“Ao criar novos direitos civis, que não têm custo (basta uma multa a quem usa uma linguagem não respeitosa com a identidade de gênero), a esquerda deixa de cuidar daqueles sociais (trabalho, educação, saúde, pensões), a cuja erosão colabora proveitosamente há anos com as direitas neoliberais. As relações sociais são violentas não porque há homotransfobos por aí, mas porque a política miserável destruiu a solidariedade social e promoveu o ‘mérito’ e a competitividade”, escreve Daniela Ranieri, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 23-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

24 Setembro 2021
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Em um encontro com os jesuítas eslovacos por ocasião de sua última viagem pastoral, o Papa Francisco fez um discurso, relatado por Antonio Spadaro na La Civiltà Cattolica, que contém uma frase muito relevante do ponto de vista ético e antropológico.

Esta: “A ideologia de ‘gênero’ … é perigosa. É perigosa porque é abstrata no que diz respeito à vida concreta de uma pessoa, como se uma pessoa pudesse decidir abstratamente a seu gosto se e quando ser homem ou mulher”.

O Papa reiterou sua conhecida contrariedade com a “colonização ideológica” sobre o gênero, o que no passado havia chamado de “a doutrinação da teoria do gênero” (segundo um curto-circuito, para a direita ultracatólica Bergoglio, ao contrário, faria parte uma nova ordem mundial que defende o gênero como um projeto anti-humano. Carlo Freccero, em entrevista ao Foglio, assume essa convicção).

Em seguida, acrescentou: “A abstração é sempre um problema para mim. Isso não tem nada a ver com a questão homossexual. Quando falo da ideologia, falo da ideia, da abstração para a qual tudo é possível, não da vida concreta das pessoas”.

De um ponto de vista radicalmente secular e esquerdista, concordamos com o Papa. Vamos imediatamente limpar o campo de equívocos: esperamos que a lei Zan – que tem em seu centro o conceito de gênero – seja aprovada, porque se não passar será uma vitória da direita tradicionalista e do cínico ostracismo do partido de direita Italia viva. Ao mesmo tempo, nos permitimos algumas considerações.

A partir dos anos 1970 os Gender Studies anglo-saxões tiveram o mérito de obrigar o discurso público a sair das cercas do dualismo biológico para fotografar toda a realidade vital das orientações e das identidades, tanto que para algumas “escolas” hoje existem 31 gêneros sexuais. Nos campi estadunidenses, liberais e paradoxalmente tendentes à censura e à sexofobia, aqueles que reconhecem menos de 15 gêneros podem ser tachados de racismo. A teoria tornou-se um dogma, apesar de sua inspiração libertária. Este quadro inclui a ênfase sobre a “identidade fluida”: se é verdade que existem pessoas que se sentem neutras, ou que não querem se definir em nenhum gênero, ou que estão em transição de um gênero para outro, quando da academia se passa para a política o ritmo nunca é fluido nem neutro.

A identidade fluida pode se tornar, sob o machado legalista, nenhuma identidade. Isso é anti-humano, homogeneíza as diferenças e obriga a um relativismo mortífero e às vezes misógino (a escritora J.K. Rowling foi rotulada como homofóbica e transfóbica por dizer que as mulheres existem e que menstruam). A pergunta é: existe uma distinção entre proteger as pessoas das discriminações no trabalho recebida por causa de sua identidade de gênero e regulamentar por lei, com base em uma “teoria”, ou seja, um conjunto de leis incontestáveis (como as físicas), algo que pertence aos delicados e inefáveis movimentos da vida humana? Não sabemos se vai contra o desígnio divino, como diz o Papa, mas certamente a abstração cristaliza a vida.

A lei Zan prevê – além do sexo, gênero e orientação sexual – a identidade de gênero, ou seja, “a identificação percebida e manifestada de si mesmo em relação ao gênero, mesmo que não correspondendo ao sexo, independentemente de ter concluído um percurso de transição”. Mas, por exemplo: se para um emprego reservado a operárias se candidata uma pessoa que se sente mulher e que – mesmo sem ter feito a transição de homem para mulher – quer que a lei a reconheça como tal, é justo que tenha o emprego tendo a seu favor um currículo mais qualificado e uma força física superior em relação a uma mulher? Ou seria discriminatório não a contratar?

Como escreveu Franco Berardi “Bifo”, estudioso e agitador mental, enquanto as relações sociais se tornam cada vez mais ferozes, a política pensa em punir uma fobia.

Ao criar novos direitos civis, que não têm custo (basta uma multa a quem usa uma linguagem não respeitosa com a identidade de gênero), a esquerda deixa de cuidar daqueles sociais (trabalho, educação, saúde, pensões), a cuja erosão colabora proveitosamente há anos com as direitas neoliberais. As relações sociais são violentas não porque há homotransfobos por aí, mas porque a política miserável destruiu a solidariedade social e promoveu o “mérito” e a competitividade.

Deveria nos deixar com suspeitas que o patrocinador da fluidificação de gênero em benefício de nossa liberdade seja o capitalismo, que se mostrou pronto para se reposicionar, e com sua indústria, inclusive cultural, produz produtos fluidos e no-gender adequados a todas as identidades de gênero (tudo é possível, diz o fetichismo da mercadoria, tudo é feito à medida do seu desejo), enquanto precisamos de uma lei que reconheça o direito de ser como somos.