GIOVANNI ANTONELLO, missionário comboniano
Revista Além-Mar Dezembro 2021

A realidade dos cristãos no Egipto é a de uma minoria variada. Nem sempre é possível viver como irmãos, as diferenças levam facilmente a atritos. No entanto, as realidades do encontro e da fraternidade são reais e possíveis. O Mosteiro Anafora é um lugar que testemunha isso mesmo.

Aqui nas margens do Nilo, a religião é parte integrante da identidade de uma pessoa, tanto que está escrita no documento de identidade de todos. Como missionário comboniano no Egipto durante quatro anos, encontrei muitos egípcios cujos bilhetes de identidade contêm a palavra «cristão». Por detrás dessa palavra, no entanto, existe um mundo real. Os egípcios cristãos são cerca de 10% dos 100 milhões de habitantes do país, de acordo com algumas estimativas, cerca de 15% ou 20%. É a presença cristã numericamente mais importante em todo o Norte de África e Médio Oriente.

A maior parte desses cristãos são coptas ortodoxos, pertencentes à Igreja herdeira da tradição monástica milenar do deserto e da escola teológica mais famosa dos primeiros séculos da era cristã, a Escola Alexandrina. A cidade de Alexandria também foi sede de um dos cinco principais patriarcados da Igreja primitiva. O chefe da Igreja Copta Ortodoxa é o patriarca de Alexandria e sucessor no ministério de São Marcos, o Evangelista, que, segundo a tradição, é o primeiro patriarca e evangelizador do Egipto.

A Igreja Copta é uma Igreja ortodoxa oriental, uma das Igrejas que se separaram da grande Igreja latina e grega após o Concílio de Calcedónia (451). Como tal, é independente e separada da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Grega, que reporta ao patriarca de Constantinopla.

Ao lado dessa maioria de ortodoxos, há também alguns cristãos egípcios, chamados coptas católicos, que, embora mantendo o seu rito copta, entraram em comunhão com a Igreja de Roma. Além disso, há um número crescente de egípcios que se identificam com várias denominações reformadas, incluindo anglicanos e várias igrejas evangélicas. Portanto, os cristãos egípcios são, na verdade, um universo variegado. Mas ainda não dissemos tudo sobre a realidade dos cristãos nas margens do Nilo. Com efeito, o Egipto sempre foi um porto de mar, um ponto de encontro de povos, culturas e religiões, em parte pela sua história e em parte pela sua localização geográfica. Ao longo dos séculos, grupos de gregos, turcos, malteses, libaneses, arménios, sírios, italianos, franceses, ingleses, sudaneses, eritreus e outras nacionalidades mudaram-se para o Egipto para criar raízes lá. Essas comunidades encontram-se sobretudo no Cairo e em Alexandria. Muitos membros desses grupos são cristãos de várias denominações que, ao longo do tempo, formaram locais de culto e comunidades religiosas.

A presença cristã no Egipto é, portanto, formada actualmente por uma grande variedade de nacionalidades, ritos e comunidades. Os diferentes ritos da Igreja Católica, as várias comunidades ortodoxas e a galáxia de Igrejas reformadas coexistem lado a lado nas margens do Nilo, muitas vezes com igrejas e locais de culto situados próximos uns dos outros.

Mosteiro ecuménico

Essa convivência nem sempre é fácil. Ser minoria, por um lado, pode levar a olhar para a pertença comum, sobretudo no que diz respeito à vida quotidiana. Por outro lado, esta situação traz consigo o risco de se tentar preservar o que se possui, e neste sentido a coexistência de diferentes ritos e Igrejas pode facilmente transformar-se em competição. Por isso, acolher cristãos de outras denominações não é de forma alguma uma atitude precipitada, mesmo e sobretudo por parte dos que dirigem as comunidades. O medo, a desconfiança, as velhas e novas fricções fazem-se sentir principalmente em relação aos sacramentos, ao casamento in primis e à formação e acompanhamento dos jovens.

Precisamente por meio de uma experiência vivida com os jovens, pude entrar em contacto com um lugar simbólico de abertura e encontro: o mosteiro copta ortodoxo de Anafora. O mosteiro foi fundado entre 1998 e 1999 por Dom Thomas, bispo ortodoxo de El-Qussia, no Alto Egipto. Carismático e com uma longa experiência de vida monástica, Dom Thomas entrou em contacto com algumas realidades europeias que são especialistas em ecumenismo, incluindo o conhecido mosteiro ecuménico francês de Taizé. Dom Thomas, como pastor de uma diocese predominantemente camponesa no Sul do Egipto com problemas relacionados com o trabalho, educação, convivência entre diferentes religiões e grupos, decidiu fundar um mosteiro numa área a norte do Cairo onde durante séculos viveram alguns padres do deserto. Além de oferecer uma oportunidade de trabalho para alguns jovens da sua diocese, especialmente raparigas (o mosteiro é na verdade um centro de retiros e conferências e possui uma grande área de terrenos cultivados de forma sustentável, com a ideia de tornar Anafora auto-suficiente), Dom Thomas desde o início queria que Anafora fosse um lugar de encontro e fraternidade para todos, especialmente os cristãos, qualquer que seja a sua denominação.

Acolhimento e fraternidade

O meu primeiro contacto com o Mosteiro de Anafora remonta a Novembro de 2018, altura em que, juntamente com um irmão e uma irmã comboniana, acompanhámos um grupo de jovens da paróquia do Cairo, onde eu então me encontrava, a um encontro de três dias organizado por dois monges de Taizé em colaboração com o Centro Anafora. Aqueles dias foram como um gole de água fria num dia quente de Verão. Éramos o único grupo de católicos entre uma grande maioria de ortodoxos e vários grupos protestantes, incluindo alguns de nacionalidade francesa que passaram um período de serviço no Egipto. Desde o primeiro momento, porém, percebeu-se que ali nos encontrámos não tanto como católicos, ortodoxos ou protestantes, mas como irmãos. Com uma simplicidade extraordinária, quase com arrebatamento, as diferenças foram superadas na oração e na reflexão conjunta, na escuta das experiências de diálogo e de serviço, na partilha simples das refeições e nos seminários de estudo. Naqueles dias pudemos respirar uma atmosfera de fraternidade, intercâmbio, escuta e aceitação mútua. Trago dentro de mim rostos, sorrisos, perguntas, trocas de opiniões e experiências com jovens egípcios de outras Igrejas que puderam escolher construir relacionamentos fraternos. A própria escolha dos oradores foi um sinal da mentalidade central do encontro e da qual Anafora é arauto: além de Dom Thomas, pudemos ouvir outra personalidade de grande preparação e abertura como Dom Munir Hanna, bispo da Igreja Anglicana no Egipto. A atmosfera que os habitantes de Anafora nos reservaram completou, por fim, o quadro. Ficou claro que os encontros ecuménicos da dimensão do que vivíamos não eram excepções, mas sim parte integrante da missão do mosteiro. Entre outras coisas, além dos monges, freiras e voluntários ortodoxos, também encontrámos alguns membros de Igrejas protestantes europeias que tiveram experiências de vida monástica ali com eles. Pode-se dizer que a fraternidade está em casa em Anafora!

Escrevo sobre essa experiência agora que se passaram três anos, porque existem realidades que ressoam por muito tempo na alma de cada um e que ganham um valor cada vez maior conforme a vida se desenrola e revela novas profundidades do que se viveu. Hoje revi aqueles dias que passei no Mosteiro de Anafora à luz da minha experiência como sacerdote missionário que viveu dois anos em Aswan, no Alto Egipto, e durante os quais aprendi a conhecer melhor os desafios deste povo e em particular dos cristãos egípcios. Os cristãos aqui são uma minoria que vive numa realidade da qual conheci por experiência tensões que podem explodir, na nem sempre fácil convivência entre diferentes grupos cristãos.

Também revi aqueles poucos dias de simples fraternidade à luz da pandemia de covid-19 e da encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti, na qual o desafio da fraternidade, ou da sua inexistência, surge de forma ardente. Tudo isso me faz compreender cada vez mais como lugares e experiências como a de Anafora são sementes de esperança de que o Egipto e toda a humanidade precisam desesperadamente. Num mundo onde a tentação de se fechar ao diferente, ao outro de qualquer espécie, se torna cada vez mais forte, um mundo onde construir muros, materiais ou mentais, se tornou uma solução cómoda e atractiva, onde o individualismo pessoal e de grupo corre o risco de se tornar regra, Anafora lembrou-me que ainda há quem se empenhe em construir pontes, em criar oportunidades de encontro e de diálogo. Ainda há quem seja capaz de acreditar que o outro é irmão, apesar e precisamente por causa das diferenças.

Anafora é uma dessas realidades, e graças a Deus são tantas, que atestam que podemos caminhar juntos até na diversidade. Para quem olha para Jesus Cristo, trata-se de caminhar juntos atrás Dele, sem fingir que possui a verdade, mas sabendo descobrir a beleza que Ele pôs em tudo e em todos. Há uma expressão que define tudo isto: amor fraterno. O sonho de uma humanidade regenerada e reconciliada só pode ser construída com os pequenos passos possíveis de acolhimento e fraternidade. Então, e só então, poderemos ser verdadeiramente um instrumento do «Espírito, cuja alegria secreta será sempre estabelecer comunhão e restabelecer a semelhança, brincando com as diferenças» (testamento espiritual do Irmão Christian de Chergé, monge trapista e mártir na Argélia).

O mosteiro de Anafora

Anafora é um mosteiro que funciona como centro de retiros e quinta localizado aproximadamente a 75 km a norte do Cairo, Egipto. Foi fundado por Sua Graça Dom Thomas, bispo de El-Qussia (Alto Egipto) no final de 1998. Anafora está localizado numa paisagem total de cento e vinte acres.

Anafora é uma palavra copta de origem grega que significa «oferecer», declina dos verbos «levantar, trazer para cima». É, pois, uma comunidade que vive plenamente a vocação de construir e elevar o espírito de quem a visita, uma realidade fecunda que se pretende ser um lugar de paz, serenidade, simplicidade e hospitalidade para todos, sem limites de caminhos, convicções e fé. Juntos, convidados e membros da comunidade criam a atmosfera única de Anafora. A letra copta alfa, historicamente descrita como uma ave, é o símbolo da Anafora como um lembrete da possibilidade contínua de um novo começo.