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Quarta Meditação
PECADOS, TREVAS, MENTIRA, ESCRAVIDÃO, MORTE

A meditação que agora lhes proponho corresponde na estrutura dos Exercícios ao segundo exercício da primeira semana, que é a chamada “Meditação sobre os pecados” (EE, n. 55-61). E sobretudo corresponde — ao menos deveria corresponder na nossa experiência — ao importantíssimo terceiro exercício, que é a “repetição do primeiro e segundo com o tríplice colóquio: o primeiro colóquio com Nossa Senhora, para que me obtenha a graça de seu Filho e Senhor para três coisas:

1. para que sinta interno conhecimento dos meus pecados e aborrecimento deles;
2. para que sinta a desordem de minhas operações a fim de que, aborrecendo-a, me emende e me ponha em ordem;
3. para que conheça o mundo a fim de que, aborrecendo-o, afaste de mim as coisas mundanas e vãs.
Este mesmo colóquio se repete depois ao filho e ao Pai” (EE, n. 62-63).

Este colóquio será o tema específico de nossa meditação; creio que haveria grande vantagem em aprofundá-lo e em fazer dele o objeto de uma longa reflexão, porque estes três pedidos contêm tudo o que podemos reunir em ordem a um frutuoso exercício penitencial.

Queremos ocupar-nos de tudo isso com base nas palavras de João: são algumas palavras que escolhi como representativas da realidade que nos é lembrada por lnácio. Mais especificamente, escolhi cinco termos — ou temas — , que, como veremos, com frequência no texto são intrinsecamente relacionados.

A meditação destes temas certamente é difícil, precisamente porque João supõe uma experiência espiritual já elevada, isto é, uma experiência de simplificação e de unificação interior; com efeito, ele supõe que já se tenha passado através da experiência do múltiplo, que já se tenha travado uma luta séria, no primeiro e no segundo ciclo de formação, contra os pecados mais graves — os externos — ‘ contra os vícios e as paixões mais evidentes, e que já se tenha feito um certo esforço para a observância dos preceitos.

O evangelista não fala nem de pecados, nem de vícios, nem de paixões, nem de preceitos, nem de ordens, nem de prescrições; mas, como veremos, resume tudo dentro de alguns temas globais que, à primeira vista, poderiam também parecer um pouco genéricos e até mesmo abstratos. Por isso, o esforço a se fazer é traduzir estas palavras numa possível experiência nossa: cada qual pode procurar por si mesmo aquelas palavras que lhe servem pessoalmente para a tradução existencial destes dados. Eu lhes indicarei alguns textos e algumas sugestões pessoais.

1. Comecemos com o tema do pecado, que expressamente menciono no singular. Nós dizemos na Missa: “Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo”, mas na realidade, como sabemos, João fala do “pecado” do mundo (1,29); num texto terminal e resumido, diz que o Espírito “convencerá o mundo de pecado” (16,8).

O que é este “pecado”? Dizemos que é a atitude errada fundamental. Evidentemente, João sabe que existem também pecados singulares, por exemplo quando em 20,23 diz: “A quem retiverdes os pecados serão retidos”, por isso sabe muito bem que existem diversas e múltiplas atitudes erradas. Todavia, se ele os resume numa única atitude é porque, para ele, uma coisa sobretudo conta, como explica em 16,8-9: “Convencerá o mundo de pecado…; de pecado, com efeito, porque não crêem em mim”. Por isso o pecado fundamental para João é não aceitar o Filho de Deus entre nós, com todas as consequências que isso comporta.

Agora não podemos exprimir todas estas consequências porque o tema nos levaria demasiadamente longe; todavia, seguindo a palavra de João, começamos aceitando estes dados que depois desenvolveremos. É evidente, contudo, que aqui se entrevê também um inicio de solução para aquela dificuldade evidente, que talvez já terá aflorado em vocês, segundo a qual João não parece ter nenhuma sensibilidade para os pecados sociais: não se importa com aquilo que constitui o relacionamento com os outros, porque para ele tudo se reduz ao simples relacionamento com Jesus, num intimismo que se diria absoluto, radical. A resposta a este problema não é fácil, porque é todo o Evangelho de João que deve ajudar-nos a dá-la; mas penso que inicialmente devemos aceitar esta mensagem, esta visão telescópica de João, que faz depender tudo da relação de aceitação do Verbo, de Cristo entre nós, e do crer nele.

2. Segundo tema: as trevas. Tal expressão aparece nove vezes em João (oito vezes como skotia, uma vez como skotos), geralmente em sentido teológico. Aparece já no prólogo: “As trevas não compreenderam”; as traduções variam: “não compreenderam” (isto é, “não acolheram”), ou “não sufocaram” (isto é, “não derrotaram”) a luz. Seja como for, é clara a oposição entre trevas e luz, que emerge em 3,19 como símbolo de atitudes humanas opostas: “Preferem as trevas à luz”.

Tais atitudes opostas são explicitadas em 8,12 em relação a Jesus: “Quem me segue não anda nas trevas”. Mais uma vez temos uma redução radical de tudo à relação com a pessoa do Verbo encarnado.

Que são estas trevas e como se pode traduzir este conceito? Comecemos dizendo (o que sem dúvida é mais fácil) o que não são. Parece que aqui João com o termo “trevas” não quer dizer algo externo ou macabro. E nem algo especificamente inerente ao homem, como a concupiscência e as paixões. Qual é seu significado? Simplesmente a escuridão, isto é, a falta de luz: aquela situação em que se caminha com dificuldade e tropeçando. A imagem é aquela de alguém que anda pela estrada, e na escuridão não sabe onde pôr os pés, pisa de mau jeito, tropeça…

Há uma passagem que me parece iluminadora a este propósito: “A luz ainda dura um pouco de tempo para vós. Caminhai enquanto tendes luz, para que a escuridão não vos surpreenda. Aquele que caminha no escuro não sabe para onde vai” (12,35). Em 11,9-10 a propósito do chamado feito a Jesus pelas irmãs de Lázaro, diz-nos que “doze são as horas do dia, e quem anda de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas quem anda à noite tropeça, porque lhe falta a luz”. Se quiséssemos traduzir estas trevas em nossa linguagem, talvez pudéssemos falar de desorientação interior, que é aquele estado de desordem em que não se sabe aonde se vai e como se vai.

Esta desorientação interior certamente é hoje um fenômeno difuso, talvez em nível dos presbíteros ainda mais do que nos outros níveis da Igreja. E tal desorientação interior, quando não é simplesmente sofrida com o desejo de sair dela, mas é assumida como sistema de vida, faz com que a pessoa se deixe arrastar pelos impulsos e pelas situações empíricas, sem nunca enfrentar o verdadeiro porquê das coisas.

Portanto, com a palavra “trevas” João quer indicar aquele caminhar ao acaso e mal, que é típico de quem não tem um ponto de referência. Ele nos diz: o fato de não reconhecer Jesus, feito homem entre nós, como o sentido último da realidade que dá valor a todas as coisas, faz com que as pessoas se encontrem nas trevas, sem pontos de referência. Então se vai em frente ao acaso, tateando, com oscilações contínuas de um extremo ao outro, sem nunca saber bem o que se faz e por que se faz, com todas as consequências desastrosas desta desorientação que se resumem naquela “desordem das operações”, de que fala lnácio no colóquio indicado (EE, n. 63).

Parece-me importante outra observação para esclarecer mais este conceito; encontro-a em João 3,2: “Quem faz o mal, odeia a luz”. Isso significa que aqueles que de propósito geraram uma situação de confusão, com frequência chegam ao ponto de não querer sair dela; então levantam problemas sobre problemas e nunca estão satisfeitos com solução alguma, porque na realidade não fazem mais do que projetar sobre as coisas e sobre as situações a sua falta de orientação interior; por isso nenhuma solução proposta, nem teórica nem prática, é suficiente, porque no fundo se ama este estado de confusão, de desorientação um pouco amarga, um pouco cética, em que tudo permanece possível ou plausível: toda escolha é de certa forma justificada, mas nada se impõe como verdadeiramente válido e nada como verdadeiramente inconveniente, oprobrioso, falso ou errado!

Esta é a situação das trevas. Dela deriva outra consequência, que me parece bem expressa em 9,4: “É preciso que realize as obras daquele que me enviou, enquanto durar o dia. Porque vem a noite e então ninguém poderá trabalhar”. Quando falta esta orientação interior, entra a inércia, ou então a atividade múltipla, mas que encobre uma verdadeira inércia para as coisas essenciais, porque não se sabe mais distinguir o que vale e o que não vale, e então todas as coisas se equivalem. Neste caso, a afanosa multiplicidade das ações equivale no fundo à inércia, ao não fazer nada, à preguiça, porque ambos os comportamentos são causados por uma idêntica desorientação.

3. Terceiro tema: a mentira. Textos fundamentais são 8,44 e 8,55. Como traduzir também aqui, ou ao menos como procurar traduzir? Quem está nas trevas, quem está na desorientação e não sabe admiti-lo (isto é, aceita que no fundo todas as coisas de certa forma se equivalem, e não há verdadeira distinção entre o que é mais importante e o que é menos), então odeia a luz e a sua vida se torna inautêntica: é esta a existência inautêntica de quem não se colocou realmente diante das últimas e verdadeiras responsabilidades, e então foge delas recorrendo a pseudodeveres ou a direitos de que se nutre dia após dia. Enquanto vida inautêntica, ela é também uma vida corroída pela inveja com relação aos que parecem ter esta autenticidade. Aqui tocamos o fundo da meditação de 8,44: o demônio é o “homicida” (com base em Gênesis e Sabedoria), e isso por inveja e na mentira.

Creio realmente que todos nós, seguindo as indicações do colóquio dos Exercícios Espirituais, deveremos pedir a graça de sentir esta desordem em nós, porque certamente alguma coisa de inautêntico sempre surge em nós e de alguma forma vai se abrindo caminho. Tudo o que em nós é dualismo — por exemplo entre fé e mundanidade — e toda falta de unidade interior, isto é, toda falta de correspondência entre desejo e realidade, entre o que desejaríamos ser e o que somos, são todas formas de inautenticidade que corroem gravemente o nosso íntimo.

Encontram-se, sobretudo na vida de pessoas consagradas, contradições enormes entre certos modos de falar e certas ações até mesmo santas, de um lado, e certos modos desonrosos de proceder, de outro. Talvez seja exatamente no mundo religioso que as contradições, não só entre pensamento e ação, mas também entre ação e ação, são mais evidentes. Contradições nos sentimentos: por isso passa-se de certos sentimentos aos sentimentos opostos, sem possibilidade de dominá-los ou de perceber sua razão de ser. Fraqueza no agir que nasce da falta de certezas, medo de enfrentar as situações difíceis…

Como sabem, hoje existem padres que pedem para se retirar do ministério, não por falta de fé, mas porque não se sentem mais em condições de enfrentar as dificuldades concretas; sua desorientação tornou-se demasiado estridente: a falta de coerência entre as coisas que deveriam pensar, fazer, levar avante, e a dificuldade de julgar sobre as verdadeiras soluções. Por isso o medo de enfrentar as situações difíceis — e por isso até mesmo a incapacidade de ordenar os próprios dias de modo verdadeiro segundo Deus — os leva a se retirarem.

4. Quarto tema: a escravidão. João não fala muito disso, mas fala no mesmo contexto de 8,33.34-35. Poderão dar-se conta de como os termos estão relacionados se tomarem como ponto de referência 8,34: “Quem pratica o pecado é escravo do pecado”. Quem não se abre à existência autêntica, é escravo de todas as contingências diárias. E se examinarmos o nosso dia, sobretudo se estivermos empenhados na vida ativa, creio que não fugiremos à impressão de sermos um pouco escravos das coisas: não somente escravos das paixões (isso pode acontecer ou pode não acontecer de maneira evidente), mas também escravos das incumbências, dos horários, das urgências, das pressões, do telefone, sem que no fim se saiba bem, entre tantas coisas, o que se está fazendo e por quê. Sabemos o que urge e o que os outros esperam de nós, mas nunca refletimos se tudo isso é importante; ou se há algo mais importante a fazer, que talvez ninguém faça.

Esta é a confusão (“desordem das operações”, como a chama Inácio) que com frequência corrói a nossa existência diária e torna o nosso dia muito pesado, precisamente porque falta a autenticidade. Quando esta escravidão se amplia (como acontece comumente a cada um de nós) em escravidão com relação a elementos exteriores frequentemente ocultos, como a opinião pública, as ideias correntes, as antipatias ou as simpatias, os modos de dizer, os slogans verbais, então nos damos conta de até que ponto a falta de pontos de referência autênticos nos torna verdadeiros e próprios fantoches, dependentes de mil coisas incontroláveis. mas que de fato regulam toda a nossa existência, dando-lhe um certo ritmo difícil e enervante: na realidade com pouco mérito, enquanto difícil e enervante não por razões validamente aceitas, por ideais aos quais nos sacrificamos, mas por uma série de engrenagens dentro das quais nos encontramos e cujo funcionamento com frequência não conseguimos motivar.

5. O quinto tema joanino é o da morte. Encontramos três pontos de referência em 8,24, depois ainda em 8,21 e 8,51-52, e por fim em 5,24.

Aqui gostaria de sublinhar sobretudo o que encontramos em 5,24 e em 8,51-52: dois textos que se correspondem. Leiamos 5,24: “Eu vos afirmo e esta é a verdade: quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será julgado, mas passou da morte à vida”. Portanto, qual é o estado de morte? É o estado de quem, não ouvindo a palavra de Jesus e não regulando sua vida segundo a presença do Verbo encarnado entre nós, vive uma existência inautêntica, escrava, dividida em si mesma.

Que é que nos faz passar da morte à vida? A audição com fé da palavra de Jesus. Por isso João parece dizer de novo, radicalizando o discurso: enquanto a palavra de Jesus não for a alma da nossa vida, estaremos nas trevas, na mentira, na escravidão, na morte. É a palavra de Jesus e somente ela que nos liberta desta situação. Não podemos libertar-nos por nós mesmos, porque se tentarmos fazê-lo com um esforço nosso, recairemos numa nova forma de inautenticidade, que é nossa treva, mentira, escravidão e morte.

Certamente, esta é uma visão radical: talvez devesse ser temperada com aquela que é toda nossa experiência diária. Mas vale a pena, ao menos uma vez, considerar até o fundo este tipo de visão e perguntar-nos até que ponto ela nos toca, de modo a ver também como o Espírito nos pede para sair dessa situação obscura, da qual Jesus vem libertar-nos com sua palavra e seu dom.

Evangelho segundo São João
Carlo Maria Martini
Edições Loyola
S. Paulo – Brasil – 1980