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Mateus 18,21-35


perdono-abbraccio

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».


Terminamos a leitura do quarto dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho segundo Mateus, também chamado de discurso eclesial ou comunitário, porque nele estão contidos ensinamentos referentes à vida dos discípulos que vivem em comunidade, nas Igrejas. Acima de tudo, refere-se ao contexto do ensinamento de Jesus contido na sua parábola. Tendo ele enunciado as exigências da correção fraterna e do perdão recíproco (cf. Mt 18, 15-20), Pedro levanta uma questão à qual Jesus responde imediatamente de modo peremptório, mas, depois, revela “a propósito” (diá toûto) o que acontece no reino dos céus, que comportamento a ação de Deus inspira aos discípulos.

Essa página é um ensinamento decisivo na vida eclesial, e devemos confessar que nós, cristãos, lemo-la muitas vezes e de bom grado, mas depois não conseguimos pô-la em prática quando estamos envolvidos em dinâmicas semelhantes.

Então, Pedro se aproxima de Jesus e lhe pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes (número de plenitude e totalidade)?”. Pergunta compreensível: pode-se perdoar sem levar em conta o número de vezes em que o perdão é renovado? Se alguém continuar fazendo o mesmo mal contra mim, até quantas vezes posso perdoá-lo?

Certamente, Pedro não esquece que, na Torá, está escrito que Lamec, o sanguinário filho de Caim, canta a repetição da vingança até sete e, depois, até setenta vezes sete (cf. Gn 4, 23-24). Pedro já é misericordioso, porque, na verdade, não é fácil perdoar sete vezes o mesmo pecado ao mesmo ofensor.

Mas Jesus lhe responde com autoridade: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, isto é, sempre, infinitamente! Sem condições nem hesitações, o discípulo de Jesus perdoa sem calcular o número de vezes. Diante de tal declaração, o ouvinte fica estupefato, talvez até mesmo estarrecido, porque não é fácil nem compreender nem assumir essa atitude. O que Jesus pede, talvez, não seria demais? É possível para um humano perdoar sempre?

Então, Jesus explica essas suas palavras tão claras através de uma parábola que, como sempre na sua boca, é revelação, é um levantar o véu sobre Deus e sobre a sua ação. O conto, que põe em cena um rei e dois servos devedores, desenvolve-se em três atos, seguidos de um comentário conclusivo de Jesus (v. 35):

– o rei e o devedor em relação a ele (v. 23-27);
– o primeiro devedor e um irmão, por sua vez, devedor em relação a ele (vv. 28-31);
– o confronto definitivo entre o rei e o primeiro devedor (v. 32-34).

Um rei quer fazer as contas com os seus servos, e eis que lhe é apresentado alguém que é devedor em relação a ele de uma quantia enorme, hiperbólica: dez mil talentos, ou seja, 100 milhões de denários (levando em conta que um denário corresponde ao salário médio diário de um operário), impossível de reembolsar por um servo!

Diante da perspectiva da venda dos seus familiares como escravos e da prisão para si mesmo, esse homem se ajoelha diante do rei e o suplica: “Dá-me um prazo, seja grande de ânimo comigo (seja paciente comigo, makrothýmeson) e eu te pagarei tudo” (o que é impossível). Diante de tal desespero e sofrimento, o rei “movido por uma compaixão visceral” (splanchnistheís), isto é, tomado por um sentimento de misericórdia, deixa-o ir embora e perdoa-lhe a dívida.

Estamos na presença de um rei que exige a observância da lei, mas que, diante de quem sofre porque não pode cumprir a justiça, faz reinar a misericórdia e não mais a lei. Ele tem um coração capaz de se deixar ferir pelo mal sofrido pelo seu servo.

Mas eis a cena simétrica. Esse homem perdoado, radicalmente salvo junto com a sua família, sai livre, para viver em plenitude de liberdade e de relações; e logo se encontra com um companheiro seu ou, melhor, precisamente com um servo como ele (syndoúlos), devedor em relação a ele de uma quantia modesta, 100 denários, o equivalente ao pagamento de pouco mais de três meses de um trabalhador no campo.

Assim que o vê, agarra-o pelo pescoço e o sufoca, intimando-o a saldar a dívida. O outro o suplica com as mesmas palavras usadas por ele anteriormente: “Dá-me um prazo, seja de grande ânimo comigo (seja paciente comigo), e eu te pagarei”. Mas ele não aceita, por isso faz com que o joguem na prisão até o momento da restituição da dívida. Na primeira cena, o rei perdoa o servo; na segunda, o perdoado não perdoa o irmão!

A diferença de comportamento entre os dois credores é evidenciada pela terceira cena. Quando o rei fica sabendo pelos outros servos aquilo que fez o servo por ele perdoado, faz com que o chamem e lhe diz: “Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também, ter compaixão (eleêsai) do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”.

Eis revelado o fundamento de toda ação de perdão: ser perdoado. O cristão sabe que foi perdoado pelo Senhor com uma misericórdia gratuita e previdente, sabe que se beneficiou de uma graça inesperada, por isso não pode não fazer misericórdia, por sua vez, aos irmãos e às irmãs, devedores para com ele de um modo certamente menos grave.

Nessa parábola – repito – não é questão de quantas vezes se deve dar o perdão, mas se trata de reconhece que fomos perdoados e, portanto, que devemos perdoar. Se alguém não sabe perdoar o outro sem cálculos, sem olhar para o número de vezes em que concedeu o perdão, e não sabe fazer isso com todo seu coração, então não reconhece o que lhe foi feito, o perdão de que foi destinatário. Deus perdoa gratuitamente, o seu amor nunca deve ser merecido, mas é preciso simplesmente acolher o seu dom e, em uma lógica difusiva, estender aos outros o dom recebido.

Compreendemos, assim, a aplicação conclusiva feita por Jesus. As palavras que ele pronuncia são paralelas, idênticas no conteúdo, àquelas com as quais ele comenta o quinto pedido do Pai-Nosso – “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6, 12) – a única, não nos esqueçamos, comentada por ele.

“De fato, se vocês perdoarem aos homens os males que eles fizeram, o Pai de vocês que está no céu também perdoará a vocês. Mas, se vocês não perdoarem aos homens, o Pai de vocês também não perdoará os males que vocês tiverem feito” (Mt 6, 14-15).

“É assim que fará com vocês o meu Pai que está no céu, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18, 35).

Nada de perdão da parte de Deus a nós, se nós não perdoarmos os outros. Ou, melhor, se não formos ministros dessa misericórdia recebida de Deus, que nos perdoa sempre e nos perdoou de uma vez por todas através de Jesus Cristo, ele retira o seu perdão, assim como retirou ao servo inicialmente perdoado.

Seria uma negação do Deus que se professa e se proclama o fato de ser perdoado por ele e depois não perdoar os outros… A Igreja é uma comunidade de perdoados que perdoam, por isso, no seu coração, existe a Eucaristia, em que se vive a remissão dos pecados por parte de Deus, para que, de nossa parte, sejamos ministros de perdão e de misericórdia na própria Igreja e na companhia das pessoas, no mundo.

A partir dessa página, o cristão, acima de tudo, deve aprender a discernir o verdadeiro rosto de Deus, aquele que Jesus nos narrou (exeghésato: Jo 1, 18) e saber sobrepor esse rosto último e definitivo sobre os outros que as próprias Escrituras nos entregaram.

De fato, não se deve esconder que, às vezes, nas Escrituras aparece esboçado um Deus que castiga e não escuta aqueles que pedem piedade, um Deus que não reitera o perdão. Um exemplo acima de todos, que é uma negação literal do Nome do Senhor entregue a Moisés (cf. Ex 34, 6-7), encontra-se no início da profecia de Naum: “O Senhor é um Deus ciumento e vingador! O Senhor é vingador e sabe enfurecer-se. O Senhor se vinga de seus adversários e é rancoroso para com seus inimigos. O Senhor é lento para a ira e muito poderoso, mas não deixa ninguém sem castigo” (Na 1, 2-3).

Mas Jesus nos entrega a última e definitiva narração de Deus. Para nós, cristãos, a misericórdia de Deus é o traço essencial para conhecê-lo e é a ação com que o próprio Deus nos coloca em comunhão consigo mesmo: é o modo em que Deus revela a sua onipotência! Não é fácil aceitar esse rosto de Deus, porque todas as religiões sempre pregaram um Deus que faz justiça, que pune o mal cometido, que, na sua onipotência, castiga. Não é fácil, porque nós, humanos, temos dentro de nós um conceito de “justiça humana” e pretendemos projetá-lo sobre Deus. Mas Jesus nos revelou o rosto de Deus como rosto daquele que

nos amou enquanto éramos seus inimigos,
nos perdoou enquanto pecávamos contra ele,
veio ao nosso encontro enquanto nós o negávamos (cf. Rm 5, 8.10).

É por isso que Jesus nos pede até o amor pelos inimigos (cf. Mt 5, 43-47), novidade do mandamento do amor ao próximo (cf. Mt 19, 19; 22, 39; Lv 19, 18) estendido até o inimigo.

Em obediência ao Senhor Jesus, portanto, que o amor e o perdão do cristão sejam gratuitos, sem cálculos nem restrições, “de coração”. Se o cristão perdoa fazendo cálculos, desvaloriza aquele perdão que ele proclama em palavras. Perdoar o imperdoável: essa é a única medida do perdão cristão!

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Perdão a todo o custo
Raymond Gravel

No discurso sobre a Igreja do evangelho de Mateus e sobre as relações entre discípulos, na semana passada tínhamos um convite à misericórdia para com aquele ou aquela que rompe a unidade da comunidade, e hoje temos um convite ao perdão ilimitado e incondicional para com aquele ou aquela que nos fere.

1. O Perdão: uma necessidade humana e cristã

Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?” (Mt 18, 21). No primeiro século, rabinos judeus tinham legislado em matéria de perdão; haviam chegado à conclusão de que se podia perdoar a mesma pessoa por três vezes, mas, na quarta ofensa, era preciso se tornar mais severo.

Pedro, querendo mostrar a sua boa vontade, sugere sete vezes, o número perfeito… Mas a resposta do Cristo do Evangelho vai muito além: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18, 22). Portanto, o perdão cristão deve ser ilimitado e incondicional. Não há mais lugar para a vingança, o rancor, a cólera.

Ben Sirac, o Sábio, ainda no Antigo Testamento, reconhecia que o rancor e a cólera eram uma abominação que não resolvia nada, mas cuja obstinação criava situações ainda piores do que a ofensa que havia sido feita: “Cólera e furor são ambos execráveis; o homem pecador os alimenta em si mesmo” (Eclo 27, 33). O exemplo mais evidente que temos hoje é a situação entre Israel e Palestina. Mas, atenção! Isso não significa que não devemos buscar a justiça. É preciso fazer de tudo para restaurar a justiça. Mas não se deve fazer isso com rancor, cólera e vingança.

Mas por que Ben Sirac acrescenta: “Aquele que quer vingar sofrerá a vingança do Senhor” (Eclo 28, 1)? Deus seria rancoroso e vingativo? Não, eu não acredito nisso. As afirmações do Sábio reconhecem simplesmente a nossa responsabilidade diante do perdão. Se somos incapazes de perdoar, como podemos implorar o perdão de Deus para nós? “Um homem guarda rancor contra outro homem, e pede a Deus a sua cura!?” (Eclo 28, 3). Não é Deus que recusa o perdão; somos nós os incapazes de acolhê-lo. Porque, para acolhê-lo, é preciso ser capaz de oferecê-lo.

Essa é a nossa responsabilidade diante do perdão. É um pouco como dizia o evangelista Mateus na semana passada: “Tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu” (Mt 18, 18). A nossa missão consiste em libertar as pessoas, desligá-las, mas, como nós não temos a capacidade de fazê-lo, Deus não pode fazê-lo em nosso lugar.

2. Um perdão a oferecer e a acolher

O perdão não pode ser acolhido se não for sobretudo oferecido. Esse é o sentido da parábola de hoje, no Evangelho de Mateus, que quer ilustrar o sentido do perdão e a grandeza do perdão cristão. O montante de dinheiro devido pelo servo ao qual o patrão pede as contas, 10 mil talentos ou 60 milhões de moedas de prata (Mt 18, 24) é tão enorme e desproporcional que é impensável reembolsar uma tal quantia. Está além de toda compreensão; seriam necessárias centenas de anos de trabalho para consegui-la.

Porém, o rei da parábola, Deus, se deixa enternecer pelo homem que chega até a fazer com que ele acredite que poderá ser reembolsado: “Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!” (Mt 18, 26). “Cheio de compaixão [comovido até as entranhas], o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18, 27).

Essa primeira parte da parábola quer mostrar a grande generosidade de Deus, a grandeza e a gratuidade do seu perdão para todos nós, seus servos. Se Cristo nos mostra a grandeza e a gratuidade do perdão de Deus é oferecido e acolhido, é para nos convidar a fazer o mesmo com os outros. Mas eis que o próprio servo se dirige ao irmão, a um companheiro que lhe deve apenas 100 moedas de prata, uma soma ridícula com relação à sua dívida. E se recusa a oferecer o perdão que lhe foi oferecido tão generosamente: “Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida” (Mt 18,30).

Nesse ponto, se assiste a uma inversão da situação, uma mudança na atitude do rei: “Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti?” (Mt 18, 32-33). Pode-se ver uma vingança da parte de Deus, ofendido pela atitude do servo, ou se pode ver um ensinamento sobre a justiça retributiva, que uma certa teologia continua promovendo na Igreja.

Não acredito que se possa fazer uma tal leitura da parábola. Acredito, ao contrário, que a parábola nos convida a revelar o rosto misericordioso de Deus, como Jesus de Nazaré soube fazer na sua vida até a morte na cruz: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Porque, se Deus se revela na história humana, mediante as mulheres e os homens da história, ele só pode ser o que se diz sobre ele. Por isso, ele assume o rosto que lhe damos, a partir do que nós somos.

Em outras palavras, é verdade que Deus nos torna capazes de perdoar, porque outros o testemunharam; mas, ao mesmo tempo, ele é incapaz de perdoar sem nós. Não é isso, talvez, o que dizemos no Pai Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12)? Não nos esqueçamos, sobretudo, que a misericórdia não dispensa o restabelecimento da justiça, mas não se trata de uma justiça retributiva com relação a Deus. A justiça se aplica entre nós: “Com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos” (Mt 7, 2), ou também “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7, 12).

3. O perdão divino

Pode-se até dizer que o perdão humano também é divino, no sentido de que nos permite superar o reflexo humano da vingança, do rancor, da violência, do mal pelo mal. O perdão anula a lei do talião, a justiça retributiva. O perdão nos faz superar a nós mesmos: “Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?” (Mt 5, 46).

Mas, ao mesmo tempo, mesmo sendo divino, o perdão continua sendo humano, no sentido de que ele nunca é fácil de oferecer e de acolher. Requer muito esforço, vontade, renúncias, sacrifícios, generosidade e sobretudo muito amor. Além disso, quando se sabe até que ponto o perdão liberta e dá novamente a vida, tanto àquele que o acolher, quanto àquele que o oferece, é lá que o humano toca o divino e torna todos os perdões possíveis.

Para terminar, o perdão não é esquecer a ofensa que foi feita, como se se pudesse fazer com que o passado não tivesse acontecido; o perdão é um compromisso para o futuro. A esse respeito, gostaria de lhes propor a reflexão do padre Jacques Sommet, ex-deportado a Dachau, que escreve:

“Um perdão verdadeiro é algo muito difícil, porque somos habitados pelo nosso próprio passado, fixados pelas cicatrizes recebidas ou pelas feridas que foram causadas; é como uma espécie de morte. A inimizade e o ódio não continuam sendo, talvez, realidades entre as mais duradouras da história pessoal e coletiva? Cristo, com a sua paixão, oferece a graça de uma fraternidade renovada… Ele mesmo está em atitude de perdão… A sua paixão é, de certo modo, um perdão realizado antes de ser uma palavra… Perdoar é fazer com que, lá onde haja ferida e injustiça, haja abertura de si e do outro à descoberta da grandeza do dom de Deus, uma abertura que passa justamente pela consciência das feridas que um faz ao outro. E quando isso é possível, vemos então uma promessa e uma esperança, lá, onde, caso contrário, estaríamos encurralados no desespero”.

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O tema central dos cinco textos bíblicos de hoje, incluso o Pai Nosso, é o perdão: a necessidade cristã de perdoar até setenta vezes sete”, isto è sempre, como Jesus ensina no texto do Evangelho, que continua e conclui o discurso eclesial (Mt 18) sobre o relacionamento entre as pessoas. Trata-se de um ensinamento insistente de Jesus, começando com “felizes os misericordiosos…” no sermão da montanha, até ao Calvário: Mt 5,7; 6,14-15; 9,2-6; 12,31-32; 18,21-35; 26,28; e depois da palavra vem o exemplo de Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). È o máximo. 

Na Bíblia nota-se um progresso na compreensão e na prática da lei do perdão. Nos tempos primitivos, o brutal Lamec, filho de Caím, conhece somente a represália cruel, a vingança sem limites, até ‘setenta vezes sete’ (cf Gen 4,23-24). Uma reacção mais equilibrada vem mais tarde, com a lei antiga do talião: “olho por olho, dente por dente, mão por mão…” (Ex 21,24). O que não deve ser interpretado como um incitamento pagar o mal com o mal, mas como um limite que se coloca para não exagerar na resposta a quem ofende. Chega-se enfim ao ponto mais alto do Antigo Testamento com o convite a recusar a vingança e o rancor, e a amar o próximo como a nós mesmos (cf Lev 19,18); o texto de hoje, do livro de Sirácide (I leitura) refere-se a esta posição. No tempo de Jesus, os Rabinos limitavam o perdão até três vezes. Pedro estende-se até às sete vezes (Mt 18,21), mas Jesus não aceita limites: até setenta vezes sete; o perdão há-de ser sem medida, como infinita è a misericórdia do Pai (Lc 6,36). 

As leituras apresentam vários fundamentos do perdão. A parábola de Jesus (Evangelho) evidencia a distância imensa que existe entre o coração de Deus, que perdoa sempre tudo (Salmo responsorial), e o coração do homem que frequentemente é áspero e mesquinho (Mt 18,33). Sirácide (I leitura) lembra com severidade: “Recorda-te do teu fim… recorda-te da morte” (v. 6.7). A agressividade dilui-se então na reflexão sobre os limites da vida humana. “Pode parecer um chavão banal, mas tem a sua profundidade psicológica: recusar a morte é a raiz da violêncianão aceitar o nosso próprio limite significa colocar na raiz da nossa vida as premissas de todos os desvios” (E. Balducci).

Paulo (II leitura) convida à tolerância e à compreensão colocando ao centro da vida, não o eu egoísta, mas Cristo que morreu e ressuscitou por todos, o único que dá valor e sentido à nossa vida e à nossa morte. Vivendo para o Senhor (v. 7), descobrimos a universalidade e a missão que se abe a todos.

O perdão regenera interiormente a pessoa e as comunidades, a todos os níveis; torna-as semelhantes a Deus, à sua imagem e semelhança; liberta-nos das tensões e da agressividade que por vezes inquinam o relacionamento interpessoal e social; interrompe a cadeia de vinganças; revela a grandeza de animo da pessoa e das instituições. Para além do espaço interpessoal e doméstico, o perdão cristão aplica-se sobretudo ao nível dos grupos, sociedades e nações. O papa João Paulo II referiu-se com frequência a este tema particularmente nas suas mensagens para o Dia Mundial da Paz e apresenta-o como critério para resolver as tensões entre os povos. Uma das pessoas que mais tem reflectido sobre a dimensão mundial do perdão e da paz è certamente o card. Carlo M. Martini: “O perdão também tem um valor civil e político. Até que não se consiga renunciar a alguma coisa a que teoricamente se teria direito, até que se queira a todo o custo aquilo que nos compete, aquilo que è de direito, e se continue simplesmente a fazer a lista das próprias razões, nunca se chegará à paz, porque não estamos dispostos a pagar o seu  preço. Sim, porque a paz tem um preço… A paz, neste mundo marcado pelo pecado, exige uma vontade constante de perdoar: nas famílias, dentro das comunidades, entre as Igrejas, e ainda mais no contexto civil”. A paz e o perdão são uma mensagem prioritária na missão.


1. Em março de 1947, o beduíno Muhammed ed-Dib, da tribo dos pastores beduínos Taʼamireh, descobriu nas onze grutas situadas junto do Mar Morto os célebres manuscritos da comunidade essénia de Qumran, que ali tinha vivido entre os séculos II a.C. e I d.C. A partir do seu conteúdo, um desses manuscritos acabou por receber o título de Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina. Tratava-se de uma espécie de «regra monástica», e destinava-se a orientar a vida interna daquela comunidade, contendo também uma série de sanções com que eram penalizados os membros transgressores.

2. Um dos Capítulos desta Regra é dedicado à correção fraterna, e diz assim: «Corrijam-se mutuamente com verdade, humildade e bondade. Ninguém fale ao seu irmão com ira, resmungando e com maldade, mas advirta-o no mesmo dia em que comete a falta, para não carregar ele mesmo com a culpa. Ninguém advirta o seu próximo diante de todos, se primeiro não o fez perante algumas testemunhas» (V,24-26; VI,1).

3. Convenhamos que se trata de medidas de grande elevação, dignas de serem ainda hoje tidas em consideração. Esta viagem a Khirbet Qumran e à Regra de vida da comunidade judaica que aí viveu, vem a propósito do Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum, em que nos é dada a graça de escutar um bocadinho do chamado Discurso Eclesial de Mateus, que ocupa todo o seu Capítulo 18. Hoje ouviremos apenas Mateus 18,15-20. No próximo Domingo, ouviremos a parte que resta desse Capítulo, exatamente Mateus 18,21-35.

4. A comunidade dos discípulos ou irmãos deve ver como Jesus vê. E Jesus vê a comunidade dos seus discípulos, não como uma associação de indivíduos, em que cada um pode fazer o que lhe apetecer sem se interessar minimamente pelos outros. Pelo contrário, Jesus ensinou e acentua de forma clara o comportamento obrigatório que devem assumir aqueles que o seguem. Entenda-se obrigatório, porque diz o que é necessário para entrar no reino dos Céus, que é a meta a não perder. Duas palavras de Jesus: 1) «Eu vos digo que se a vossa justiça (dikaiosýnê) não for muito maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus» (Mt 5,20). «Muito maior», isto é, «sem medida», «sem fim», «da ordem do que não passa» (perisseúô). 2) «Não é aquele que me diz “Senhor, Senhor”, que entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos Céus» (Mt 7,21). Na comunidade crente, todos estão vinculados a estas normas comuns, e todos devem sentir-se responsáveis para que nenhum deles se perca do caminho que conduz ao reino dos Céus. É a partir desta preocupação fraterna, que é uma forma essencial do amor ao próximo e responde à vontade de Deus, que pode tornar-se necessário chamar a atenção de um irmão que errou e convidá-lo à conversão.

5. Tendo em conta o teor da Regra da Comunidade de Qumran e o teor do Discurso Eclesial de Mateus (Mateus 18), tem sido este Discurso muitas vezes visto como A Regra da Comunidade Cristã. No bocadinho que hoje nos cabe escutar, aí está, à semelhança de Qumran, a prática da correção fraterna ou promoção fraterna – tenha-se presente a linguagem utilizada: «o teu irmão» (ho adelphós sou) (v. 15[2x]) –, a levar por diante de forma discreta e progressiva e sempre com o perdão no coração e no horizonte, tendo sempre em vista a dignidade da pessoa. Primeiro, tu a tu, a quatro olhos, dois corações, um irmão que procura trazer de volta outro irmão. Tudo muito semelhante à história acabada de contar por Jesus acerca da ovelha perdida e encontrada, e trazida pelo pastor para o seio do rebanho (Mateus 18,12-13). A ideia de fundo que subjaz a esta ida discreta e fraterna de um irmão ao encontro do seu irmão não tem como objetivo ostracizá-lo, condená-lo ou excomungá-lo, mas ganhá-lo, isto é, trazê-lo de volta ao rebanho ou à comunidade que pratica o perdão e o amor. Caso esta primeira tentativa não dê o resultado esperado, se o teu irmão não te escutar (mê akoúsê) (v. 16a), sobe-se a fasquia com o recurso a mais dois ou três irmãos, também ditos testemunhas (v. 16b). Não se trata, porém, de qualquer semelhança com um tribunal e da citação de testemunhas para depor sobre o assunto em questão. Não está em causa sequer a seleção de testemunhas idóneas, isto é, com mais autoridade ou melhor informação. Trata-se sempre apenas de irmãos ou irmãs, que podem ajudar a estabelecer (stathêsetai) a paz e a ultrapassar a desavença havida, seja ela qual for. Se se der o caso de o irmão desavindo «não querer ouvir» (parakoúsê) (v. 17a), o que aumenta a gravidade da situação – uma coisa é «não ouvir», outra coisa, e mais grave, é «não querer ouvir» –, então o caso, até aqui tratado com toda a discrição, passa para o âmbito da «assembleia» (ekklêsía), sempre multiplicando os olhos e os corações, usando sempre a máxima discrição e a boa intenção, embora o assunto seja agora do domínio público. Entenda-se: multiplicando sempre a atenção e o amor. Note-se que a pessoa a «corrigir» ou «promover» não é um fulano qualquer digno de censura, mas é «o teu irmão», como já vimos (v. 15). Refere o texto que, se também «não quiser ouvir» (parakoúsê) a assembleia, considere-se então como pagão ou publicano (v. 17b).

6. Subjaz ao itinerário proposto, que tem de ser sempre o amor fraterno a mover esta importante prática eclesial (trata-se, como acabámos de ver, de «o teu irmão»), e não aquele subtil sentimento que tantas vezes se apodera de nós, levando-nos a pensar que somos melhores ou superiores ao nosso irmão que erra, e que temos autoridade para o advertir. Contra este pretensiosismo, lá está a clave de abertura deste Discurso Eclesial, com os discípulos de Jesus – connosco, portanto – a entreterem-se com a questão inútil de quem é o maior (v. 1), e com a paradigmática resposta de Jesus, chamando uma criança e dando-lhe o lugar do meio (v. 2). E não esqueçamos também que só podemos abeirar-nos de alguém para o advertir, tendo nós o nosso olhar límpido e puro. É fulgurante, a este propósito, a advertência de Jesus num outro importante Discurso no Evangelho de Mateus, o Discurso ou Sermão da Montanha: «Como podes dizer ao teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, se no teu há uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e depois verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão» (Mateus 7,4-5). Como é importante que este dizer de Jesus esteja sempre a retinir no nosso coração! E não esqueçamos também que a criança «no meio deles» (v. 2) é igual a Jesus «no meio deles» (v. 20). A criança «no meio deles» (en mésô autôn) reclama todas as atenções, e não todas as admoestações. Tal como Jesus «no meio deles». No meio de nós. No meio da assembleia.

7. Talvez fiquemos satisfeitos e tranquilos, e até, se calhar, cheios de razão e de razões, com a declaração final deste itinerário de correção ou de promoção: «Seja para ti como um pagão ou um publicano!» (v. 17). Mas é, talvez, exatamente aqui que se esconde a carga mais explosiva do Evangelho e se abre o seu horizonte mais amplo! Ou não é verdade que o próprio Jesus se tornou companheiro de viagem e de mesa de publicanos e de pecadores, Ele que veio curar, não os que têm saúde, mas os doentes? (Mateus 9,12; cf. Lucas 5,31-32).

8. Avancemos então uma última e imensa consideração. Não é o texto deste Domingo um exclusivo do Evangelho de Mateus? E não era Mateus um publicano? E não se abeirou dele, um dia, Jesus, quando Mateus, o publicano, estava sentado no seu telónio, um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ligava a Mesopotâmia ao Egito, na divisória das tetrarquias de Herodes Antipas e de Filipe, cobrando impostos e ouvindo insultos dos seus concidadãos? Os insultos não demoveram Mateus do seu ofício. Mas Jesus aproximou-se, cravou nos dois olhos tristes e cansados de Mateus os seus dois olhos repletos de amor, e disse-lhe: «Segue-me!» (Mateus 9,9). Mateus levantou-se e seguiu Jesus, e refere a continuação do texto que foi fazer uma grande festa para celebrar esta página nova e bela que Jesus tinha acabado de escrever na sua vida triste e cansada. Sim, este episódio é exclusivo de Mateus, porque traduz a coisa mais bela e irresistível que aconteceu na sua vida: aquele olhar bom e belo de Jesus, aquele olhar criador de Jesus, que fez Mateus levantar-se do lodaçal e perceber o poder da lógica do amor e do perdão. E de saber bem que é Jesus que está no meio da nossa vida!

9. Portanto, aquele «seja para ti como um pagão ou um publicano!» (v. 17b) não significa que se pode pôr um ponto final no trabalho do perdão e do amor que são devidos a um irmão, e ficar com a consciência tranquila. Este «seja para ti como um pagão ou um publicano» é virar a página da análise fria e da metodologia cultural, social, eclesial e profissional em curso, e começar tudo de novo, absolutamente de novo, usando agora a metodologia absolutamente nova e inédita de Jesus e do Evangelho. A não ser assim, também já podemos antecipar que o nosso ponto final posto ao trabalho do perdão esbarraria logo a seguir com a lógica do «setenta vezes sete» de Jesus para Pedro (Mateus 18,21-22) e do Senhor da história seguinte, que é Deus, e que, de uma assentada, perdoa a um pobre servo a módica quantia de mais coisa menos coisa como o equivalente a 174 toneladas de ouro! (Mateus 18,23-27), e que vamos ter a graça e a coragem de ouvir no próximo Domingo. Note-se também que os três episódios são exclusivos de Mateus, e veja-se o quão importante é termos feito um dia a experiência do perdão! Decisivo na pessoa de Mateus, e em todo o seu Evangelho, é ter sido perdoado e chamado por Jesus!

10. Em plena e boa sintonia, a profecia de Ezequiel 33,7-9 também hoje escutada lembra-nos a nossa condição de sentinelas atentas e ativas, sensíveis, sempre sintonizadas em Hi-Fi, velando para que não se desperdice a força performativa da Palavra de Deus. Leia-se, em contraponto, a advertência fortíssima de Isaías: «Todas as sentinelas são cegas: não entendem; todas como cães mudos: incapazes de ladrar; sonham, ficam deitadas, gostam de dormir» (Isaías 56,10).

11. E sempre na mesma boa sintonia, desafia-nos S. Paulo (Romanos 13,8-10) a termos sempre boa consciência para sabermos que temos uns para com os outros uma bela dívida a pagar todos os dias: o amor mútuo. Trata-se de uma dívida de que não podemos fugir, pois não nos é permitido declarar insolvência!

12. Sim, não nos é permitido declarar insolvência ou adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol em família), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé, que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

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