A crise climática é uma história cheia de desigualdades. O aquecimento atual do planeta não surge agora, mas vem de anos e anos de via livre para emissões de gases do efeito estufa. Uma nova análise do meio de comunicação britânico Carbon Brief aponta os países historicamente responsáveis pela crise climática. A mensagem extraída é clara: caso as grandes nações não assumam parte da culpa e atuem como consequência, manter a temperatura em níveis aptos para uma vida sem sofrimento será cada vez mais difícil.

A reportagem é de Eduardo Robaina, publicada por La Marea-Climática, 06-10-2021.
A tradução é do Cepat.
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08 Outubro 2021

É fundamental olhar para o futuro para enfrentar esse desafio. Contudo, sem esquecer de onde se vem, por uma questão de justiça climática. Os países que mais prosperaram e enriqueceram ao longo da história executaram atividades que aquecem o planeta, como os combustíveis fósseis. Depois vêm as nações menos desenvolvidas, essas que pouco contribuem para as mudanças climáticas, mas que são e serão as que mais sofrerão seus efeitos.

Desde 1850 (época pré-industrial), os seres humanos lançaram na atmosfera, com suas atividades, cerca de 2,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), fazendo com que o planeta tenha esquentado 1,2 grau. Isso significa, como já destacado pelo IPCC em seu último relatório, que o planeta mal pode suportar outras 500 gigatoneladas de CO2, caso se pretenda manter a temperatura abaixo de 1,5 grau, pactuado no Acordo de Paris. Isso é o que se conhece como orçamento de carbono: a quantidade de carbono que é possível emitir em um período de tempo, caso se pretenda cumprir os objetivos climáticos.

Até o fim deste ano, já terão sido consumidos 86% do orçamento de carbono total que oferece 50% de probabilidade de se permanecer abaixo de 1,5 grau. Se o ritmo atual de emissões for mantido, o orçamento pode se esgotar em 10 anos.

Os Estados Unidos, sempre na liderança

Do século XIX até hoje, os Estados Unidos não saíram do primeiro lugar. São atribuídas ao país 20,3% de todas as emissões de CO2, o que significa que 0,2 grau de aquecimento é responsabilidade sua. Até terminar 2021, terão emitido mais de 509 GtCO2, desde 1850.

Em segundo lugar, muito distante dos Estados Unidos, está a China, com 11,4% das emissões de CO2 acumuladas até o momento e cerca de 0,1 grau de aquecimento. Pelo Carbon Brief, destacam que embora “a China sempre teve algumas emissões elevadas relacionadas à terra, seu rápido auge econômico do carvão, a partir do ano 2000, é a principal causa de sua posição atual”. Cerca de 85% das emissões acumuladas dos Estados Unidos e China provêm da queima de combustíveis fósseis e 15% do desmatamento. O terceiro lugar é ocupado pela Rússia, com 6,9% das emissões mundiais de CO2 acumuladas. Até 2007, foi o segundo maior emissor, sendo superado pela China.

Pela primeira vez, a análise inclui as emissões de CO2 do uso da terra e a silvicultura, para além das provenientes dos combustíveis fósseis. Isto faz com que o Brasil (4,5%) e a Indonésia (4,1%) estejam em quarto e quinto lugar, respectivamente. Como explicam os autores, os dois países estão entre os 10 primeiros porque a maior parte de suas emissões provém do desmatamento. No caso do país sul-americano, o desmatamento acelerou com o atual presidente, o ultradireitista Jair Bolsonaro.

Para encontrar um membro da União Europeia é preciso ir até a sexta posição. Trata-se da Alemanha, a quem é atribuído 3,5% das emissões acumuladas, fruto de sua indústria energética dependente do carvão. Em sétimo lugar está a Índia, com 3,4% do total de emissões. É seguida, com 3%, pelo Reino Unido, país anfitrião da cúpula do clima (COP26) que será realizada em Glasgow, em novembro. Os britânicos foram o terceiro maior emissor, de 1870 até 1970. Completam a lista dos maiores responsáveis pelas emissões históricas o Japão, com 2,7%, e o Canadá, com 2,6%.

Os números obtidos se baseiam nas emissões territoriais de CO2, que refletem onde ocorrem as emissões. Se fosse um país, as emissões do transporte internacional – procedentes da aviação e o transporte marítimo – ocupariam o décimo primeiro lugar na lista.

Para realizar esse trabalho, foram utilizados dados do Centro de Análises de Informação de Dióxido de Carbono, Our World in Data, Global Carbon Project, Carbon Monitor e estudos sobre as emissões do desmatamento e as mudanças no uso da terra.

Nenhum dos grandes responsáveis pela crise climática faz o suficiente

Dos 10 países que mais CO2 lançaram na atmosfera, ao longo dos últimos dois séculos, só quatro – Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha e Canadá – se comprometeram em reduzir suas emissões frente à COP. Não obstante, quase nenhuma nação – apenas uma, Gâmbia – faz o suficiente para frear o aumento da temperatura, conforme uma análise recente do Climate Action Tracker, que monitora os avanços dos estados em matéria climática.

Junta a ela, soma-se o relatório publicado no último mês pela ONU sobre os planos de redução de emissões de 191 países. Nele, conclui-se que com os atuais objetivos fixados pelos assinantes do Acordo de Paris, estima-se que as emissões aumentem 16% até 2030 e que a temperatura alcance os 2,7 graus, em 2100.

A análise do Carbon Brief também aborda os números em relação à população. Usar esse método faz com que países como China, Índia, Brasil e Indonésia desapareçam dos 10 primeiros lugares. Esses quatro representam 42% da população mundial, mas só 23% das emissões acumuladas entre 1850 e 2021. Ao contrário, os outros seis do ranking – Estados Unidos, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Japão e Canadá – representam 10% da população mundial e 39% das emissões acumuladas.

Caso sejam levadas em consideração as emissões acumuladas per capita, o primeiro lugar é ocupado pela Nova Zelândia, devido ao extenso desmatamento durante o século XIX, explicam os autores. Completam o pódio Canadá e Austrália. “As classificações per capita dependem em grande medida da metodologia utilizada e, diferente das emissões acumuladas, em geral, esses números não se relacionam diretamente com o aquecimento”, detalha Carbon Brief em seu artigo.

Em nível mundial, as emissões procedentes do uso da terra e a silvicultura se mantiveram relativamente constantes, durante os dois últimos séculos. Passaram de 3 GtCO2, em 1850, para as 6 GtCO2 atuais. Ao contrário, as emissões dos combustíveis fósseis duplicaram nos últimos 30 anos, quadruplicaram nos últimos 60 anos e quase se multiplicaram por doze no último século. Passou-se de 0,2 GtCO2, em 1850, para 37 GtCO2, em 2021. Apenas nos últimos 40 anos, foram liberadas metade do total acumulado desde 1850.