Hoje somos quase todos levados a pensar que a tristeza é um sentimento negativo, uma experiência a eliminar, uma inquilina a expulsar. Submetemo-nos ao imperativo: «Não estejas triste».

Mas será mesmo verdade que a tristeza deve ser sempre combatida e negada? Não pode ser também um sentimento necessário para viver em plenitude e para realizar, atravessando-a, um caminho de humanização? Viver sem nunca conhecer a tristeza seria um empobrecimento: ficaríamos privados de uma experiência que pode ajudar-nos a ver a realidade diferentemente e com mais clareza, a viver a nostalgia, a recordação do passado, na doçura da aceitação daquilo que já não existe mas que foi belo e nos marcou para sempre.

Para não se ficar triste é necessário viver numa prisão dourada? Conta-se que o pai de Gautama, querendo que o seu filho não conhecesse a dor, fez murar o esplendido jardim do seu palácio, impedindo-o assim de sair e conhecer o mundo. As razões para se ficar triste estavam fora do jardim, pensava o pai. Um dia, porém, Gautama conseguiu sair e encontrou um doente, um velho decrépito e um morto. Conheceu a tristeza, mas essa foi a condição através da qual pôde procurar a iluminação e tornar-se o Buda.

Não devemos temer estes sentimentos, porque são necessários ao nosso discernimento do bem e do mal, ao nosso viver segundo uma ética absolutamente necessária à convivência

A tristeza nasce de realidades humaníssimas: a ausência, o sofrimento, a separação, a morte, o mal, mas estas fazem parte da vida e não é possível eliminá-las, a não aderindo a ilusões. Mas é decisivo que a tristeza originada pelos nossos encontros e pelos nossos conhecimentos não se torne um inquilino estável no nosso coração, não acabe por o possuir, ocupando-o inteiramente. Se isto acontece, então a tristeza obscurece-nos o olhar do coração e deixamos de perceber a luz de cada dia, o rosto que nos aparece em cada encontro, a beleza que, sempre elusiva, vence a fealdade. Neste caso, a tristeza torna-se sofrimento, até desespero, mas mais frequentemente acédia: a acédia é a má tristeza acompanhada pelo enfado e tem como sinal a ausência de lágrimas. Na tristeza, pelo contrário, pode-se chorar, e as lágrimas são já abertura à consolação.

Há, por isso – ousaria dizer – uma tristeza a acolher e proteger como um fruto que nasce da nossa consciência quando nos tornamos conscientes de ter feito o mal e contradito o bem, tristeza por causa das nossas culpas. Não devemos temer estes sentimentos, porque são necessários ao nosso discernimento do bem e do mal, ao nosso viver segundo uma ética absolutamente necessária à convivência. «Bonjour tristesse!» Podemo-lo dizer quando a tristeza se aproxima como melancolia, nostalgia, perturbação. Nestes casos somos surpreendidos pela tristeza que desce aos nossos corações e se faz perceber em certas horas silenciosas e quietas do dia: quando estamos sós ao pôr-do-sol – «sabes… quando se está muito triste, amam-se os pores-do-sol», diz o Principezinho), quando nos sentimos envolvidos pela penumbra e induzidos ao pensamento.

A tristeza atesta que nos falta alguma coisa, faz-nos conhecer incerteza e insegurança, mas torna-nos disponíveis para encontros imprevistos

Radiosa tristeza, chamam-lhe os Padres do Deserto, que torna o nosso coração humilde e não altivo, um coração que nunca vai à procura de coisas grandes, mas que sabe discernir o limite e a própria morte que está por trás de cada criatura que nos alegra. A música, sim, só a música sabe narrar plenamente a tristeza: penso no “rebetiko” tocado e cantado nas tavernas da Grécia; penso no flamenco, via privilegiada da expressão da tristeza, por vezes até trágica; escuto os “Noturnos” de Chopin…

A tristeza atesta que nos falta alguma coisa, faz-nos conhecer incerteza e insegurança, mas torna-nos disponíveis para encontros imprevistos. O Salmo diz que «ao cair da noite, vem o pranto; e, ao amanhecer, volta a alegria» (30, 6). Por isso, bom dia tristeza!

Enzo Bianchi
In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 13.07.2021
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