“A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”
Deus nos vem também por César
29° Domingo
Tempo Comum (A)
Mateus 22,15-21
Referências bíblicas
- 1ª leitura: “Tomei Ciro pela mão para submeter os povos ao seu domínio” (Isaías 45,1.4-6)
- Salmo: Sl. 95(96) – R/ Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!
- 2ª leitura: Recordamos sem cessar vossa fé, vossa caridade e vossa esperança (1 Tessalonicenses 1,1-5)
- Evangelho: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,15-21)
Um Messias como não se esperava
Marcel Domergue
Deus e César

Não seria correto acreditar que a passagem do evangelho que lemos hoje seja por si mesma evidente e sem nenhum problema. Pois ela, de fato, reúne algumas das questões mais embaraçosas que atualmente se põem aos cristãos: tem a nossa fé alguma coisa a dizer com respeito ao funcionamento das nossas sociedades laicas? Não será a «religião» um assunto totalmente privado? À primeira vista, Jesus parece manifestar-se neste sentido. Problemas de impostos, de legislação social etc. não dizem respeito à fé. Certa vez não disse ele que ninguém o estabelecera para ser juiz ou árbitro de nossas heranças (Lucas 12,13)? Digamos que, nas coisas e no desenrolar dos acontecimentos, há uma lógica que, para ser exercida, não carece de nenhuma referência a Deus. Logo adiante veremos o sentido que é preciso dar a esta afirmação. Mas devemos admitir que pessoas que nunca ouviram falar de Deus nem do Evangelho podem tomar decisões e levar toda uma vida conforme a justiça e a verdade. Assim, pois, sem que o saibam, são autênticos filhos de Deus. Não há necessidade de vivermos com o nariz sempre para cima, esperando que Deus nos venha inspirar em decisões sempre conformes à sua vontade, vontade que, em tal contexto, se põe como mítica. As coisas falam por si mesmas e submeter-se ao real equivale a submeter-se a Deus. César é o gestor – em princípio, justo – da nossa vida social. No horizonte, podemos ver aí a separação entre Igreja e Estado.
Lei de Deus, lei do que é humano
Percebemos que o que acaba de ser dito é um pouco sumário. Corremos de fato o risco de imaginar dois domínios totalmente separados: de um lado, o universo da fé; e, do outro, um universo totalmente profano. Mas como pensar que seja lá o que for possa escapar de Deus? Seria o mesmo que admitir não ser Deus o criador de tudo o que existe! Não ser Ele a fonte única do real! Ou que existissem coisas que lhe escapassem e que, por consequência, não fossem nem ilustração (imagem) nem revelação do que Ele é. Ora, as coisas todas falam de Deus, conforme nos explica Paulo na Carta aos Romanos 1,20, acompanhando Sabedoria 13. Nada escapa à sua Lei. Numa outra linguagem, digamos que nada pode existir sem se construir segundo o Amor. Muito abstrato tudo isso? Não acreditamos, porque encontramos aí a fonte e a justificação de todo o trabalho dos crentes, tendo em vista uma sociedade mais justa. Mas, para que isso soe verdadeiro, devemos dizer que não há valores especificamente cristãos ou, antes, que estes valores somente são cristãos na medida em que, ao mesmo tempo, são humanos, o que nos põe no mesmo nível de todos os homens de boa vontade. César não teria poder algum se não lhe fosse dado «do alto» (João 19,11), mas deve-se confiar em seu julgamento e decidir com liberdade, para agir segundo Deus. Então, dando a César o que é de César, neste mesmo ato, damos a Deus o que é de Deus.
Deus nos vem também por César
Podemos concluir de tudo isso que devemos trabalhar para que as nossas sociedades se construam sobre o amor, assim como nos foi revelado em Cristo, mas sem que usemos argumentos de fé, de religião ou, resumindo, de qualquer vontade de Deus. Estamos a serviço de Deus servindo os outros, mas não podemos nos servir de Deus para nos justificar e impor as nossas escolhas. Isto seria fazer de Deus o instrumento da nossa dominação: não temos sabido sempre evitar esta perversão e muitas vezes temos confundido soberania de Deus com soberania da Igreja. O anticlericalismo é fruto direto do clericalismo. Deus pode muito bem cumprir a sua obra de amor pela ação dos não crentes. É o que nos revela a primeira leitura. Vemos aí que Ciro, rei dos Persas, ignorando tudo da fé de Israel, foi quem cumpriu o desígnio de Deus, restabelecendo o povo escolhido em sua soberania. O texto o chama de «consagrado», ou seja, «ungido», palavra que pode ser traduzida por «cristo». Deus tomou-o pela mão direita e o chamou por seu nome. Podemos dizer que Ciro, o pagão, é uma figura de Cristo. Por certo, este homem acredita simplesmente fazer o que é o bem. Eis porque Deus passou por ele. Deus revela assim que está ativo até mesmo aonde não se esperava. «Embora não me conheças, eu te cinjo, a fim de que se saiba desde o nascente do sol até o poente que, fora de mim, não há ninguém» (Isaías 45,5).
Nós somos imagens de Deus
Raymond Gravel
Às três parábolas do Reino dos três últimos domingos, se seguem, para as próximas duas semanas, duas controvérsias entre Jesus e seus adversários, os fariseus: a primeira (deste domingo) sobre o imposto pago a César e a segunda (domingo próximo) sobre o maior mandamento. Em Jerusalém, onde se aproxima a condenação e a morte de Jesus, vemos que os fariseus estão indispostos e procuram um meio para prender Jesus. Mas Jesus não permite e podemos dizer hoje que ele lhes devolve na mesma moeda: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). Não devemos esquecer que este texto de Mateus, assim como todos os outros, foi escrito depois da Páscoa, à luz da fé pascal, para uma comunidade cristã que certamente vivia em conflito com os romanos, mas especialmente com os judeus que consideravam o cristianismo uma seita temível e perigosa.
1. A controvérsia. Para compreender a controvérsia de hoje, temos que explicar o que é o imposto pago ao imperador, o tributo a César… Estamos na Judeia, uma província de Roma, no primeiro século da era cristã. As pessoas estavam sobrecarregadas com impostos. Havia um imposto que era cobrado para o rei Herodes, outro para o Templo de Jerusalém e os sacerdotes e um outro para o imperador de Roma, além de alfândegas, impostos e pedágios que todos os judeus tinham que pagar… E pior ainda, quando o imperador de Roma, César Augusto se divinizou a si mesmo, ele mandou inscrever na moeda: “O Divino César’, o que chocou alguns líderes judeus que se recusaram não apenas a pagar o tributo a César, mas até mesmo de usar sua moeda. No tempo de Jesus, havia os herodianos e os saduceus que mantinham boas relações com Roma; portanto, a moeda do império circulava pela Judeia. Por outro lado, os fariseus e os zelotes se opunham firmemente a isso… O que envenenava as relações entre Roma e a Judeia.
Esta situação nos permite compreender a cena do evangelista Mateus, onde vemos Jesus sendo questionado pelos discípulos dos fariseus, juntamente com os herodianos: “É permitido pagar o tributo a César, sim ou não?” (Mt 22, 17). A pergunta é realmente uma armadilha: quer Jesus responda sim ou não, ele se enrosca de uma ou de outra maneira. A fórmula: “É permitido…’, é a fórmula clássica para a observância da Lei de Moisés. Se Jesus responde que sim, isso significa que ele está em conluio com os romanos, que idolatram o imperador; mas se ele responde que não, isso significa que ele convida à desobediência e incentiva movimentos extremistas como os zelotes à revolta contra a ocupação romana.
Portanto, a resposta de Jesus é uma inversão da situação: ao pedir para ver uma moeda, ele arma uma armadilha, por sua vez, para os fariseus e os herodianos; ele desmascara sua hipocrisia, já que eles utilizam a moeda do imperador que eles carregam consigo, contra eles. Ele lhes disse: “De quem são esta efígie e esta inscrição?” (Mt 22, 20). Eles devem, portanto, responder à sua própria pergunta… E para mostrar que a política, o poder e o imperador não tinham nada a ver com Deus, Jesus acrescenta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).
A mensagem é esta: se a imagem cunhada na moeda é do próprio César, isso significa que a moeda pertence a César. Mas se nós seres humanos somos à imagem de Deus, isso significa que nós somos de Deus… Somos rostos de Deus. Pela dupla sentença: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é Deus”, Jesus desdiviniza o imperador e dessacraliza a sua moeda, e reconhecendo seu valor e devolvendo-o à sua própria responsabilidade. Ao mesmo tempo, Jesus afirma que o imperador não é contrário a Deus… O que pertence a Deus é de Deus e César não tem nenhum poder sobre isso.
2. Nossa dupla realidade humana. Infelizmente, muitas vezes este texto de Mateus foi usado para justificar a separação entre a Igreja e o Estado, entre a religião e a política, como se se pudesse separar completamente a dimensão espiritual e a dimensão material da nossa realidade humana. É verdade que as religiões não têm de impor seus pontos de vista às sociedades civis em sua visão sobre o mundo e sobre o modo de viver em sociedade. No entanto, as religiões podem dar as suas opiniões, interpelar as pessoas, propor um ideal evangélico… mas se o fizerem devem fazê-lo no respeito a cada um: sem julgamentos, sem condenações, com o cuidado da justiça, da equidade, da igualdade na dignidade em vista da Paz e da harmonia entre nós.
A este respeito, penso que a fé cristã influenciou muito as nossas sociedades ocidentais. É justamente esta influência religiosa que está na origem da Carta dos Direitos e das Liberdades, e que permite às minorias serem reconhecidas e respeitadas pela maioria. Entretanto, se as religiões se opõem à evolução dos povos e das sociedades e se elas julgam e condenam a novidade, isso significa que as religiões são contrárias ao ideal evangélico, proposto por Cristo que os líderes religiosos dizem representar. Neste caso, certamente não deveria surpreender o fato de que os religiosos sejam criticados, abandonados e até mesmo rejeitados pelos cristãos e cristãs de hoje.
Na segunda leitura, São Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses (por sinal, é o texto mais antigo do Novo Testamento escrito em Corinto aproximadamente no ano 51 d.C.), nos lembra que a vida cristã repousa sobre três pilares: a fé, a esperança e o amor. Ele diz: “Sem cessar, conservamos a lembrança de vossa fé ativa, de vosso amor sacrificado e de vossa perseverante esperança, que nos vêm de nosso Senhor Jesus Cristo, diante de Deus nosso Pai” (1Ts 1, 3). Se nós nos apoiarmos nestes três pilares da fé cristã, o Evangelho que proclamamos não será uma simples palavra, mas um poder, uma ação do Espírito Santo, uma certeza absoluta (1Ts 1, 5): ela é a Palavra de Deus.
Apoiar-se sobre estes três pilares da fé cristã é ver o mundo de forma diferente; isso dá uma qualidade de ser e de agir que promove a justiça e a paz. Isso humaniza a sociedade e as pessoas que a compõem, e possibilita a universalidade e a pluralidade em nosso mundo. Assim, a Palavra de Deus não é simplesmente um texto bíblico que podemos ler e reler todos os domingos; é uma Palavra que expressa a fé, a esperança e a caridade da Igreja na sua realidade histórica e teológica. O que era verdade para a comunidade de Tessalônica, também é verdade para as comunidades cristãs de hoje.
Concluindo, a laicidade não significa que um cristão não deva exercer uma função política na sociedade civil. Pelo contrário, ele pode fazê-lo, mas deve fazê-lo no respeito pelos outros que não compartilham a sua fé. Ser cristão não é impor uma fé aos outros. Ser cristão é dar testemunho de sua fé e esperança aos outros; é a única maneira de fazê-los querer crer e esperar. Sobre o Evangelho de hoje, Santo Agostinho dizia: “Do mesmo modo como César busca a sua imagem em uma moeda, Deus procura sua imagem na sua alma. Dai a César, diz o Salvador, o que pertence a César. O que César exigiu de ti? Sua imagem. O que o Senhor pede de ti? Sua imagem. Mas a imagem de César está em uma moeda, a imagem de Deus está em ti.”
”Devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”
Enzo Bianchi
Nos últimos dias antes de ser capturado e sofrer a morte vergonhosa de cruz, em Jerusalém, Jesus entrou em confronto com aqueles que seriam os seus acusadores durante o processo. Algumas dessas controvérsias são testemunhadas pelo Evangelho segundo Mateus, na dependência de Marcos: a controvérsia com os fariseus e os herodianos sobre o tributo a César (cf. Mt 22, 15-22), a controvérsia com os saduceus sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22, 23-33), as controvérsias com os fariseus sobre o mandamento maior e sobre o senhorio do Messias em relação a Davi (cf. Mt 22, 34-46) e, enfim, um ataque preciso de Jesus contra esses seus adversários, que se estende por um capítulo inteiro (cf. Mt 23).
Hoje, a liturgia nos propõe o relato da primeira controvérsia, aquela sobre o pagamento do tributo a César. Não esqueçamos, porém, que Jesus já havia se encontrado anteriormente diante de um problema semelhante. No capítulo 17 (vv. 24-27) – texto infelizmente omitido pelo lecionário dominical, apesar de estar presente somente em Mateus – narra-se que, em Cafarnaum, aproximam-se de Pedro os fiscais do imposto para o templo e lhe perguntam: “O mestre de vocês não paga o imposto do Templo?”. Pedro responde: “Paga, sim!”, porque Jesus não se isentava dos preceitos da Torá que ordenavam esse tributo (cf. Ex 30, 11-16).
Depois, ao entrar em casa, Jesus interroga Pedro: “O que é que você acha, Simão? De quem os reis da terra recebem taxas e os impostos?”. E Pedro responde: “Dos súditos, não dos familiares”. Então Jesus replica: “Isso quer dizer que os filhos não precisam pagar. Mas, para não provocar escândalo, vá ao mar, e jogue o anzol. Na boca do primeiro peixe que pegar, você vai encontrar o dinheiro para pagar o imposto. Pegue-o e pague por mim e por você”.
É um texto importante, porque nos revela, acima de tudo, que Jesus, sendo o Filho, e sendo os discípulos seus irmãos e, portanto, também eles filhos de Deus, não devem pagar tributos a intermediários entre Deus e eles; ele testemunha também que Jesus nunca quer escandalizar, colocar pedras de tropeço, portanto, faz o que não é mau e que pode ser feito olhando para o bem do outro.
Esse relato nos testemunha a obediência à Lei por parte de Jesus: ele não é um rebelde, não é um contestador da Lei, e só quando esta é pervertida pelos seres humanos, repudiando, assim, a intenção do Legislador, o Senhor, e tornando a humanidade escrava dos preceitos é que, então, pode ser abandonada e não obedecida. Em suma, aqui também valem as palavras de Jesus: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado!” (Mc 2, 27).
Jesus paga os tributos, como Pedro havia dito àqueles fiscais. Mas aqui fariseus e herodianos querem fazer com que Jesus caia em uma armadilha, conspirando contra ele. Por outro lado, os partidários de Herodes, o rei da Judeia posto no poder pelos romanos, portanto, colaboracionistas do império, pediam que os judeus pagassem as taxas a César, ao contrário dos fariseus que, sobre essa questão, tinham uma atitude variada em seu interior. Alguns eram intransigentes e, embora não participassem da luta armada dos zelotes, pensavam que, pelo menos, não se devia pagar tributos à autoridade ocupante e idólatra.
Outros, por sua vez, admitiam como um mal menor o sistema tributário imposto. Nesse caso, embora partindo de posições antitéticas, os chefes dos fariseus e os herodianos encontram um acordo contra Jesus e enviam fariseus anônimos para interrogá-lo.
Estes tecem um elogio a Jesus: reconhecem a sua capacidade de dizer a verdade em qualquer situação, a sua coerência entre o que diz e o que faz, o fato de não ter um olhar partidário ou medroso, a sua fala sem levar em conta o aspecto de alguém. Mas eis que, depois dessa captatio benevolentiae, a tentativa de fazê-lo cair: “Mestre, É lícito ou não pagar imposto a César?”.
Se Jesus respondesse negativamente, então mostraria que era um contestador do imperador, um inimigo de Roma; se, ao contrário, respondesse afirmativamente, poderia ser colocado entre os colaboracionistas do império, odiados pelas pessoas simples. Mas Jesus, em vez de responder diretamente, desnorteia os seus interlocutores: primeiro, revela a sua malícia e hipocrisia, perguntando por que motivos eles querem tentá-lo, depois lhes pede para lhe mostrarem uma moeda e os interroga sobre a efígie impressa sobre ela e sobre a inscrição. Estes respondem, obviamente, que a imagem e a inscrição são de César. Então Jesus pronuncia a famosa palavra: “Restituam (verbo apodídomi) pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
Uma frase lapidar que atravessou os séculos e que, muitas vezes, é invocada quando surgem tensões entre o que se deve a Deus e as obrigações para com os poderes deste mundo. Na verdade, essa palavra de Jesus, acima de tudo, deve ser compreendida em profundidade e lida, em primeiro lugar, na situação concreta de Jesus mesmo, não aplicada de modo literal ao presente.
Como não recordar, no entanto, o abuso que os cristãos fizeram desse dito? É sobre essa palavra de Jesus que foi elaborada no Ocidente a “teoria das duas espadas”, segundo a qual a Igreja, que detém o poder de Deus, embora respeitando César, exerce uma jurisdição superior sobre os poderes deste mundo, que lhe devem ser submetidos: é a teocracia medieval, segundo a qual a Igreja detém o poder absoluto, e o rei, um poder subalterno.
Quanto ao Oriente, recorde-se a posição simétrica e contrária, o chamado cesaropapismo, que considera o imperador, o basileús, como bispo dos bispos e chefe supremo da Igreja sobre a terra.
Agora, o dito de Jesus, de fato, não faz alusão a essas posições ou a posições semelhantes, e quando, na era moderna, a separação entre Igreja e Estado tornou-se efetiva na sociedade, ou por imposição do Estado ou por negociação (as concordatas), na verdade, o problema não foi resolvido: o poder mundano, às vezes, quer confinar a Igreja ao espaço do privado; outras vezes, a Igreja quer difundir a religião civilizada que convém ao Estado, recebendo dele em troca proteção e favores.
A célebre palavra de Jesus, portanto, sempre deve ser novamente compreendida a partir de algumas verdades simples. Dizendo: “Restituam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, Jesus mantém-se longe de uma politização de Deus, assim como de uma sacralização do poder político. César não é nem Deus nem divino, como, ao contrário, indicava a inscrição sobre a moeda: “Tibério César, filho do divino Augusto”; ao mesmo tempo, Deus não pode tomar o lugar de César através da instituição religiosa.
Estaríamos diante de duas formas de idolatria que repudiam o autêntico senhorio de Deus, ofendendo-o ou pervertendo-o. César não pode reivindicar para si a adoração, não pode pretender legislar contra as convicções do cristão, que, neste caso, tem o dever de obedecer a Deus e não ao poder político (cf. At 5, 29), mas tem uma tarefa bem precisa: ordenar a sociedade para que ela possa viver na lógica da liberdade e do bem comum.
Poderíamos dizer que os deveres para com Deus são anunciados a todos, em todo o lugar e sempre, mas o que se deve a César, as taxas e os tributos, devem ser absolutamente pagos. Todo cristão, assim como todo filho de Israel, está em aliança com o Senhor e traz sobre a própria mão a inscrição: “Eu pertenço ao Senhor” (cf. Is 44, 5), mas vive na pólis, reconhecendo a autoridade política e obedecendo-a naquilo que não contradiz a vontade e o senhorio de Deus.
A moeda tem impressa a efígie de César, mas o homem traz impressa a imagem de Deus (cf. Gn 1, 27); portanto, a Deus ele deve “restituir” a si mesmo inteiramente e obedecer a Ele; a César, por sua vez, ele deve restituir o que lhe pertence, e não o próprio coração!
Certamente, com essa palavra, Jesus não queria resolver as nossas disputas e as nossas lutas políticas, pois isso cabe à nossa responsabilidade, que nasce de um discernimento que devemos fazer por nós mesmos, como ele mesmo advertiu: “Por que vocês não julgam, não discernem por si mesmos o que é justo?” (Lc 12, 57). Jesus não foi e não quis ser um Messias político; e, se confessou ser Rei, logo acrescentou que não era como os reis deste mundo (cf. Jo 18, 36). Portanto, não foi um César contra César, mas respeitou e pediu que se respeitasse a autoridade estabelecida e se honrassem os seus direitos, como autoridade humana necessária, sempre submetida à complexidade da realidade social e política de uma época específica.
Por isso, Paulo pedirá que os cristãos se submetam às autoridades civis (cf. Rm 13, 1-7; Tt 3, 1), e, analogamente, o apóstolo Pedro também fará isso: “Comportem-se como homens livres (…) como servos de Deus. Respeitem a todos, amem os irmãos, temam a Deus e respeitem o rei” (1Pe 2, 16-17). Essas diretrizes apostólicas – não nos esqueçamos – são dadas em uma época de perseguição dos cristãos por parte do Império Romano…
O cristão, portanto, deve ser um cidadão leal e capaz de honrar o seu dever para com o Estado, mas será servo de Deus, nunca servo dos homens ou de poderes humanos; e, acima de tudo, se sentirá chamado a uma cidadania (políteuma) no reino de Deus, nos céus (cf. Fp 3, 20). O cristão será fiel à terra, sem isenções nem evasões da história, sem invocar espiritualizações ou fugas “angélicas”, mas agirá no mundo de acordo com a vontade do Senhor, buscando o bem comum, a liberdade, a justiça, a reconciliação, a paz.
Restituir a Deus o que é de Deus significa devolver-lhe uma humanidade que não só traz a sua imagem indelével, mas também que se fez semelhante a ele: a restituição dessa humanidade semelhante é o caminho da humanização!
Com a controvérsia atual, aproxima-se para Jesus o drama da paixão, já iminente, e o processo político, quando Jesus será acusado de “incitar o povo e proibir de pagar os tributos a César” (Lc 23, 2). Agora, os inimigos de Jesus, que não conseguem fazê-lo cair com uma armadilha, estão determinados a acusá-lo falsamente, a fim de eliminá-lo para sempre.
Missão é anunciar um Deus sempre ‘outro’
Romeo Ballan, MCCJ
Jesus no Evangelho desmonta a armadilha que os fariseus e os herodianos lhe estavam a preparar sobre o tema melindroso dos impostos a pagar ao imperador de Roma (v. 17). Jesus distingue, ou melhor transtorna o modo de entender a autoridade política-humana e a autoridade suprema de Deus. A «moeda do tributo» em questão (v. 19), de ouro ou outro metal, era cunhada pelo imperador, que era seu proprietário; o devedor era apenas um seu proprietário temporário, com a obrigação de devolução-restituição ao imperador. Um dever que também Jesus reconhece (v. 21). Mas aquela moeda continha a inscrição «ao divino César» ou «ao deus César», que Jesus rejeita e declina profeticamente: «Dai a Deus o que é de Deus» (21). César pode ter um certo direito sobre as coisas, mas não sobre as pessoas. «César não tem direito de vida e de morte sobre as pessoas, não tem o direito de violar a sua consciência, não pode apoderar-se da sua liberdade. A César não dizem respeito o coração, a mente, a alma. Dizem respeito a Deus somente. A cada poder humano é dito: não te apropries do homem. O homem pertence a um Outro. Pertence de Deus… Para Jesus, Deus não é o poder para além de qualquer poder, é amor. Não é o dono das vidas, é o servidor dos vivos. Não é um César maior que os outros césares, mas um servo sofredor por amor. Um modo completamente diferente de ser Deus» (E. Ronchi).
A Palavra de Deus neste domingo lança uma luz nova sobre as relações entre homem e homem, entre homem e Deus, entre o homem e as outras criaturas; entre religião e estado, entre Evangelho e política, missão e liberdade religiosa, fé e liberdade de consciência, Igreja e governos, laicidade do estado e imperativos éticos… São relações delicadas e complexas, que tocam de perto a consciência individual das pessoas, mas também o trabalho de quem anuncia o Evangelho em todas as frentes. Em particular, a liberdade religiosa, valor sancionado pelo Concílio Vaticano II, não exime, pelo contrário requer a proposta missionária do Evangelho de Cristo, em vista de uma opção pessoal livre e das reincidências em âmbito familiar e social.
A resposta de Jesus sanciona a autonomia das duas esferas de acção, humana e divina (v. 21), reivindicando, aqui e noutros passos do Evangelho, a primazia de Deus, do qual todos os seres recebem vida, destino, sentido. Uma sã autonomia exige clareza de papéis, respeito mútuo, colaboração na complementaridade, evitando quer as confusões de um sistema teocrático, quer também as evasões de um espiritualismo intimista. Todos, porém, são chamados a apoiar as iniciativas para a promoção integral da pessoa e o desenvolvimento solidário da humanidade. A esta luz, a própria acção política do rei persa Ciro (I leitura) definido «ungido» de Deus (v. 1), é vista em chave de salvação para o povo hebraico, escravo na Babilónia. Do mesmo modo, o crescimento espiritual dos cristãos (II leitura), com os valores de fé laboriosa, caridade empenhada e esperança firme (v. 3), tem certamente consequências salutares para a convivência familiar, política e social.
Primazia de Deus, salvação em Jesus Cristo, conhecido e amado por todos, para que todos tenham n’Ele vida, dignidade, salvação plena… São os objectivos da missão da Igreja, que neste mês celebra o Dia Mundial das Missões. Anunciar o Evangelho é o melhor serviço que a Igreja pode prestar ao mundo, porque o Evangelho tem sempre uma influência benéfica na vida da família humana. A oração colecta de hoje põe-no em evidência, dirigindo-se ao Pai, ao qual «obedece toda a criatura no misterioso entrecruzar-se das livres vontades dos homens»; ao mesmo tempo suplicamos, em Cristo e no Espírito, para que «a humanidade inteira te reconheça como único Deus», bem supremo para uma vida humana mais digna, livre e feliz.
Devolvei as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus
António Couto
1. Ocupámo-nos nos últimos três Domingos do longo monólogo em estilo parabólico de Jesus, que reunia três parábolas seguidas pronunciadas por Jesus perante as autoridades judaicas religiosas e civis (Mt 21,28-22,14). Deu azo a essas parábolas um diálogo polémico, em tom de disputa, documentado em Mt 21,23-27. Este diálogo polémico é agora retomado em idênticos moldes em Mt 22,15-17, e abre para um novo bloco de três unidades, neste caso três questões dirigidas a Jesus por grupos representativos dos dirigentes religiosos em Jerusalém. Este agrupamento de três questões encontra-se em Mt 22,15-40. Os polémicos interlocutores de Jesus são por ordem: 1) Fariseus e Herodianos (Mt 22,15-22); 2) Saduceus (Mt 22,23-33); 3) um Fariseu (Mt 22,34-40). A estas três questões consecutivas segue-se uma quarta, a mais importante dentro do esquema retórico 3 + 1, posta por Jesus aos Fariseus (Mt 22,41-46).
2. Destes quatro episódios ou questões, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mt 22,15-22 (cf. paralelos em Mc 12,13-17 e Lc 20,20-26), e, no Domingo XXX, escutaremos a questão posta por um Fariseu acerca do maior mandamento da Lei (Mt 22,34-40). Neste Domingo XXIX, escutaremos o episódio em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mt 22,17).
3. Note-se que, tal como as três parábolas anteriores, este episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios ou Pagãos, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mt 21,23 até Mt 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.
4. É, portanto, no Átrio dos Gentios ou Pagãos que, de forma estudada e astuciosa, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mt 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mt 21,23-27).
5. Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores, uma espécie de captatio benevolentiae, uma técnica retórica muito em voga no mundo greco-romano em geral, mas também entre os judeus (cf. At 24,2): «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mt 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= receber o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido, e é muito mais clara do que a grega, a latina e a portuguesa. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, não deve ver quem são as pessoas, isto é, não deve julgar de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer aceção de pessoas» não significa nada.
6. Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.
7. Mas Jesus, que vê os pensamentos que há nos corações (cf. Mt 9,4; 26,10), descobre logo a malícia deles (Mt 22,18), e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (Mt 22,18), uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus. Hipócritas, isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d.C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mt 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d.C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, [= Tibério César, filho do Divino Augusto], tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Ex 20,3 e 4). Na verdade, Ex 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Ex 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].
8. Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei (apodídômi) então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mt 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta (Mt 22,17), mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve ser devolvida. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Cl 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mt 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Gn 1,26-27), é para devolver a Deus, e não para dar a César.
9. O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados (thaumázô), e se foram embora (Mt 22,22). Maravilhados, mas não convertidos! Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projeto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César. Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a leitura corrente e banal que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…
10. Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade, e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estrangeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6).
11. É este também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos. De modo exemplar: «Damos graças a Deus sempre por todos vós», assim abre o texto mais antigo em absoluto de todo o Novo Testamento, que é esta preciosíssima Carta aos Tessalonicenses.
12. Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E já aprendemos com Santo Agostinho que só um homem novo pode cantar um canto novo.
13. Em cada Domingo, celebramos sempre o Senhor Ressuscitado, nosso contemporâneo, que nos guia e acompanha nos caminhos sempre novos da missão. Passa hoje o 97.º Dia Missionário Mundial, a que o Papa Francisco apôs o significativo lema: «Corações ardentes, pés ao caminho!», que é uma tentativa de encher a vida da Igreja com a experiência sempre renovada e cheia de surpresas dos dois discípulos de Emaús, que passam da frustração e da tristeza de pensarem que tinham perdido Jesus para o júbilo do reencontro que os lança numa interminável aventura missionária. É assim que vamos compreendendo cada vez melhor que «Evangelizar é a nossa maneira de ser, a nossa identidade mais profunda» (Paulo VI, Evangelii nuntiandi [1975], n.º 14), o verdadeiro ADN de todo o cristão batizado. Foi o Papa Pio XI que instituiu este Dia Missionário Mundial em 1926. Vamos hoje na 97.ª edição. Importa que não tenha fim o caminho e que o lume não se apague.
