Alexandra Lisboa
Artista plástica
Jul 28, 2026
Cortesia de
https://claustro.carmelitas.pt

Ó noite que guiaste!
Ó noite amável mais que a alvorada!
Ó noite que juntaste
Amado com amada,
Amada no Amado transformada![1]
(Noite Escura, estrofe 5)          

Em 1574, em Ávila, Frei João da Cruz dá expressão visível a uma visão mística: num pedaço de papel de 5,7 x 4,7 cm, desenhou a figura de Jesus Cristo crucificado visto de uma perspetiva completamente inusitada. A figura de Cristo é vista de cima, todo o corpo pende para a frente ao mesmo tempo que é dramaticamente puxado para baixo, pela gravidade, sugerindo a ausência de resistência própria de um corpo já inerte. O que mantém o corpo suspenso são os pregos, completamente fora de escala, que O prendem ao madeiro. O corpo está ali, mas o espírito já foi entregue ao Pai no último suspiro. É um corpo abandonado, pronto para a transfiguração.

Este pequeno desenho é como que uma estrofe de um longo poema, uma síntese perfeita e completa de uma realidade imensa e esmagadora; a expressão visível do preço da nossa redenção; fala-nos, enfim, de uma vida consumida e consumado por amor. Esta pequena estrofe desenhada por S. João da Cruz é escrita ainda sob os efeitos da união com o Mistério, contém toda a Eternidade.

Em 1951, Salvador Dalí apresentava ao mundo uma outra obra, subsidiária do pequeno desenho do Frei João da Cruz, e que intitulou de Cristo de S. João da Cruz. Depois do pequeno esboço lhe ter sido mostrado por um Frei Carmelita, Salvador Dalí teve um sonho que descreveu deste modo: «Em primeiro lugar, em 1950, tive um ‘sonho cósmico’ no qual eu vi essa imagem em cores e que no meu sonho representava o núcleo do átomo. Este núcleo mais tarde assumiu um sentido metafísico; Eu considerava Cristo ‘a própria unidade do universo’».[2]

Entrar pela ‘mística onírica’ de Salvador Dalí poderia tornar-se uma grande ‘via-dolorosa’ dada a exaustiva exploração que fez do seu subconsciente que nutria com as recentes descobertas da psicanálise de Freud. Para o desenvolvimento do seu processo criativo, frequentemente usava o Método Crítico Paranoico[3] assim nomeado por ele mesmo segundo o qual, induzindo-se num estado de paranoia, criava livremente a partir do subconsciente. Dotava as imagens criadas de um hiper-realismo na representação da matéria nas suas particulares características sensíveis, expressão contracorrente da estética modernista abstrata.

 Se o subconsciente foi, durante grande parte da sua vida, um dos seus motores criativos, a pintura que aqui vamos analisar, sumariamente, Cristo de S. João da Cruz, inscreve-se num outro período artístico que ele nomeou de Misticismo Nuclear. Na sua particular expressão e composição artística, Salvador Dalí já não era apenas movido pelo fascínio da representação da matéria, mas agora acrescentava uma outra obsessão a da constituição da própria matéria, o átomo; a iminência, recentemente descoberta, da desintegração atómica da matéria e de todo o cosmos conferia às suas obras a novidade artística e expressiva que o tornou único.

Salvador Dalí começou a ver toda a realidade a partir das suas entranhas magnéticas agregadoras da matéria e refez algumas das suas pinturas mais antigas à luz desta nova obsessão.

Esta pintura que aqui veremos mais de perto, Cristo de São João da Cruz, é uma pintura a óleo sobre tela cujas dimensões são de 205 x 116 cm e que pode ser vista no Museu e Galeria de Arte Kelvingrove, em Glasgow na Escócia. À maneira do desenho de S. João da Cruz, esta pintura apresenta-nos a Crucifixão de um ponto de vista aéreo, impossível para a realidade humana. O corpo do Crucificado está suspenso na cruz e a cruz, por sua vez está suspensa num ambiente escuro que paira sobre uma tranquila paisagem marítima com as cores ígneas de um fim de dia. Dalí optou por remover todos os sinais de sofrimento que caracterizam a representação de uma crucifixão tais como os pregos, o sangue, a coroa de espinhos e as feridas da flagelação e das quedas de Jesus Cristo no caminho do Calvário substituindo este sofrimento sensível por uma calma que alguns autores identificam com uma quietude cósmica. Na ausência dos pregos que cravam o corpo de Jesus Cristo ao madeiro, apenas o leve encaracolar dos dedos denuncia que é aquele o ponto que O une à cruz. Além de removidos todos os sinais de sofrimento, foi também removida a gravidade própria dos corpos na condição da matéria decaída. É sob esta perspetiva que Dalí unirá a sua excelente técnica pictórica, à maneira dos mestres renascentistas, com a fé católica sobre a transfiguração dos corpos explicada, na medida do possível, à luz do entendimento científico, seu último fascínio.

Pelos seus pares, Dalí foi duplamente criticado: por um lado esta pintura surge no momento histórico e artístico em que se privilegiava a abstração que promovia a desintegração de partes da realidade, descontextualizando-as do todo atribuindo novos sentidos a cada nova proposta de realidade criada e, por outro lado, por trazer à cena artística a representação do transcendente, sobretudo católico, que tanto trabalho tinha dado a remover do quotidiano social, político e cultural. Pela parte da Igreja, também sofreu algumas críticas ao desenraizar do humano todas as marcas visíveis dos trabalhos da nossa Redenção.

No sonho cósmico em que lhe é revelada esta imagem Dalí viu toda a cena a cores, como ele próprio refere e de imediato compreendeu o Cristo como o Núcleo do Átomo, o fulcro da unidade de toda a realidade, visível e invisível do Universo aproximando, por sua vez, duas fontes de conhecimento dissociadas ao momento – a Física e a Teologia.

Dalí apresenta-nos nesta pintura, então, a sua descoberta mais recente, o Cristo Cósmico, o próprio Salvador no próprio momento em que salva e que salva de um modo contínuo, permanente e eterno, não tanto na visão católica da redenção amorosa de todo o Cosmos, mas antes Aquele que é a força mística que sustém e mantém coesa, coerente e íntegra toda a matéria, toda a realidade cósmica que ele percebeu na eminência física da desintegração; a experiência fundadora desta nova consciência residiu, sobretudo, no impacto causado pela tragédia que o mundo acabara de viver provocada pelas bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki.

Que Potência poderia superar a potência daquela desintegração?!

Nesta obra, Dalí procurou, sobretudo, expressar a beleza metafísica de um corpo e não o sofrimento físico de um homem, e para isso estudou matematicamente toda esta obra inserindo todas as medidas e proporções na geometria herdada da arte do Renascimento europeu; como modelo contratou um acrobata americano que trabalhava como duplo em Hollywood; aproveitando a sua condição física de ginasta acrobático, suspendeu-o pelas mãos numa estrutura criada no seu estúdio, iluminou-o criando o contraste de luz e sombra ideais para capturar com dramatismo toda a cena potenciando a perfeição de um corpo no auge da sua juventude e condição física; esta figura humana foi fotografada desde o alto o que lhe permitiu estudar cada músculo que iria dar o carater metafísico ao seu Cristo cósmico uma vez que a opção era não representar um corpo massacrado mas na plena força e robustez. Circunscreveu o corpo dentro de um triângulo perfeito criado entre a linha virtual que une uma mão à outra e as linhas que unem cada uma das mãos aos pés unidos na base da cruz[4]. A cabeça, inclinada para a frente forma um círculo dentro do triângulo. Ambas as figuras geométricas carregam em si a plenitude simbólica da Unidade na Trindade e a perfeição que o círculo evoca. O Cristo de Salvador Dalí não pretende assinalar um sacrifício, mas antes um desejo universal da superação do tempo e do espaço, isto é, do sofrimento.

Qualquer teoria ganha força quando posta em diálogo com o seu contrário que é o que parece sugerir a opção por suspender a própria cruz numa escuridão metafísica cuja base flutua e toca, ao de leve, incendiando a escuridão, sobre uma paisagem terrena num momento muito específico do fim do trabalho humano do quotidiano.

A perspetiva física sob a qual Dalí nos dá a ver o Cristo, um escorço a partir do alto, tecnicamente perfeito, coloca-nos como que no lugar de Deus que olha para baixo; apesar da ousadia de nos colocarmos no lugar de Deus, ele sente-se autorizado a fazê-lo, não só pela sua irreverência, mas também pela validação dada pelo próprio S. João da Cruz através do seu desenho, afinal um santo e um santo místico da Igreja católica.

Teologicamente talvez S. João da Cruz e Salvador Dalí não estejam assim tão distantes um do outro. Embora com experiências tão distintas, uma mística e outra onírica, a inquietação parece ser idêntica: S. João da Cruz dá-nos a noite escura da alma, sob a forma de poesia, literária mas também visual como itinerário espiritual para a união mística e luminosa com Deus, enquanto que Dalí nos parece apresentar o mesmo fim, o mesmo desejo, o encontro com o divino, segundo um itinerário conduzido pela Física e pela Matemática, expresso visualmente na sua técnica perfeita mas que, reconhecendo o limite deste método científico no conhecimento de toda a realidade, não descarta a possibilidade de trespassá-lo pela metafísica.

Ó noite que guiaste!
Ó noite amável mais que a alvorada!
Ó noite que juntaste
Amado com amada,
Amada no Amado transformada!
(Noite Escura, estrofe 5)


[1] S. João da Cruz, Obras completas, Canções da Alma, Edições Carmelo, 2005

[2] Néret Gilles – Dalí, Tachen, 2003.

[3] Néret Gilles – Dalí, Tachen, 2003.

[4] https://www.glasgowlife.org.uk/museums/venues/kelvingrove-art-gallery-and-museum

Alexandra Lisboa
Artista plástica