E vós, quem dizeis que eu sou

Referências bíblicas

1ª leitura: “Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi” (Isaías 22,19-23)
Salmo: Sl. 137(138) – R/ Ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Completai em mim a obra começada!
2ª leitura: “Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele” (Romanos 11,33-36)
Evangelho: ”Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mateus 16,13-20)

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?». Eles responderam: «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas». Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus». Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.


Quem é Jesus? Essa pergunta central para a nossa fé, que perpassa todo o Evangelho de formas diferentes, ressoa no texto de hoje precisamente nos lábios de Jesus: a nossa relação com ele, Senhor da nossa vida, depende da resposta a essa interrogação.

Enquanto se encontra em Cesareia de Filipe, cidade situada no extremo norte de Israel, Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. Certamente com o título de “Filho do Homem” Jesus pretende se referir àquela figura de Salvador profetizada por Daniel (cf. Dn 7) e esperada pelos fiéis de Israel para o fim dos tempos.

Mas é importante notar que, desse modo, ele também se distancia misteriosamente de si mesmo, falando de si mesmo como de um outro, na terceira pessoa, sem qualquer autorreferencialidade…

Os discípulos relatam a opinião corrente que via em Jesus um profeta (cf. Mt 13,57; 14,5): segundo alguns, ele seria João Batista ressuscitado dos mortos, como Herodes já havia defendido (cf. Mt 14,2); segundo outros, seria o novo Elias, o grande profeta arrebatado por Deus ao céu (cf. 2Rs 2,1-18); segundo outros ainda, nele reviveria Jeremias, o profeta duramente perseguido pela classe sacerdotal do seu tempo.

Todas as respostas contêm uma parte de verdade, mas ainda são insuficientes para explicar a novidade, a singularidade de Jesus.

É por isso que o próprio Jesus pergunta diretamente aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. É uma pergunta feita em tom confidencial àqueles que estão mais intimamente envolvidos com ele e, portanto, deveriam conhecê-lo em profundidade, muito além da opinião popular.

Apenas um deles, Simão Pedro, responde sem hesitação: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Ou seja, ele reconhece em Jesus o Cristo, ou seja, o Messias, o Rei de paz e de justiça esperado por Israel em favor de toda a humanidade; não só isso, discerne nele o Filho de Deus, ou seja, o revelador último e definitivo do Pai aos homens e mulheres (cf. Jo 1,18).

Na cidade que leva o nome de César, aquele que se fazia chamar de Deus e Senhor, Pedro expressa a confissão de fé que capta em plenitude a identidade de Jesus…

Ele faz isso não na qualidade de “porta-voz” dos Doze, mas sim movido por uma força interior, por uma revelação que só lhe podia vir de Deus, como Jesus sabe reconhecer: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”.

E é precisamente como destinatário desse dom de graça que Simão recebe de Jesus um novo nome, Kefa, Pedro, acompanhado de uma missão precisa: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”, imagem que remete à pedra de fundação do templo, “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (cf. Is 28,14-18).

Pedro é proclamado por Jesus o fundamento da sua comunidade, a Igreja, e rocha capaz de confirmar os irmãos e irmãs na fé (cf. Lc 22,32): é somente por essa vontade do Senhor, não em virtude dos seus dotes pessoais, que ele aparece como “primeiro” na lista dos Doze (Mt 10,2) e recebe do próprio Senhor a autoridade de governo (as chaves do Reino: cf. Is 22,22) e a disciplinar (o poder de ligar e desligar).

Pedro não estará isento de erros e quedas: pelo contrário, como veremos na continuação imediata do nosso trecho, de rocha sólida ele se tornará pedra de tropeço, e por causa dos seus sentimentos mundanos será até chamado por Jesus de “satanás” (Mt 16,18).

Mas isso não deve nos escandalizar nem nos induzir a diminuir a autoridade de Pedro. Pelo contrário, devemos nos maravilhar com a extraordinária condescendência com que Jesus confiou a ele, homem pobre e frágil, o ministério decisivo para a comunhão e a unidade da Igreja; e, ao mesmo tempo, recordar que, na comunidade cristã, a autoridade só pode ser exercida conformando-se ao sentimento de Cristo, a única verdadeira Rocha sobre a qual se funda a Igreja (cf. 1Cor 3,11; 1 Pd 2, 4-8)!

O diálogo entre Pedro e Jesus desemboca no silêncio imposto por este aos discípulos a respeito da sua própria qualidade messiânica. Desse modo, Jesus pretende cavar nos nossos corações o espaço para a pergunta decisiva: que tipo de Messias ele é? O que significa que ele é o Cristo?

Será ele mesmo quem no-lo revelará, com palavras surpreendentes e “escandalosas”…

http://www.ihu.unisinos.br


E vós, quem dizeis que eu sou?
Marcel Domergue

Quem é ele? Para onde ele vai?

O evangelho de hoje e o que leremos no próximo domingo formam um todo, porque desenham o círculo das duas passagens obrigatórias constitutivas da fé plena, total.

A primeira é toda feita de acolhimento: diante de Jesus, ouvindo as suas palavras e admirando os seus atos, temos de dar uma resposta à questão da identidade que percorre todos os evangelhos: Quem é este homem?

E que tem uma variante, sobretudo em João: De onde vem ele? Dá vontade de traduzir: De onde ele saiu? Este primeiro tempo da fé corresponde ao movimento do próprio Cristo; ele veio do Pai e «desceu» até nós.

Pregado na cruz e sepultado no túmulo, desceu ao ponto mais baixo. E, então, veio o salto: o semicírculo ascendente de retorno do Cristo ao seu Pai: a fé deve segui-lo até este ponto.

No evangelho de hoje, permanecemos no primeiro semicírculo: o da questão da identidade. Pedro, em sua resposta, antecipa o que somente se descobrirá à luz da Páscoa: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.»

As pessoas, no entanto, o listavam entre os personagens do passado: João Batista, Elias, Jeremias. Já os nossos contemporâneos o colocariam em série junto com Buda, Maomé etc. Mas, para nós, quem é ele?

Ainda hoje, podemos ouvir Jesus nos perguntar: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Claro que faríamos nossa a resposta de Simão, mas o que colocaríamos sob estas palavras?

“Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.”

Simão é “filho de Jonas” (enquanto Jesus é «filho do Deus vivo»), mas não foi esta herança «carnal» que falou nele, e sim a hereditariedade de Jesus mesmo: «não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.»

O que, em certo sentido, faz de Simão um filho de Deus. Pois, de fato, quem quer que reconheça ser Jesus o Filho de Deus entra em sua herança e participa da sua divindade.

Isto porque só podemos acreditar em sua filiação divina, se a voz do Pai falar dentro de nós. Por este motivo Jesus poderá dizer a Maria Madalena, em João 20,17: «Subo a meu Pai e vosso Pai.»

O que lembra João 6,44: «Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair.» Falei em antecipação da fé pascal, a propósito da profissão de fé de Pedro.

É que foi preciso que ele tomasse consciência de que Cristo havia «subido» (ressurreição) para poder compreender que antes havia «descido».

Assim fecha-se o círculo descrito por Filipenses 2, 6-11 e somente no final é que «todo joelho pode se dobrar» e que podemos reconhecer que Jesus Cristo é o Senhor. Mas o que colocaremos sob o nome «Filho de Deus»?

Sabemos que aí há um obstáculo que o Islã não pode superar. Está claro que a palavra «filho», quando se trata do Cristo, não tem o mesmo sentido que em nossa linguagem corrente.

É por isso, exatamente, que a Bíblia, a propósito do filho, usa os sinônimos «Verbo» ou «Sabedoria». Jesus é tudo isto. Ele é mais do que Filho.

“Eu te digo que tu és Pedro.”

Vamos destacar a admirável simetria deste texto: «Tu és o Cristo» «Tu és Pedro». A identidade eterna de Jesus e a nova identidade de Simão filho de Jonas.

Da mesma forma Abrão, «pai muito elevado», tornou-se Abraão, «pai de multidões.» Tornou-se outro homem: mudança de nome, mudança de destino.

Não esqueçamos que, ao longo de toda a Bíblia, o próprio Deus é a pedra fundamental sobre a qual se pode construir ou se apoiar; é Ele o rochedo ao abrigo do qual se pode ter refúgio (cf. Salmo 18,3).

Entre os profetas, o Messias que há de vir é que com frequência é qualificado de pedra (ver particularmente Daniel 2,31-35). Jesus transmite assim a Simão um dos seus próprios títulos messiânicos.

Simão será outro Cristo. Seria anacrônico pretender deduzir desta transmissão de função e da tomada do «poder das chaves» uma teoria do poder pontifício, sobretudo sob a forma que a história lhe deu – história que ainda nem terminou.

Aliás, no capítulo 18, versículo 18 do mesmo evangelho, ouvimos Jesus confiar a todos os discípulos, e não mais só a Pedro, o poder de ligar e desligar. Desligar é libertar, ligar é unir.

Guardemos esta afirmação surpreendente: as decisões que os homens irão tomar na face da terra farão mudar alguma coisa nos céus, isto é, em Deus ou, se quisermos, serão endossadas por Ele. É sempre a lógica da Aliança.

Uma última observação: a palavra Igreja, aqui absolutamente anacrônica, encontra-se somente duas vezes no conjunto dos evangelhos; aqui e em 18,17.

http://www.ihu.unisinos.br


Jesus faz uma sondagem de opinião sobre a sua Pessoa, mas vai além dos resultados da sondagem. Quem é Jesus? Qual é a sua verdadeira identidade? Que pensam as pessoas acerca dele?… São perguntas que nos reenviam do passado para o presente e são sempre actuais. A afirmação central deste domingo é a resposta de Simão Pedro (Evangelho), em nome também dos outros, sobre a identidade de Jesus: «Tu é o Messias, o Filho de Deus vivo» (v. 16). É a conclusão da sondagem de opinião que Jesus faz aos seus discípulos, perguntando-lhes, primeiro, o que pensam as pessoas e, depois, o que pensam eles mesmos, sobre Jesus. A opinião das pessoas (v. 14) coloca Jesus ao nível dos grandes profetas de Israel (Elias, Jeremias, João Baptista); o que é já uma boa aproximação, mas ainda a nível espectacular. As pessoas captam a grandeza de Jesus, mas não a sua profunda originalidade. Para chegar aí, são precisos critérios interpretativos novos. É preciso um suplemento de fé. A resposta de Pedro, de facto, vai para além do entender humano (da carne e do sangue); é fruto de uma luz superior, que vem do Pai (v. 17). A revelação do Pai é completa, mas Pedro compreende-a apenas parcialmente: é prova disso o texto que se segue relativo à cruz. Será essa a lição seguinte de Jesus (Mt 16,21-27: cf. Evangelho do próximo domingo).

Num intercâmbio de confissões recíprocas, Pedro reconhece a identidade de Jesus (Tu és o Messias…), e Jesus revela a identidade de Pedro (Tu és Pedro e…) e torna-o participe do Seu projecto em prol de uma nova comunidade: a sua Igreja, que perdurará nos séculos (v. 18). Não obstante as dificuldades históricas e as resistências contrapostas a este texto de Mateus, o plano de Jesus relativo à sua Igreja subsiste no tempo. Segundo a tradicional interpretação católica das três metáforas da pedra (v. 18), das chaves (v. 19) e o binómio ligar-desligar completam-se na atribuição pós-pascal a Pedro do serviço de apascentar, no amor, o povo da nova aliança (cf. Jo 21, 15s). A fé de Pedro – e dos sucessores – é prioritária e fundamental: só assim, nasce, se funda, cresce a Igreja. O Senhor «pôs o fundamento da nossa fé no testemunho humilde do apóstolo Pedro», para que também nós nos tornemos pedras vivas para a edificação da Igreja (Oração colecta).

Não é qualquer modo de exercer a autoridade que é aceite por Deus e ajuda o povo, como o confirma o afastamento de Chebna, funcionário intriguista do palácio (I leitura, v. 19), porque o Senhor quer «um pai para os habitantes de Jerusalém» (v. 21). Segundo Jesus, que é «Senhor e Mestre» (Jo 13,14), que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida» (Mt 20,28), a autoridade (as chaves) é dada a Pedro e à Igreja para um serviço ao povo de Deus numa diaconia sem fim. Quanto mais ampla é a autoridade maior e mais intenso há-de ser o amor e generoso o serviço. Para que no mundo todos tenham vida e a família humana viva unida! É este o objectivo da missão que o Papa repropõe sempre que fala da Igreja.

O Concílio dá-nos a dimensão teológica e missionária do projecto eclesial de Jesus: «A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária» (AG 2). Porque «ela existe para evangelizar» (Paulo VI, in EV 14). Não é marginal o facto que Jesus fale do seu projecto de Igreja encontrando-se ele num território pagão (v. 13: região de Cesareia de Filipe), num contexto geográfico e étnico semelhante ao da mulher cananeia (ver o Evangelho de domingo passado). Estes dois factos narrados por Mateus revelam o carácter universal da missão de Cristo e da Igreja.

Uma sondagem de opinião, feita nos nossos dias, daria resultados aproximativos e redutivos acerca da identidade de Jesus. É mais que sabido, de facto, que uma elevada proporção de fiéis baptizados se afastaram de Cristo, do Evangelho e da Igreja. Para esses é necessário uma nova evangelização, com os conteúdos e os métodos da missão ad gentes, isto é, a primeira evangelização (cf. RM 33). Para muitos é preciso partir novamente dos fundamentos da fé cristã e fazer uso de todos os métodos pedagógicos. O Evangelho de hoje e outras celebrações deste período repropõem três elementos típicos do identikit do católico, que reforçam a sua fé, o caracterizam missionariamente, o ajudam a ser sal e luz no interior do confuso universo religioso do nosso tempo, diante de si mesmo, dos não crentes, dos protestantes, dos ortodoxos e dos outros grupos. Tais elementos são: a Eucaristia, Nossa Senhora e o Papa. São três amores irrenunciáveis, a partilhar; são valores que reforçam a identidade cristã, dão sentido e enchem de alegria a vida e a missão dos cristãos em toda a parte do mundo.


1. Cesareia de Filipe, antiga Pânias, atual Banyas (nome árabe), na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de Jesus, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

2. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus é um profeta. A resposta não está errada. Jesus é, de facto, um profeta. Mas também não se pode considerar certa. E não se pode considerar certa, porque um profeta é um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poderão aparecer. Mesmo que a resposta fosse que Jesus é, não um profeta, mas «o profeta» (cf. João 6,14), a resposta estaria igualmente errada, uma vez que também não respeitaria a singularidade de Jesus, mas o apresentava em linha com Moisés: seria «o profeta como eu», como Moisés, anunciado por Moisés em Deuteronómio 18,15. Também neste caso, Jesus não seria visto como Incomparável. O que vem ao de cima é que o povo não vê em Jesus uma pessoa singular e única, ligada a Deus de um modo único. Ouvida esta resposta, Jesus avança, logo de seguida, de forma direta e enfática, com uma nova pergunta, direta e muito mais implicativa: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta nova e diferente, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas», não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai: «não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai, que está nos céus» (Mateus 16,17). Claro que Pedro tinha sido chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Ficamos agora a saber que também tinha sido predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30). Note-se, porém, que esta ligação do dizer de Pedro ao Pai é feita por Jesus, e parece que Pedro não se terá sequer apercebido disso.

3. De forma diferente do povo, Simão Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto «Cristo» ou «Messias», Jesus não é apenas um entre muitos. É único, primeiro e último, definitivo (nunca houve outro, e não haverá outro), enviado por Deus para dar à humanidade a plenitude da vida. E enquanto «Filho do Deus Vivo», Jesus está com o Pai numa relação singular e única de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, que é o Deus Vivo, que tem a Vida em si mesmo, também o Filho é e tem a Vida em si mesmo (João 5,26). Entenda-se bem, no entanto, que Pedro diz o que diz, não devido aos conhecimentos, competência e capacidade adquiridos, mas por graça, por revelação do Pai. É sobre este dizer de Simão Pedro e sobre o Simão Pedro deste dizerdizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pedro» – «pedra» (Pétros – pétra). Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Igreja ou comunidade messiânica segura. As «portas do Hades» (pýlai hádou), semitismo para dizer «o reino da morte» (e não do Inferno), não prevalecerá contra ela, a Casa da Vida. «Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

4. Mas a forma originária para designar a rocha é keph, aramaico kêpha’, que mostra a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

5. Note-se bem a precisão da pergunta de Jesus. De facto, Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, da sua pessoa, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte, não sobre o saber, mas sobre o dizer. Pedro diz. Não se trata de pensar ou opinar. Não se trata de saber. O saber não compromete a minha maneira de viver. Trata-se de dizer. Quem diz, compromete-se. Por isso, face ao dizer de Pedro, Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam uma autoridade própria. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui uma autoridade própria em sede administrativa, jurídica, científica, interpretativa. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e da autoridade retirada a Shebna e conferida a Eliaqîm.

6. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar-não perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar-não perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, com Pedro, como Pedro, não alijando responsabilidades, mas operante na prática quotidiana do Perdão! A comunidade toda comprometida a desenhar o mapa novo do Perdão, a Praça do Perdão!

8. O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo ou o Messias (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) é, então, percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

9. Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-27, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-27, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incindível.

10. Entretanto, que o nosso coração esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe é devido encha os dias da nossa vida. É a bela oração de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36.

11. À bela oração de Paulo junta-se hoje a voz do orante do Salmo 138 com a sua bela Ação de Graças, que é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

António Couto
https://mesadepalavras.wordpress.com