Os Missionários Combonianos chegaram a terras asiáticas há trinta e quatro anos, estabelecendo-se nas Filipinas em Janeiro de 1988. Neste grande continente testemunham, muitas vezes silenciosamente, a beleza e a alegria do Evangelho, e animam os baptizados a serem missionários sem fronteiras

P. DAVID DOMINGUES
Revista Além-Mar Janeiro 2022

A missão nunca acontece por acaso nem é fruto de um planeamento cuidadoso, pois acreditamos que a missão não nos pertence, mas ao nosso Deus missionário que, por intermédio do Espírito Santo, continua a inspirar, impulsionar e tornar frutuoso o nosso trabalho missionário. Foi no dia 4 de Janeiro de 1988 que os Missionários Combonianos puseram os pés no Extremo Oriente, nas Filipinas. Um humilde começo num continente que é o lar da maior parte da Humanidade. A semente foi plantada neste grande arquipélago, que ainda está a celebrar os 500 anos de evangelização, evocando a chegada do Cristianismo ao arquipélago na viagem de Fernão de Magalhães em 1521. Actualmente, o país tem 109 milhões de habitantes, dos quais 90,8% são cristãos.

Prioridades missionárias

A vontade de ouvir e seguir o impulso do Espírito levou ao estabelecimento audaz de uma presença comboniana em Macau (China) a 6 de Janeiro de 1992 e, dez anos mais tarde, em 2002, em Taipei, Taiwan. Duas posições estratégicas para abrir horizontes em direcção à China continental. Sem demora, em 1999, foi formalizada uma projecção especial na China sob o nome de Fen Xiang (partilha, em chinês). E, com o sopro do Espírito, os Missionários Combonianos começaram uma presença no Vietname no dia 26 de Julho de 2015.

Como discípulos do Senhor, sob a inspiração de São Daniel Comboni, concentrámos o nosso serviço missionário em duas áreas principais: nas Filipinas e no Vietname, temos trabalhado na animação missionária, promoção vocacional e formação, enquanto na «Missão China» (Macau e Taiwan), concentramo-nos na primeira evangelização, no anúncio do Evangelho, na formação da fé e no acompanhamento dos catecúmenos, ao mesmo tempo que fazemos algum trabalho pastoral. 

Damos, igualmente, prioridade a uma estreita colaboração com a Igreja local. Embora sejamos um pequeno grupo de missionários espalhados por várias frentes de missão, existe um grande empenho e entusiasmo em realizar os nossos trabalhos, dando também visibilidade à paixão de São Daniel Comboni por difundir a fé e servir os mais pobres, tanto no âmbito material como espiritual.

A Ásia e o seu povo, enquanto compromisso missionário, apresentam múltiplos desafios no âmbito social, político e religioso. Mas há três verdades/factos fundamentais que devemos ter em mente como missionários neste continente. Em primeiro lugar, nunca devemos esquecer que a Ásia é o seu povo. Aqui vive mais de 60% da raça humana; quase dois terços da população mundial e 15% da superfície terrestre. Em segundo lugar, a Ásia é religião! Sabemos que é o berço e o lar das grandes religiões do mundo: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo são originários da Ásia Ocidental; o Hinduísmo, Budismo, Jainismo e Sikhismo nasceram na Ásia do Sul; o Confucionismo, o Taoísmo e o Xintoísmo surgiram na Ásia Oriental; para não mencionar as religiões primigénias dos grupos indígenas. Os cristãos constituem apenas 2% da população da Ásia e metade deles encontram-se nas Filipinas. 

Esta variedade constitui uma grande riqueza espiritual, mas também implica o desafio do diálogo inter-religioso, da coexistência pacífica e da colaboração. Muitas vezes, os conflitos ainda estão presentes e constituem um escândalo prejudicial. Além disso, chama-nos a ser testemunhas corajosas da fé que professamos, acreditamos e vivemos na nossa vida quotidiana.  Finalmente, a Ásia contém grandes grupos de pessoas que são também social e economicamente pobres. As grandes desigualdades sociais são um grande escândalo e estão a aumentar a um ritmo acelerado. 

Ter a Ásia no coração

Conscientes e gratos pelo caminho missionário que a Igreja nos seus diversos grupos já realizou na Ásia, sabemos que o nosso contributo, embora pequeno, tem um papel importante a desempenhar, partilhando a riqueza do nosso carisma comboniano e centrando o nosso trabalho na evangelização e na animação missionária das forças eclesiais existentes. 

Acreditamos firmemente que a missão começa com um amor sincero à Ásia e aos seus povos, caracterizados por essa vasta gama de culturas e línguas. Com o desejo de assumir com audácia este compromisso, sentimos que a missão nestas terras nos chama a estar abertos, atentos e receptivos, a permanecer perto das pessoas, a relacionar-nos com elas com profundo apreço e respeito, a olhar para a História e a realidade dos povos asiáticos como o terreno fértil onde Deus nos chama a ser semeadores do Evangelho, mais com o testemunho pessoal do que com as palavras. 

Sabemos que Deus precedeu todos os missionários e ajuda-nos a pensar em Cristo ressuscitado, que vai diante dos Apóstolos para a Galileia (Mc 16, 7), com pleno conhecimento de que somos meros instrumentos e que Ele continua a agir na História e a guiar o seu povo de diferentes modos.

Mais do que fazer muitas coisas, a Ásia chama-nos a abraçar uma missão de solidariedade com os descartados da sociedade, e a participar activamente em movimentos que estão comprometidos na luta pela alimentação, o trabalho, a liberdade e a dignidade humana. Neste aspecto, inspira-nos o amor de São Daniel Comboni aos pobres e os seus incansáveis esforços para os ajudar; a exemplo do nosso fundador, não queremos desistir perante tantas forças destrutivas, nomeadamente a corrupção generalizada, a perseguição activa aos membros da Igreja, o abuso e a exploração dos trabalhadores e a opressão dos pobres. 

Na nossa paixão pela missão, recusamo-nos a desistir e persistimos a estar com aqueles que sofrem, mesmo se, por vezes, simplesmente entregamos tudo ao Senhor em oração. Sim, aqui, a missão de contemplação e oração é crucial para satisfazer as exigências da viagem. 

Embora encontremos muitos obstáculos, devido a regimes políticos corruptos e abusivos, interesses económicos corruptos e mesmo as nossas próprias deficiências, não nos afastamos do objectivo principal de apresentar e testemunhar o Evangelho. Os símbolos usados nos textos do Evangelho ajudam-nos a compreender-nos a nós próprios neste contexto asiático particular: somos chamados a ser «luz, sal, fermento, fragrância» (cf. Mt 5,13-16; 13,33; cf. 2 Cor 2,14-16). 

Aprender com a rosa

Conta-se que o conhecido indiano Mahatma Gandhi, cujos ensinamentos inspiraram muitos a procurar nele sabedoria e orientação, aconselhou um grupo de missionários cristãos dizendo: «Falais de mais. Olhai para a rosa. Também ela tem um evangelho para difundir. Ela fá-lo de forma silenciosa, mas eficaz, e as pessoas acodem a ela com alegria. Imitai a rosa.»

Que recomendação poderosa e apropriada para os missionários, provavelmente em todo o lado, mas, certamente, mais oportuna neste meio asiático, onde a missão consiste em semear pacientemente, sem pretender resultados rápidos. Uma missão que exige, verdadeiramente, a conversão de mentes e corações, acreditando plenamente que Deus, o nosso Deus missionário, está no controlo, não nós! Embora desafiadora, esta abordagem é também libertadora, pois dá-nos a liberdade de encontrar grande alegria em sermos simplesmente semeadores, «dando gratuitamente o que recebemos gratuitamente» (cf. Mt 10,8).

A missão nestas terras está longe de estar cumprida. Os trabalhadores ainda são poucos, mas confiamos que o Senhor despertará nos jovens asiáticos a paixão e a generosidade para servir neste grande continente e noutros continentes em missão ad gentes, inspirados pela paixão e o zelo apostólico de Comboni, cujo coração foi conquistado, quando ainda era criança, pelos mártires do Japão.