• Isaias 56,1.6-7
    A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos
  • Salmo 66 (67)
    Refrão: Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra
  • Carta aos Romanos 11,13-15.29-3
    Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos
  • Evangelho Mateus 15,21-28

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar:
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.
Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela replicou: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, e grande a tua fé. Faça-se como desejas».
E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.


A mulher das migalhas, a cananeia pagã, surpreende e converte Jesus: fá-lo passar de mestre de Israel a pastor de todas as dores do mundo (Mateus 15,21-28). A primeira das suas três palavras é uma oração, a mais evangélica, um grito: “Kyrie eleyson”, piedade, Senhor, de mim e da minha criança. E Jesus não lhe dirige nem sequer uma palavra.

Mas a mãe não se rende, cola-se ao grupo, diz e rediz a sua dor. Até que provoca uma resposta, mas distante e brusca: vim para os de Israel, e não para vós.

Frágil mas indómita, não larga; como toda a verdadeira mãe pensa na sua criança, e relança. Lança-se por terra, corta o passo a Jesus, e do coração irrompe-lhe a segunda oração: ajuda-me! E Jesus, áspero: não se tira o pão aos filhos para o lançar aos cães.

E eis a inteligência das mães, a fantasia do seu amor: é verdade, Senhor, mas os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos. Faz uma migalha de milagre, para nós, os cachorrinhos do mundo!

É a reviravolta da narrativa. Docemente, a mulher confessa que está ali só para buscar migalhas, só restos, pão perdido. Poderosamente, a mãe acredita com todo o seu ser que para o Deus de Jesus não há filhos e não-filhos, seres humanos e cachorrinhos. Mas só fome e criaturas a saciar; que o Deus de Jesus está mais atento à dor dos filhos que ao seu credo, que prefere a sua felicidade à fidelidade.

Jesus está fulgurado, comove-se: mulher, grande é a tua fé! Ela que não vai ao templo, que não lê as Escrituras, que reza aos ídolos cananeus, é proclamada mulher de grande fé. Não conhece o catecismo, todavia mostra que conhece Deus por dentro, sente-o pulsar na profundidade das suas feridas do seu coração de mãe. Sabe que «faz chaga no coração de Deus a soma da dor do mundo» (G. Ungaretti).

A dor é sagrada, há ouro nas lágrimas, há toda a compaixão de Deus. Pode parecer uma migalha, pode parecer pouca coisa a ternura de Deus, mas as migalhas de Deus são tão grandes como o próprio Deus. Grande é a tua fé!

E hoje continua a ser assim, há muita fé na Terra, dentro e fora das igrejas, sob o céu do Líbano como sob o céu de Nazaré, porque grande é o número das mães do mundo que não sabem o Credo, mas sabem que Deus tem um coração de mãe, e que misteriosamente lhe prenderam e guardaram um fragmento.

Sabem que para Ele a pessoa vem primeiro que a sua fé. Seja como desejas. Jesus realça o pedido da mãe, restitui-lhe: és tu e o teu desejo que mandam. A tua fé e o teu desejo de mãe, uma fração de Deus, ardente (cf. Cântico 8,6), são verdadeiramente um ventre que dá à luz milagres.

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
http://www.snpcultura.org


A cena é impressionante. Uma mulher pagã gritando ao encontro de Jesus. Ela é uma mãe com uma personalidade forte pedindo compaixão para com sua filha enferma, porque ela tem certeza de que Deus quer uma vida digna para todos os seus f ilhos e filhas, apesar de serem pagãos, apesar de serem mulheres. O seu pedido é direto: “Senhor, Filho de David, tem piedade de mim. Minha filha é atormentada por um demônio”. Mas seu grito caiu no vazio: Jesus fica num silêncio difícil de explicar. Não fica comovido seu coração frente à desgraça daquela mulher sozinha e indefesa?

A tensão se torna insuportável quando Jesus quebra o silêncio e se recusa categoricamente a ouvir aquela mulher. Sua recusa é firme e nasce de seu desejo de ser fiel à missão recebida do Pai: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel”.

Ela não desanima. Caminha mais rapidamente, alcança o grupo, prostra-se diante de Jesus e, do chão, repete seu pedido: “Senhor, ajuda-me”. Em seu grito está ecoando a dor de tantos homens e mulheres que pertencem ao grupo daquele Curador, e sofrem uma vida indigna. Hão de ser excluídos da sua compaixão?

Jesus reafirma a sua negativa: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo para os cachorrinhos”. A mulher não se rende à frieza perturbadora de Jesus. Não discute. Aceita sua imagem dura. Porém, extrai um resultado que Jesus não levou em conta: “Está certo, Senhor, mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”. Na mesa de Deus há pão suficiente para todos.

Jesus reage surpreso. Ouvindo ao fundo esse desejo pagão, ele entende que aquilo que pede é exatamente o que quer Deus: “Mulher, grande é a tua fé: que se cumpra sua vontade”. O amor de Deus para com aqueles que sofrem não conhece fronteiras e nem faz diferença entre crentes ou pagãos. Escutar esta mulher não fica longe da vontade do Pai, mas ele descobre qual é seu verdadeiro alcance.

Os cristãos de hoje têm que aprender a viver com agnósticos, indiferentes ou pagãos. Não são inimigos a serem tirados de nosso caminho. Se ouvirmos o seu sofrimento, descobriremos que eles são pessoas frágeis e vulneráveis que procuram, como nós, um pouco de luz e estímulo para viver.

Jesus não é propriedade dos cristãos. Sua luz e seu poder de cura são para todos. É um erro nos fecharmos em nossos grupos e comunidades, distanciando-nos , excluindo ou condenando aqueles que não são iguais. Somente cumprirmos a vontade do Pai quando vivemos abertos a todo ser humano que sofre e geme pedindo compaixão.

José Antonio Pagola
http://www.ihu.unisinos.br


Ninguém está longe, e menos ainda excluído, do coração de Deus. O tema central das quatro leituras bíblicas deste domingo é a salvação que Deus oferece livremente, sem exclusões, a toda a pessoa, a todos os povos. Esta afirmação, que para nós, hoje, é evidente e fora de discussão, foi pelo contrário uma conquista bastante atormentada pela comunidade dos judeo-cristãos, para os quais Mateus escrevia o seu Evangelho. É conhecido quanto o Israel antigo e o contemporâneo de Jesus vivessem a salvação e a aliança como propriedades privadas, quase exclusivas do povo eleito, frente aos «pagãos, que aos olhos dos judeus eram considerados cães» (alcunha depreciativa), como anota a Bíblia de Jerusalém em Mt 15,26. O livro dos Actos dos Apóstolos dá conta do difícil percurso e da lenta abertura da primeira comunidade cristã sobre este ponto. A difícil gestão do caso de Cornélio por parte de Pedro e da comunidade (Actos 10-11), o debate no Concílio de Jerusalém (Actos 15), as controvérsias de Paulo com os judeo-crsitãos… são testemunhos claros de quanto tenha sido árduo para a Igreja primitiva admitir novos membros provenientes do mundo pagão, isto é, de origem não hebraica. E ainda mais inconcebível era aceitá-los sem passar sob a Lei antiga.

O texto de Isaías (I leitura) oferece um ar de universalidade: os estrangeiros entram com alegria na casa de oração, os seus sacrifícios são aceites por Deus no templo, que Ele abrirá «para todos os povos» (v. 7). Tal abertura universal, cantada com alegria pelo salmista (salmo responsorial), permanecia ainda condicionada à observância do sábado e à subida ao monte santo (Is 56,6-7), elementos que se tornarão caducos depois da ressurreição de Jesus. O esforço do crescimento em ordem à universalidade está patente no diálogo e no milagre de Jesus com a mulher cananeia (Evangelho), originária da região de Tiro e Sidónia (v. 21). O evangelista Marcos insiste em descrevê-la como estrangeira e pagã: «era grega, de origem siro-fenícia» (Mc 7,26). A superação do exclusivismo mostra-se clara, no fim, na admiração de Jesus pela fé daquela mulher pagã e estrangeira. Ela está consciente de não ser filha, mas cachorrinho, com direito pelo menos às migalhas dos donos (v. 26-27); está certa no entanto de ter um lugar no coração de Deus. Jesus exalta a grande fé daquela mãe, atende-a curando instantaneamente a filha doente (v. 28). Exactamente como tinha curado o servo do centurião pagão de Cafarnaúm, louvando a sua fé como primícias dos novos comensais do Reino, que «virão do oriente e do ocidente» (Mt 8,10-13).

Depois de factos como estes, é evidente que a pertença ao povo de Deus não virá mais pela via do sangue (raça), mas pela via da fé, que é sempre e simplesmente dom misericordioso e gratuito de Deus, Pai de todos. Pai em primeiro lugar dos Judeus, e depois dos pagãos, ensina Paulo aos Romanos (II leitura): a prioridade, ou a primogenitura dos Judeus é verdadeira, mas apenas temporária; não significa exclusão dos outros povos. Segundo Paulo, todos os povos foram igualmente desobedientes, rebeldes e infiéis a Deus: primeiro os pagãos, e depois também os Judeus; mas agora Deus quer «ser misericordioso para com todos» (v. 32). É o dom e o mistério do amor misericordioso de Deus. Por todos! Este é o Evangelho, a boa-nova missionária de que o mundo tem necessidade. Para sua vida e sua alegria!

Hoje, não se nega, teoricamente, a admissão de todos à salvação em Cristo, mas, na prática, existe o perigo de considerar o Evangelho como propriedade privada, de uso pessoal. Não se chega a negar que todos sejam igualmente chamados a conhecer Cristo, mas, de facto, faz-se pouco ou nada para o anunciar a quantos ainda não o conhecem. Pensa-se: “Sim, têm direito, mas podem ainda esperar; um dia alguém pensará nisso”… O desafio é descobrir a missão como dom e empenho urgente. A isto nos convida o próprio Mateus: «Ide, pois, e fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28,19).

O episódio da cananeia – que é mulher, pagã, estrangeira – acolhida e atendida por Jesus, repropõe o tema do acolhimento dos estrangeiros na sociedade civil e nas comunidades cristãs. O exemplo de Jesus faz escola! Merecem apoio, portanto, todas as iniciativas que promovem a solidariedade e a integração entre povos e grupos diferentes. Dizem-no bem muitos programas: «Abre a tua casa ao mundo e o mundo será a tua casa» – «Na minha cidade ninguém é estrangeiro!».


1. O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante, retirada de Mateus 15,21-28. Desarmante e insólita, pois quando se trata de curar doentes, não é normal que Jesus se faça rogado tanto tempo. A norma é curá-los imediatamente. Mas aqui, é só à quarta tentativa (outra vez o esquema 3 + 1), após três tentativas da mulher e uma quarta dos discípulos (na verdade é a segunda), que Jesus se decide a curar a filha desta mulher e mãe libanesa. O extraordinário episódio acontece quando Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, atual Líbano, terra pagã. Na maneira de ver do Antigo Testamento, a região de Tiro e de Sídon, a noroeste da Galileia, sobre a costa do Mediterrâneo, era uma terra tipicamente pagã.

2. Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente, situação verdadeira ontem como hoje, talvez ainda mais hoje após o drama da recente explosão no porto de Beirute (4 de agosto de 2020), e que podemos ainda estender à Palestina, à Síria, ao Iraque e a tantos outros lugares do Médio Oriente, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (v. 22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura, como ela bem sabia, pois «fazer graça» é coisa de mãe que dirige o seu olhar embevecido para o bebé que embala nos seus braços. Atente-se ainda no facto de esta mulher e mãe libanesa se dirigir a Jesus chamando-o «filho de David» (v. 22), aparecendo assim a confessar o messianismo de Jesus ainda antes de Pedro, facto que terá lugar um pouco mais à frente, em 16,16.

3. A este primeiro pedido da mulher, refere o texto que Jesus nem lhe respondeu (v. 23). Mas a mulher não desiste. Antes, insiste e persiste, e continua a gritar, a gritar, a gritar, de tal modo que agora são até os discípulos que pedem (segundo pedido) a Jesus que a despache, «porque ela vem a gritar atrás de nós» (ópisthen hêmôn), dizem eles (v. 23b). Equívoco deles e nosso. Não é verdade que aquela mulher e mãe «libanesa» venha a gritar atrás deles ou de nós, para eles ou para nós. Está bom de ver que ela grita atrás de Jesus e para Jesus! E, com esta atitude de seguir atrás de Jesus, aqui está ela, sabendo-o ou não, a assumir a posição de discípula! E leva a sua insistência ainda mais longe, prostrando-se (verbo grego proskynéô) agora diante de Jesus, e formulando o seu segundo pedido (terceiro do relato): «Senhor, ajuda-me!» (kýrie, boêthei moi) (v. 25). O gesto da prostração significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reação de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, dizendo-lhe: «Não está bem (kalón) que se tome o pão dos filhos, para o lançar aos cachorrinhos» (v. 26), catalogando assim aquela pobre mulher e mãe «libanesa» na classe dos cachorros, isto é, dos pagãos, e não dos filhos, isto é, judeus (v. 26). A lição de Marcos 7,27, texto paralelo do nosso texto de Mateus 15,26, é mais clara. Ao pedido instante da mulher e mãe libanesa, Jesus responde: «Deixa que primeiro (prôton) sejam saciados os filhos…». Este «primeiro» reconhece a prioridade de Israel, mas deixa aberto um «segundo», um «depois», uma porta aberta para os pagãos, pois convida a entrever o porvir da missão que há de um dia chegar também a casa desta mulher e mãe libanesa e a todas as casas dos que esperam a hora da realização da sua esperança! Mas esta mulher leva consigo uma necessidade tão urgente, que não pode esperar!

4. À resposta dura de Jesus, a mulher replica de modo admirável! É a sua terceira intervenção, que carrega o quarto pedido do relato. A resposta daquela mulher e mãe é de tal modo cortante, que deve ser traduzida à letra, para não se perder a sua força. Ela responde: «Mas sim, Senhor (naí kýrie)! É verdade que também os cachorrinhos se alimentam das migalhas que caem da mesa dos seus donos!» (v. 27). Face a este vendaval manso de humildade e de ternura, Jesus replicou: «Ó Mulher, grande é a tua fé!» (ô gýnai, megálê sou hê pístis), e acrescentou: «faça-se como queres!» (v. 28).

5. Dizendo o que diz e como diz, Jesus aponta esta Mulher como modelo e ilustração da fé. Note-se bem que é a única vez que Jesus fala de «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se também que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos), como vimos no episódio do Domingo passado (cf. Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos de Jesus são várias vezes apontados como os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (cf. Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo exato do que pedimos a Deus na oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mateus 6,10)!

6. O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes, dos hebreus para os pagãos! Mas fica também às claras o desmascaramento do ridículo das nossas atitudes falsamente endeusadas, de nós, que nos dizemos discípulos de Jesus, e que às vezes somos levados a pensar que as pessoas vêm «atrás de nós», que temos especiais saberes e poderes, e que até podemos conseguir de Deus especiais favores! Em boa verdade, discípula de Jesus é a pobre mulher do Evangelho de hoje, que vai «atrás de Jesus», que «se prostra diante dele», que grita para Ele, e que mostra uma fé indomável e inquebrantável!

7. Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia da grande fé desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje. Em primeiro lugar, e em pura sintonia com a universalidade do Evangelho, aí está a lição igualmente aberta de Isaías 56,1-7, que adscreve mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). Jesus citará este texto de Isaías em Mateus 21,13, Marcos 11,17 e Lucas 19,46. Em Mateus e Lucas, só a primeira parte é referida: «A minha casa será chamada casa de oração». Só em Marcos, a citação aparece por inteiro: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos». Mas Isaías continua a anunciar que os estrangeiros que quiserem servir e amar o Deus Santo e ser fiéis à sua aliança, serão por Ele conduzidos ao Monte Santo, e os seus sacrifícios e holocaustos serão do agrado de Deus (Isaías 56,6-7). Alguns desses estrangeiros serão mesmo escolhidos por Deus para sacerdotes e levitas (Isaías 66,21). Como são insondáveis os caminhos do Senhor! (cf. Romanos 11,33).

8. Mas este tom de comovida universalidade já se tinha feito ouvir, de forma surpreendente, em Isaías 19,24-25, em que Deus une na mesma bênção o Egito, a Assíria e Israel, sendo o Egito e a Assíria inimigos de Israel. Soa assim o requintado dizer de Deus: «Bendito o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança». O amor de Deus não conhece barreiras. A mesma admirável lição se encontra no Salmo 87,4, um maravilhoso Cântico de Sião: «Recordarei Raab e Babel entre os que me conhecem; eis a Filisteia e Tiro e a Etiópia: este nasceu lá». Eis Deus a escrever no livro anagráfico os nomes dos seus filhos. E aí vemos outra vez inscritos os inimigos de Israel: Raab, que é o Egito (Isaías 30,7), a Babilónia, os Filisteus, e os estrangeiros mais estrangeiros, a Etiópia (do grego aíthô [= acender, queimar], e ôps [= rosto]), que é o país das pessoas de rosto queimado ou de cor negra, o país do fim do mundo, como escreve Homero, no princípio do Canto I da Odisseia.

9. Vai ainda no sentido da universalidade a lição de hoje da Carta aos Romanos 11,13-15.29-32. São Paulo intitula-se aí «Apóstolo das nações» (v. 13), e diz-nos que Deus usa de misericórdia para com todos (v. 32). É, porém, um facto que o Israel qualificado, entenda-se, a minoria mais fiel e religiosa, não aceitou a visita de Deus mediante o Filho. Foi por esta razão que Paulo foi enviado aos pagãos. Mas os israelitas continuam a ser «amados» (agapêtoí) de Deus (v. 28), e são-no para sempre, tal como o Filho Único é «amado» (agapêtós), pois a Vontade de Deus não muda.

10. Por isso, bem podemos hoje, com o Salmo 67, juntar as nossas vozes às vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que a todos faz graça e misericórdia. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo 67 recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

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