Formação Permanente – português 12/2020 (1)

Primeiro domingo do Advento
João Paulo II

Eis que virão dias —  oráculo do Senhor — nos quais eu realizarei as promessas… (Jer 33, 14.); lemos estas palavras do livro do profeta Jeremias e sabemos que elas anunciam o início do novo ano litúrgico e, ao mesmo tempo, o momento iminente já nesta liturgia, da natividade do Filho de Deus nascido da Virgem Maria. Para tal momento do ano litúrgico da Igreja, para esta grande e alegre solenidade, nos preparamos cada ano…

A Igreja prepara-se para o Natal de maneira muito particular. Recorda-nos o acontecimento que foi apresentado recentemente, no final quase do ano litúrgico. Recorda-nos, quero dizer, o dia da última vinda de Cristo. Nós viveremos adequadamente o Natal, isto é, a alegre primeira vinda do Salvador, quando estivermos conscientes da Sua última vinda com poder e glória grandes (Lc 21, 27), como declara o Evangelho… Nesta passagem há uma frase para que desejo chamar a vossa atenção: Os homens morrerão de pavor na expectativa do que vai acontecer ao universo (Lc 21, 26).

Chamo a atenção porque também na nossa época o pavor “do que vai acontecer ao universo” contagia os homens.

O tempo do fim do mundo ninguém o conhece a não ser o Pai (Mc 13, 32), e por isso, daquele medo, que se comunica aos homens do nosso tempo, não deduzimos nenhuma consequência no que diz respeito ao futuro do mundo. Ao contrário, é bem determo-nos nesta frase do Evangelho de hoje. Para bem viver a recordação da memória do nascimento de Cristo, é necessário ter bem presente a verdade sobre a última vinda de Cristo, sobre aquele último Advento. E quando o Senhor Jesus diz: Tende cuidado convosco… que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço (Lc 21, 34), assim não admira que sintamos que Ele fala aqui não só do último dia de toda a humanidade, mas também do último dia de cada homem.

Aquele dia, que fecha o tempo da nossa vida sobre a terra e abre diante de nós a dimensão da eternidade, é também o Advento. Naquele dia virá a nós o Senhor como Redentor e Juiz.

Assim pois, como vemos, é múltiplo o significado do Advento, que, como tempo litúrgico, tem início com o domingo de hoje.

Parece, todavia, que sobretudo o primeiro destes quatro domingos deste período nos quer falar da verdade do “passar”, a que são submetidos o mundo e o homem no mundo. A nossa vida terrena é um “passar” que inevitavelmente conduz ao termo. Todavia, a Igreja quer-nos dizer — e fá-lo com toda a perseverança — que este passar e aquele termo são, ao mesmo tempo, advento: nós não só passamos; mas simultaneamente nos preparamos! Preparamo-nos ao encontro com Ele.

A verdade fundamental sobre o Advento é, ao mesmo tempo, séria e alegre. É séria: ressoa nela o mesmo “vigiai” que ouvimos na liturgia dos últimos domingos do ano litúrgico. E é, ao mesmo tempo, alegre: o homem, de facto, não vive “no vazio” (a finalidade da vida do homem não é “o vazio”). A vida do homem não é apenas um aproximar-se do termo, que juntamente com a morte do corpo significaria o aniquilamento de todo o ser humano. O advento traz em si a certeza da indestrutibilidade deste ser. Se repete Vigiai e orai… (Lc 21, 36), fá-lo para que possamos estar preparados a comparecer diante do Filho do homem (Lc 21, 36).

Deste modo, o advento é também o primeiro e fundamental tempo de escolha: aceitando-o, participando nele, escolhemos o principal sentido de toda a vida. Tudo o que acontece entre o dia do nascimento e o da morte de cada um de nós, constitui, por assim dizer, uma grande prova: o exame da nossa humanidade.

E daí aquele ardente apelo de São Paulo: o apelo a potenciarmos o amor, a tornarmos firmes e irrepreeensíveis os nossos corações na santidade; o convite a todo o nosso modo de nos comportarmos (em linguagem de hoje dir-se-ia “a todo o estilo de vida”), à observância dos mandamentos de Cristo. O Apóstolo ensina: se devemos agradar a Deus, não podemos ficar parados, devemos andar para a frente, isto é, para nos distinguirmos ainda mais (1 Tess 4, 1). Assim é de facto. No Evangelho está um convite a progredir. Hoje o mundo está cheio de convites ao progresso. Ninguém quer ser “não progressista”. Trata-se, todavia, de saber em que consiste o verdadeiro progresso. Não podemos passar tranquilamente por cima destas perguntas. O Advento traz em si o significado mais profundo do progresso. O Advento recorda-nos cada ano que a vida humana não pode ser paragem. Deve ser progresso. O Advento indica-nos em que está este progresso…

É, pois, para Aquele que virá — para Cristo — que nos voltamos com plena confiança e convicção…

Domingo, 2 de Dezembro de 1979