Sagrado Coração de Jesus (A)
Mateus 11,25-30
Naquele tempo, Jesus exclamou:
“Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, eu te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo,
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.
A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus – Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes – é celebrada na sexta-feira (16/06), após a Solenidade do Corpus Christi, visto que a Eucaristia/Corpus Christi nada mais é que o próprio Coração Jesus, um “Coração” que “cuida” de nós.
Em 20 de outubro de 1672, o sacerdote francês, João Eudes, celebrou esta festa pela primeira vez. Mas, alguns místicos alemães da Idade Média – Matilde de Magdeburg (1212-1283), Matilde de Hackeborn (1241-1298) e Gertrudes de Helfta (1256-1302) e Beato dominicano Enrico Suso (1295 – 1366), já cultivavam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. No entanto, as revelações que a religiosa da Visitação, Margarida Maria Alacoque (1647-1690), recebeu do Senhor, contribuíram para uma maior difusão do culto.
Margarida Maria Alacoque viveu no convento francês de Paray-le-Monial, desde 1671. Já tinha fama de grande mística quando, em 27 de dezembro de 1673, recebeu a primeira visita de Jesus, que a convidou a tomar o lugar, na celebração da Última Ceia, que pertencia a João, o único apóstolo que, fisicamente, encostou a cabeça no peito de Jesus. E lhe disse: “Meu divino coração é tão apaixonado de amor pelos homens que, não podendo conter em si as chamas da sua ardente caridade, precisa da tua ajuda para difundi-las. Por isso, escolhi você para este grande desígnio”.
No ano seguinte, Margarida teve outras duas visões: na primeira, viu o coração de Jesus em um trono de chamas, mais brilhante que o sol e mais transparente que o cristal, circundado por uma coroa de espinhos; na segunda, viu o coração de Cristo, fulgurante de glória, que emitia chamas por todos os lados, como uma fornalha. Conversando com ela, Jesus lhe pediu para “comungar, todas as primeiras sextas-feiras do mês”, durante nove meses consecutivos e “se prostrar no chão por uma hora”, na noite entre quinta e sexta-feira. Deste modo, nasceram as práticas das Nove sextas-feiras e da hora Santa de Adoração.
Em uma quarta visão, Cristo pediu a Margarida que fosse instituída uma festa em honra do seu Sagrado Coração e orações em reparação das ofensas por Ele recebidas. Esta festa passou a ser obrigatória em toda a Igreja, a partir de 1856, por ordem de Pio IX. Neste mesmo dia, em 1995, São João Paulo II instituiu o “Dia Mundial de Oração pela Santificação do Clero”, para que o sacerdócio fosse protegido pelas mãos de Jesus, ou melhor, pelo seu Coração, para ser aberto a todos.
Os pequeninos do Evangelho
A liturgia apresenta-nos uma das raras orações em que Jesus “abençoa” o Pai celeste, ou seja, reconhecendo, publicamente, o que Ele fez e faz pelos “pequenos”, em detrimento dos sábios e cultos. O conteúdo desta revelação encontra-se na expressão “escondeste estas coisas”. Pelo que se entende dos versículos precedentes, “estas coisas” se referiam à falta de compreensão do próprio Jesus, que, para os “sábios e cultos”, era refratária. Por outro lado, os “pequenos” podem ser os “pobres”, aos quais é anunciado o Evangelho, ou os “humildes”, ou seja, os que ouvem e acolhem a Palavra. Esta é uma chave para compreender que o Santíssimo Coração de Jesus pode ser compreendido somente na medida em que nos tornarmos “pequenos”, “humildes”.
Meu jugo é suave
O jugo ou canga é uma peça de madeira que liga dois bois para puxar o arado: colocada na frente do corpo (pescoço) de um ou mais animais de tração, permite a sua submissão, a possibilidade do ataque a um engenho e a manobra por parte de um agente. Partindo deste exemplo da vida agrícola, Jesus convida os “pequenos” a confiar nele, garantindo descanso, paz e libertação, porque seu jugo não é opressor. Jesus não sobrecarrega os que se aproximam dele, não os oprime com os pesos dos senhores da época, que não mexiam sequer um dedo. Jesus, humilde e puro de coração, é Aquele que diz, faz e acolhe a vontade do Pai, vivendo em primeira pessoa e partilhando com os “pequenos”. Por isso, o jugo de Jesus é suave, não porque foi “diminuído”, mas porque foram removidas as incrustações legalistas e a lei de Deus voltou às suas origens, revelando que Deus é Amor misericordioso. Amor para sempre, recorda o Salmo.
O Coração
Quando ouvimos falar de “coração”, pensamos logo em âmbito afetivo, sentimental. Mas, na linguagem bíblica, adquire um significado bem mais amplo, porque engloba toda a pessoa na sua unidade de consciência, inteligência, liberdade. O coração indica a interioridade do homem, como também a sua capacidade de pensar: é a sede da memória, centro de escolhas e projetos.
Com seu peito transpassado, Jesus quer nos dizer: “Você me cativa”, “Levo a sério a sua vida”. Mas diz também: “Faça isto em memória de mim; cuide dos outros, com o coração; tenha meus mesmos sentimentos; tome minhas próprias decisões, com humildade e pureza de coração”.
Oração
Sagrado Coração de Jesus ofereço-vos, através do Coração Imaculado de Maria, mãe da Igreja, em união com o Sacrifício Eucarístico, as orações, obras, sofrimentos e alegrias deste dia, em reparação das nossas ofensas e pela salvação de todos os homens, com a graça do Espírito Santo, para a glória do Pai Divino. Amém.
Vós encontrareis descanso
Marcel Domergue
Jesus, no evangelho, nos convida a tomar sobre nós o seu jugo. Lembremos que jugo é o instrumento que serve para associar dois animais, tendo em vista a tração de um objeto difícil de mover-se. Sendo assim, estamos «conjugados», somos «cônjuges». O convite para carregar o jugo do Cristo pode nos meter medo, mesmo se apenas para carregarmos junto com Ele. Isto merece reflexão. De início, não esqueçamos que o fardo da vida será carregado de qualquer modo, com Ele ou sem Ele. Além disso, devemos compreender, sobretudo, que o jugo do Cristo é na realidade nosso. Foi Ele que veio até nós para suportar as nossas misérias, fraquezas e sofrimentos. Veio carregar o nosso fardo, um fardo que não veio dele, que não é o seu, mas que nisto se converteu, em virtude do amor que o fez «renunciar à sua condição divina» (reler Filipenses 2,5-11). A Cruz não acrescenta nada às nossas cruzes; não é um fardo suplementar que Deus viria acrescentar aos nossos males. Ao contrário, Deus é que vem assumir os pesos que nos arrasam e, exatamente por isso, o fardo pode tornar-se leve. «Pode tornar-se leve», não que automaticamente se torne: mas só se, pelo caminho da fé, aceitamos carregar este jugo que era o nosso, e que se tornou o do Cristo. Não seremos mais, então, os únicos a levá-lo. O fardo torna-se Cruz e, por conseguinte, podemos levá-lo mediante a promessa da travessia pascal.
Deus ama os vínculos, cria laços
Papa Francisco
«O Senhor uniu-se a vós e escolheu-vos» (Dt 7, 7).
Deus uniu-se a nós e escolheu-nos; e este vínculo é para sempre, não tanto porque nós somos fiéis, mas porque o Senhor é fiel e suporta as nossas infidelidades, as nossas morosidades e as nossas quedas.
Deus não tem medo de se vincular. Isto pode parecer-nos estranho: às vezes, nós chamamos a Deus «o Absoluto», que literalmente significa «desvinculado, independente, ilimitado», mas na realidade o nosso Pai é «absoluto» sempre e unicamente no amor: por amor faz aliança com Abraão, com Isaac, com Jacob, e assim por diante. Ama os vínculos, cria laços; ligações que libertam, não constrangem.
Com o Salmo pudemos repetir: «O amor do Senhor é eterno!» (cf. Sl 103). Ao contrário, acerca de nós homens e mulheres, outro Salmo afirma: «Desapareceu a lealdade entre os filhos do homem» (cf. Sl 12, 2). Hoje, em particular, a lealdade é um valor em crise porque somos levados a procurar sempre a mudança, uma presumível novidade, negociando as raízes da nossa existência, da nossa fé. No entanto, sem a lealdade às suas raízes, uma sociedade não progride: pode alcançar enormes progressos técnicos, mas não um desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens.
O amor fiel de Deus pelo seu povo manifestou-se e realizou-se plenamente em Jesus Cristo que, para honrar a aliança de Deus com o seu povo, se fez nosso escravo, abandonou a sua glória e assumiu a forma de servo. No seu amor não se rendeu diante da nossa ingratidão e nem sequer perante a rejeição. É quanto no-lo recorda são Paulo: «Se formos infiéis… Ele — Jesus — continua fiel, porque não pode renegar-se a Si mesmo» (2 Tm 2, 13). Jesus permanece fiel, nunca atraiçoa: mesmo quando erramos, Ele espera sempre por nós, para nos perdoar: tal é o rosto do Pai misericordioso.
Este amor, esta lealdade do Senhor manifesta a humildade do seu Coração: Jesus não veio para conquistas os homens como os reis e os poderosos deste mundo, mas sim para oferecer amor com mansidão e humildade. Eis como Ele mesmo se definia: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). E o sentido da festividade do Sagrado Coração de Jesus, que hoje celebramos, consiste em descobrir cada vez mais e em deixar-nos abraçar pela lealdade humilde da mansidão do amor de Cristo, Revelação da misericórdia do Pai. Nós podemos experimentar e saborear a ternura deste amor em cada fase da vida: no tempo da alegria e da tristezas, no tempo da saúde e da enfermidade e da doença.
A lealdade de Deus ensina-nos a acolher a vida como acontecimento do seu amor e permite-nos testemunhar este amor aos irmãos num serviço humilde e manso…
Amados irmãos, em Cristo nós contemplamos a lealdade de Deus. Cada gesto, cada palavra de Jesus deixa transparecer o amor misericordioso e fiel do Pai. E então, diante dele, interroguemo-nos: como é o meu amor pelo próximo? Sei ser leal? Ou então sou volúvel, sigo os meus humores e as minhas simpatias? Cada um de nós pode responder na sua própria consciência. Mas, sobretudo, podemos dizer ao Senhor: Senhor Jesus, tornai o meu coração cada vez mais semelhante ao vosso, repleto de amor e de lealdade.
Festividade do Sagrado Coração de Jesus 2014