Décima Quinta Meditação
A IGREJA DOS “PRESBÍTEROS” (Jo 21)

Com esta meditação gostaria de dar-lhes algumas indicações sobre o cap. 21 de João. Ele compreende três episódios: a mani1 estação de Jesus junto ao lago, no fim da noite de pescaria; o colóquio entre Jesus e Pedro; por fim, o confronto entre Pedro e João. Como referência ao livro dos Exercícios, lembro-lhes as “Regras para sentir com a Igreja” (cfr. EE, n. 352-370). Por fim, o nosso capítulo certamente tem um valor eclesial; por isso intitulei a meditação: A Igreja dos “presbíteros”, visto que provavelmente ela éobra de presbíteros que recolheram, depois da morte de João, algumas sugestões e alguns relatos que remontavam à tradição joanina e que podiam ser referidos de modo particular à situação das Igrejas; de outro lado, reflete o problema típico eclesial: como a presença do Verbo encarnado continua a manifestar-se de maneira específica na vida da Igreja.

Eis os três episódios, para cada um dos quais lhes darei algumas indicações que possam ser-lhes úteis para a leitura e a meditação pessoal.O primeiro episódio é o da manifestação de Jesus junto ao lago, no fim da pescaria (21,1-14). O sentido desta manifestação já foi meditado no episódio de Maria Madalena, com o qual se é claro que Pedro está no centro do capítulo. Há três momentos eclesiais que o enquadram: os sete com Pedro, o colóquio de Pedro com Jesus, Pedro e João. A figura de Pedro já apareceu no capítulo precedente, quando Maria Madalena lhe traz a mensagem; ele é o primeiro a correr com João ao sepulcro e, mesmo chegando depois, João por respeito o espera. Já naquele episódio encontramos indicações interessantes referentes àquilo que a comunidade captava nestes personagens apostólicos, e como através deles via estruturar-se a própria vida.1assemelha um pouco, .ainda que aquilo que lá se referia a uma só pessoa aqui se torne evento comunitário: o Senhor está próximo na prova à comunidade unida. Quase se poderia pensar que se trata de uma comunidade em fase de desmobilização, na qual o desânimo sugeriria a cada qual voltar para os seus negócios, procurando uma segurança pessoal e deixando o empenho comum. Na realidade, dá-se-nos antes o exemplo de uma colaboração em que aparecem os amigos da primeira hora, aqueles que desde os primeiros dias Jesus chamou e com os quais se iniciou a grande parábola da história do Verbo encarnado entre nós (Pedro, Natanael, os dois filhos de Zebedeu, um dos quais foi chamado no início), e além disso Tomé e outros dois não mencionados. O primeiro do elenco é Simão, em posição destacada como já aparecia no relato de Madalena; e esta éuma indicação acerca da importância de Pedro para a vida da comunidade. Em particular, a figura de Pedro é determinante para que na comunidade amadureça a disponibilidade para a colaboração: todos juntos procuram fazer alguma coisa, superar as dificuldades presentes.O ensinamento desta primeira parte do episódio, pois, parece ser o seguinte: ainda que a noite seja longa e trabalhosa, ainda que o trabalho pareça pesado e sem fruto, ainda que o tempo adverso pareça sugerir que o melhor é cada qual voltar para sua casa, permanece necessária a presença e a colaboração de todos. Nesta perseverança comum, no trabalho aceito juntamente com estas pessoas, que são as primeiras chamadas por Jesus, a presença do Senhor, que parecia perdida, pode voltar, e de fato volta.Na realidade, de manhã cedo, o Senhor se mostra. O verbo este dá a entender que estava ali, que já estava, talvez estivesse ali já durante a noite, mas não se podia vê-lo; é visto de manhã. Ele se manifesta mediante três sinais, sobre os quais vale a pena meditar lendo atentamente esta passagem, riquíssima — como todas as outras — de significados simbólicos e de palavras propositalmente escolhidas para fazer-nos refletir sobre a mensagem. Jesus, pois, manifesta-se de três diferentes modos, ainda que complementares. Em primeiro lugar, concede o prêmio à constância de quem permaneceu junto, no grupo, perseverando no próprio lugar apesar das dificuldades: esta constância é premiada com a própria presença de Jesus. Em segundo lugar, dá o prêmio à constância de quem segue com confiança as suas indicações. Ainda que num primeiro momento pareçam indicações de um estranho e não sejam compreendidas, de fato um senso profundo de confiança move instintivamente os apóstolos em direção à voz de Jesus e faz com que eles a escutem. Os apóstolos são recompensados com a pescaria abundante, que se contrapõe à longa e trabalhosa busca da noite. Por fim, Jesus se manifesta aos seus, com a sua costumeira benignidade e amizade, como aquele que sempre vem ao encontro senhoril e amavelmente, pedindo e oferecendo alguma coisa, para que haja uma verdadeira fusão dos corações.

Lemos no texto uma tríplice pergunta de Jesus, à qual segue um tríplice encargo. As três perguntas se referem ao amor de Pedro por Jesus e são colocadas numa ordem inversa àquela que poderíamos esperar. Esperaríamos esta progressão: “Amas-me? Amas-me muito? Amas-me mais do que todos?”. Ao contrário, a ordem éinversa: “Amas-me mais do que todos?”, depois simplesmente: “Amas-me? Amas-me?” (agapas me pleion touton? agapas me? phileis me?). Encontramos uma progressão no uso dos verbos, que geralmente são traduzidos do mesmo modo, mas que na realidade deveriam ser traduzidos assim: “Disse-lhe: ‘Simão de João, amas-me?’

Pela terceira vez: ‘Simão de João, és meu amigol’ “. Esta éuma progressão que parece concentrar sempre mais a atenção sobre a pessoa de Jesus. Em outras palavras, o encargo pastoral que Jesus dá a Pedro funda-se numa relação de confiança e filial intimidade com o Senhor, mais do que sobre qualquer outro dote humano, ainda que se tratasse de capacidade de governo ou qualquer outra capacidade de presidência. A primeira característica deste serviço consiste numa intimidade que não se mostra com ações ou palavras julgáveis pelos homens, mas que deve ser conhecida por Jesus, que lê nos corações: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo” (21,17).

O ensinamento desta passagem, portanto, se dirige a uma comunidade a quem é preciso recordar que o Senhor existe, e que está próximo: é preciso abrir os olhos e perceber as suas indicações providenciais, para saber que não mudou, mas que continua sempre agindo como amigo, com benignidade e realeza, assim como no início em Caná e posteriormente com as pessoas com quem se encontrou durante a sua vida pública.

Este episódio prepara um segundo: o colóquio entre Jesus e Pedro (21,15-19). Façamos antes uma breve análise do texto e depois veremos qual é a mensagem de João, colocando-nos numa ótica aberta ao futuro da Igreja.A tríplice pergunta tem uma tríplice tomada de posição de Jesus, que se exprime no fato de confiar um encargo. Também aqui há uma alternância de termos que é difícil traduzir. Dever-se-ia ler nas respostas de Jesus: “Apascenta”; “Seja pastor”; “Apascenta”. Os dois verbos em grego são diferentes. ii difícil saber se se trata apenas de uma simples oscilação léxica, ou se nos encontramos diante de uma ênfase intencional de diversos aspectos. Em todo caso, na palavra poimaine certamente há um chamado ao poimén, o pastor de que se fala no cap. 10. João nos convida a voltar com o pensamento à passagem de Jesus pastor. E aquelas mesmas características são agora referidas a Pedro. Quem era Jesus pastor? Era aquele que caminha adiante da grei, que é reconhecido pelas ovelhas pelo timbre da voz, que quer que suas ovelhas encontrem pastagem, que dá a vida por elas, que as conhece a fundo etc. Disso pode-se deduzir qual é o tipo de ofício que Jesus lhe confia; trata-se da direção espiritual daqueles que abraçaram a fé. Pode-se perguntar se aquele ofício é diferente do encargo missionário: “Farei de ti pescador de homens” (cfr. Lc 5,10). Parece-me poder dizer que ele é específico com relação ao grupo dos crentes, enquanto reproduz a atividade que Jesus desenvolveu junto aos seus, os Doze, na qualidade de pastor: ele os guiou, conduziu, escolheu as pastagens para eles. Isso implica também uma missão mais ampla, porque Jesus fala no cap. 10 de “ovelhas que não são deste redil”. Portanto é um encargo que parece compreender também o cuidado pastoral por todo homem que, enquanto tal, é atraído pelo Pai para Cristo. Com base na análise do texto aparece ainda uma particularidade que talvez seja pura variação filológica, mas que talvez sirva para indicar a amplidão da tarefa; refiro-me aos diversos termos empregados nos vv. 15. 16. 17, para indicar o objeto da atividade do pastor: ali se fala de “cordeiros” e de “ovelhas”. Há diferença? Ë difícil dizê-lo. Cordeiros e ovelhas são nomes gregos. Mas visto que os códigos fazem uma grande confusão, trocando. os nomes, émuito difícil tirar indicações para uma construção literária precisa. Provavelmente trata-se apenas de variar, ainda que se queira mostrar a vastidão da tarefa, que comporta diversos modos de cuidar, dependendo dos destinatários: no início, é preciso cuidar dos principiantes; depois, daqueles que fazem progressos e vão em frente.Nos vv. 18-19, estreitamente relacionada com o encargo pastoral, está a profecia do martírio de Pedro. “Amar Jesus” está relacionado com dar a vida por ele. O ofício pastoral explica-se nesta capacidade de dar a vida, que São Tomás expõe muito bem no seu comentário a lo 10. A diferença entre um pastor que guia nas coisas temporais e o pastor da Igreja é esta: enquanto aquele que guia nas coisas temporais não tem a obrigação de dar a vida pelos outros, porque está obrigado somente até certo ponto, o pastor da Igreja está obrigado, por ofício, a dar a vida. esta a verdadeira característica que exprime com que profundidade um homem está ligado às pessoas que lhe são confiadas, se leva a sério o encargo recebido de Cristo.Depois desta breve análise do texto, podemos perguntar-nos qual é a mensagem permanente que podemos tirar dela. Levando em consideração tanto a antiga comunidade joanina, como a Igreja que depois continuamente utilizou e repensou na sua tradição este texto, sugeriria os seguintes três pensamentos, que se referem especificamente ao ofício de Pedro.. 1. A Igreja tem a Pedro como pastor. Ë esta uma claríssima disposição de Jesus acolhida pelas comunidades. 2. Este ofício funda-se no amor, e portanto na capacidade de dar a vida, que é conseqüência do amor. 3. Este ofício comporta duas provas, e a prova suprema é a do martírio, previsto para Pedro: “Quando eras moço, costumavas apertar o teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, um outro te apertará o cinto e te levará para onde não queres”… (21,18). Provavelmente já há uma indicação do suplício da cruz (estas páginas foram escritas depois da morte de Pedro), ou então há uma indicação genérica sobre aquilo que será o martírio de Pedro. Em todo caso, se aceitarmos estes três princípios, derivam para a comunidade três mensagens e deveres correspondentes.1. A comunidade é chamada a reconhecer na contínua ação de Pedro na Igreja o prosseguimento da ação pastoral de Jesus. Entre os diversos e múltiplos sinais, sob os quais João nos faz reconhecer a permanente presença e ação do Senhor entre os seus como prolongamento da encarnação, assim como há o Espírito, a água, o pão, a palavra, há também Pedro como pastor do rebanho. Ele constitui um ‘sinal no qual somos convidados a reconhecer a presença do Senhor, para apoiar-nos nela e para fazer dela o ponto de referência da nossa ação.2. Se este ofício está fundado no amor, segue-se que deve ser aceito e interpretado como tal, isto é, como serviço de amor, e não com base em considerações de outro tipo: não como estrutura inevitável, ou como necessidade organizativa, ou como mal menor, mas exclusivamente como serviço de amor. Pedro não está ali somente porque é necessária uma certa ordem na comunidade, mas para um serviço de amor, previsto pelo Senhor para a sua Igreja como um dos frutos da encarnação; o Senhor quis que a sua obra entre os apóstolos continuasse na Igreja também neste aspecto exterior, que a outros pareceria organizativo, mas que na realidade é um prolongamento do seu modo de ser entre os homens. A presença da autoridade numa comunidade deve ser aceita como uma. das formas de Jesus estar com “os seus”; é um sinal que deve ser aceito como um serviço de amor e como um dom da presença do Senhor ressuscitado.Ela não só deve ser aceita, mas também interpretada como serviço de amor. Ë necessário olhar para as intervenções pastorais de Pedro e de seus sucessores com um olhar iluminado, que saiba interpretar os sinais exteriores segundo uma justa chave interpretativa. E qual é a justa chave interpretativa? aquela que nasce da confiança no fato de que na raiz das decisões de Pedro está o amor que o Senhor lhe concede. Neste sentido devem ser compreendidas e explicadas as suas decisões, cujo alcance não pode ser outro, por vontade do Senhor, senão o de promover a caridade. E isso comporta uma verdadeira e bem entendida liberdade de espírito.Poderíamos fazer um confronto com aquela que é a interpretação da Bíblia. Diante da Bíblia colocam-se diferentes espíritos: alguns rígidos, outros céticos, outros livres. Os espíritos rígidos, que desvirtuam as. próprias palavras da Bíblia, como diz Pedro na sua segunda carta: “Alguns pervertem as palavras de Paulo e todas as suas Escrituras” (2 Pdr 3,16): hoje falaríamos de um literalismo incapaz de entender as analogias de significado e a multiplicidade dos gêneros literários da Bíblia. Além disso, há a atitude oposta dos céticos, que são os racionalistas; estes privam a Escritura de sua força. Nós, ao contrário, não somos chamados nem a uma atitude de literalismo rígido, ou fundamentalista, que fecha o coração e o espírito, nem a uma atitude racionalista, que leva a dar de ombros e dizer: “A Bíblia dirá isso, mas nós faremos como quisermos”; em vez disso, somos chamados a uma atitude de interpretação, que com liberdade de espírito saiba compreender a verdadeira mensagem. Quem gosta da Bíblia sabe entrar nas suas intenções, compreende o seu significado e com liberdade de coração o aceita.Analogamente poderíamos dizer: quem ama a Pedro e o compreende como dom do Senhor interpreta retamente, com liberdade de espírito, o sentido de suas intervenções, vê nelas como se promove a caridade, e por isso obedece com amor. E como uma reta interpretação da Bíblia exige trabalho, atenção, prudência, discernimento, porque se pode errar tanto por excesso como por defeito, assim também a interpretação de toda intervenção magisterial, ou conciliar, ou de qualquer intervenção autoritativa requer idêntica atitude, de modo a excluir tanto o espírito rígido — que tudo aceita acriticamente, ou cegamente, sem compreender o objetivo e a razão daquilo que é ordenado — , quanto um espírito laxo — que aceita aquilo que lhe agrada e rejeita ou ignora o que não o satisfaz. O que se verifica frente à Bíblia repete-se diante do Magistério, diante de um Concílio e diante de todas as explicitações autoritativas da vida da comunidade. Devemos pedir intensamente, neste nosso tempo, a abertura de um coração verdadeiramente livre: e isso supõe toda uma visão de fé, que nos reconduza até a pessoa de Jesus e nos leve à fidelidade que devemos ter para com ele.3. O ofício de Pedro comporta provações. A conseqüência que deriva para a comunidade que ouve este Evangelho é que não pode abandonar Pedro no momento da dificuldade. Ë preciso permanecer com ele, de modo que se verifique também aqui a palavra de Jesus aos seus: “Vós sois os que perseverastes comigo em minhas provações” (Lc 22,28). Recordemos que na comunidade primitiva, enquanto Pedro estava sob acusação e esperando a sentença de condenação por parte de um tribunal humano, “uma oração subia incessantemente a Deus na Igreja por ele” (At 12,5). Há uma profunda solidariedade de oração e de ânimos, sinal . da fidelidade da Igreja aos modos escolhidos por Jesus para a sua presença no mundo.

Lancemos um rápido olhar ao terceiro episódio, aquele do confronto entre Pedro e João. É uma passagem misteriosa, que em parte talvez ainda deva ser compreendida e da qual os exegetas dão várias possíveis interpretações. Mas é certo que alguns elementos sobressaem. Antes de mais nada, há uma pergunta de Pedro a Jesus com relação a João: “E quanto a este? Jesus respondeu: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa. Quanto a ti, segue-me” (21,21s.). Que significa esta tomada de posição? claro que aqui é afirmada a liberdade soberana de Jesus, também com relação a Pedro, de fazer o que quiser de João e dos outros discípulos. Em todo caso, o fundo histórico poderia ser este: Pedro amava Jesus, mas não era de fato o discípulo que o amava mais. Nas comunidades da Ásia recordava-se João como o discípulo que, por antononlásia, “amava Jesus”. E então as pessoas se perguntavam como é que Pedro deu seu testemunho de fé com a morte, ao passo que João viveu por longo tempo e morreu tranqüilamente em seu leito: não teria sido121mais justo que fosse João a dar aquele testemunho? Em certo sentido, esta pergunta podia lançar uma sombra sobre a figura de João, como se ele, embora tendo sido tão amado pelo Senhor, não tivesse tido a coragem de Pedro. Ë por isso que aqui o Senhor afirma que há uma liberdade absoluta na ação de Deus: a certas pessoas que talvez sabem dar menos pede mais, a outras que podem dar muito pede aparentemente menos. A João se pede que “permaneça”, isto é, que seja testemunha mediante a sua longa presença na Igreja; Pedro, embora, sendo mais lento em compreender e mais impetuoso, teve uma missão dura e deu a própria vida. João, portanto, teve a missão de permanecer por longo tempo na Igreja como testemunha do Verbo, como aquele que podia alimentar com as palavras de Jesus uma grande comunidade de fiéis e instaurar na Igreja primitiva um conhecimento aprofundado do mistério pascal. E isso, no final deste Evangelho, faz ver a todos nós como devemos estar disponíveis ao que Deus nos pedir, talvez a coisas diferentes daquelas que esperamos, talvez a um destino que não merecemos, ou então a um destino mais fácil do que aquele que podíamos prever. Ë esta a soberana liberdade do ‘Senhor, que no fim reassumirá tudo em si mesmo, e aqui está a nossa adesão a ele na fé, isto é, na aceitação daquilo que ele nos propõe.Eis-nos chegados às últimas palavras do capítulo: “Este é o discípulo que dá testemunho de tudo isso e que escreveu estas coisas. Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, muitas coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem escritas uma a uma, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que seriam escritos” (21,24s3. Que nos diz esta conclusão um pouco ingênua, que foi acrescentada pelos discípulos no fim do Evangelho de João? Creio que nos quer dizer isso: nos Exercícios Espirituais procuramos ler o Evangelho segundo João e tocamos alguns aspectos; pareceu-nos talvez que seja muito mais empenhativo do que poderíamos imaginar; na realidade, a obra de Jesus é ainda infinitamente maior. Graças a Deus, há surpresas sempre novas que o Senhor nos apresenta; daquele oceano que é o seu mistério, tocamos apenas a parte de uma parte; nem o próprio João consegue exaurir o que é o mistério de Deus. Isso nos leva a uma profunda humildade, pelo pouco que pudemos dizer e pelo muito que se poderia dizer, como a uma imensa confiança, porque Deus ainda nos reserva muitas coisas para a nossa futura meditação.

Evangelho segundo São João
Carlo Maria Martini
Edições Loyola
S. Paulo – Brasil – 1980