The Dijon Altarpiece [Detail 5] (1393-1399 - Melchior Broederlam)

A Igreja celebra, hoje, a solenidade da Natividade de São João Batista e, dia 29 de agosto, celebrará a memória do seu martírio. Não há nenhum outro santo do qual a Igreja celebra os dois acontecimentos; celebra, geralmente, apenas o “nascimento para o céu”, exceto, é claro, o caso de Jesus, Filho de Deus (Natal e Sexta-feira Santa) e da Virgem Maria (8 de setembro e 15 de agosto). No fundo, o próprio Jesus disse: “Em verdade vos digo que entre os nascidos de mulher não há ninguém maior do que João Batista” (Mt 11,11): o último dos grandes Profetas de Israel, o primeiro a dar testemunho de Jesus e a iniciar o batismo para o perdão dos pecados; neste contexto, ele batizou Jesus; e foi mártir em defesa da lei Judaica. No século IV, já havia celebrações litúrgicas sobre João Batista, em datas diferentes. A sua data (24 de junho) foi estabelecida com base no texto de Lucas 1,36, quando diz que Isabel já estava “no sexto mês, ela, que todos diziam, que era estéril”. Logo, seis meses antes do Natal. Desde o século VI, esta festa é precedida por uma vigília

«Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia e se congratulavam com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias. Mas, sua mãe interveio: “Não” – disse ela – “ele se chamará João”. Replicaram-lhe: “Não há ninguém na tua família que se chame por este nome”. E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: “João é o seu nome”. Todos ficaram pasmados. E logo se lhe abriu a boca e soltou-se sua língua e ele falou, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judeia. Todos os que o ouviam o conservavam no coração, dizendo: “Que será este menino?”. Porque a mão do Senhor estava com ele» (Lc 1, 57-66).

Estupor

As pessoas ficaram maravilhadas diante daquela criança, mas também diante daquele casal estéril, que, em idade avançada, deu à luz um filho: uma maravilha iluminada pela fé, tanto que “conservavam” no coração o que ouviram e viram, e louvavam a Deus; uma maravilha acompanhada pela consciência de que não entendiam tudo: “Quem seria aquele menino?”. Uma pergunta legítima, mesmo porque onde tudo é compreensível, não dependeria de Deus!

O acontecimento do nascimento é circundado por uma alegre sensação de estupor, surpresa, gratidão. O povo fiel intuía que tinha acontecido algo de grande, mesmo se humilde e oculto: o povo era capaz de viver a fé com alegria, com sensação de admiração, de surpresa … Eu sinto uma sensação de estupor, quando vejo as obras do Senhor, quando ouço falar de evangelização ou da vida de um santo…? Consigo sentir as consolações do Espírito ou fico fechado?” (Papa Francisco, 24 de junho de 2018).

Nome

Os que tinham ido participar da circuncisão, queriam colocar o nome do seu pai, Zacarias. Mas, quem interveio, caso muito raro, foi Isabel, que disse João. Era o nome que o próprio Deus havia indicado por meio do anjo: “Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi atendida: Isabel, tua esposa, vai dar-te um filho e tu o chamarás João” (Lc 1,13). Zacarias havia começado mal com Deus, demonstrando a sua incredulidade, que o levou a ficar mudo. Agora, obedecendo ao que Deus lhe havia pedido – para chamar João – começava uma nova história.

Oportunidades

O texto explica o que aconteceu: uma mulher idosa e estéril dá à luz um filho; um homem mudo começa a falar. Trata-se de dois sinais que indicam que, onde as coisas parecem impossíveis, Deus tem sempre alguma possibilidade oculta, como diz o profeta Isaías: “Eis que estou fazendo uma coisa nova, que está começando: não percebes?” (Is 43,19).

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Podemos verdadeiramente dizer, hoje, que João Batista é o último profeta da antiga Aliança e o primeiro da nova Aliança. Ele marca a transição entre os dois… Da tradição e da religião judaicas, João Batista criticou abertamente a religião do seu tempo: “E João percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (Lc 3,3). E as multidões que lhe perguntavam o que ia fazer? “Ele respondia: ‘Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem. E quem tiver comida, faça a mesma coisa’” (Lc 3,11). Aos arrecadadores de impostos que vinham para que ele os batizasse, ele lhes dizia: “Não maltratem ninguém; não façam acusações falsas, e fiquem contentes com o salário de vocês” (Lc 3,14).

No fundo, João Batista denunciou a religião esclerosada do seu tempo e a corrupção generalizada pelos líderes. Foi um grande profeta como Isaías, Amós, Jeremias, e tantos outros. Os primeiros cristãos interpretaram o profeta Isaías, que temos na primeira leitura de hoje, como se fosse João Batista“Ele fez da minha língua uma espada afiada e me escondeu com a sombra de sua mão; ele me transformou numa seta pontiaguda e me guardou na sua caixa de flechas” (Is 49,2).

Por outro lado, o que fez de João Batista o primeiro profeta da nova Aliança é que ele anuncia a vinda do Messias. Como lembra São Paulo, na sinagoga da Antioquia de Picídea, como lemos na segunda leitura de hoje dos Atos dos Apóstolos: “Conforme havia prometido, Deus fez surgir da descendência de Davi um Salvador para Israel, que é Jesus.  E João, o precursor, havia preparado a chegada de Jesus, pregando a todo o povo de Israel um batismo de arrependimento” (At 13,23-24). E para não confundir o Batista com o Cristo, o autor do livro dos Apóstolos escreve: “Não sou aquele que vocês pensam que eu seja! Vejam: depois de mim é que vem aquele do qual não mereço nem se quer desamarrar as sandálias!” (At 13,25). Não é ao azar que a Igreja celebre o nascimento de João Batista no dia 24 de junho, no momento onde o sol começa a descer no horizonte, enquanto o nascimento de Cristo se celebra no dia 25 de dezembro, quando o sol começa a subir no horizonte, no hemisfério norte, obviamente, pois estas festas começaram no império romano.

Continuidade e ruptura

Entre João Batista e Jesus de Nazaré há uma espécie de parentela espiritual, de modo que São Lucas os apresenta como primos. Enquanto Maria, a nova Aliança visita Isabel, a antiga Aliança, São Lucas diz que elas são parentas (Lc 1,36). São Lucas quer nos mostrar que há uma continuidade entre a pregação de João Batista e o agir de Jesus de Nazaré“Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Mas há também uma ruptura, pois João Batista acrescenta: “Ele terá na mão uma pá; vai limpar sua eira, e recolher o trigo no seu celeiro; mas a palha ele vai queimar no fogo que não se apaga”(Lc 3,17). Não tendo Jesus exercido assim a sua missão, João Batista enviou dois discípulos para perguntar a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Lc 7,20). E a resposta de Jesus se inspira no profeta Isaías“Voltem, e contem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres” (Lc 7,22).

Por outra parte, quando Jesus fala de João Batista, ele reconhece a qualidade de homem e de profeta que ele foi: “Então, o que é que vocês foram ver? Um profeta? Eu lhes garanto que sim: alguém que é mais do que um profeta” (Lc 7,26). E ele acrescenta: “Eu digo a vocês: entre os nascidos de mulher ninguém é maior do que João. No entanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7,28). Mas tanto se trate de João Batista como de Jesus, os dois são criticados e rejeitados pelos fariseus e os doutores: “Pois veio João Batista, que não comia nem bebia, e vocês disseram: ‘Ele tem um demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vocês dizem: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores!’” (Lc 7,33-34).

Um verdadeiro padroeiro

… Neste momento da história, em que nós temos necessidade de profetas, me parece que a figura de João Batista pode nos ajudar a abrir caminhos novos para que haja mais justiça, igualdade, dignidade na nossa sociedade contemporânea… Esses profetas devem sair do comum, como João Batista, que na hora do seu nascimento pensavam que ele estaria em consonância com seu pai Zacarias. Porém, sua mãe Isabel foi contra todos os cálculos: “O nome dele é João (Lc 1,60). É evidente que os profetas de hoje como aqueles de antes são rejeitados, julgados e até condenados pelos dirigentes e pelos entendidos, mas isso não deve impedir que as mulheres, os homens, os jovens, denunciem as injustiças e lhes exijam uma transformação profunda na nossa sociedade.

Esses profetas devem ter a audácia de empreender novos caminhos que talvez não sejam mesmo bem-entendidos e eles devam demonstrar a sua humildade, isto é, saber retirar-se para deixar o lugar àquele ou àquela que possa mudar as coisas. Como João Batista, o precursor de Cristo: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30)…

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