6° Domingo de Páscoa (A)
João 14,15-21


Cenacolo 1

Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Pedro e João impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” (Atos 8,5-8.14-17)
  • Salmo: Sl. 65(66) – R/ Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, cantai salmos a seu nome glorioso!
  • 2ª leitura: “Sofreu a morte em sua carne, mas recebeu nova vida pelo Espírito” (1 Pedro 3,15-18)
  • Evangelho: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor” (João 14,15-21)

Somos uma invenção do Espírito
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
O drama da primeira geração de cristãos, que é no fundo o drama de todos os cristãos, é perceber se a cruz põe um ponto final, interrompe uma relação de conhecimento, de amor, de vida, de revelação, de esperança. Nós ouvíamos um dos discípulos de Emaús dizer ao misterioso companheiro: “Nós esperávamos que fosse Ele a conquistar a soberania de Israel, nós colocámos Nele tantas expectativas.” A questão é saber se a cruz interrompe essa relação ou se o mistério pascal na sua inteireza de morte e ressurreição, se aquele sepulcro que as mulheres acharam vazio, que João e Pedro confirmaram vazio, na manhã daquela primeira Páscoa, é o sinal de que esta história continua, de que não há propriamente uma interrupção mas há uma continuidade. Há uma transformação na relação, mas ela, na sua verdade, na sua autenticidade persiste e até se torna mais forte, torna-se mais radical.

Os discípulos aproximaram-se deste mistério como nós nos aproximamos, isto é, a tatear, sem ver claro, sem perceber muito bem. Mas como é que é verdadeiramente? Como é que acontece? Como é que vai ser agora? Como é que isto se torna uma verdade em mim? É a tatear, é entre dúvidas – nós estamos da mesma maneira que os discípulos, pois assim nos é narrado pelos primeiros relatos cristãos.

Contudo, do ponto de vista de Jesus, Ele explica como é este mistério que acontece em nós. Ele explica assim, nas palavras do Evangelho de S. João que dedica muito do seu evangelho precisamente a este ponto: Como é que nós vivemos a fé pascal? Como é que nós vivemos a nossa relação com Jesus, hoje, depois da Sua cruz? Não como uma relação interrompida e fracassada mas como uma relação que nos renova, que nos potencia, que nos dá vida, que nos vivifica por dentro. E no Evangelho de S. João, Jesus diz-nos: “Permanecei no meu amor, continuai a amar, continuai a amar. Porque eu não vos deixarei órfãos, não haverá um vazio. Continuai a amar-Me e eu enviarei o Espírito. Esse Espírito é o defensor, esse Espírito é o Espírito da Verdade, esse Espírito é o Consolador, esse Espírito é o Recriador, esse Espírito é Aquele que dentro de vós defenderá a fé. Porque às vezes o dilema da fé e da descrença, da noite e do dia, da esperança e do desalento é sobretudo vivido no palco do nosso coração, no interior da nossa alma. Ora, Eu vou mandar o Espírito e Ele há de ser o defensor da fé, da esperança e do amor dentro de cada um de vós.”

Tendo o Espírito nós permanecemos numa relação firme, amamos e sentimo-nos amados, sentimos que Jesus está presente, sentimos o mundo não como o lugar que é o vazio de Deus mas como um lugar onde esse encontro se celebra de tantas maneiras, numa multiplicidade de sinais. Porque amando nós sentimos Jesus presente e o Espírito ativa em nós essa capacidade de querer, essa capacidade de esperar, essa capacidade de continuar fiel ao próprio Amor. Este é o tempo em que nós dizemos “Maranathá”, dizemos “Senhor, vem. Vem no Teu Espírito.” Cada cristão é uma consequência do Espírito Santo. Nós acreditamos, nós dizemos o Credo (vamos dizer daqui a pouco de novo), o símbolo da nossa fé, porque o Espírito Santo está em nós. Nós dizemos o nome de Jesus, e esse Nome faz diferença na nossa vida, porque o Espírito nos move nesse sentido. Nós rezamos o Pai-nosso porque é o Espírito que grita “Abbá, ó Pai!” dentro de nós e Se junta à nossa fragilidade, dando força para que essas palavras nos arquitetem, essas palavras nos estruturem. O Espírito é a presença do Ressuscitado em nós. O Espírito é a continuação desta história, e uma continuação que é eloquente, uma continuação que não é repetida, não é a mesma; uma continuação que é a fantasia do Espírito, a criatividade do Espírito que faz derramar em nós dons diferentes, carismas diferentes, competências diferentes para construirmos o Reino de Deus, para fazermos essa experiência do Reino de Deus onde quer que estejamos, onde quer que seja o nosso campo de atuação. É o Espírito que nos move, por isso, o Espírito Santo é o grande protagonista.

É interessante nós olharmos para o livro dos Atos dos Apóstolos que estamos a ler nestes domingos de Páscoa. Aparecem-nos atores principais da história do Cristianismo, apareceu-nos Pedro, hoje aparece-nos Filipe que vai converter a Samaria, daqui a pouco vai-nos aparecer Paulo. Mas serão eles os verdadeiros protagonistas do crescimento do Cristianismo? Não, o verdadeiro protagonista dos Atos dos Apóstolos e da Igreja, o verdadeiro protagonista das nossas vidas é o Espírito Santo. Às vezes achamos que somos nós que fazemos, não, é o Espírito Santo que está em nós, é o Espírito Santo que atua através de nós, é o Espírito Santo que nos empurra, é o Espírito Santo que nos move, Ele é a força motriz da vida da Igreja e da vida de cada cristão. Por isso, nós precisamos tanto do Espírito Santo e precisamos redescobrir a fé no Espírito Santo.

O século XX, em termos da teologia e da eclesiologia, é um marco muito importante quando ele descobre a pneumatologia. Isto é, o Espírito Santo tem sido o grande esquecido da história do Cristianismo. Porque nós pensamos em Deus, e somos uma religião monoteísta, e falamos de Deus do Deus único. Nós somos cristãos porque acreditamos no Deus que nos é revelado por Cristo, na vida de Cristo, na Sua palavra e no acontecimento da Sua existência. E o Espírito Santo onde é que fica? O Espírito Santo muitas vezes fica completamente esquecido. E pode acontecer que nós, cristãos, até rezemos a Deus, rezemos a Jesus mas nunca tenhamos rezado ao Espírito Santo. Até pode acontecer que nós, cristãos e cristãs, não sintamos de uma forma consciente como o Espírito Santo está em nós, como nós somos um fruto do Espírito Santo, como precisamos entregar a nossa vida ao Espírito Santo, declararmo-nos seus instrumentos, pedirmos a sua ajuda, a sua iluminação, a sua força para poder ser, para poder ser mais, para poder ser melhor.

Por isso, precisamos redescobrir o Espírito Santo. Porque sem o Espírito a Igreja é só memória, o que nós estamos aqui a fazer é só uma lembrança daquilo que foi. O Espírito Santo é que diz: o Cristianismo não é só memória, é presente e é futuro. Porque, não é só lembrar o passado, nós não estamos aqui a ler palavras com dois mil anos, ou dez mil anos, nós estamos aqui a repetir um gesto que aconteceu há dois mil anos, estamos a fazer uma memória de Jesus, mas o Espírito está hoje em nós. Hoje é o primeiro dia, hoje é o dia da Ressurreição, hoje é o dia em que Jesus nos levanta, hoje somos nós os discípulos que andam a anunciar. Hoje somos nós aqueles, como diz a Carta de Pedro, que estão sempre prontos para declarar as razões da sua esperança. Hoje nós somos aqueles que são chamados a viver com alegria, com alegria mesmo o sofrimento, a perseguição, a doença, o luto, a morte. Somos chamados a viver com esperança todas as situações da vida. E porquê? Porque o Espírito Santo, a energia, a força, o vento, o sopro, o hálito, o alento do Espírito Santo está em nós. Por isso, nós precisamos redescobrir o Espírito Santo e o tempo pascal é um tempo de uma grande catequese pneumatológica. Nós temos o pneuma, o Espírito, o animus em nós.

Até em português, é interessante, temos a palavra “desanimado”. O que é um desanimado? É alguém que não tem o animus, perdeu o animus. E às vezes nós somos uma Igreja, somos uma comunidade, somos cristãos desanimados porque nos falta a vivacidade do Espírito, a juventude do Espírito, a alegria deste Espírito que é sempre uma sementeira. O Espírito que está em nós não nos deixa, Ele é o defensor do Evangelho na nossa vida e, através de nós, Ele explicita de uma maneira pacífica a própria Verdade.

Queridos irmãs e irmãos, que cada um de nós se comprometa, neste tempo pascal, a descobrir melhor o Espírito Santo. A descobrir melhor a ler, a pensar, a conversar sobre o Espírito Santo. Porque pode acontecer connosco o que aconteceu com os samaritanos. Eles primeiro receberam só o batismo, mas quando lhes perguntaram “Que batismo é que vocês receberam? Foi o do Espírito Santo?”, eles responderam “ Mas nós nem sabíamos que existe um Espírito Santo.” Ora, pode ser que nos aconteça isto, nós não sabíamos que existe um Espírito Santo. O Espírito Santo é que faz do barro um ser vivo. O Espírito Santo é que faz de uma fé que não é quente nem é fria, é que faz do nosso estado morno, é que faz do nosso tradicionalismo, é que faz da nossa fé que anda ali ‘quer, não quer’, da nossa fé a 50%, a 40%, uma fé viva. O Espírito Santo é que nos dá o sentido da plenitude, o sentido da missão, é que nos torna discípulos e discípulas de Jesus.

Por isso, descubramos o Espírito Santo e cada um de nós reze ao Espírito Santo. Maranathá! Vem Espírito Santo, enche o meu coração, conduz a minha vida! Vem Espírito Santo, ensina-me! Vem Espírito Santo, guia-me! Vem Espírito Santo e faz-me ser! Entrego-me a Ti, Espírito Santo! E veremos que a nossa vida ganhará outra liberdade, ganhará outra força, porque o Cristianismo não é uma invenção nossa.

O Cristianismo é vivido por nós, não por sermos melhores do que os outros, ou mais fortes do que os outros, ou menos cobardes do que os outros, ou menos impuros que os outros. Não, às vezes nós somos os piores do grupo – os piores, os mais fracos, aqueles que jamais seriam escolhidos para entrar num guião da virtude. E, contudo, não é isso que conta, o que conta é que numa massa frágil, vulnerável como a nossa Deus insufla o Seu Espírito. E então, nós somos uma invenção do Espírito e se nos transcendemos é na força do Espírito, e se nos renovamos é na força transformadora do Espírito, e se a nossa fé débil se fortalece é porque o Espírito acende a Sua luz dentro de nós. E se somos capazes de dizer um “sim” com uma força que nós não sabíamos existir dentro de nós é porque é o Espírito Santo que está a dizer esse “sim”, nesta hora precisa das nossas vidas. É o Espírito em nós. Por isso, precisamos abrir o nosso coração ao Espírito, pedir mais a ajuda do Espírito Santo, conhecê-Lo melhor, amá-Lo melhor. Porque é este Espírito que não nos deixa órfãos, que não nos deixa sós. E é este Espírito que é o vento de Deus, o sopro de Deus que empurra a nossa vida e a cada momento nos torna novos.

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org


A passagem evangélica deste domingo é a continuação direta da passagem do domingo passagem, tirado também do capítulo 14 do Evangelho segundo João. Se a primeira parte do capítulo tinha como tema a fé em Jesus (“Credes em Deus, crede também em mim”: Jo 14, 1), esta segunda parte tem como tema o amor por Jesus (“Se me amais, guardareis os meus mandamentos”: Jo 14, 15).

Nenhuma oposição entre fé em Jesus e amor por Jesus, porque crer não é um ato intelectual, mas é uma adesão, um envolvimento com a vida de Jesus; e um envolvimento pode ser implementado somente na liberdade e por amor.

A estrutura do trecho é evidente:
– um marco com as duas declarações inclusivas sobre o amor por Jesus (vv. 15 e 21);
– dois anúncios no seu interior: o dom do Espírito (vv. 16-17);
– a vinda de Cristo (vv. 18-20).

O tema do amor por Jesus já está presente nos seus lábios nos Evangelhos sinóticos: “Quem ama seu pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10, 37); mas, no quarto Evangelho, esse amor é especificado, quase como se o redator temesse um equívoco. Assim como Jesus pediu para crer em Deus e também nele, assim também ele certamente pediu para amar a Deus e também a ele, mas sob condições precisas. Ele especifica particularmente que esse amor não se esgota em um desejo de Deus, em um anseio pelo divino, sem que nele esteja contida a disponibilidade de se conformar com aquilo que Deus quer, vontade de Deus manifestada na sua palavra, vontade a ser realizada todos os dias como observância concreta dos seus mandamentos.

É por isso que as palavras de Jesus parecem peremptórias: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. Em todas as vias religiosas ama-se a Deus, mas se pode amá-lo como um ídolo, especialmente se for um deus construído e “idealizado” por nós; ou, melhor, precisamente quando é um deus que é um produto nosso, nós o amamos mais!

Mas o nosso Deus vivo tem um rosto preciso. Não é a divindade, o divino: é o Deus que falou expressando a sua vontade, e só o ama verdadeiramente quem busca realizar, embora com dificuldade, tal vontade. Parece-me que não afirmamos com clareza e força suficientes essa verdade decisiva para a vida cristã, mas pensamos que basta dizer, por exemplo: “O que temos de mais caro no cristianismo é Jesus Cristo”, palavras que podem ser uma confissão de fé, contanto, porém, que Cristo não seja o “nosso Cristo”, aquele inventou e escolhido por nós, mas o Cristo Jesus narrado pelos Evangelhos e transmitido pela Igreja.

Amar Jesus, portanto, significa não só se alimentar de um amor de desejo, não só lhe dizer que a nossa alma tem sede dele (cf. Sl 41, 3; 62, 2), mas realizar aquilo que ele nos pede, observar o mandamento novo, isto é, último e definitivo, do amor recíproco. Conhecemos bem como Jesus formulou esse mandamento: “Assim como eu vos amei, assim também ameis uns aos outros” (Jo 13, 34; cf. 15, 12).

Atenção, Jesus não disse: “Assim como eu vos amei, assim também amai-me”, mas “ameis uns aos outros”. Porque ele nos ama sem nos pedir o retorno, mas nos pedindo que o seu amor que nos alcança, se difunda, se expanda como amor pelos outros, porque essa é a sua vontade de amor.

Ele dirá ainda: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15, 14), porque o discípulo não deve alimentar ilusões em si, cultivando o seu “eu religioso”, cheio de sentimentos afetivos por Deus ou por Jesus, mas ignorando as suas palavras, a sua vontade, a sua espera. Aqui está o grande mistério do seguimento cristão: segue-se Jesus não como um discípulo segue o Buda ou outro mestre espiritual. De acordo com a tradição Zen budista, o Buda podia afirmar: “Se você encontrar o Buda pela estrada, mate-o!”, para dizer que o amor pelo mestre pode obstaculizar o amor pela sua mensagem. Jesus, ao contrário, quer que amemos a ele, que sejamos envolvidos na sua vida, a tal ponto que os seus mandamentos não sejam imposições ou leis, mas sejam realizados no amor.

Justamente por isso, eis a presença de um dom feito pelo Pai, por intercessão de Jesus: um Parákletos, alguém que está ao lado, “outro Consolador” que, como Jesus já está junto do Pai, esteja sempre com os discípulos. É o dom do Espírito, que é sempre o Espírito do amor que desce ao coração do cristão, dando-lhe a capacidade de responder ao Pai na liberdade e com amor. Graças ao amor por Jesus, portanto, podemos ser fiéis aos seus mandamentos; e, ao mesmo tempo, a observância dos seus mandamentos testemunha a autenticidade do nosso amor por ele. Esses mandamentos de Jesus não são uma lei – atenção para não fazer regressões! –, são Jesus mesmo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), são uma vida humana concreta vivida no amor até o fim (cf. Jo 13, 1).

Depois da sua glorificação, o amor de Jesus pode ser experimentado pelo discípulo como amor do outro Consolador, do Espírito Santo sempre conosco por intercessão do próprio Jesus: Espírito que deve ser invocado por nós, acolhido, conservado, obedecido até ser a nossa “respiração”, aquilo que nos anima. Devemos confessar: esse Espírito não pode ser acolhido pelo mundo, aquele mundo que não é a humanidade tão amada por Deus (cf. Jo 3, 16), mas sim a estrutura mundana, o ordenamento de injustiça dominante sobre a terra que está em revolta contra Deus, isto é, contra o amor e contra a vida. Esse sistema de mentira organizada, de violência que não conhece limites, de injustiça que oprime os pobres e os pequenos, infelizmente, também engloba os homens e as mulheres alienados por ele.

Pois bem, estes não recebem o dom do Espírito, não percebem o Espírito e não querem nem conhecê-lo, preferindo as trevas à luz (cf. Jo 3, 19), a morte à vida. Os cristãos, se forem verdadeiros discípulos, não com palavras e com ritos religiosos, mas na concretude da vida cotidiana, no tecido da fraternidade e da sororidade, em vez disso, conhecem neles a presença escondida do Espírito. O Espírito é defesa na hora do processo tentado pelo mundo, é consolação na hora da prova, é sustento na fraqueza (cf. Mc 13, 11 e par.; Jo 14, 26), é presença de Cristo, para que o cristão sempre possa se sentir “comitante Christo”, em companhia de Jesus Cristo, através do seu Espírito.

Na segunda parte do trecho, Jesus fala da sua vinda, depois da sua ida para junto do Pai. Sim, está prestes a vir um tempo de ausência, no qual os discípulos poderão se sentir perturbados, sem guia, sem pastor. Experimentarão essa orfandade tão dolorosa pela falta da fonte do amor e da vida? Não, assegura Jesus, porque ele, embora ausente fisicamente, não vai abandoná-los. A presença do Espírito, santo, dom do Pai e, ao mesmo tempo, de Jesus não vai fazê-los se sentir órfãos. Haverá uma nova “experiência” de Jesus que o mundo não vai conhecer, e que os discípulos, ao contrário, viverão, até vê-lo não com os olhos de carne, mas com os olhos da fé e do amor, os olhos do coração. Jesus não será um morto, mas um vivente, o Vivente, e os discípulos que vivem da sua própria vida terão esse conhecimento dele. Presença elusiva, a do Ressuscitado, que vem a nós sem aparições…

Bernardo de Claraval, no seu admirável comentário ao Cântico dos Cânticos, confessa essas vindas de Jesus e as descreve como “visitas do Verbo”, visitas furtivas e esporádicas. E, justamente quando o nosso coração percebe a presença de Jesus, então ele desaparece, como o Amado: “Ele estava lá… Nenhuma sensação, porém, no meu coração, ocorriam mudanças” (Discursos sobre o Cântico 74, 6), mudanças de conversão, palpitações de amor, realizações da sua vontade…

Jesus é o Vivente, e o discípulo vive, vive nele com vida plena, na liberdade e na alegre confiança de quem nunca é órfão. E, mais uma vez, Jesus fala de uma contraposição: “O mundo não mais me verá, mas vós me vereis”. Palavras que acolhemos na consciência de que não podemos nos gabar nem nos sentir garantidos. Não podemos dizer “nós” e “eles”, os redimidos e os condenados!

Podemos ver Jesus à luz da fé, não da visão (cf. 2Co 5, 7), podemos experimentar a vida abundante que ele quer nos dar; mas muitas vezes somos incapazes de acolher o dom, somos cegos que dizem ver (cf. Jo 9, 40-41). Que essas palavras de Jesus, portanto, não se tornem fonte de justificação, impulsionando-nos a evitar a reivindicação da conversão e a não acolher aquele dom que nós não podemos nos dar: o dom do Espírito de Cristo, o dom do seu amor.

Eis, então, a conclusão, que retoma o início do discurso: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. Amar, observar os mandamentos é a condição para que Jesus se manifeste, e, na observância da vontade de Deus, através do amor fraterno, seremos amados por Deus e por Jesus.

A vida de Deus é um fluxo de amor no qual, se acolhemos o seu dom, podemos ser envolvidos. É isto que deveremos conhecer na embriaguez do Espírito e na comunhão com Cristo em cada Eucaristia que vivemos: uma celebração do amor!

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A herança de Jesus

À primeira vista, podemos surpreender-nos ouvindo Jesus falar em ‘mandamentos’, por ocasião desta conversa íntima mantida com os discípulos, imediatamente antes da sua prisão. E este é um tema que retorna inúmeras vezes.

Lendo estes textos, sentimo-nos convidados a reler os evangelhos para reter na memória tudo o que Cristo ordenou e recomendou. Mas será que é disto exatamente que se trata?

Poderíamos pensar que, da mesma forma que Moisés partiu, deixando a Lei como herança, também Jesus nos proveu com uma lista de coisas por fazer? O que aqui nos parece, é que ele de fato nos entrega o seu testamento.

Irá morrer e, então, o que restará dele? O texto fala em mandamentos, no plural, mas também no “Espírito da verdade”, o Defensor. Isto nos convida a pensar haver estreita ligação entre o Espírito e os mandamentos, como veremos mais adiante.

Por ora, observemos que o nosso texto é «trinitário»: nele está Jesus, o Espírito e também o Pai. Se o Pai de fato não nos tivesse dado o Espírito, estaríamos sozinhos neste mundo.

Por isso Jesus disse que não nos deixaria órfãos: pelo Espírito é que definitivamente nos tornamos filhos de Deus e que Deus, por consequência, se torna totalmente nosso Pai.

Trata-se do testamento de Jesus e o que ele nos deixa em herança é a sua própria condição de Filho: «Vós estais em mim», diz, no versículo 20. Somos a morada de Deus e temos n’Ele a nossa morada. Mas o que fazem aqui os mandamentos?

Um só mandamento

Inicialmente, é preciso realçar a ambiguidade entre o plural (os mandamentos) e o singular, que encontramos em 13,34, nesta mesma conversa, portanto.

Todo o Novo Testamento repete que a lei tornou-se caduca porque resumida, porque fundada num único mandamento a uma só vez antigo e novo: o mandamento do amor.

É verdade que este único mandamento apresenta uma dupla face: o amor a Deus e o amor ao próximo. Isto, no entanto, não faz com que sejam dois mandamentos, porque o amor a Deus a quem não vemos passa pelo amor ao próximo, a quem vemos (1 João 4,20-21).

Por isso Jesus diz que o amor a Deus e o amor ao próximo são «semelhantes» (Mateus 22,37-40). Mas por que este mandamento, que já se encontrava na Lei, é dito como «novo»? Por que 1 João 2,7-8 declara ser este mandamento a uma só vez antigo e novo? É que, com Cristo e o seu êxodo pascal, tudo que era antigo, ganha outro sentido, ganha um sentido novo: é o que chamamos de “cumprimento” (o completar-se).

Com Cristo, ficamos sabendo de fato que o amor que vem de Deus vai até ao dom da carne e do sangue, até ao dom da vida. Ficamos sabendo também que este amor faz de todos nós um só corpo, tornando-nos de alguma forma interiores uns aos outros, assim como o Pai nos é interior e, nós, interiores ao Pai.

O Espírito e o mandamento

Acabamos de ver que a herança de Jesus é a uma só vez um mandamento e o Espírito. Isto, de ser o amor um mandamento, já é difícil de entender; um mandamento é uma ordem que vem do exterior, dada por algum outro.

Já o amor, ao contrário, é algo que vem de nós, do mais profundo de nós mesmos, indo para o outro, para algum outro. Sem dúvida nenhuma, esta palavra mandamento ganha aqui um sentido novo, como tudo o que nos vem de Cristo.

Para ver isto mais claramente, perguntemo-nos se o dom do mandamento e o dom do Espírito não estarão ligados a ponto de formar uma só e mesma realidade.

De fato, na Escritura, o Espírito é sempre considerado como semelhante ao Amor. A teologia O vê até mesmo como o cimento da Trindade, como o que faz a unidade entre o Pai e o Filho. Pelo dom do Espírito, o mandamento, Palavra de Deus, cessa de nos vir do exterior, para vir nos habitar.

Já os profetas haviam anunciado esta transformação do coração humano pela Palavra. Citemos Jeremias: «Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração» (31,33). O que a Lei queria obter do homem (a semelhança com Deus) nos é dado em Cristo, pelo seu Espírito.

Em Gálatas 5,13-26, Paulo enumera os frutos do Espírito em nós. Olhando mais de perto, estes frutos correspondem ao decálogo. Observamos a Lei, mas não mais em nome da Lei: em nome do amor, a presença do Espírito em nós. Claro que isto não se dá sem o nosso consentimento.

A nova Aliança no Espírito

O problema que pode se tornar um drama é que o acesso à nossa humanidade perfeita, à nossa perfeita aliança com Deus, a fonte do nosso ser, só pode se dar pela via da nossa liberdade.

Depende de nós, acolher ou recusar quem nos faz existir. Como poderíamos «ser como Deus» que é soberanamente livre, se também não o fôssemos? Aqui estamos, pois, diante do bem e do mal, do que é bom e do que é mau, da boa estrada que conduz à vida e da má estrada que conduz à morte (ver Deuteronômio 30,15-16).

Em Cristo, Deus veio tomar sobre si a maldade, o mal, a morte que temos escolhido. Recusar a criação à sua imagem já não será neutralizar Deus? Aniquilá-lo? Uma vã tentativa! Pois, em Deus, a morte vai morrer.

E eis que estamos convidados a uma nova aliança, para além da morte que nós mesmos trazemos ao mundo. De minha parte, penso que esta segunda e última Aliança esteve aí desde sempre, desde as primeiras recusas pelas quais o homem se opôs a Deus, ao Outro, aos outros; desde os primeiros Caim.

Isto quer dizer que, desde que o homem existe, o Cristo já estava aqui, escondido, de algum modo subterrâneo. Mas foi preciso esperar que «os tempos se cumprissem» para que fosse revelado em Jesus; este que para nós, é o ponto culminante do itinerário de Israel. Foi preciso que esta revelação acontecesse para que pudéssemos escolher livremente a semelhança divina, esta humanidade na qual Deus se exprime.

Marcel Domergue sj
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O Espírito dá vida, alegria e impulso para a Missão
Romeo Ballan, MCCJ

Respira-se um clima de adeus no longo discurso-diálogo-oração de Jesus com os seus amigos depois da Última Ceia (Evangelho): abundam as emoções, lembranças, perguntas, temores… Mas sobre tudo isso prevalece a promessa certa do Mestre: “Não vos deixarei órfãos: voltarei para vós’ (v. 18); o Pai vos dará um outro Consolador… para sempre” (v. 16). Jesus promete o Espírito como dom a quem reza (Lc 11,13), apresenta-o como defensor e Paráclito (Jo 16,7-11), como Espírito da verdade plena (Jo 14,17; 16,13), como perdão dos pecados (Jo 20,22-23), como Espírito que em nós grita “Abbá, Pai!” (Rm 8,15)… Enfim, o Espírito que Jesus promete aos discípulos é um verdadeiro “Paráclito” (v.16): palavra de uso forense para indicar uma ‘pessoa chamada para acompanhar’ (v. 16) como salvador, protector, defensor. Presença amiga, uma companhia íntima e afectuosa.

É o Espírito de amor no seio da Trindade e dentro de cada um de nós, novo princípio de vida moral na observância dos mandamentos. De facto não basta apresentar a lei moral para que esta seja observada. A pura lei é como a sinalética nas estradas: indica a direcção certa, mas é incapaz de fazer andar o carro; é preciso um motor. Jesus, além de nos indicar a via, comunica-nos também a sua força, o seu Espírito para avançar em direcção à meta. Por amor! Observa-se a lei com um espírito diferente: como expressão , sinal de amor! Na gratuidade e na reciprocidade (v. 21).

O Espírito anima a missão dos fiéis no mundo, no meio de todos os povos, como se vê no Pentecostes, até aos confins da terra (cf. Actos 1,8). O mesmo se vê também na fundação da Igreja em Samaria (I leitura), que é a segunda comunidade (depois de Jerusalém), e será seguida pela de Antioquia e outras. Nos inícios da comunidade de Samaria encontramos um diácono, Filipe (v. 5); ele chega até lá fugindo da perseguição depois da morte de Estêvão, anuncia Cristo, escutam-no com interesse, realiza prodígios, baptiza, há “grande alegria naquela cidade” (v. 8). São os primeiros sinais de uma comunidade de fé, que terá depois a confirmação da parte dos apóstolos Pedro e João com o dom do Espírito Santo (v.17). Também a fundação de Antioquia tem inícios semelhantes, pela obra de simples cristãos, dispersos pela mesma perseguição; os apostos chegarão mais tarde.

A história da Igreja missionária está repleta de acontecimentos semelhantes: quase todas as comunidades cristãs iniciam com a obra de um leigo, um catequista, uma família, algumas religiosas, um grupo de leigos (a ‘Legião de Maria’, por exemplo, e outros)… Só mais tarde chegam o sacerdote e o bispo, com os sacramentos da iniciação cristã e as estruturas eclesiais. Em caso emblemático é o dos inícios da Igreja na Coreia (Sec. XVIII): alguns leigos coreanos, de regresso da China onde tinham encontrado a fé cristã e o baptismo, trouxeram com eles livros cristãos e começaram a anunciar o Evangelho de Jesus. Somente algumas décadas mais tarde chegaram à Coreia os primeiros missionários da França.

A Igreja é uma comunidade de crentes em Cristo, cujos membros – como os destinatários da carta de Pedro (II leitura) – estão “sempre prontos a responder a quem quer que vos pergunte pelas razões da esperança que está em vós” (1Ped 3,15). Nas páginas dos Actos, respira-se a frescura missionária característica das primeiras comunidades cristãs. Uma frescura e um ardor que se tornam contagiosos e que não se podem nem se devem ocultar. Com razão se afirma que “os cristãos são ridículos quando ocultam aquilo que os torna interessantes” (Card. J. Daniélou). A Igreja do Ressuscitado é uma comunidade missionária portadora de uma mensagem de vida e de esperança a anunciar a todos os povos, como declara o Concílio: “A sua comunidade (dos discípulos de Cristo) é composta de homens que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em direcção ao Reino do Pai, e que receberam uma mensagem de salvação para oferecer a todos” (GS 1).