O Facebook volta a chamar a atenção internacional. Uma nova série de revelações com documentos internos da empresa, notas de seus altos executivos e vazamentos de seus empregados a atinge. As investigações mostram o impacto tóxico de suas plataformas na sociedade, como tem acontecido sucessivamente desde o escândalo da Cambridge Analytica de 2017. Neste caso, a diferença é que as provas sobre a mesa também evidenciam que o Facebook conhece a situação, a esconde e mente, quando necessário, para construir uma fachada de compromisso social que seus trabalhadores e dirigentes sabem que está muito distante de ser real.

A reportagem é Carlos de Castillo,
publicada por El Diario, 22-09-2021.
A tradução é do Cepat.
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A nova tempestade começou há dez dias com uma publicação do Wall Street Journal (WSJ) que revelou que o Facebook tem uma lista de usuários VIP, que podem ignorar as regras impostas ao restante. A rede social tem o interesse de tê-los como membros, senso assim, faz vista grossa. Como, por exemplo, quando o jogador de futebol Neymar Jr. publicou no Instagram fotos íntimas e mensagens privadas de uma mulher que o havia denunciado por estupro, sem nenhuma repercussão para ele.

“Diferente do restante de nossa comunidade, essas pessoas podem violar nossos padrões sem nenhuma consequência”, explicaram várias fontes da empresa ao meio de comunicação estadunidense. Uma revisão interna do Facebook descobriu a situação em 2019 e a comunicou à cúpula, que ignorou. “Esse problema é onipresente, abrangendo quase todas as áreas da empresa”, detalharam as mesmas fontes. “Na realidade, não estamos fazendo o que dizemos que fazemos publicamente”.

Mas o WSJ descobriu muito mais. Na segunda publicação de uma investigação que intitulou Os arquivos do Facebook, o meio de comunicação revelou que a empresa sabe que o Instagram acaba sendo tóxico para uma em cada três adolescentes. E sabe disso porque encomendou um estudo interno cujos resultados foram apresentados a altos executivos resumidos em slides que caíram nas mãos dos jornalistas.

“Fazemos os problemas com a imagem corporal piorarem para uma em cada três jovens adolescentes”, dizia um desses slides. “As comparações no Instagram podem mudar a forma como as adolescentes veem e descrevem a si mesmas”, revelava outro. “As adolescentes culpam o Instagram pelo aumento na taxa de ansiedade e depressão”, continuava a apresentação.

O Facebook negou ao longo do tempo possuir dados de que o Instagram tenha um impacto negativo nos jovens. Os empregados que vazaram os documentos alertam que também não fez nada para mudar a situação, já que teve plena consciência dela. Os resultados do estudo permaneceram em segredo.

O WSJ publicou cinco seções de Os arquivos do Facebook e todas seguem esse padrão. Trabalhadores da rede social descobrindo que a plataforma é utilizada para o tráfico de drogas e de pessoas em países em vias de desenvolvimento que recebem uma “tíbia resposta” por parte da empresa; campanhas para incentivar a imunização contra o coronavírus que falham diante da habilidade dos antivacinas para usar a plataforma em seu benefício; ou algoritmos para diminuir a polarização e o discurso de ódio que acabam provocando o contrário e que o Facebook mantém porque seduzem os usuários e isso significa dinheiro em seu bolso.

Sorry not sorry

O Facebook já havia sido acusado antes de alguns dos atos mais graves dos quais uma empresa privada pode ser acusada. Em suas costas, não possui apenas manchas como o escândalo de manipulação eleitoral da Cambridge Analytica, mas outras como ter sido denunciado pela ONU por ter desempenhado um papel de destaque no genocídio dos rohingya, em Mianmar, e não ter feito nada para evitá-lo.

O que as novas revelações apontam é a evidência de que a resposta que o Facebook oferece a tais tipos de acusações, pedindo perdão e prometendo melhorar, é falsa. Parte de um discurso publicitário e apenas para fora, que não transcende a sua estratégia como empresa. “Mais de uma vez, os documentos mostram que os pesquisadores do Facebook identificam os efeitos nocivos da plataforma. Mais de uma vez, apesar das audiências do Congresso, de suas próprias promessas e das numerosas denúncias dos meios de comunicação, a empresa não os solucionou”, destaca o WSJ.

“Os documentos talvez ofereçam a imagem mais clara até agora de como os problemas do Facebook são conhecidos dentro da empresa, até pelo próprio diretor executivo”, acrescenta o prestigioso meio de comunicação. Mark Zuckerberg foi o protagonista de muitos dos pedidos de desculpa diante do Congresso dos Estados Unidos e dos eurodeputados em Buxelas. A verdade é que quando retornava para suas dependências, relutava em aplicar mudanças nos algoritmos para causar menos ira e irritação nos usuários, com medo de que as interações diminuíssem, mostram os documentos que vazaram.

Um plano para esconder a toxicidade, não corrigi-la

O desejo de Zuckerberg não era melhorar o Facebook e o Instagram, mas esconder como podem ser nocivos. O New York Times publicou, nesta quarta-feira, mais informações internas que demonstram que a rede social aprovou, neste ano, mudar o algoritmo do News Feed (ou mural) para impulsionar a visibilidade das notícias positivas sobre o Facebook. A ideia é simples: se não podem mudar a percepção do Facebook que vem de fora, utilizará suas armas para influenciar seus usuários de dentro.

A mudança faz parte de uma estratégia mais ampla para mudar de tática diante da repetição de informações negativas sobre a empresa e vazamentos de documentos internos. Não haverá mais pedidos de perdão de Zuckerberg. Empregados e ex-trabalhadores da empresa acreditam que essa política de desculpas exacerbou a fiscalização sobre o Facebook, que consideram superior à recebida por outras multinacionais do setor, como Google e Twitter. “Estão percebendo que ninguém mais sairá em sua defesa, então, eles mesmos precisam agir e falar”, afirma Katie Harbath, ex-diretora de políticas públicas do Facebook.

A resposta de Zuckerberg a esta nova revelação do Times é uma prova da mudança de política. Normalmente com um perfil austero e inclusive de diálogo em certas ocasiões com as investigações dos meios de comunicação, dessa vez, Zuckerberg aproveitou a matéria para brincar com o fato: “Olha, uma coisa é a mídia dizer coisas falsas sobre o meu trabalho, mas é ultrapassar os limites dizer que estou pilotando uma prancha de surf elétrica, quando esse vídeo mostra claramente um hidrofólio que estou bombeando com minhas próprias pernas”.

O fundador do Facebook se referia a um vídeo que publicou, no último dia 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, em uma prancha de surf com hidrofólio, um dispositivo que pode se desprender da superfície da água ao ganhar velocidade. Zuckerberg carregava uma bandeira dos Estados Unidos, enquanto surfava, e como trilha sonora adicionou a música country Take Me Home, Country Roads, de John Denver. O New York Times apresentava este vídeo como a nova atitude pública de Zuckerberg.

A resposta oficial do Facebook às revelações do WSJ ficou a cargo de Nick Clegg, o ex-vice-primeiro-ministro do Reino Unido que Zuckerberg designou especificamente para lidar com tais controvérsias e suas derivações políticas. Em uma resposta um pouco confusa, Clegg não negou a autenticidade dos estudos internos e documentos publicados pelo meio de comunicação. O que é falso, afirma, é que o Facebook os ignore sistematicamente.

“O fato de que todas as ideias esboçadas por um pesquisador não sejam colocadas em prática, não significa que as equipes do Facebook não estejam considerando continuamente uma série de melhoras diferentes”, afirmou o blog da empresa, em um comunicado. Ao mesmo tempo, enfatizou que “é preciso mais pesquisas para determinar como as redes sociais impactam nas pessoas”.

O argumento de Clegg contrasta com o fato de que o Facebook nega sistematicamente qualquer solicitação de pesquisadores independentes e acadêmicos que pedem para analisar o sistema por dentro e sem amarras. Também com outra das revelações sobre a multinacional ocorrida nos últimos dias. Conforme descoberto pelo meio especializado The Markup, o Facebook implementou mudanças em seu News Feed que bloqueiam a possibilidade de que os reguladores e pesquisadores monitorem a plataforma com ferramentas externas.