O padre Feliz, missionário comboniano, partilha as suas vivências missionárias na terra onde São Daniel Comboni desenvolveu a sua missão, o Sudão.
Revista Além-Mar, Marco 2022

No Sudão, mais do que a pandemia, a maior dificuldade é a insegurança social e política que fazem com que o país esteja à beira do colapso económico. O povo tem tido muita coragem para resolver o problema, mas o governo militar segura o poder com as armas. No entanto, o povo sudanês continua a sua luta de forma não-violenta com múltiplas manifestações na rua. A esperança é a última a morrer.

A nossa diocese de El Obeid (com uma extensão cerca de 15 vezes maior do que Portugal) está nestes dias a celebrar 150 anos da sua fundação. Foi com emoção que ouvi o nosso bispo na homilia da missa solene evocar o gigante missionário S. Daniel Comboni que, no início da sua acção missionária aqui nesta zona, escrevia aos seus amigos na Europa: «Finalmente, trouxemos a este povo a Bíblia, a Cruz e a Eucaristia. Agora há que ajudar a crescer este pequeno e humilde início de Evangelização.»

Desde então até hoje passaram 150 anos. A pequena e humilde semente cresceu e está a dar o seu fruto. É verdade que, nestes últimos anos, os missionários europeus estamos a diminuir. No entanto, o lema de S. Daniel Comboni – salvar a África com a África – está a verificar-se a olhos vistos. A Igreja local está a crescer cada vez mais em número de baptizados, vocações sacerdotais e religiosas. E, no dia 8 de Fevereiro, tivemos mais uma ordenação sacerdotal. Foi o jovem Mutawakel, que, com o seu “sim” a Jesus Cristo que o chamou, nos deu essa grande alegria.

Minoria cristã

Os cristãos no Sudão são uma ínfima minoria, realidade que por vezes dificulta e põe em risco a prática da fé cristã. É verdade que da parte dos nossos irmãos islâmicos abundam os testemunhos negativos de intolerância e fanatismo religioso. Mas, felizmente, e em abono da verdade, existem também lindos e ricos testemunhos a compensar a mediocridade da intolerância religiosa de outros.

Neste contexto, dou graças a Deus por ter presidido à santa missa do primeiro ano de aniversário da morte de uma jovem mãe. A igreja teve casa cheia. É de notar que a iniciativa deste evento litúrgico veio da própria família (muçulmana) da falecida. Uma celebração que me comoveu profundamente. Chamava-se Kaussar e era a única cristã numa família em que os seus pais e oito irmãos são todos muçulmanos. Era ela mesma quem testemunhava junto dos colegas a liberdade, o respeito, o apoio e a dignidade com que sempre fora tratada pelos membros da sua família.

Após a santa missa, fomos todos convidados para o tradicional almoço-convívio. Naquela mesma hora, na distante capital do país, Cartum, onde ela tinha vivido com o marido e os filhos, estava a ser celebrada a mesma festa eucarística pelo seu descanso eterno.

Este belo exemplo de diálogo e convívio inter-religioso não é um acontecimento isolado. Pelo que a seguir deixo aqui outro testemunho análogo. Chama-se Abdallah Hussein e é o único cristão numa família de nove filhos, na qual todos os outros membros (os pais e os restantes filhos) são muçulmanos. Abdallah é padre diocesano e, actualmente, desempenha o cargo de vigário-geral desta nossa diocese de El Obeid.

A semente pequena e humilde plantada por S. Daniel Comboni cresceu e está a dar os seus frutos.