Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus (B)
Marcos 14,12-16.22-26

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Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus (B)

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Referências Bíblicas

1ª. leitura: «Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez conosco» (Êxodo 24,3-8).
Salmo: 115 (116) – R/ Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.
2ª leitura: «O sangue de Cristo purificará a nossa consciência» (Hebreus 9,11-15).
Evangelho: «Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue» (Marcos 14,12-16.22-26).

No Evangelho que acabamos de ouvir, narra-se a Última Ceia, mas, surpreendentemente, a atenção fixa-se mais nos preparativos do que na própria ceia. Aparece várias vezes o verbo «preparar». Por exemplo, os discípulos perguntam: «Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?» (Mc 14, 12). Jesus envia-os para fazerem os preparativos com indicações precisas e eles encontram «uma grande sala (…) mobiliada e toda pronta» (14, 15). Os discípulos vão preparar, mas o Senhor já tinha preparado.

Sucede algo parecido depois da ressurreição, quando Jesus aparece aos discípulos pela terceira vez: andam a pescar e Jesus vai ter com eles à praia; enquanto espera por eles já lhes vai preparando pão e peixe. Entretanto pede-lhes para trazerem um pouco do peixe que acabaram de apanhar sob indicação, aliás, d’Ele próprio (cf. Jo 21, 6.9-10). Também neste caso Jesus prepara antecipadamente, mas pede aos seus para colaborar. Noutra ocasião, pouco antes da Páscoa, Jesus dissera aos discípulos: «Vou preparar-vos um lugar, (…) a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também» (Jo 14, 2.3). Quem prepara, é Jesus; e todavia o mesmo Jesus, antes da sua Páscoa, pede-nos, com sérias advertências e parábolas, que nos preparemos, que estejamos prontos (cf. Mt 24, 44; Lc 12, 40).

Em resumo, Jesus prepara para nós, mas pede também a nós para preparar. Que prepara Jesus para nós? Prepara um lugar e um alimento. Um lugar muito mais digno do que a «grande sala mobiliada» do Evangelho. É a nossa casa espaçosa e ampla aqui na terra, a Igreja, onde há, e deve haver, lugar para todos. Mas tem-nos reservado um lugar também lá no Céu, no Paraíso, para estarmos com Ele e uns com os outros para sempre. Além do lugar, prepara-nos um alimento, um Pão que é Ele próprio. «Tomai: isto é o meu corpo» (Mc 14, 22). Estas duas dádivas – o lugar e o alimento – são aquilo de que precisamos para viver. São a alimentação e a morada definitivas; e são-nos dadas ambas na Eucaristia. Alimento e um lugar.

Nela Jesus prepara-nos um lugar cá na terra, porque a Eucaristia é o coração palpitante da Igreja, gera-a e regenera-a, congrega-a e dá-lhe força. Mas a Eucaristia prepara-nos também um lugar lá em cima na eternidade, porque é o Pão do Céu. Vem de lá, é a única matéria nesta terra que tem verdadeiramente sabor de eternidade. É o pão do futuro, que já agora nos faz saborear um futuro infinitamente maior do que as mais risonhas expectativas. É o pão que sacia os nossos maiores anseios e nutre os nossos mais belos sonhos. Numa palavra, é o penhor da vida eterna: não apenas uma promessa, mas um penhor, isto é, uma antecipação, uma antecipação concreta daquilo que nos será concedido. A Eucaristia é a marcação, a «reserva» do paraíso; é Jesus, viático do nosso caminho rumo à vida beatífica que não acabará jamais.

Na Hóstia consagrada, além do lugar, Jesus prepara-nos o alimento, a nutrição. Na vida, precisamos de nutrir-nos continuamente, e não apenas com alimentos, mas também com projetos e afetos, anseios e esperanças. Temos fome de ser amados; mas as congratulações mais aprazíveis, as prendas mais belas e as tecnologias mais avançadas não bastam: nunca nos saciam completamente. A Eucaristia é um alimento simples, como o pão, mas é o único que sacia, porque não há amor maior. Nela encontramos realmente Jesus, partilhamos a vida d’Ele, sentimos o seu amor. Nela podes experimentar que a sua morte e ressurreição são para ti. E, quando adoras Jesus na Eucaristia, recebes d’Ele o Espírito Santo e encontras paz e alegria. Queridos irmãos e irmãs, escolhamos este alimento de vida: ponhamos em primeiro lugar a Missa, voltemos a descobrir a adoração nas nossas comunidades! Peçamos a graça de nos sentirmos esfomeados de Deus, de nunca nos fartarmos de receber o que Ele prepara para nós.

Mas, como aos discípulos de então, também hoje Jesus nos pede para preparar. Perguntemos-Lhe, como os discípulos: «Senhor, onde queres que façamos os preparativos?» Onde: as preferências de Jesus não recaem sobre lugares exclusivos e excludentes. Procura lugares não atingidos pelo amor, não tocados pela esperança. É a tais lugares desconfortáveis que Ele quer ir e pede-nos para Lhe fazer os preparativos. Há tantas pessoas privadas dum lugar decente para viver e do alimento para comer! Mas todos conhecemos pessoas sozinhas, atribuladas, necessitadas: são sacrários abandonados. Nós, que recebemos de Jesus alimentação e morada, estamos aqui para preparar um lugar e o alimento para estes irmãos mais frágeis. Ele fez-Se pão repartido para nós; pede que nos doemos aos outros, que deixemos de viver para nós mesmos, mas vivamos um para o outro. É assim que se vive eucaristicamente: derramando sobre o mundo o amor que recebemos da carne do Senhor. A Eucaristia traduz-se, na vida, passando do eu ao tu.

E o Evangelho deixa entender que os discípulos prepararam a Ceia, depois de ter entrado na cidade (cf. 14, 16). O Senhor chama-nos também hoje a preparar a sua chegada, não permanecendo fora, afastados; mas entrando nas nossas cidades, inclusive nesta cidade, cujo nome – «Óstia» – sugere precisamente a entrada, a porta. Senhor, quais são as portas que quereis que Vos abramos aqui? Quais são os portões que nos chamais a escancarar, quais são as reclusões que devemos superar? Jesus deseja que sejam abatidos os muros da indiferença e da conivência, que sejam removidas as grades dos abusos e arrogâncias, que sejam abertos os caminhos da justiça, da equidade e da legalidade. A ampla praia desta cidade sugere a beleza de abrir-se e fazer-se ao largo na vida. Mas, para o fazer, precisamos de desamarrar os cabos que nos prendem aos pegões do medo e da opressão. A Eucaristia convida a deixar-nos levar pela onda de Jesus, não ficar arenados na praia à espera que chegue qualquer coisa, mas zarpar livres, corajosos, unidos.

Os discípulos – conclui o Evangelho –, «após o canto dos salmos, saíram» (14, 26). No final da missa, sairemos também nós. Caminharemos com Jesus, que percorrerá as estradas desta cidade. Deseja habitar no vosso meio. Quer visitar as situações, entrar nas casas, oferecer a sua misericórdia libertadora, abençoar, consolar. Experimentastes situações dolorosas; o Senhor quer estar perto de vós. Abramos-Lhe as portas e digamos-Lhe:

Vinde visitar-nos, Senhor.
Acolhemo-Vos nos nossos corações,
nas nossas famílias, na nossa cidade.
Obrigado porque nos preparais o alimento da vida
e um lugar no vosso Reino.
Tornai-nos preparadores ativos,
portadores jubilosos de Vós que sois a vida,
para levar fraternidade, justiça e paz
pelas nossas estradas. Amen.

3 de junho de 2018

Queridos irmãs e irmãos
Nós celebramos hoje a solenidade do Corpo de Deus, a festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, a festa da Eucaristia – esta refeição que tomamos diariamente ou dominicalmente juntos, que é uma refeição ritual, sacramental, mas que é também uma verdadeira refeição e é o grande manifesto da presença de Jesus nas nossas vidas.

Nós podemos dizer, em verdade, que cada um de nós é uma consequência desta refeição, que nos alimentamos dela. Somos construídos e gerados pela Eucaristia. Sem Eucaristia não haveria Igreja, sem Eucaristia não haveria cristãos. Porque é da persistência deste gesto, deste acontecimento, desta memória (que não é só memória do passado, mas é presente e futuro), desta anamnese de Jesus, é a partir daí, que nós somos verdadeiramente gerados, que nós vivemos.

Por isso, há razão para fazer festa. Há razão para hoje a Igreja se ornar, cantar, sentir uma alegria muito especial por esta festa que para nós é tão significativa, é tão fulcral, tão essencial.

A Eucaristia assinala a mudança de regime no quadro religioso. Porquê?

Nós temos essa primeira leitura do livro do Êxodo, que conta a Aliança de Deus com Israel. Essa Aliança, que é uma aliança extraordinária, que foi de certa forma o arranque da história da Salvação, é contudo uma aliança baseada na exterioridade do símbolo. Baseada na exterioridade de uma Lei que é codificada, é escrita na pedra e dá origem a uma Nação – dá origem a um Povo escolhido, dá origem a uma história nacional que é a história de Israel.

Os sacrifícios que se fazem são sacrifícios simbólicos – é o sangue dos cabritos, é o sangue dos cordeiros que é aspergido sobre o povo. A partir daí constrói-se toda a máquina, a dinâmica sacerdotal com o Templo. E constrói-se a partir daí a Torá, a Lei com todas as prescrições que é preciso guardar, que é preciso obedecer. A partir daí, constrói-se todo o sistema de pureza ritual, que teve de facto um papel pedagógico na história da Salvação. Nós sabemos como a religião também vive disso, também vive dessa exterioridade, também vive desse símbolo. Eu diria, também vive dessa aliança que cada um de nós é capaz de tecer, de estabelecer com Deus, a partir das coisas, a partir da matéria.

De facto, as coisas ligam-nos a Deus. O criado liga-nos a Deus. A própria lei, os textos, as palavras escritas, os grandes códigos que a Humanidade foi construindo como esforço de progressão no sentido do amor, tudo isso é uma espécie de Aliança com Deus que nós celebramos.

Contudo, o Cristianismo aparece numa época em que se chega ao fim dos sacrifícios. O fim dos sacrifícios porquê? Porque, pouco tempo depois destes acontecimentos da vida Jesus (em princípio a Páscoa acontece por volta do ano 30/33), no ano 70 o Templo de Jerusalém é arrasado, é destruído. E, de certa forma, o próprio Judaísmo tem de encontrar uma nova configuração. E a nova configuração que encontra já não é a partir dos sacrifícios, porque o sacerdócio acabou porque já não há Templo, já não há Templo.

O próprio Cristianismo tem também de fazer uma reflexão sobre a forma de ligação a Deus. Como é que nos ligamos a Deus agora que já não oferecemos touros, animais, já não trazemos o fruto das colheitas para queimar sobre o altar? O que é que nós colocamos aqui sobre o altar?

O Cristianismo, de facto, nasce como uma religião pós sacrificial. Há um texto cristão, cujo autor nós não conhecemos, sabemos que não é S. Paulo, é posterior a S. Paulo, é um texto cristão de grande densidade, que é este da Carta aos Hebreus, que vai fazer uma coisa sobre as ruínas do Templo de Jerusalém. A Carta aos Hebreus vai dizer isto: “Cristãos, não fiquem a chorar o que foi. Não fiquem a chorar uma religião de sacrifícios, não fiquem a chorar a beleza do Templo, as pedras, o sacerdócio antigo. Não. Cristo é o novo e verdadeiro sacerdote, Cristo é o verdadeiro Templo. Jesus tem um corpo e esse corpo é que é o lugar onde Deus se revela, e Cristo é o Sumo Sacerdote.”, Ele que nunca foi sacerdote, Ele que nunca foi considerado como tal. Jesus é o Sumo Sacerdote, é Aquele que faz uma Aliança entre o Homem e Deus.

A Carta aos Hebreus ajuda-nos a perceber qual é o lugar do Cristianismo nesta nova configuração religiosa, onde há uma deslocação fundamental que acontece: deixamos de ser uma religião sacrificial, uma religião exterior, uma religião fundada à maneira de santuário, uma religião fundada no conjunto dos ritos, uma religião fundada no exercício de um certo tipo de sacerdócio que fazia a mediação entre o Homem e Deus, e passamos a uma religião existencial. Uma religião existencial.

Agora já não temos um santuário, temos um corpo, agora já não temos uma Lei, temos uma consciência, agora já não temos toda a máquina sacrificial, temos a nossa vida. Temos a nossa existência como lugar de encontro, de relação, de experiência, de aliança com o próprio Deus. Nesse sentido, enquanto a velha Aliança fundou um Povo, a nova Aliança funda uma humanidade. Uma humanidade nova, em cada um de nós, e uma humanidade que agora não conhece fronteiras. Não se é cristão por ser judeu ou por ser português, é-se cristão em todas as latitudes, em todas as situações. Porque Cristo não veio trabalhar uma ideia de Povo, Cristo veio trabalhar uma ideia de humanidade. A noção de eleição é substituída pela noção de chamamento. Todos somos chamados.

Como é que Cristo faz isto? Faz isto da forma mais encarnada, da forma mais Sua, através do testemunho do Seu amor, através da dádiva da Sua vida e naquela refeição, na última que Ele tomou. Ele teria tomado muitas refeições dia a dia com os Seus discípulos e com os pecadores refeições abertas que os Evangelhos nos contam. Teria feito refeições consideradas absurdas mas que eram refeições performativas, que sinalizavam a emergência do Reino de Deus – como é a multiplicação dos pães, que é uma refeição feita com uma multidão e que é um grande sinal da mensagem do próprio Jesus e do Seu projeto. Mas esta refeição é uma refeição íntima, a última, aquela que Jesus toma com os Seus Discípulos na véspera da Sua Paixão. E essa refeição é a condensação de tudo, é o resumo de tudo e é a antecipação do próprio destino de Jesus.

Então, os gestos de Jesus tornam-se muito gráficos, nós podemos seguir o curso do Seu gesto. Ele pega no Pão e diz: “Isto é o Meu Corpo que será entregue por vós”, pega no Cálice e diz:” Este é o Meu Sangue, que será derramado por vós e por todos como sinal de uma Nova Aliança.” E é a partir destas frases que em cada dia nós recordamos, que em cada domingo nós recordamos que nós temos a garantia, a certeza de que Ele está sempre connosco, todos os dias até ao fim dos tempos.

Porque, aquele pão se faz Corpo de Jesus, e se faz corpo de uma história que nós vivemos, uma história de relação com Ele, aquele vinho faz-se sangue de uma Aliança que nós experimentamos de tantas formas ao longo da nossa vida mas sabemos que é um laço vivo que nos une a Deus.

Mas quando Jesus diz “ Isto é o Meu Corpo, isto é o Meu Sangue” nós temos de perguntar: O que é isto? O que é isto?

Um primeiro significado é que “isto” é mesmo “isto”. É o que Ele tinha na mão, que é um bocado de pão, um bocado pobre de pão, uma migalha de pão e diz: ”Eu estou neste ínfimo pão.” Quer dizer: Eu estou no ínfimo, Eu estou no mínimo. E se Eu estou no mínimo, estou também no máximo. Eu estou aqui. E, se quisermos, há uma leitura literal que é isto: Eu estou neste vinho que se torna o Meu sangue.
Mas este “isto” certamente é mais, é mais. Porque cada um de nós, quando come o Corpo e quando bebe o Sangue do Senhor, não se liga a Jesus apenas a partir daquele pão e a partir daquele vinho. O que é que nos liga a Jesus? É este “isto” que no fundo é a Sua vida toda, é a história que Ele nos dá a partilhar, é a relação que Ele nos permite, é o que Ele faz no nosso coração, são os sinais que Ele nos dá, são as parábolas que Ele contou onde nos sentimos atores, são os encontros que Ele teve e que hoje nós sentimos que estamos lá dentro desses encontros: que Ele cura a nossa cegueira, que Ele transforma a nossa lepra, que Ele nos coloca a andar de novo, que Ele nos ajuda a viver numa plenitude de ser.

Quando Jesus diz: “Isto é o Meu Corpo, tomai e comei” quer dizer: mergulhai, mergulhai naquilo que Eu sou, mergulhai naquilo que Eu vos dou, mergulhai nesta história de amor e de relação que Eu mantenho com cada um de vós porque aí encontrareis a vida, aí encontrareis a plenitude, tereis este encontro comigo.

Queridos irmãos, celebramos hoje a Ceia do Senhor, esta refeição. Aquilo que nos define: são homens e mulheres de muito lado, de muita família, que se juntam como um só corpo à volta de uma mesa. Esta mesa é uma mesa que representa o passado, representa este gesto, esta refeição de Jesus que se torna não uma refeição mas a Refeição. Mas esta mesa é também o nosso presente, porque ao celebrarmos a Eucaristia sabemos que Ele está vivo no meio de nós, e que as nossas vidas, as nossas vivências, os nossos caminhos, as nossas inquietações, as nossas dilacerações são relevantes, são oportunidades, são caminhos para esta mesa e dialogam com esta mesa. Nós dialogamos com esta mesa.

Nada, nada pode impedir um cristão, qualquer que seja a sua situação, de dialogar com esta mesa. A nossa vida tem de dialogar com esta mesa. Ou a Igreja acredita que os cristãos nascem desta mesa, ou então, se calhar, a Igreja precisa de abrir de novo esta mesa, precisa de encontrar uma largueza – muitas vezes a estreiteza de certos entendimentos doutrinais acabam por limitar esta mesa a alguns. E, nesse sentido, o Papa Francisco tem recordado incessantemente que esta mesa não é um prémio para ninguém, não é um prémio. Esta mesa é o lugar onde o Homo Viator, a mulher e o homem que caminham, os peregrinos da vida, os pecadores, os incertos que nós somos nos alimentamos.

Esta mesa é consolação, esta mesa é reforço, esta mesa é ponto de partida. Esta mesa não pode ser exclusão, esta mesa não pode ser rejeição. Não pode ser a partir da Eucaristia que nós limitamos no corpo dos cristãos os regulares e irregulares, os bons e os maus, os certos e os errados. Não pode ser a partir desta mesa, seja a partir de outra coisa qualquer. Mas não a partir desta mesa, que na intenção de Jesus é a mesa do acolhimento, a mesa que é o nosso berço, que é a nossa manjedoura, a mesa onde nos sentimos consolados pelo amor de Deus, que em Jesus se torna presente para as nossas vidas.

Mas esta mesa, queridos irmãos, é também um lugar do futuro, é também um lugar utópico, é também aquilo que caminha à nossa frente. Porque esta mesa faz-nos antecipar aquilo que ainda não somos. Nós estamos aqui reunidos (infelizmente a Capela do Rato não é um lugar muito interclassista, tem uma predominância de uma classe média-alta, e pronto é o que é) mas esta mesa não é uma mesa que está capturada por um determinado grupo social, esta mesa é transversal, esta mesa é uma máquina de fazer irmãos, é uma máquina de fazer irmãos. É uma máquina de dissipar desigualdades, é uma máquina de aproximar, é uma máquina de fazer comunhão. É uma máquina de criar uma humanidade nova, onde os muros, as assimetrias, as distâncias são todas vencidas a partir desta mesa.

É claro que na vida hoje, no nosso hoje, isso ainda não acontece, mas esta mesa não é uma mesa capturada, sequestrada pelo nosso hoje. Esta mesa é o nosso amanhã, nesta mesa nós colhemos a inspiração para a cidade nova a construir. Nesta mesa nós lavamos os nossos olhos do nosso pecado da divisão, do conformismo, da aceitação de tanta coisa que é um pecado contra a pessoa humana. Nesta mesa nós lavamos os olhos e percebemos que o mundo pode ser de outra forma, o mundo pode ser de outra forma. E o mundo só será de uma forma justa, perfeita, quando os homens todos se puderem sentar à volta de uma mesa e puderem partilhar o mesmo pão, partilhar a mesma carne e o mesmo sangue, partilhar a mesma vida, a mesma existência.

Nesse sentido, esta mesa desassossega-nos, desassossega-nos. Ao mesmo tempo que esta mesa nos consola, que esta mesa nos dá paz, esta mesa não nos dá descanso, esta mesa desinstala-nos. Porque ela diz: “Como é que tu tens tornado este futuro presente? Como é que tu tens aproximado esta mesa? Como é que tu tens moldado a tua vida com as medidas desta mesa?”

Queridos irmãos, esta mesa é o critério da nossa vida, é o critério da nossa vida. Por isso, esta mesa é um programa. Um cristão não tem outro programa de vida senão esta mesa. Por isso, os primeiros teólogos do Cristianismo diziam: “Os cristãos que vão à Eucaristia tornam-se eucaristificados.” Isto é: nós temos a missão de nos tornarmos eucaristia, com o que isso significa, com o que isso quer dizer.

Nesse sentido é que o Cristianismo acende a sua luz e deixa de ser apenas um rito, mais um carneiro que nós imolamos, mais um sangue de cabrito que nós derramamos sobre as nossas cabeças. Não. É a nossa existência. “Tu deste-me um corpo.” E como diz a Carta aos Hebreus, Jesus disse: “Eis-me aqui Senhor para fazer a Tua vontade.” É isso que cada um de nós é chamado à sua maneira a dizer no seu coração.

http://www.capeladorato.org


A Trindade é modelo para toda convivência humana
Marcel Domergue, s.j.

A celebração da Festa do Corpo e Sangue de Cristo existe desde o século XIII; nasceu ligada ao aprofundamento teológico a respeito da presença de Cristo na Eucaristia. Esta celebração não deve, no entanto, fazer-nos esquecer que cada missa é a festa do Cristo que se dá para nós em verdadeiro alimento e verdadeira bebida.

Deus crucificado por nossa violência

Corpos supliciados, sangue derramado… Este é o espetáculo que a violência humana nos oferece todos os dias. Em escala menor, as agressões que acontecem nas vizinhanças; em escala maior, as guerras. Mas não há somente o homicídio qualificado, há também a consumação hipócrita dos ricos, que extraem sua substância da vida dos pobres, dos mais fracos. “Quando comem seu pão, é o meu povo que devoram” (Salmo 14,4). Diante de tudo isso, vem-nos a questão posta no Salmo 42: “Onde está o teu Deus?”. Pois, se Ele é Todo Poderoso, por que não vem estabelecer a ordem? Porque isto equivaleria a violentar o homem, a forçar-lhe a mão. Se fôssemos homens-robôs, o que significaria o bem que fizéssemos? Em razão de termos o poder de decidir, para o bem ou para o mal, os nossos atos adquirem valor. Mas Deus nos deixa então a sós, diante do nosso mal? Certamente que não! Posto que derramamos o sangue e mutilamos os corpos, veio Deus fazer-se um só com as nossas vítimas. Deus desprezado, Deus rejeitado, Deus explorado! E não podemos dizer: “eu não estou do lado dos algozes”. Desde o primeiro movimento de inveja, de cobiça, de desprezo ou de raiva, estamos deste lado sim. Estamos inscritos no pecado do mundo. E estamos todos aí; a uma só vez, vítimas e carrascos. Cristo veio, então, nos dar a sua carne e o seu sangue.

A última palavra do amor

O amor crucificado não desapareceu por causa disto; mas, ao contrário, deu um novo salto. Paulo diz que ele “superabundou”. O movimento pelo qual Deus vem arrolar-se entre as nossas vítimas é o movimento de um superamor. Mais ainda: Cristo poderia ter-se unido a elas, esposando a sorte de todos os que morrem de fome ou dos anciãos excluídos. Espantoso: escolheu a sorte dos malfeitores, dos punidos por crimes, dos que, precisamente, participaram do ódio homicida. “Deus o fez pecado”, diz Paulo (2 Coríntios 5,21). E, tomando este lugar, o único justo da história fez-se absolvição dos culpados: com eles, ele se foi. O cúmulo do amor não é o perdão? Inconscientemente, por isso é que o desejamos, nós que, com facilidade, temo-nos por alguém que não precisa ser perdoado. Pois, este Cristo, que carrega o nosso pecado, que é a imagem do nosso pecado, a absolvição do nosso pecado, torna-se o alimento para um novo amor, amor para além das mortes que provocamos e sofremos. A cruz é o lugar de uma virada radical: a morte do amor, que deveria levar-nos à perdição, torna-se fonte da qual jorra ainda mais forte uma nova vida. Tudo isso porque o Cristo nos deu a própria vida que lhe queriam tirar: “Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo. Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, que será derramado por vós e por todos.” O amor tem a última palavra.

Desde sempre é Deus, o alimento do ser humano

Jesus, de certo modo, salva a sua vida, fazendo-a passar aos outros, mesmo se estes outros irão abandoná-lo (“Tomai e comei…”). Dá a sua vida para todo o mundo, até para os seus assassinos. Por isso a confia a eles. A Ressurreição não se limita a isto apenas, pois já estava ali, na Ceia: eis o novo Corpo de Cristo, a assembleia, os “reunidos” para além de toda divisão. Naquele momento, judeus (o sinédrio) e pagãos (Pilatos) já se haviam posto de acordo para o homicídio. Mais tarde, puseram-se novamente de acordo, para confessarem o seu crime (o centurião romano e a multidão dos judeus, de Lucas 23). Em breve, no Pentecostes, todos os povos se unirão para reconhecerem o Filho de Deus. Compartilhando o mesmo pão, que é o corpo, e bebendo do mesmo cálice, que é sangue, podemos fazer calar os nossos litígios, superar as desigualdades, que são fontes de conflitos, e louvar as diferenças, que nos tornam complementares. Os que se recusam a “comer deste pão”, posto que o Corpo de Cristo aboliu todo e qualquer privilégio, reeditam incansavelmente o assassinato pascal, provocando assim a superabundância do amor que, a uma só vez, os desabona e os absolve. Tudo isso é o que significamos cada vez que nos reunimos para a Eucaristia. E anunciamos, além disso, que é Deus mesmo o verdadeiro alimento do homem. “O Cristo confirmou que o cálice que vem da criação era o seu sangue, e que o pão que vem da criação era o seu corpo” (Santo Irineu).

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