sera.
O artigo de Carlo Maria Martini é publicado por L’Osservatore Romano, 03-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini. wwwihu.unisinos.br

Os temas indicados no título deste discurso desde sempre acompanharam a humanidade, desde que Caim ergueu traiçoeiramente a mão sobre Abel e o matou (Gn 4, 8) e desde que Deus declarou: “Portanto qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado” (Gn 4,15), até a palavra de Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27).

Mas nos últimos meses, a partir de 11 de setembro, tais temas voltaram a ser de candente atualidade.

Os fatos são conhecidos: atentados terroristas gravíssimos que revelam uma capacidade de ódio e fanatismo sem precedentes, que usam tecnologias refinadas e se alimentam de formas inéditas de fundamentalismo civil e religioso (no caso, todos os aspirantes suicidas). Os atentados foram seguidos por uma ação de caçada terrorista que resultou em uma guerra no Afeganistão. Nos últimos dias, além disso, multiplicaram-se os vergonhosos atentados suicidas contra cidadãos desarmados em Israel, seguidos de retaliação e ações militares na Palestina, em lugares onde há anos se observa um crescendo de violência cujo fim não se consegue vislumbrar.

Um olhar sobre o Evangelho (Lc 13, 1-5)

Esses fatos nos entristecem, nos interpelam, nos perturbam. Pensemos com dor nas inúmeras mortes, nos feridos que carregarão o sinal da tragédia por toda a vida, nas famílias destruídas, nos milhões de refugiados, no choro de crianças mutiladas. Despontam muitas perguntas, hipóteses, preocupações.

Perguntas de natureza humana e religiosa e também de natureza política. Gostaríamos de entender, julgar, ver como agir para acabar com o terrorismo, o medo, a guerra, como atuar seriamente para uma paz duradoura.

Certamente a situação ainda é muito complexa e fluida para descrevê-la de maneira adequada.

A cada dia, se soma mais uma surpresa, geralmente dolorosa. Eu tinha iniciado essas reflexões começando primeiro com o atentado às torres gêmeas, mas depois os eventos no Afeganistão e, nos últimos dias, o recrudescimento dos massacres no Oriente Médio, gradualmente ampliaram meu campo de discernimento. Além disso, é inegável que na preparação da tragédia de 11 de setembro desempenhou um papel nada secundário o ressentimento acumulado no longo conflito israelo-palestino. Por isso me questionei com insistência e perguntei ao Senhor: neste turbilhão da nossa história, ainda faz sentido falar de paz? E como, e a que preço?

Falando, lendo e ouvindo muito nas últimas semanas percebi como até as opiniões são muito divergentes. Os pontos de vista, os ângulos de visão são múltiplos; fortíssimas são as paixões, os envolvimentos emocionais; resistente a se desagregaram os preconceitos, especialmente aqueles inconscientes. Pareceria mais sábio esperar, orar e, enquanto isso, curar e cuidar as feridas o máximo possível, como em uma emergência. Mas Santo Ambrósio não evitou a reflexão e a tentativa de julgar fatos gravíssimos, públicos e controversos de seu tempo. Assim, o seu humilde sucessor pede, por intercessão do nosso Padroeiro e com a ajuda das orações e sugestões de muitos, a graça de poder falar destas coisas em voz alta diante de Deus, do evangelho e da consciência da humanidade.

São muitas as páginas bíblicas que foram evocadas nos últimos meses para buscar luz na palavra de Deus. Gostaria de começar pelo trecho evangélico de Lucas (13, 1-5) que foi lido durante esta oração vespertina. Trata-se duas afirmações ou reações de Jesus, posto diante de graves fatos de sangue de origem política e dolorosas calamidades naturais.

O texto diz: “E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”.

Percebo um detalhe curioso. Santo Ambrósio, que inclusive comenta com precisão e às vezes até pedantismo todo o terceiro evangelho, é reticente sobre esse ponto. Deixando de lado qualquer sentimento anti-romano que possa ter resultado do crime de Pilatos, ele se limita a uma afirmação marginal, supondo, para o massacre de Jerusalém, uma culpa ritual dos galileus mortos, para torná-lo um caso exemplar de punição “para aqueles que por instigação diabólica não oferecem o sacrifício com alma pura” (Exp. do Evan. de Lucas, VII, 159). Ele evita, portanto, se envolver nas árduas questões políticas e teológicas que emergem desses fatos e deixa sem comentários o comportamento desconcertante e sem precedentes de Jesus. Mas nós não conseguimos fazer o mesmo.

De fato, Jesus se depara aqui com um emaranhado de problemas éticos, teológicos e políticos. As perguntas que surgem são análogas, mas de gravidade superior àquela sobre a qual mais tarde será questionado a respeito o imposto a pagar a César (Lc 20, 20-26): esta última pergunta – observa o evangelista Lucas – apresentada a ele “por espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra, e o entregarem à jurisdição e poder do presidente” (Lc 20,20).

Aqui novamente se trata de perguntas capciosas, mas a respeito de fatos bem mais chocantes. Está em causa o que chamaríamos de um “massacre de Estado”, ordenado pelo representante do Imperador e, inclusive, perpetrado no local sagrado do templo: portanto, um massacre que provavelmente ocorreu durante as festividades da Páscoa, em que muitas pessoas devem ter sido massacradas, talvez terroristas dispostos a fazer o sacrifício supremo. Não sabemos quantos fossem, mas basta lembrar que alguns anos antes o antecessor de Pilatos havia matado três mil judeus em uma única ocasião.

Jesus é, portanto, provocado a se expressar e manifestar um juízo: condenará o assassinato político, levado a cabo para humilhar ainda mais os judeus e profanar o templo? Ele vai gritar contra a crueldade e o cinismo do regime dominante? Ou, como outros em Israel, que consideravam a dominação estrangeira um mal menor diante de um possível caos, dirá que foi uma dolorosa operação de legítima defesa, uma repressão inevitável para evitar novos massacres por um terrorismo suicida e sem saídas? O próprio profeta Jeremias não havia aconselhado certa vez contra atos de resistência inútil ao conquistador babilônico? Imagino que Jesus deve ter sentido a pergunta que um dia os judeus lhe farão no templo: “Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente”. Ou seja, neste caso, deixe-nos saber, você que sabe tudo, de que lado está a verdade e de que lado está a injustiça…

A segunda situação narrada por Lc 13, 1-5 também lembra questões atuais. Trata-se de um desastre natural, a queda de uma torre em Jerusalém que mata dezoito pessoas (e aqui pensamos nos acidentes e dramas dos últimos tempos: os desastres dos túneis do Mont Blanc e Gotthard, o trágico acidente de Linate, os acidentes de avião nas últimas semanas, as mortes devido a vazamentos de gás…). Mesmo então, como agora, esses incidentes despertavam muitas perguntas: são calamidades inevitáveis ou são fruto da negligência, erro humano, descuido ou imprudência indesculpáveis? Quem é culpado? Quem deveria cuidar? Que autoridade omitiu as verificações necessárias, subestimou os avisos etc.?

Os dois episódios são propostos a Jesus para que se tome posição. Muitos esperam, como já indiquei acima, que Jesus se declare contra o tirano Pilatos; outros gostariam que criticasse os galileus como terroristas tolos. Com relação à queda da torre, espera-se que ele denuncie o descuido dos governantes com palavras de fogo ou, ao contrário, recrimine a imprudência culpada das pessoas.

Mas aqui acontece o inesperado. Jesus não toma posição nem a favor nem contra nenhuma das pessoas envolvidas, não se expressa sobre qual dos protagonistas imediatos deve ser considerado culpado. É verdade que proclama um juízo, que teremos que aprofundar. Mas sua voz está acima de todos os temas, por mais graves que sejam, da política atual. Isso pode nos surpreender, decepcionar e nos incomodar. Vamos ver o que isso significa para o momento atual. Mas precisamos notar desde já que também se verifica aqui o que um historiador recente de origens cristãs observou: “Comparado com os profetas clássicos de Israel, o Jesus histórico é notavelmente silencioso sobre muitas questões sociais e políticas candentes de seu tempo …

O Jesus histórico subverte não apenas algumas ideologias, mas todas as ideologias” (J.P. Meier, Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico, Imago Editora, 2003).

As perguntas de hoje

Algo semelhante acontece hoje. As perguntas sobre os fatos da história e sobretudo sobre os acontecimentos dramáticos de nossos dias são muitas e compreensivelmente carregadas de emoções dolorosas, preconcepções afetivas e até preconceitos. E não raras vezes são invocadas respostas imediatas e esclarecedoras de alguma autoridade moral (principalmente à espera de ser confirmado naquilo que cada um já julgou dentro de si!).

Em particular, são muitas as questões sérias que o homem comum se faz hoje diante dos noticiários e das imagens televisivas dos últimos meses e destes dias.

A primeira diz respeito aos autores dos atos de terrorismo, começando pelos mais clamorosos e letais, em particular aqueles ligados ao suicídio do agressor, e é a pergunta sobre o porquê. Por que um ser humano pode chegar a tanta crueldade e cegueira? Questionamo-nos que obscuros meandros da consciência podem abrigar tais sentimentos de ódio, fanatismo político e religioso, que ressentimentos pessoais e sentimentos de humilhação coletiva podem estar na raiz de decisões tão tresloucadas. Nada e ninguém jamais poderá justificar esses atos ou dar-lhes qualquer aparência, mesmo mínima, de legitimidade. Mas também devemos nos perguntar: todos nós realmente percebemos no passado, em comparação com outras pessoas e povos, quão grandes e explosivos tais ressentimentos poderiam se tornar gradualmente e o quanto em nosso comportamento poderia contribuir e realmente contribuiu para atiçar no silêncio explosões de rebelião e ódio?

Mas em relação a esta primeira pergunta, não posso deixar de ressaltar a tremenda responsabilidade daqueles que, talvez dotados de grandes meios da fortuna, aprenderam a explorar esses ressentimentos e a fornecer-lhes ferramentas de morte, financiando, armando e organizando terroristas em todas as partes do mundo, talvez até perto de nós. Mesmo para estes não há razão ou nem mesmo a mínima legitimidade para sua forma de agir. Em vez disso, valem as palavras de Jesus para aqueles que exploram a fraqueza das pessoas simples desta maneira: “melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar (Mt 18,1).

Também não posso esquecer aqui o que Jesus ainda disse no Sermão da Montanha, proibindo até mesmo uma palavra ofensiva porque já contém as sementes do ódio e do homicídio (Mt 5, 22… “Quem disser a seu irmão ‘louco’! será réu do fogo do inferno”). Quem entre nós tem idade para se lembrar dos primeiros tempos da contestação (final dos anos 1960 – início dos anos 1970) sabe que o descuido e a superficialidade, ostentados também por quem teria a responsabilidade de julgar e punir, a respeito de atos menores de vandalismo e desprezo pelo bem público, abriu caminho para gestos muito mais graves e mortíferos. Quem joga hoje a pedra e se sente impune, amanhã poderá jogar a bomba ou pegar uma arma. A “tolerância zero” é, para cada palavra ou gesto de ódio, respaldada também por uma regra evangélica.

Mas, além da pergunta de um severo juízo humano e moral até mesmo sobre as menores raízes do desprezo e do ódio – de onde vier e contra quem quer que o exerça, para desmascará-la e, na medida do possível, exorcizá-la e desarmá-la – surge com insistência nestas semanas no coração das pessoas também uma segunda pergunta, esta de natureza mais política e militar: é eficaz o tipo de operações que estão realizando contra o terrorismo? Servirá realmente para desencorajar os terroristas, para encerrar os episódios macabros dos homens-bomba, para criar as condições para a superação das causas de tantas inquietudes? Poucos de nós têm respostas certas e articuladas a todas essas questões, também pela sua complexidade e pelos cenários e episódios diferentes e mutáveis a que se referem.

Mas a verdade é que pesam muito na consciência de todos, em particular dos responsáveis mais diretos pelo planejamento das operações contra o terrorismo, pela determinação das medidas políticas, econômicas, judiciais e culturais que se considerem necessárias. Só eles conhecem de perto as circunstâncias e a eficácia, positiva e negativa, dos bombardeios e de outras ações de guerra, já que os meios de comunicação de massa só parecem ter um acesso bastante limitado a fontes diretas de dados e estratégias militares. Também não ousamos dar uma resposta a esta pergunta. No entanto, está intimamente ligada com a seguinte.

A terceira pergunta é de natureza ética: o que foi feito e está sendo feito contra o terrorismo, especialmente no plano bélico, permanece nos limites da legítima defesa, ou apresenta a figura, pelo menos em alguns casos, de retaliação, do excesso de violência, de vingança? É claro que o direito de legítima defesa não pode ser negado a ninguém, nem mesmo em nome de um princípio evangélico. Mas a vigilância contínua e o domínio constante sobre si mesmo e as próprias paixões individuais e coletivas são necessários para garantir que a volúpia da revanche e a desmedida da vingança não se insinuem na necessária ação de prevenção e de justiça. Tinha-se a impressão de que esses princípios de cautela estavam presentes nos primeiros dias de reação aos terríveis atentados de 11 de setembro. Mas como estamos agora?

A ânsia pela vitória e o dinamismo da violência não fugiram ao controle diminuindo o limiar de vigilância sobre as ações de guerra que poderiam ser não estritamente necessárias em relação aos objetivos originais e, sobretudo, atingir populações desarmadas? É aqui que o princípio da legítima defesa é seriamente questionado: não pode ser contornado impunemente sem criar mais ódios e conflitos do que pretende resolver. Este parece ser particularmente o caso, é doloroso dizer, do que continua a acontecer cada vez mais no Oriente Médio.

Por um lado, um terrorismo louco e suicida contra cidadãos pacíficos e até muitas crianças, um terrorismo que não leva a lugar algum e que desperta um crescendo de raiva, indignação e horror. Por outro lado, atos de represália, que ainda é difícil definir como operações de legítima defesa, que atingem populações desarmadas, e aqui também muitas crianças. Além disso, somam-se verdadeiras ações bélicas, diante das quais até mesmo o observador mais imparcial e sinceramente desejoso e convicto da necessidade da plena segurança para o país que assim age, já não é capaz de perceber qual seja aquela estratégia de paz e segurança que está sempre no desejo de todo aquele povo cuja sobrevivência é essencial para o futuro da paz na região e em todo o mundo.

Essas perguntas estão no coração de muitas pessoas e ainda há muito a discutir a respeito. Mas elas, embora se refiram a elementos éticos de extrema gravidade, não são da competência apenas e muitas vezes nem sequer em primeira instância da Igreja. Não compete à Igreja dar o último juízo prático sobre atos dos quais apenas poucos conhecem as modalidades últimas e precisas. Levantando questionamentos como aqueles acima expressos, eu não quis tanto expressar juízos definitivos, mas ajudar a mim e a vocês a refletir seriamente e, sobretudo, estimular as pessoas competentes e responsáveis a ponderar cada opinião e ação sobre uma balança de rigorosa justiça e respeito pelos direitos humanos de cada um.

Provavelmente não são muitos os responsáveis realmente competentes. Certamente muito menos do que se pensa ou parece pelo número e multiplicidade de opiniões que são expressas, muitas vezes com tanta confiança. De fato, são poucos que conhecem a fundo todos os dados disponíveis sobre terroristas, seus projetos, seus recursos. Poucas são as notícias que realmente filtram sobre os atos de guerra e suas consequências, a natureza das resistências e os âmbitos das estratégias. As autoridades políticas e militares responsáveis – percebo isso – pagam aqui pela solidão diante de decisões que afetam a vida de milhões de pessoas.

Por isso, é ainda mais precioso o controle democrático estável e metódico exercido pelos parlamentos e por uma opinião pública inteligente e apartidária, corretamente informada primeiro sobre o lançamento e depois sobre a condução de eventuais intervenções.

A atitude de Jesus

Por tudo isso, a atitude de Jesus na passagem de Lucas de onde partimos e à qual gostaria agora de retornar, nos impressiona e abala ainda mais. Existe, de fato, uma outra pergunta além das quatro que mencionamos até agora sobre os fatos atuais de terrorismo e guerra. É uma pergunta muito simples, de natureza evangélica. É esta: o que Jesus nos diria hoje sobre o que mencionamos até aqui? O que nos sugeriria no espírito do Sermão da Montanha, no contexto das bem-aventuranças dos misericordiosos e pacificadores?

Vimos acima na página de Lucas 13, 1-5 que Jesus não entra em nenhum dos problemas que seus interlocutores têm em mente e que diziam respeito à atribuição de culpas por atos graves de sangue, a busca de bodes expiatórios. Superando todo juízo moral categorial sobre as ações de indivíduos ou grupos, Jesus se reporta à raiz profunda de todos esses males, ou seja, à pecaminosidade de todos, à conivência interior de cada um com a violência e o mal, repetindo duas vezes: “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”. Ele nos convida a buscar em cada um de nós os sinais de nossa cumplicidade com a injustiça. Adverte-nos para não nos limitarmos a erradicá-la aqui ou ali, mas a mudar a escala de valores, a mudar de vida.

Isso nos surpreende a princípio. Parece-nos uma fuga do presente, um voar alto demais diante de acontecimentos que exigem urgentemente decisões e juízos. Parece haver uma generalização de um problema que corre o risco de confundir o que está certo e o que está errado, verdugos e vítimas, todos colocados sob um único denominador.

Mas Jesus não pretende de forma alguma tirar de cada um sua responsabilidade concreta. Cada um é responsável por suas ações e arca com as consequências. É por isso Jesus disse a Pedro, que tentava defendê-lo com a força, quando vieram prendê-lo: “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mt 26,52). Jesus sabe que cada um deve tomar suas próprias decisões morais diante das situações individuais. Mas importa muito mais para ele salientar que todos os esforços humanos para destruir o mal pela força das armas nunca terão um efeito duradouro a menos que se tenha seriamente consciência de como as causas do mal estão dentro, no coração e na vida de cada pessoa, etnia, grupo, nação, instituição que é conivente com a injustiça. Se não lidarmos com esses âmbitos mais profundas mudando a nossa escala de valores, logo nos encontraremos diante daqueles males que tentamos eliminar com todos esforços exterior.

Foi assim que os Bispos de todo o mundo, reunidos para o Sínodo de outubro de 2001, avaliaram a situação atual. Eles disseram em sua mensagem final: “Nossa assembleia, em comunhão com o Santo Padre, expressou o mais profundo sofrimento pelas vítimas dos atentados de 11 de setembro e por suas famílias. Rezamos por eles e por todas as vítimas do terrorismo no mundo. Condenamos absolutamente o terrorismo, que nada pode justificar. Por outro lado, durante o Sínodo, não pudemos deixar de ouvir o eco de muitos outros dramas coletivos… Segundo observadores competentes da economia mundial, 80% da população do planeta vive de 20% de seus recursos e um bilhão e duzentos milhões de pessoas são forçadas a viver com menos de um dólar por dia. É necessária uma mudança de ordem moral” (n. 9-10).

Mais abaixo (n. 11) os bispos enumeram alguns “males endêmicos, por muito tempo subestimados, que podem levar ao desespero populações inteiras. Como calar diante da persistente tragédia da fome e da pobreza extrema, em uma época em que a humanidade tem à sua disposição as ferramentas para uma partilha igualitária como nunca antes? Não podemos deixar de expressar nossa solidariedade com a massa de refugiados e imigrantes que, devido à guerra, por opressão política ou discriminação econômica, são obrigados a abandonar a própria terra…”.

Há tantos males a deplorar e derrotar: além do terrorismo e da violência, toda injustiça deve ser condenada e toda afronta à dignidade humana deve ser eliminada. Perguntamo-nos: será possível tal inversão de tendência? Atrevemo-nos a dizer sim sobretudo porque tal endireitamento da escala de valores é necessário para superar aquela crescente conflitualidade que visa a destruição mútua dos contendores. Em segundo lugar, porque contamos com a graça de Deus e a razoabilidade básica do homem. Em terceiro lugar, porque como cristãos (e também nisto nos distinguimos de um mundo ocidental até há pouco seguro de si, mas agora muito mais incerto e cada vez mais pobre de esperança transcendente) temos a certeza de que se o mal abunda é porque abunda a graça da conversão e do perdão. Ainda que deixemos o cálculo dos tempos para o Senhor da história, sabemos que é bem possível que amadureça novamente no Ocidente, talvez sob o impulso de eventos tão dramáticos, a percepção de que seja necessária uma mudança de vida, a adoção de uma nova escala de valores.

Em um artigo recente, a respeito de tal reconhecimento, falava-se do “Apocalipse”, no sentido etimológico de um “levantar o véu” de “uma revelação” (Enzo Bianchi, Le apocalissi dell’11 Settembre, “la Repubblica” 27.10. 01). Nesse contexto trata-se de uma revelação do mal em que estamos imersos, do absurdo de uma sociedade cujo deus é o dinheiro, cuja lei é o sucesso e cujo tempo é marcado pelo horário de abertura das bolsas mundiais. Uma sociedade que beira o ridículo em sua busca frenética por investimentos virtuais, transações puramente midiáticas e que pretende exportar messianicamente esse modo de ver para todo o mundo. Esta é a globalização que é justo rejeitar.

Como escreveu recentemente Tommaso Padoa Schioppa, “a estrada que leva à segurança é muito mais longa do que a que leva a Cabul. A estrada também é muito mais fatigante, porque somos nós que temos que caminhar por ela, não militares ou países distantes. E caminhar significa modificar os nossos modos de viver, os nossos pensamentos, os nossos sistemas políticos. Podemos nos perguntar: já começamos?” (“Corriere della Sera”, 18.11.01). Mas se isso vale para a economia e a política, por que não deveriam abrir-se também no campo da moralidade novos espaços para um renovado empenho de seriedade e justiça, para uma busca do significado profundo da vida, para uma maior abertura ao mistério de Deus? Deus não “encerrou a todos debaixo da desobediência” de conflitos sem saída para “com todos usar de misericórdia?” (cf. Rm 11,32).

Mas não é tão importante saber se isso acontecerá em breve. No fundo, como dizia Bonhoeffer, “para quem é responsável, a pergunta final não é: como eu me viro heroicamente nessa situação, mas: como poderá ser a vida para a próxima geração? Só dessa pergunta historicamente responsável podem nascer soluções frutíferas” (Resistenza e Resa, p. 64). O que é urgente, portanto, é dizer-nos que, se não ocorrer uma mudança radical na escala de valores, se não forem colocadas em primeiro lugar a paz, a solidariedade, a convivência mútua, o acolhimento mútuo, a escuta e a estima pelo outro, a aceitação, o perdão, a reconciliação das diferenças, o diálogo fraterno, político e diplomático, ao mesmo tempo que se proibirem as represálias da guerra, se não forem desarmadas não apenas as mãos, mas também as consciências e os corações, sempre teremos que lidar com novas formas de violência e também de terrorismo. Talvez possamos apagá-las por um momento, mas voltaremos a vê-las reaparecer impiedosamente em outro lugar.

Como o Papa voltou a repetir em 4 de dezembro de 2001 sobre o conflito no Oriente Médio: “A violência nunca resolve os conflitos, apenas aumenta suas dramáticas consequências”. Por isso, lançou “um novo apelo urgente à comunidade internacional, para ajudar israelenses e palestinos com maior determinação e coragem a quebrar essa inútil espiral de morte. As negociações devem ser retomadas imediatamente, para que possamos finalmente alcançar a tão desejada paz”.

Além disso, o Papa estimulou, com um gesto absolutamente novo na história da relação cristianismo-islã, todos os católicos a se unirem espiritualmente no dia 14 de dezembro próximo na conclusão do solene jejum muçulmano do Ramadã, para afirmar que há e deve haver um clima de respeito entre as duas religiões. Daqui começará um tempo particular de conversão, de retorno ao Senhor no laborioso caminho da história rumo à plenitude da verdade e da caridade, que culminará no dia 24 de janeiro de 2002 com uma grande oração inter-religiosa pela paz em Assis, com a participação do Papa. São gestos que pretendem afirmar ao mundo inteiro que as religiões nunca devem, por nenhum motivo, tornar-se fonte de conflito, mas, ao contrário, ocasião e instrumento de paz.

Novas aberturas

Devo encaminhar a conclusão deste discurso, que inevitavelmente corre o risco de nos envolver em direções sempre novas, porque a violência e o mal estão por toda parte e estão na raiz de tudo. Mas o bem brota de uma fonte ainda mais profunda e continuamente rega, cura e regenera essa raiz do mal e de amargura. É importante, porém, que reconheçamos que cada um de nós deve fazer a sua parte e ouvir o apelo que nos chega. O momento dramático que estamos vivendo é um forte apelo à conversão e ao reconhecimento da nossa conivência com os males do mundo. Destaco: com os males de todos, em todas as latitudes e não apenas no mundo ocidental.

Certamente tem seus graves erros, sua cegueira, seus ídolos, suas ilusões de onipotência. Por isso a Igreja, nem mesmo a ocidental, que viveu historicamente e ainda vive nesta área e sempre procurou dar-lhe uma alma, nunca se reconheceu ou se identificou plenamente com ele, muito menos se identifica agora em um âmbito em que convivem gloriosas tradições de liberdade e dignidade humana – num clima crescente de compromisso – com um individualismo desregulado, com o culto do dinheiro, do sucesso, da imagem e do poder.

Mas mesmo com tudo isso não devemos supor que seja apenas o nosso mundo ocidental que Jesus chamou para mudar de vida. O Senhor afirma duas vezes, no texto de Lucas de onde partimos (13, 3.5): “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis!”. A loucura da autodestruição, que assume inúmeras formas nas culturas de hoje, ameaça a todos. Os espectros da corrupção, do mal governo, da prevalência dos interesses privados e tribais sobre os públicos, da ditadura e do primado da força e das armas, estão sugando o sangue de inúmeros pobres da terra… Seria fácil demais encontrar um único bode expiatório e uma única vítima. Ervas daninhas e boa vontade estão profundamente entrelaçadas em todos os cantos do planeta. Jesus sabe que o mal está escondido no coração de cada homem e de cada cultura, sabe que somos “uma geração incrédula e perversa” (Mt 17,17).

Em outras palavras, devemos perceber que certas pragas que assolam o mundo (e das quais os conflitos bélicos e os atentados são uma das manifestações) não são culpa apenas de um ou outro indivíduo ou povo distante ou próximo de nós, mas somos todos de alguma forma, cada um por sua parte, coniventes e corresponsáveis.

Se, impulsionado por eventos trágicos que nunca teríamos sequer pensado imaginar, o convite de Jesus para mudar a escala de valores e critérios de juízo começasse a ser aceito, surgiria uma sociedade mais disposta a pensar, uma juventude menos dissipada e menos ávida de divertimentos, consciente de suas responsabilidades com o futuro do planeta; disposta também a ouvir o chamado a abrir-se a existências consagradas ao serviço total de Deus e do próximo. E de todo este início de caminho positivo nós, graças a Deus, somos também as felizes testemunhas, apesar do pouco que sabemos olhar ao nosso redor com os olhos da esperança.

O grande bem da paz

Mas não poderia concluir este discurso sem retornar ao que foi a sua principal inspiração desde o início, ou seja, o grande bem da paz: se de fato começamos por ouvir Jesus que falava da violência (Lc 13, 1-5), só foi porque a ele – e hoje à sua Igreja – algo importa imensamente: a paz!

De fato, a paz é o maior bem humano, porque é a soma de todos os bens messiânicos. Assim como a paz é a síntese e o símbolo de todos os bens, a guerra é a síntese e o símbolo de todos os males. Nunca se pode querer a guerra por si mesma, porque é uma violação sistemática dos direitos humanos fundamentais. Haverá, no máximo, casos de legítima defesa de bens irrenunciáveis. No entanto, a luta contra a ação injusta, muitas vezes obrigatória e meritória, deve permanecer dentro dos limites estritamente necessários para se defender de forma eficaz. Também poderiam ser necessárias ações corajosas de “ingerência humanitária” e intervenções destinadas a restaurar e manter a paz em situações de gravíssimo risco. Mas ainda não serão a paz.

A paz não é apenas ausência de conflito, cessação das hostilidades, armistício. Tampouco se trata apenas da remoção de palavras e gestos ofensivos (Mt 5, 21-24), nem mesmo de perdoar e renúncia à vingança, ou saber ceder para não entrar em uma contenda (cf. Mt 5, 38- 47). A paz é fruto de alianças duradouras e sinceras (enduring covenants e não só enduring freedom), a partir da aliança que Deus faz em Cristo perdoando o homem, reabilitando-o e dando-se como parceiro de amizade e diálogo, em vista da unidade de todos a quem Ele ama.

Em virtude dessa unidade e dessa aliança, cada um vê no outro sobretudo um semelhante a si, como ele amado e perdoado, e se for cristão, lê no seu rosto o reflexo da glória de Cristo e o esplendor da Trindade. Pode dizer ao irmão: você é extremamente importante para mim, o que é meu é seu. Eu amo você mais do que a mim mesmo, suas coisas importam mais para mim do que as minhas. E como me preocupo com o seu bem, me preocupo com o bem de todos, o bem da nova humanidade: não mais apenas o bem da família, do clã, da tribo, da raça, da etnia, do movimento, do partido, da nação, mas o bem de toda a humanidade: isso é a paz.

Toda ação contra esse “bem comum”, esse “interesse geral” tem suas raízes no medo, na inveja e na desconfiança. Gera conflitos e alimenta os ódios que causam as guerras. Será necessário toda uma história e uma super-história de graça para realizar esse caminho. Mas esta é a paz que é o objetivo da vida humana.

Alguns imperativos imediatos

1. Em primeiro lugar, temos uma grande necessidade de perceber dentro de nós uma fonte de paz que nos abra à confiança na possibilidade de passos concretos e simples para uma mudança de estilo de vida e critérios de juízos, única via para um caminho sério sobre a paz. Evitemos nos deixar entorpecer por um clima consumista pré-natalino que corre o risco de remover as sérias questões que emergiram desses fatos dramáticos.

2. Para evitar ser arrastados, mesmo não intencionalmente, num choque de civilizações, será necessário exercitar-nos na arte do diálogo, que parte de uma consciência clara da própria identidade e da riqueza das linguagens com que expressá-la e torná-la acessível desmontando os preconceitos, as ambiguidades e os falsos entendimentos.

3. Para isso será importante aprender a conhecer as outras religiões, em particular o judaísmo e o islamismo, examinando suas histórias, literaturas, riquezas espirituais, profundidades místicas, pluralismo expressivo, mas também social e político.

4. Mas, sobretudo, será necessário educar a gestos, pensamentos e palavras de perdão, compreensão e paz, aplicando tolerância zero para qualquer ação que expresse sentimentos de xenofobia, antissemitismo, menor respeito a qualquer sentimento e tradição religiosa. Isso exige que os outros também respeitem e apreciem aqueles sinais religiosos que foram e ainda são para nós o caminho e o símbolo que nos permite hoje oferecer hospitalidade e paz a todos.

5. É supérfluo recordar o quanto as escolas e a universidades são chamadas a educar para o diálogo, para o debate sereno, para ajudar a refletir com argumentação sobre os graves problemas em discussão em nível internacional, mas também nacional e regional (e não apenas, portanto, sobre os temas da paz e da guerra, mas também hoje sobre temas para nós graves e urgentes, como a justiça e a saúde). Nesse sentido, a tarefa e a responsabilidade da autonomia escolar serão grandes.

Conforta-nos e nos dá esperança o aniversário que será lembrado amanhã, aquele da abertura, há 80 anos, a poucos metros desta Basílica de Santo Ambrósio, na via Sant’Agnese, dos cursos da recém-criada Universidade Católica do Sagrado Coração. Começou com 68 inscritos. Hoje são mais de 40.000.

Desejamos a eles e a todos os jovens do mundo que sejam, para o milênio que se inicia, como os “vigias da manhã” que anunciam o dia da tão desejada paz.