22° Domingo
Tempo Comum (ciclo A)
Mateus 16,21-27

E Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém, e sofrer muito da parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Então Pedro levou Jesus para um lado, e o repreendeu, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!”
Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: “Fique longe de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, porque não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens!” Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que um homem pode dar em troca da sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a própria conduta.
Anúncio e rejeição da Palavra
Marcel Domergue
A grande virada
Logo após ter Pedro, em nome de todos os discípulos (o «vós» do versículo 15), atravessado a primeira etapa da fé, havendo reconhecido a verdadeira identidade de Jesus – a identidade divina -, o Senhor induz os seus ouvintes a entrarem na segunda etapa.
A partir daquele momento, Jesus Cristo (agora podemos chamá-lo de Cristo, pois Simão já o havia reconhecido como tal) «começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia.»
Ir para Jerusalém, a cidade que mata os profetas! Estamos por ora em Cesareia de Filipe, o que não é absolutamente destituído de significado. Pois é aí o ponto mais ao norte daquela viagem de Jesus: estamos assim numa grande virada.
O Cristo, de fato, vai «dar meia-volta» e tomar o caminho do sul. É uma virada também para os discípulos: vão ter de mudar de ideia totalmente, a respeito do que é o Messias, o Filho de Deus e a respeito, portanto, do próprio Deus.
O Messias, para eles, seria um rei prestigioso, herdeiro da coragem de Davi e da glória de Salomão; um rei que viria restabelecer a ordem e restaurar a soberania de Israel.
Jesus, no entanto, anuncia-lhes o sofrimento e a morte. Também João Batista havia ficado desconcertado: designara-o como quem viria exercer o julgamento de Deus, mas só lhe falavam de um homem muito atento aos sofrimentos dos outros: «És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro ?» (Mateus 11,3).
Pedro a meio-caminho
Os discípulos recebem, portanto, o anúncio da tragédia pascal. Trata-se do êxodo pascal, do movimento de retorno do Cristo para o Pai. Devemos confessar que é muito difícil aceitar esta perspectiva. Para muitos de nós, ainda hoje, é difícil aceitar o espetáculo da cruz.
Diante dela, muitas coisas se revoltam dentro de nós. Mensuremos bem o que está em jogo: trata-se de passar da imagem de um Deus autocrata, dominador e que faz uso da sua onipotência, para a imagem de um Deus que se põe à mercê dos homens; um Deus que é somente amor e, portanto, desapossamento de Si.
Daí que o «Tu és o Cristo» pronunciado por Simão ganha um sentido novo, inesperado, desconcertante; não se trata mais de pôr ordem no mundo, mas de dar-se em alimento para os outros, para que estes vivam dele.
Falamos muitas vezes sobre a «vontade de Deus», esquecendo que o que Deus quer são homens e mulheres vivos e capazes de aceitarem a vontade de outros, cada vez que estes outros decidam levá-los à morte, retirando de suas vidas a justiça e o amor.
O que é um paradoxo! Pois, é justamente o assassinato que irá provocar a revelação do amor. No evangelho, vemos Simão recusar-se a entrar no jogo.
Preciosa defecção: se ele, sendo a rocha sobre a qual tudo será construído, teve tamanha dificuldade em aceitar a cruz e acabou mesmo assim retornando para o Cristo, e, sobretudo, se o Cristo retornou para ele, não nos amedrontemos demais por causa das nossas incompreensões e das nossas defecções.
A pedra de tropeço
Tendo como pano de fundo este quadro, no qual vimos Simão demonstrar toda a sua repugnância diante da segunda passagem obrigatória da fé, retomemos o diálogo que o texto nos oferece.
Ao anúncio da Paixão, Pedro toma Jesus à parte e lhe diz «Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!» Não a ti! Podendo, portanto, acontecer aos outros.
Ora, onde estaria o amor de Deus por nós, se Jesus se tivesse esquivado? Se tivesse deixado homens e mulheres sozinhos, carregando as suas cruzes? Simão, e com ele os seus companheiros, queria que Jesus se safasse a tempo daquela situação.
E Jesus o repreende severamente, numa frase de extrema densidade. «Vai para longe», tu que te pões diante de mim como um adversário que vem barrar-me o caminho. «Tu és para mim uma pedra de tropeço»: «pedra de tropeço», ou seja, aquela que, numa estrada mal pavimentada, se põe como um ressalto e faz o pedestre cair.
E é assim que Simão, a Pedra sobre a qual tudo irá se construir, torna-se a pedra contra a qual se dá um tropeção, no caminho de Jerusalém. Omiti a palavra «Satanás» no começo da resposta de Jesus.
Satanás significa o adversário, aquele que nos afronta e põe-se à nossa frente para nos impedir de avançar. Volto a isso porque o «Vai-te, Satanás» encontra-se em Mateus 4, no final do relato das tentações.
E, aqui, Simão é para Jesus um verdadeiro tentador. Com uma nuança, no entanto: o «Vai-te Satanás» torna-se aqui «passa-te para trás de mim». O discípulo não é excluído, mas convidado a seguir Jesus aonde ele for, o que será longamente explicitado na sequência do texto.
Seguir o Cristo
Podemos notar que Jesus experimenta sentimentos que são iguais aos nossos; pois isto existe em Deus, que, afinal, se faz um só conosco. Eis que Jesus agora nos convida a nos fazermos um só com ele, em tudo o que vai se passar em Jerusalém.
Sem qualquer restrição: “Se alguém quer me seguir…” Só tem valor o que se faz livremente, até mesmo quando “seguir o Cristo” se põe como o único meio de “salvar a sua vida”.
Estamos sempre diante do mesmo paradoxo: só salvamos o que damos. Mas o que significa “renunciar a si mesmo”? Antes de qualquer coisa, que seja bem entendido, significa tomar distância do que possuímos e em que, com frequência, colocamos a nossa confiança, o nosso orgulho e a nossa alegria.
Pois, tudo isso nos será tirado na hora da nossa morte. O nosso valor está em outro lugar. Está na confiança que os outros podem depositar em nós, na necessidade que têm de nós, o que só encontra a sua verdade se não o buscarmos, se mantivermos os nossos olhos para o outro e não para nós mesmos, servindo os outros.
Que fique bem entendido, dar a própria vida pode ir muito mais longe. Levar a sua cruz e seguir o Cristo comporta também a maneira pela qual superamos as catástrofes que podem acontecer em nossas vidas. Elas não nos vêm de Deus, mas o Deus crucificado está aqui conosco, para atravessá-las.
Pensemos inclusive nos problemas do envelhecimento: eis-nos aqui obrigados a deixar para trás as nossas forças, a nossa agilidade, o bom funcionamento dos nossos órgãos, um a um, até o aniquilamento total.
Tudo isso equivale a carregar, com o Cristo, a nossa cruz. Uma questão: como usar tudo isso para fazer com que os outros existam, a começar pelas pessoas da nossa convivência? Só o Espírito deste que nos deu a sua vida e que segue dando-a para nós, todos os dias, é que nos pode sugeri-lo.
Só quem se perde pelos outros será salvo
Enzo Bianchi
Ainda estamos em Cesareia, onde Pedro confessou Jesus como Cristo, Messias (cf. Mt 16,16). Mas que tipo de Messias é Jesus? E o que significa ser seu discípulo? É ele mesmo quem no-lo revela.
Jesus, depois de ouvir as palavras de Pedro, ordena aos discípulos que não digam a ninguém que ele é o Messias (cf. Mt 16,20), porque esse título poderia ser mal interpretado. E precisamente “a partir de então”, sinal de uma virada importante no caminho de Jesus e da sua comunidade, “começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (cf. também Mt 17,22-23; 20,17-19).
Mas o que significa que Jesus “deve” viver tudo isso? Isso absolutamente não indica um destino cruel que lhe foi imposto por Deus, mas sobretudo uma necessidade humana, porque, em um mundo injusto, o justo só pode ser hostilizado, até ser morto (cf. Sb 2).
Pois bem, se Jesus, o Justo, enfrenta esta situação sem responder aos seus algozes com violência, mas permanecendo fiel a Deus, então a necessidade humana também pode ser lida como necessidade divina: no sentido de que a livre obediência à vontade de Deus, que pede para viver o amor ao extremo, exige uma vida de amor, mesmo às custas de uma morte violenta. Foi assim que Jesus viveu, tendo compreendido a sua própria vocação messiânica à luz das Escrituras, com particular referência ao misterioso Servo sofredor descrito por Isaías (cf. Is 52,13-53,12).
Pedro, porém, como fiel crente judeu, não pode aceitar que esse seja o destino do Messias, do Rei de Israel. Por isso, com uma reação impulsiva e muito humana, chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor!”. O discípulo, sem saber aquilo que diz, pretende repreender o Mestre…
Jesus, em resposta, reserva-lhe palavras muito duras: “Vai para trás de mim, Satanás!”, isto é, volte para o lugar que lhe cabe. “Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus mas sim as coisas dos homens!”, de forma mundana.
O passo entre a bem-aventurança dirigida por Jesus ao discípulo (cf. Mt 16,17) e o fato de ser chamado de “satanás” é muito curto: nós o fazemos cada vez que presumimos sair do seguimento de Jesus para nos colocar na frente dele, obstaculizando assim o caminho por ele estabelecido para o seu pequeno rebanho.
“Então” Jesus esclarece, para evitar equívocos, qual é o comportamento exigido de quem vive no seu seguimento. Ele apenas reitera de maneira mais explícita a estreita comunhão entre o seu próprio destino e o dos discípulos, sobre o qual já havia dito: “O discípulo não é maior do que o Mestre” (Mt 10,24).
Jesus afirma acima de tudo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Isso significa parar de considerar a própria pessoa como medida de todas as coisas e “renegar ao idolátrico pertencimento a si mesmo” (Bruno Maggioni). Quem renuncia a esse comportamento deixa de se justificar e, por amor a Cristo, aceita também carregar o peso da cruz, instrumento da própria condenação à morte.
Esse modo de vida é plenamente iluminado pela palavra subsequente de Jesus, uma frase paradoxal que, nos Evangelhos, ressoa várias vezes nos seus lábios: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.
Eis o verdadeiro ganho, a verdadeira salvação que podemos conhecer dia após dia: perder a nossa vida por Cristo, doá-la como ele fez e nos ensinou a fazer, até não distinguirmos mais a nossa vida da vida de Cristo em nós…
Por fim, Jesus, voltando a falar de si mesmo na terceira pessoa, diz: “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”. O vínculo com aquilo que veio antes indica que o juízo começa para nós aqui e agora, e o seu parâmetro é o seguimento concreto de Jesus Cristo, sinal de uma fé confessada com a vida: a vida de quem, por amor a ele, deseja “segui-lo aonde quer que ele vá” (cf. Ap 14,4).
Partilhar a cruz, escolha missionária de Cristo
Romeo Ballan, MCCJ
Foi esplêndida a afirmação de Pedro: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo!» (Mt 16,16: Evangelho de domingo passado). Mas não é ainda tudo sobre a identidade de Jesus. É importante afirmar a divindade de Jesus Cristo, mas talvez seja ainda mais difícil afirmar a sua humanidade, com a consequente possibilidade de sofrer e de morrer (Evangelho). Por isso, Jesus, depois de ter obtido dos seus discípulos a primeira profissão de fé explícita no seu messianismo, dá início a uma nova fase na sua pregação: «Jesus começou a explicar aos seus discípulos…» (v. 21). Precisamente como no início da sua vida pública, depois da fase preparatória (baptismo no Jordão e tentações no deserto), Mateus escreve: «A partir de então Jesus começou a pregar e a dizer “convertei-vos”…» (Mt 4, 17). No baptismo e no deserto, Jesus tinha feito escolhas bem precisas acerca do modo de realizar a missão recebida do Pai para a salvação da humanidade: a escolha de ser e de viver como filho e irmão, a escolha de renunciar aos meios fáceis e ilusórios do poder, a glória e o bem-estar… Fiel às suas escolhas, feitas segundo o coração de Deus, Jesus avança com determinação para a sua hora, disposto às consequências extremas. Fala disso com os discípulos e amigos, mas não aceita acomodações, revisões ou subtracções da parte de quem pensa apenas à maneira humana, segundo a carne e o sangue (v. 17.23). Jesus revela com clareza o conflito, a incompatibilidade entre o pensar segundo Deus e o pensar segundo os homens (v. 23).
Com base nestas premissas, o Evangelho de hoje prossegue a revelação da identidade de Jesus com novos aprofundamentos: Ele não é só o Messias-Cristo, o Filho de Deus (v. 16), mas é também o servo, que tem de «sofrer muito… ser morto e ressuscitar» (v. 21) Jesus considera que, na nova família acabada da anunciar, que é a Igreja (cf. Evangelho de domingo passado), também os seus discípulos deverão partilhar as suas escolhas, percorrer o mesmo caminho, se quiserem continuar a missão. Por isso, Jesus fala abertamente aos seus discípulos da necessidade de renegar a si mesmos, tomar cada um a sua cruz e segui-lo, perder a própria vida por sua causa (v. 24-25), fazer-se samaritanos e cireneus dos mais fracos, como o Papa Bento XVI ensinou aos jovens na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, convidando-os a insurgir-se contra o conformismo, a indiferença, o individualismo que escravizam, e a optar, em vez disso, por Cristo e pelo anúncio do Evangelho, dom da vida e da liberdade.
Longe de ser uma exortação moral e ascética a aceitar com paciência e resignação as tribulações, as doenças e a morte, estas palavras exigentes são um convite para o discípulo a identificar-se com o projecto de Jesus e a partilhar as suas escolhas e caminho. «A leitura do Evangelho segundo os homens é uma exortação à resignação e Jesus não foi, de forma alguma, um resignado, diz aliás: “é preciso que eu seja condenado”. Porque é necessário? É necessário porque a escolha que eu fiz no dia em que disse a Satanás “afasta-te de mim”, em que renunciei ao domínio, à sedução do bem-estar físico e ao milagre – as três renúncias de Jesus no deserto – leva inevitavelmente à minha condenação!» (Ernesto Balducci).
Portanto a cruz não é meramente um fardo a carregar com resignação, mas o resultado necessário de uma escolha livremente feita por Jesus no deserto. Ele está seguro da sua escolha, rejeita os protestos de Pedro, novo satanás (v. 22.23), e remete-o ao seu lugar de discípulo: «Vai-te daqui, Satanás» (v. 23). Pedro não é chamado a regular os passos do Mestre, mas a segui-lo. Caso contrário a «pedra de construção» (v. 18) torna-se pedra de tropeço, ocasião de escândalo (v. 23). Pensar segundo Deus é condição fundamental para realizar com fidelidade e eficácia a missão que Jesus confia à sua Igreja.
O missionário, tal como o profeta que muitas vezes se torna incómodo e incomodativo (I leitura), se vive identificado com o seu Mestre, tem dentro de si «um fogo ardente» (v. 9) que o impele a superar os desânimos e as adversidades. E a oferecer-se de corpo e alma (II leitura) «como sacrifício vivo», como «culto espiritual» (v. 1), renovando a sua forma de pensar, «para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito» (v. 2). A própria natureza da missão impõe àqueles que anunciam o Evangelho que colham inspiração do único Mestre e Salvador: Cristo. A história das missões está repleta de apóstolos apaixonados por Cristo e pela humanidade: Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Daniel Comboni, Teresa de Calcutá, Francisco Xavier… que optaram por Cristo em vez de ganhar o mundo inteiro (Mt 16,26). E bem assim, os numerosos mártires de cada tempo. A fidelidade radical a Cristo é condição indispensável de eficácia apostólica. E de verdadeira felicidade no serviço missionário.
Não se pode seguir Jesus só com os pés!
António Couto
1. O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-27) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escutámos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), em que o reconhecimento de Jesus como o Messias por parte dos discípulos, com Pedro à cabeça, constituía um importante passo em frente, como tal assinalado com louvor por Jesus. Todavia, o episódio terminava com Jesus a ordenar taxativamente aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias (v. 20). No Domingo passado não nos era dado saber a razão de tão clara proibição. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto integral, já não precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusalém. De facto, hoje ficamos a saber que a conceção de messianismo que os discípulos atribuíam a Jesus diferia substancialmente da conceção messiânica de Jesus. A visão messiânica de Jesus implicava que Ele ia sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (v. 21). Ao passo que a visão messiânica dos discípulos, e do judaísmo em geral, implicava triunfo e sucesso, e apenas triunfo e sucesso, sem sofrimento e sem morte. E foi por isso, para não dar azo a populismos e triunfalismos vãos e fáceis, que Jesus proibiu os seus discípulos de dizerem que Ele era o Messias. Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem taxativa de não dizerem a ninguém que Ele era o Messias (v. 20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte, falando pela primeira vez, de forma explícita, da sua Paixão, Morte e Ressurreição. Assim: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî) – este deî implica necessidade divina ou teológica – que Ele vá para Jerusalém, sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia» (v. 21). Sendo divina e teológica a dimensão deste dizer de Jesus, tal implica que este não deva ser visto como simples leitura ou interpretação dos «sinais dos tempos» (políticos, religiosos e outros), mas antes à luz da convicção que Jesus tinha da sua própria missão.
2. Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro «tomou-o consigo à parte» (proslabómenos autón), e começou a «recriminá-lo» (epitimãn autô), dizendo: «Deus te livre por graça (híleôs soi), Senhor; isso nunca (ou mê) te acontecerá» (v. 22). Que é como quem diz: «Não é esse o programa previsto para o Messias». Aí está como Pedro não viu nem mediu as palavras que disse, quando disse: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (v. 16), como vindas do Pai, por graça, como Jesus salientou na altura, mas como sua produção própria, dentro da sua cultura e religiosidade, colhidas na torrente da tradição religiosa judaica. Para Pedro, tudo normal. Tudo corrente. Tudo dentro do horizonte religioso judaico. Mas atenção que o que aconteceu com Pedro acontece connosco muitas vezes, tantas são as ocasiões em que não chegamos a compreender que anda por ali a graça de Deus e o dedo de Deus! Mas voltemos à atitude e às palavras de recriminação que Pedro dirigiu a Jesus. Salientemos em primeiro lugar que Pedro não enfrenta diretamente Jesus, mas usa de alguma discrição e confidencialidade, chamando-o à parte. Isto no que se refere à atitude, comedida e respeitosa. Prestando agora atenção às palavras de recriminação que Pedro dirige a Jesus, e que abrem com aquele: «Deus te livre por graça (híleôs soi), Senhor», ficamos com a sensação de que Pedro vê o quadro apresentado por Jesus, não tanto como meta a atingir, mas como um desastre a evitar. A expressão «Deus te livre por graça» (híleôs soi), difícil em grego, pode ser a reprodução da locução hebraica halîlah, muito habitual nestas ocasiões, que passa o mesmo sentido de que Deus não há de permitir que aconteça tal desgraça. Este sentido pode sair reforçado por aquela negação forte «isso nunca (ou mê) te acontecerá», com duas negativas acopladas (ou mê) que, por isso, não traduzi por um simples «não», mas por «nunca».
3. Jesus responde a Pedro com palavras duríssimas e corretivas, violentas mesmo, sem nenhum aceno de diplomacia, visível até se compararmos o movimento corporal de Pedro e de Jesus: Pedro chama Jesus à parte, diríamos com uma certa discrição e confidencialidade, e a recriminação que dirige a Jesus tende a ajudar a amenizar a situação difícil e sem saída que Jesus acaba de expor. Jesus não faz uso de nenhuma diplomacia, volta-se sobre Pedro (strapheís), e diz-lhe publicamente: «Vai para trás de mim, Satanás (hýpage opísô mou, Satanâ)! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (v. 23). Ponto por ponto: 1) salta à vista, sobretudo porque temos antes a atitude diplomática de Pedro, o facto de Jesus se ter voltado para ficar frente-a-frente com Pedro e com todos; 2) «Atrás de mim» é o lugar do discípulo, exatamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado por Jesus: «Vinde atrás de mim» (deûte opísô mou), são estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a André, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atrás de Jesus, e não postar-se à sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as suas ideias que colheu acerca do Cristo na torrente da tradição cultural e religiosa judaica, que são ideias de sucesso e de triunfo, e pretenda desligar Jesus do seu caminho duro e ensanguentado da Paixão e da Cruz. 3) Note-se, todavia, que o imperativo deûte, usado no chamamento dos discípulos, tem um colorido adverbial quase exortativo, ao passo que o imperativo hypáge, agora usado por Jesus em relação a Pedro, tem um colorido fortemente exclusivo; basta dizer que se trata do mesmo imperativo usado por Jesus para pôr Satanás fora do seu caminho (Mateus 4,10). 4) O apelativo «Satanás» pode ter no caso de Pedro o vulgar significado hebraico de «separador» e «adversário», mas é também claro que lembra o outro «Satanás» de Mateus 4,8-9, «o deus deste mundo» (2 Cor 4,4; Ef 2,1-3), que quer oferecer a Jesus um reino sem Cruz, atulhado de poder e glória, que são os valores deste mundo, e que é taxativamente exorcizado por Jesus, como já vimos (Mateus 4,10). Em nome dos nossos princípios cómodos adquiridos, ignoramos ou não queremos saber da graça de Deus que agora nos indica outros caminhos. 5) «Pedra de tropeço» (skándalon), colocada no caminho, é o sentido primitivo do termo grego skándalon. O sentido é fazer as pessoas tropeçar e cair, e impedi-las de continuar o seu caminho. É claro que Jesus, usando este termo, pretende pôr a claro que Pedro, talvez com boa intenção, lhe quer barrar o caminho do sofrimento e da Cruz e de acesso à Vida verdadeira. Mas o leitor atento não pode deixar de olhar um pouco para trás e de tropeçar no contraponto: «Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18). É a exploração do duplo sentido da «pedra» e do nome de Pedro, positivo ou negativo.
4. E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a dizer claramente aos seus discípulos que, para o seguirem, é preciso dizer não a si mesmos (aparnéomai), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Semelhante exigência, num mundo em que a vida terrena (psychê) é o maior valor existente (v. 26), só faz sentido se houver a garantia de uma vida maior no horizonte. Dizer não a si mesmos implica entrar pelo caminho da morte terrena e seguir Jesus (v. 24), sabendo que é perdendo esta vida terrena que se ganha a vida em plenitude. Implica pôr em Jesus a sua confiança, e não nos bens, que nos gritam todos os dias: «confiai em nós!» (apólogo judaico de 1700). «Perder a vida por causa de mim» (v. 25), diz Jesus. O que Jesus diz a estes discípulos e a nós, que valorizamos tanto esta vida terrena, é que perdê-la é um pequeno preço para ganhar a vida eterna. Entenda-se: perder esta vida terrena desta maneira é perder-se nos caminhos de Jesus, «imitando-o verdadeiramente, e não segui-lo só com os pés», para o dizer com as palavras sábias de Erasmo de Roterdão (1469-1536). Perder a vida não implica ganho nenhum. É a vida perdida por lealdade a Jesus que garante que se ganhe a verdadeira vida.
5. Por tudo isto se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!» Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, nem a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo», a um «Cristo» assim (v. 21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários, do sofrimento e da morte. Viria, enfim, pôr fim a todas as necessidades, discórdias e disputas, à guerra, à doença, à velhice e à morte, a tudo aquilo que perturba e diminui os níveis da nossa vida. Ele viria trazer a plenitude da vida. É por isto que Pedro e aqueles discípulos seguem Jesus, e não porque andem à procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma oração nova. Portanto, se os discípulos de Jesus fossem dizer que Ele era o Cristo, era isto que iam dizer, e era isto que a sua audiência judaica ia perceber. Gerar-se-ia uma onda de entusiasmo popular, de populismo, que soaria a falso, como quando nós ainda hoje falamos de messianismo.
6. O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo? Não o Cristo da tradição do triunfo e do sucesso, mas o Cristo de Deus? É verdade que o Cristo de Deus vem trazer a plenitude da vida, mas não é como Pedro pensava. Muito menos como hoje, em que são cada vez menos os que ainda veem alguma coisa para além de um buraco e de um monte de terra!
7. O caminho de Jesus é paradoxal e provocatório. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a versão nova de Jesus acerca do seu messianismo. Demorou tempo, equivocou-se várias vezes, ficou parado no caminho, ensonado, dissentido, aqueceu-se a outro lume, mas quando foi atingido em cheio pela graça e pela força do Ressuscitado, seguiu Jesus apaixonadamente até ao sangue, não apenas com os pés, portanto. É neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas «confissões» de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasfémia, de velhacaria e engano, pois o abandonou à sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o à mercê dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua missão de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assaltá-lo como um fogo, uma lava ardente de que não se pode fugir, pois arde dentro de nós (Jeremias 20,9). E como é que se pode fugir de um fogo que arde dentro de nós?
8. As «confissões» de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia-dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá.
9. Não coisas exteriores a nós, mas nós mesmos em oferta a Deus, eis o «culto lógico» (latreía logikê), isto é, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus, conforme a lição de hoje da Carta aos Romanos 12,1-2, um texto curto, mas imenso. Claro, tudo sempre envolvido na graça preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrifício agradável a Deus.
10. De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63, conhecido como «o canto do amor místico», em que o orante descreve a sua sede psicobiológica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de Ávila, de quem, em 2015, celebrámos o V Centenário do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu Caminho de perfeição: «A sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se não o saciarmos».