Após a água, o chá é a bebida mais consumida no mundo. Servida quente ou gelada, a infusão impulsiona os pequenos agricultores, o crescimento económico dos países em desenvolvimento e a saúde das populações. Uma herança cultural que continua a confortar.

CARLOS REIS
Revista Além-Mar, Julho-Agosto 2022

As origens do chá remontam a mais de cinco mil anos, mas as suas contribuições para a saúde, cultura e desenvolvimento socioeconómico são cada vez mais relevantes. Na actualidade, o chá é cultivado em áreas muito localizadas, apoiando mais de 13 milhões de pessoas, incluindo pequenos agricultores e as suas famílias, que são responsáveis por 60% da produção mundial e dependem do sector do chá para a sua subsistência. 

A importância da bebida vai além do simples gesto de verter água quente sobre folhas de chá. Durante a pandemia, o chá levou conforto a milhões de pessoas ao redor do mundo, registando-se um aumento da procura, especialmente entre consumidores jovens que descobriram o gosto pela bebida devido aos benefícios de hidratação e à sensação de bem-estar.

A planta do chá contribui para a socialização, o património cultural, o desenvolvimento rural e para os meios de subsistência sustentáveis. É uma das principais e mais lucrativas culturas agrícolas para as famílias nos países em desenvolvimento e, como sector de trabalho intensivo, incluindo o processamento, fornece empregos em áreas remotas e economicamente desfavorecidas. 

A bebida é apreciada por milhões de pessoas, da China à Argentina, da Índia ao Reino Unido, sendo que cada cultura tem a sua própria tradição ao tomar chás branco, verde, preto e oolong ou blends [misturas de chás com infusões de ervas].

A cadeia produtiva do chá movimenta mais de 17 mil milhões de dólares por ano, além dos 9,5 mil milhões de dólares gerados pelo comércio global do produto. «O sector de chá contribui para os principais Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, reduzindo notavelmente a pobreza e erradicando a fome. Cria empregos, gera rendimento e melhora os meios de subsistência das comunidades envolvidas em actividades de produção», reconhecem as Nações Unidas. A China, Índia e Sri Lanka (na Ásia) e Quénia (em África) são os principais produtores de chá no mundo.

Produção e consumo

A produção mundial de chá preto deverá aumentar 2,2% por ano, alcançando 4,4 milhões de toneladas em 2027. Já a produção de chá verde aumentará 7,5% por ano, alcançando 3,6 milhões de toneladas em 2027. Na China, a produção deverá mais que duplicar no período, atingindo 3,3 milhões de toneladas, ainda que a mudança climática seja uma ameaça, revela o relatório International Tea Market 2022, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O estudo realça que haverá novas oportunidades de rendimento em áreas rurais e uma melhoria na segurança alimentar nos países produtores.

O consumo de chá tem aumentado com rapidez na China, na Índia e em outros países emergentes, graças ao maior rendimento das famílias e à diversificação na produção, que agora inclui chás de ervas, infusões de frutas e chás especiais. A procura global também está a ser beneficiada por novos consumidores jovens urbanos asiáticos, o que se traduz numa diminuição da produção exportável. 

O aumento no consumo está também ligado a uma maior consciencialização das pessoas sobre os benefícios anti-inflamatórios e antioxidantes dos chás, além de algum efeito na perda de peso. «Os consumidores estão dispostos a pagar mais por chás especiais e curiosas para aprender sobre a qualidade, a origem da matéria-prima e a contribuição para o desenvolvimento sustentável», aponta o relatório da FAO.

Por outro lado, os países europeus com tradição na importação de chá verificam uma queda no consumo. O mercado da região está altamente saturado, enfrentando a competição com outras bebidas, principalmente água mineral e de nascente e café. Uma tendência que poderá ser invertida com uma aposta na promoção de chás especiais ou orgânicos. A diferença entre os produtos especiais e os tradicionais é a qualidade das folhas, o corte mais inteiro e o processo de secagem. 

Agora, depois da turbulência no comércio global de chá causada pela pandemia, há novas preocupações com a exportação para a Rússia, o terceiro mercado de chá mais valioso do mundo. «O chá está isento das sanções económicas. Provavelmente uma grande quantidade será importada pela Rússia da Índia e do Sri Lanka. A longo prazo, não haverá uma grande interrupção no comércio», esclarece Ian Gibbs, presidente do International Tea Committee. Os países com maior consumo per capita continuam a ser a Turquia, Irlanda, Marrocos e China.

Problemas e incertezas

O sector do chá enfrenta uma série de desafios para garantir a sua sustentabilidade a longo prazo. As plantações são altamente sensíveis a alterações nas condições de crescimento e alguns países produtores vão sofrer os impactos da mudança climática, como cheias e secas. Ao mesmo tempo, é necessário reduzir as emissões de carbono geradas com a produção e processamento.

O chá é produzido em sistemas de monocultura de sequeiro e as condições climáticas determinam o crescimento. A planta arbustiva Camellia sinensis, de origem asiática, pode atingir os 10 metros de altura. Quando em cultura, é podada para que não ultrapasse um metro de altura. A colheita de folhas inicia-se quando os arbustos atingem um metro e termina ao fim de cerca de vinte anos. 

O aroma das folhas de chá depende da natureza do solo e do clima. Por exemplo, para produzir chá preto as folhas são deixadas a murchar e enroladas e, posteriormente, são expostas ao ar para dar continuidade ao processo de oxidação, fermentação e secagem. Para produzir o chá verde, as folhas são esterilizadas com vapor, sendo depois enroladas e secas de modo a produzir um chá com um sabor mais leve e herbáceo.

Mudanças nas temperaturas e chuvas afectam não apenas a qualidade, mas também as propriedades das folhas das plantas. O Grupo Intergovernamental da FAO (IGG) recomenda medidas de adaptação como o plantio de chás tolerantes à seca, a diversificação da produção com outras culturas arbóreas, o cultivo orgânico e o investimento em tecnologias de conservação da água. «O sector do chá deve ser sustentável ambiental, social e economicamente, da folha à chávena», preconiza Qu Dongyu, director-geral da FAO, que aponta ainda para a inclusão e a promoção da transparência do mercado.

Também a inovação e a diversificação de produtos são fundamentais para a expansão do mercado e para impulsionar o consumo, de que é exemplo o chá aromatizado pronto a beber e o chá gelado gaseificado. Ter falta de chá nunca é aceitável.   

Chá missionário

Viver em família «é como preparar um chá: é fácil ferver a água, mas uma boa taça de chá requer tempo e paciência; é preciso deixar em infusão!», foi a comparação que o Papa Francisco usou durante a visita que fez, em 2015, à Bolívia, país andino onde não deixou de beber a tradicional infusão de coca, bebida feita com as folhas secas da planta e que permite amenizar os efeitos da altitude. O pontífice é um grande apreciador do mate, pois na Argentina, o seu país natal, é bebida nacional [o mate é uma infusão feita com as folhas de uma árvore nativa da floresta subtropical da América do Sul, conhecida por erva-mate]. É preparado pondo-se a erva-mate tostada com água quente e ficando em infusão; pode ser servido quente ou frio.

No século XVII, a erva-mate teve um papel importante na obra de evangelização da América Latina. Os missionários encarregaram-se de humanizar, aperfeiçoar e racionalizar a colheita da erva-mate selvagem utilizada pelos indígenas. A ordem religiosa católica Companhia de Jesus foi precursora no cultivo, industrialização e distribuição da erva considerada “ouro verde”, pelas suas características estimulantes, o que permitiu aumentar o potencial de trabalho e diminuir o consumo de álcool, ainda que os Jesuítas tenham começado por considerar desfavoravelmente e só depois aceitar a infusão, sobretudo para ajudar os camponeses que cultivavam chá. 

Na região, a erva-mate é um grande recurso para auxiliar no pagamento de tributos ao reino espanhol e o seu consumo enraíza-se na Argentina, Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile. Quatro séculos depois, mantém-se a tradição do chá de erva-mate; na calabaza (vasilha de couro e metal) com bombilla (canudo de metal), é apenas necessário juntar água quente às folhas trituradas depositadas no recipiente, e degustar, inclusive, num ritual de partilha comunitária (como é comum na Argentina), com um forte simbolismo de amizade e fraternidade.