28° Domingo do Tempo Comum (ciclo A)
Mateus 22,1-14


poor invited to the feast
Referências bíblicas
  • 1ª leitura: O Senhor dará um banquete, eliminará a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces (Isaías 25,6-9)
  • Salmo: Sl. 22(23) – R/ Na casa do Senhor habitarei eternamente.
  • 2ª leitura: “Tudo posso naquele que me dá força” (Filipenses 4,12-14.19-20)
  • Evangelho: “Convidai para a festa todos os que encontrardes” (Mateus 22,1-14 ou 1-10)

Depois da parábola do pai e dos dois filhos (26 domingo do Tempo Comum, Ano A) e aquela dos vinhateiros homicidas (27 domingo do Tempo Comum), esta é a terceira parábola do Reino que Mateus nos conta em duas partes, que parecem, à primeira vista, se contradizer. Mas, na verdade, trata-se de duas parábolas que são complementares: a parábola do banquete aberto a todos (Mt 22, 1-10) e a parábola da veste nupcial exigida de todos (Mt 22, 11-14). Como devemos entendê-las?

1. A parábola do banquete aberto a todos (Mt 22,1-10). Nesta primeira parte do Evangelho de hoje, ou melhor, a parábola do banquete, Mateus lembra-nos que o cristianismo não está reservado para uma elite. Todos, independentemente de quem somos e do que fazemos, somos convidados pelo Senhor para a grande festa do Reino: “Ide, pois, às encruzilhadas dos caminhos e convocai para o banquete todos aqueles que encontrardes” (Mt 22, 9).

Já no Antigo Testamento, o Livro de Isaías no trecho de hoje, o profeta fala de um grande banquete onde todos são convidados: “Javé dos exércitos vai preparar no alto deste monte, para todos os povos do mundo, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos refinados” (Is 25, 6). Mas que festa é essa? Esta é a festa messiânica prometida pelos profetas. Para os cristãos que releem Isaías, esta é a nova Aliança selada na morte e ressurreição de Cristo. Esta esperança em um mundo novo não é uma invenção cristã. Ela pode ser encontrada no profeta Isaías: “Dir-se-á, nesse dia: É ele o nosso Deus. Nós esperamos nele e ele nos liberta. É o Senhor em quem pusemos nossa esperança. Exultemos, jubilosos, pois ele nos salva” (Is 25, 9).

Então, Mateus, inspirando-se no profeta Isaías também fala de uma festa, de um banquete em que o rei (Deus) casa seu filho (Jesus). Deus convida, primeiro, seus convidados de qualidade: os sacerdotes, os fariseus, os escribas, os líderes do povo: “Ele mandou seus servos chamarem os convidados às núpcias. Mas eles não quiseram vir” (Mt 22, 3). Mas Deus insiste: “Ele mandou ainda outros servos com o encargo de dizer aos convidados: “Eis que eu preparei o meu banquete, os meus touros e meus animais cevados já foram degolados, tudo está pronto, vinde às núpcias’” (Mt 22, 4). Mais uma vez, os eleitos ficaram indiferentes: “Mas eles, sem fazer caso, foram-se um para seu campo, outro para seu negócio” (Mt 22, 5). E pior ainda, e Mateus não faz referência ao que aconteceu historicamente, ele disse apenas que alguns atacaram os servos, os profetas: “Os outros, agarrando os servos, maltrataram-nos e os mataram” (Mt 22, 6).

O evangelista refere-se à destruição de Jerusalém pelos babilônios em 587 a.C., quando os líderes de Israel ficaram surdos aos apelos dos profetas e também se refere à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., onde havia uma relação muito tensa entre o farisaísmo e a comunidade cristã de Mateus. Em ambos os casos, trata-se da recusa das autoridades eleitas (os principais sacerdotes e fariseus) em reconhecer a nova Aliança no Cristo Pascal: “Então, ele disse a seus servos: “O banquete está preparado, mas os convidados não eram dignos dele’” (Mt 22, 8). E assim, o convite é agora feito a todos, sem exceção: “Ide, pois, às saídas dos caminhos e convocai para o banquete todos aqueles que encontrardes” (Mt 22, 9).

A mensagem de Mateus é dizer que a salvação é universal e que nenhuma exigência moral é demandada: “Estes servos partiram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete ficou cheia de convivas” (Mt 22, 10). Isto significa que na Igreja, na sala do banquete, você não pode negar o acesso ou a entrada baseado na moral ou numa questão de gênero, de raça, de sexo ou de cultura. Todos são chamados e convidados. A salvação é oferecida generosa e gratuitamente.

2. A parábola da veste nupcial (Mt 22, 11-14). Na segunda parábola, parece haver uma contradição: se todos estão convidados para o casamento, então por que a necessidade de usar roupas especiais? Na sua versão longa, a parábola do Evangelho de hoje nos dá um toque curioso, não encontrado em Lucas. De fato, em Mateus, vemos uma espécie de paradoxo entre a gratuidade da salvação oferecida a todos e a exigência de usar uma veste nupcial para aqueles que respondem positivamente ao convite. Como devemos entender essa aparente contradição?

A resposta é simples: quando aceitamos o convite que nos é graciosamente feito, responder é aceitar celebrar isso por que nós nos reunimos. Isto significa que, ao participar das núpcias do filho do Rei, o Cristo ressuscitado, nós devemos aderir a ele; vestir a veste nupcial é revestir-se do próprio Cristo, tornando-se como ele. São Paulo, na carta aos Gálatas, escreve: “Sim, vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gl 3, 27). Assim, a veste nupcial não é uma roupa que devemos comprar para participar da festa de casamento; as pessoas são convidadas nas encruzilhadas, nas ruas, assim como elas são. A veste nupcial diz o que nós nos tornamos quando participamos da festa de casamento, organizada pelo Deus da Nova Aliança. No fundo, aceitar o convite, responder ao chamado, é aceitar nos deixar transformar por Cristo para nos tornarmos como ele. É revestir-se de Cristo; é tornar-se o Cristo ressuscitado.

Para terminar, gostaria apenas de compartilhar um comentário do exegeta francês Jean Debruynne que faz uma diferença entre os eleitos e os chamados: “É sempre o mundo das parábolas. Desta vez, trata-se daquela das núpcias. Ela conduz diretamente ao dilema: é melhor ser chamado ou ser eleito? Mas colocar a questão desta forma já é uma prisão. É abrir o caminho para o privilégio, para o benefício e o melhor rendimento qualidade-preço. Os eleitos estão na defesa de seus privilégios. Eles têm direitos adquiridos. Eles estão segurando seus direitos. Os chamado não têm nada. Os chamados são aqueles que não têm nenhum mérito, nenhum direito. Eles devem o que são à ternura de Deus”.

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O número dos escolhidos
Marcel Domergue

Convidados para a festa

Notemos em primeiro lugar que o Reino de Deus, o poder divino sobre todas as coisas, apresenta-se como uma festa: os trabalhos cessam, para se entregar à alegria. Pensemos nas núpcias do Cordeiro, em Apocalipse 21. Núpcias de Deus com a humanidade, para que, com Ele, tornemo-nos uma só carne. Nesta parábola, somos apenas convidados, mas outros textos dirão que fazemos somente um com o Filho. Em todo caso, aqui somos convidados para um banquete. Sabemos a importância do alimento na Bíblia. Este tema é abordado desde o primeiro capítulo de Gênesis, no versículo 29. E continua: logo no capítulo 2, lemos que quem come do fruto da árvore proibida, para fazer a experiência do mal, morrerá. No outro extremo da Bíblia, as coisas se invertem. Temos ali uma nova árvore, na qual se afixa o espetáculo do nosso mal, da nossa loucura homicida, e a revelação do bem absoluto, do amor que leva o Filho a dar a própria vida, para que dela vivamos. Desta vez, ao contrário de Gênesis 2, quem come do fruto desta árvore viverá, e quem se recusa a comer dele, morrerá (reler João 6). Não precisamos retomar todos os textos das Escrituras que colocam o tema do alimento e da refeição em primeiro plano, como o Maná, a mesa preparada no deserto de sede e de fome (Salmo 78,29). Concentremo-nos somente em que a cruz é o leito nupcial das bodas do Filho com a humanidade, e que o banquete de núpcias torna-se Eucaristia, ou seja, Ação de Graças.

Os convites

Acabo de dizer que somos ao mesmo tempo os convidados e os esposados. Quando dizemos «esposados», queremos insistir em que, no Filho, Deus vem fazer Sua a nossa carne. E quando dizemos «convidados», queremos sublinhar que isto não se produz sem o assentimento da nossa liberdade. É preciso que, de nossa parte, haja um deslocamento em resposta ao «deslocamento» realizado por Deus, que veio juntar-se a nós. É indispensável o nosso «sim», como eco do «sim» de Maria no «relato» da Anunciação. Nesta parábola, nos é dito que os primeiros convidados, os que o Rei havia escolhido, recusaram o convite. Não vamos esquecer que, desde o princípio do capítulo 21, Jesus está se dirigindo aos sumos sacerdotes, aos anciãos do povo e aos fariseus. Temos aí os convidados que se esquivaram. No lugar deles, estarão presentes nas núpcias todos os desconhecidos, recrutados nas “encruzilhadas dos caminhos” das cidades e dos campos. “Todos os que encontrardes”, diz o texto, fazendo questão de precisar, “maus e bons”. O que pode surpreender! Mas, no fundo, a questão não está em ser bom ou ser mau: quem verdadeiramente pode pretender-se bom? De fato, a questão está em responder ou não responder ao convite: convite que é endereçado a todo o mundo. Recusar corresponde a desprezar o dom de Deus: dom de Si mesmo. Os primeiros convidados não se interessaram pelas núpcias propostas. Chegaram até mesmo a matar os que lhes transmitiram o convite. Prelúdio ao homicídio do Filho e de muitos que, mais tarde, irão anunciar o seu Evangelho.

O traje de festa

Surpreendente este Jesus. Poderíamos crer que a parábola terminaria com o convite aos que não têm nenhum título a fazer valer, para participarem do banquete de núpcias. E, no entanto, eis que se abre um novo capítulo; o da expulsão do homem que não se encontra vestido com o traje de festa! Alguns comentaristas falaram em «estado de graça», em retidão moral, etc. Penso que, de novo, é preciso evocar o tema das vestes no conjunto da Bíblia, sem mais inconvenientes que os de omissão e de resumo. É um tema que começa logo no início: em Gênesis 3, fala-se da vergonha de Adão e de Eva quando descobrem estarem nus. Nudez simbólica, com certeza: haviam projetado fazerem-se «como Deus» (versículo 5), e eis que se descobrem como a serpente (o «astuto», do versículo 1, pode também ser traduzido por «nu».) Despojados e sem defesa. É Deus quem finalmente os vestirá com “túnicas de pele” de animal: ei-los assim de volta à imagem desta animalidade que deveriam dominar. No outro extremo do relato bíblico, pregado na cruz, vamos encontrar o homem nu: seus algozes o haviam desnudado e repartiram entre si as suas vestes. A nudez, portanto, é o traje de festa que o Cristo usa em seu leito de núpcias com a humanidade. Penso ser a partir daí que devemos interpretar a imagem do homem excluído do banquete, nesta parábola. Não podemos alcançar a unidade com Deus a não ser se desprovidos de tudo, despojados, sem nenhum título que fazer valer. O dom de Deus não pode ser senão totalmente gratuito.

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Hoje o convite é para um banquete de núpcias, para uma festa, para a vida; não só para trabalhar na vinha! Da vinha do Senhor ao banquete dos povos: depois de três domingos com o tema da vinha, hoje a mensagem das leituras bíblicas está centrada no banquete da vida, para o qual Deus convida todos os povos. Este projecto do Pai aparece claramente já no Antigo Testamento, desde a criação, quando Deus preparava um jardim para os seus filhos e filhas. O profeta Isaías (I leitura), com uma linguagem apocalíptica projectada para o futuro, fala de um banquete para todos os povos: «um banquete de vinhos deliciosos, de manjares suculentos, de vinhos puríssimos» (v. 6). Humilhação, morte, lágrimas, escravidão… serão coisas do passado! É apenas um sonho ou uma ilusão? Não! O projecto do Pai da vida, para todas as nações (v. 7), que se vai realizando gradualmente ao longo do caminho em direcção ao Reino definitivo: Por isso é forçoso alegrar-se e exultar pela salvação que nos vem de Deus (v. 9). Ainda que no meio de tribulações, Ele, que é o bom Pastor, não nos deixa faltar nada: assegura alimento e água, prepara uma mesa abundante para todos (Salmo).

O ícone do banquete é muito querido e familiar nas acções e ensinamentos de Jesus. Ele sabia jejuar e ser austero, mas gostava sobretudo de estar com as pessoas e fazer festa. Os seus sinais começam precisamente numa festa de núpcias em Caná; aceita os almoços oferecidos por Mateus e por Zaqueu, por Simão o leproso e pelo amigo Lázaro; as multiplicações dos pães, a última ceia, a mesa de Emaús, o pequeno-almoço nas margens do lago… E depois os ensinamentos de Jesus nos lugares à mesa, o jejum, a vigilância das virgens para entrar na festa de núpcias, e outras como a parábola do banquete de núpcias para o filho do rei (Evangelho).

No ícone do banquete (imagem e realidade) sobressai o projecto do Pai para a vida do mundo. O convite de Deus não é só a trabalhar na vinha (cf. as parábolas dos domingos anteriores), mas a entrar com alegria no banquete das núpcias do Filho: isto é, tornar-se filhos no Filho, irmãos e irmãs de todos, mediante o baptismo; participar no banquete da Eucaristia; tomar parte activa no projecto do Reino e levar a sua boa-nova também a outros numa partilha missionária. Tudo isso, antes de ser um empenho, é um dom, uma dignidade, uma festa. Ser cristãos, discípulos e missionários do Evangelho é muito mais que uma disciplina: é motivo de alegria e de esperança, é um serviço ao Reino, é vida.

Está tudo preparado (v. 8): o Filho chegou, está presente. O plano salvífico de Deus é para todos os povos. O seu Reino tem dimensões universais, sem restrições, como se deduz da parábola: o Pai convida todos, quer a casa cheia com todas as filhas e filhos, «bons e maus», atraídos de todos os caminhos do mundo (v. 9-10). Ele é sensível à recusa dos primeiros convidados, mas não se rende. «O plano de Deus não é interrompido, a oferta não se extingue, pelo contrário, ressoa com mais intensidade para personagens estranhas que o hebreu evitaria fazer aceder à sua mesa purificada e ritualmente irrepreensível. É todo um mundo de pobres, sofredores, marginalizados espalhados pelos caminhos do mundo. À altiva auto-suficiência daqueles que se sentiam depositários da eleição e da salvação… sucede a nova comunidade das Bem-aventuranças» (G. Ravasi). Deus não falha: não se rende perante as nossas recusas, procura novas vias. (*)

Para fazer parte da comunidade das Bem-aventuranças, é preciso, porém, a veste nupcial (v. 12). Uma exigência que parece em contraste com a amplitude e a pressa daquele recrutamento geral… Poderia tratar-se de uma parábola narrada por Jesus num contexto diferente. Em qualquer caso, a mensagem é coerente com a liberdade pessoal e a disponibilidade de cada um perante a chamada de Deus. São condições imprescindíveis: depor os hábitos do homem velho, renovar-se no espírito e revestir-se do homem novo (Ef 4, 22-24), segundo a exortação de Paulo (II leitura). Ele treinou-se em tudo e para tudo, «para ter fartura e a passar fome», confia inteiramente em Deus: «tudo posso naquele que me conforta» (v. 12-13). A veste nupcial é Cristo, é Ele o homem novo: «Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo», exorta ainda Paulo (Rm 13, 14). S. Gregório Magno comenta: «A caridade é a veste nupcial, porque o nosso Redentor estava revestido dela quando veio para unir a si como esposa a sua Igreja. É o amor de Deus que impele o Filho unigénito a unir a si os eleitos». Temos aqui uma mensagem que ilumina o empenho de cada cristão e de cada comunidade, também neste Outubro missionário. Somos nós os servos, que o Pai da Vida manda pelos caminhos do mundo a anunciar o Evangelho de Jesus, para que todos os membros da família humana se tornem comensais do banquete da vida nova, em Cristo.