O ambiente em Pádua sugere que o Presidente do Brasil é persona non grata na cidade.” Ilustração © Ildo Nascimento, cedida pelo autor
7Margens | 31 Out 21
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O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em visita a Itália, será esta segunda-feira feito cidadão da pequena cidade de Anguillara Veneta, onde nasceu o seu avô, mas não terá honras de chefe de Estado na visita que pretende fazer no mesmo dia à basílica de Santo António, em Pádua.

A diocese local diz-se embaraçada e envergonhada com a visita e os frades franciscanos da basílica recusam-se a recebê-lo, ainda que não possam impedi-lo de entrar, como qualquer visitante ou devoto.

Numa zona de grandes ligações ao Brasil como é o Véneto, a que Pádua pertence, não pode ser indiferente o modo como Bolsonaro tem conduzido o país, especialmente no período da pandemia, quando é o próprio Parlamento a acusá-lo de crimes contra a humanidade.

Daí que a presidente da autarquia local, tida como próxima do partido de Salvini, tenha levado a uma recente reunião a proposta de atribuição da distinção de cidadão honorário a Jair Bolsonaro.

Vários grupos civis e de oposição política convocaram, entretanto, protestos para a manhã desta segunda-feira na praça da pequena cidade italiana. Um deles foi convocado pela secção regional de Pádua da maior associação antifascista italiana, a Associação Nacional dos Partisans Italianos (Anpi).

A diocese, por sua vez, emitiu um comunicado em que recorda a estreita ligação entre a terra veneziana, e especificamente Pádua, e o Brasil a partir da “grande história migratória, as relações mantidas com os nativos da região, pela presença missionária diocesana e pelas diferentes famílias religiosas que exercem o seu serviço naquele país”.

Lembra ainda “a sintonia e a amizade pessoal e eclesial com os bispos do Brasil que, nos últimos meses, têm vindo a denunciar vigorosamente a violência, os abusos, a instrumentalização da religião, a devastação ambiental e ‘o agravamento de uma grave crise de saúde, económica, ética, social e política, intensificado pela pandemia’”.

Daí que a Igreja de Pádua, “agindo como porta-voz de um sentimento generalizado e em virtude do vínculo” que a une ao Brasil “aproveita a possível passagem por Anguilara do Presidente Bolsonaro, para pedir-lhe encarecidamente que seja promotor de políticas que respeitem a justiça, a saúde, o meio ambiente, especialmente de apoio aos pobres”. E termina a nota dando conta do embaraço da visita: “Não escondemos que a concessão da cidadania honorária é motivo de forte constrangimento para nós, apanhados entre o respeito ao cargo principal do querido país brasileiro e as muitas e lancinantes vozes de sofrimento que cada vez mais nos chegam, e não podemos ignorar, vindas de amigos, irmãos e irmãs”.

Entre as reações vigorosas contra a visita contam-se, segundo a página Dom Total, as de muitos missionários italianos que trabalham em diversas regiões do Brasil.

O jornal Corriere del Veneto dá conta de que o ambiente em Pádua sugere que o Presidente do Brasil é persona non grata na cidade. Na basilica del Santo não está prevista qualquer receção institucional, segundo aquele periódico, que acrescenta: “Nem o novo reitor, padre Antonio Ramina (em funções há menos de três semanas), nem o delegado pontifício, monsenhor Fabio Dal Cin, nem o bispo, monsenhor Claudio Cipolla, o receberão, nem mesmo qualquer frade do complexo antoniano, propriedade do Vaticano”.

“Por outro lado – disse ao Corriere um dos frades antonianos, que preferiu o anonimato – estamos a falar de uma pessoa que acaba de ser acusada pelo seu próprio país de crimes contra a humanidade pela forma como lidou mal com a pandemia de covid, que causou mais de 600.000 mortes.”