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A PORTA DA ESPERANÇA
Segunda Pregação do Advento de 2022
Raniero Cantalamessa

Vivendo a esperança

“Ó portas, levantai vossos frontões! Elevai-vos bem mais alto, antigas portas, a fim de que o Rei da glória possa entrar” (Sl 24,7). Tomamos este versículo do salmo como fio condutor das meditações do Advento, entendendo por portas a serem abertas as das virtudes teologais: fé, esperança e caridade. O templo de Jerusalém – lemos nos Atos dos Apóstolos – tinha uma porta chamada “Porta Formosa” (At 3,2). O templo de Deus, que é o nosso coração, também tem uma porta “formosa”, e é a porta da esperança. É esta a porta que hoje queremos buscar abrir a Cristo que vem.

Qual é o objeto próprio da “esperança”, que em cada Missa proclamamos estar “vivendo”? Para nos dar conta da novidade absoluta trazida por Cristo neste campo, é preciso situar a revelação evangélica no pano de fundo das crenças antigas sobre o além.

Sobre este ponto, também o Antigo Testamento não tinha uma resposta para dar. Sabe-se que, apenas por volta do seu fim, tem-se alguma afirmação explícita sobre uma vida após a morte. Antes, a crença de Israel não diferia daquela dos povos vizinhos, especialmente daqueles da Mesopotâmia. A morte põe fim à vida para sempre; todos terminam, bons e maus, em uma espécie de lúgubre “fossa comum” que, em outros lugares, chama-se Arallu e, na Bíblia, o Sheol. Não diversa é a crença dominante no mondo greco-romano contemporâneo do Novo Testamento. Ele chama aquele triste lugar de sombras Infernos, ou Hades.

A grande coisa que distingue Israel de todos os demais povos é que ele continuou, apesar de tudo, a crer na bondade e no amor do seu Deus. Não atribuiu a morte, como faziam os babilônios, à inveja da divindade que reserva somente para si a imortalidade, mas sim ao pecado do homem (Gn 3), ou simplesmente à própria natureza mortal. Em certos momentos, o homem bíblico não calou, é verdade, o próprio desconcerto diante de uma sorte que parecia não fazer qualquer distinção entre justos e pecadores. Jamais, contudo, Israel chegou à rebelião. Em alguns orantes bíblicos, ele parece ser propenso a desejar e entrever a possibilidade de uma relação com Deus além da morte: um ser “resgatado da mão da morte” (Sl 49,16), “estar com Deus sempre” (Sl 73,23) e “delícia eterna e alegria ao seu lado” (Sl 16,11).

Quando, pelo final do Antigo Testamento, esta espera, amadurecida no subsolo da alma bíblica, finalmente virá à luz, não se exprime, à maneira dos filósofos gregos, como sobrevivência da alma imortal que, liberada do corpo, volta ao mundo celeste da qual provém. Em harmonia com a concepção bíblica do homem, como unidade inseparável de alma e corpo, a sobrevivência consiste na ressurreição – corpo e alma – da morte (Dn 12,2-3; 2Mc 7,9).

Jesus trouxe à sua luz, de imediato, esta certeza e – o que mais conta –, após tê-la anunciada em parábolas e sentenças (como aquela em resposta aos Saduceus sobre a mulher de sete maridos: Mt 22,30) –, deu a prova irrefutável disso, ele próprio ressurgindo da morte. Depois dele, para o crente, a morte não é mais uma aterrissagem, mas uma decolagem!

O mais belo dom e a mais preciosa herança que a Rainha da Inglaterra Elizabeth II deixou à sua nação e ao mundo, após 70 anos de reinado, foi a sua esperança cristã na ressurreição dos mortos. No rito fúnebre, assistido ao vivo por quase todos os poderosos da Terra e, pela televisão, por centenas de milhões de pessoas, foram proclamadas, por sua vontade expressa, na primeira leitura, as seguintes palavras de Paulo:

A morte foi tragada pela vitória; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a Lei. Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor, Jesus Cristo (1Cor 15,54-57).

E, no Evangelho, sempre por sua vontade, as palavras de Jesus:

Na casa de meu Pai há muitas moradas… E depois que eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também (Jo 14,2-3).

A esperança, virtude ativa

Justamente porque estamos ainda imersos no tempo e no espaço, faltam-nos as categorias necessárias para representarmos em que consistiria esta “vida eterna” com Deus. É como tentar explicar o que é a luz a alguém que nasceu cego. São Paulo se limita a dizer:

Semeado na desonra, ressuscita na glória,

semeado na fraqueza, ressuscita no poder;

semeia-se um corpo animal,

ressuscita um corpo espiritual (1Cor 15,43-44).

A alguns místicos, foi dado experimentar, já nesta vida, algumas gotas do oceano infinito de alegria que Deus preparou para os seus; mas todos, unanimemente, afirmam que não se pode dizer nada sobre isso com palavras humanas. O primeiro deles é ele mesmo, o Apóstolo Paulo. Ele confia aos Coríntios ter sido arrebatado, quatorze anos antes, ao “terceiro céu”, no paraíso, e ter ouvido “palavras inefáveis, que homem nenhum é capaz de falar” (2Cor 12,2-4). A recordação que essa experiência deixou nele é perceptível no que escreve em outra ocasião:

O que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem entrou no coração do ser humano, é o que Deus preparou para os que o amam (1Cor 2,9).

Mas deixemos de lado o que será no além (sobre o qual podemos dizer tão pouco) e voltemos ao hoje da nossa vida. Refletir sobre a esperança cristã significa refletir sobre o sentido último da nossa existência. Uma coisa é comum a todos: o desejo de viver e viver “bem”. Porém, assim que se busca entender o que se compreende por “bem”, logo se visualizam duas classes de pessoas: aquelas que pensam apenas no bem material e pessoal e aquelas que pensam também no bem moral e de todos, o chamado “bem comum”.

Em relação aos primeiros, o mundo não mudou muito desde o tempo de Isaías e de São Paulo. Ambos referem o ditado que corria ao seu tempo: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (Is 22,13; 1Cor 15,32). Mais interessante é buscar entender aqueles que se propõem – ao menos como ideal – a “viver bem” não apenas material e individualmente, mas também moralmente e junto com os outros. Existem sites na internet em que se entrevistam pessoas idosas sobre como, chegando ao crepúsculo, avaliam a vida que viveram. São, em geral, homens e mulheres que viveram uma vida rica e digna, a serviço da família, da cultura e da sociedade, mas sem qualquer referência religiosa. É patética a tentativa de fazer acreditar que são felizes por terem vivido assim. A tristeza de terem vivido – e em breve não viver mais! –, escondida pelas palavras, gritava pelos olhos.

Santo Agostinho expressou o cerne do problema: “Para que serve viver bem, se não se pode viver sempre?”[1]. Antes dele, Jesus dissera: “Que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou a arruinar-se a si mesmo?” (Lc 9,25). Eis onde se insere – e em que difere – a resposta da esperança teologal. Ela nos assegura que Deus nos criou para a vida, não para a morte; que Jesus veio para nos revelar a vida eterna e nos dar a garantia dela com a sua ressurreição.

Uma coisa deve ser enfatizada, para não cair em um perigoso equívoco. Viver “sempre” não se opõe ao viver “bem”. A esperança da vida eterna é o que a torna bela, ou ao menos aceitável, também a vida presente. Todos, nesta vida, temos a nossa parte de cruz, crentes ou não. Mas uma coisa é sofrer sem saber para que fim, e outra, sofrer sabendo que “os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós” (Rm 8,18).

Dar a razão da esperança

A esperança teologal tem um papel importante a desempenhar em relação à evangelização. Um dos fatores determinantes da rápida difusão da fé, nos primórdios do cristianismo, foi o anúncio cristão de uma vida após a morte infinitamente mais plena e mais alegre daquela terrena.

O imperador romano Adriano construíra para si, em várias partes do mundo, mansões espetaculares e preparara para si como mausoléu aquele que agora é o Castelo de Santo Ângelo, perto daqui. Próximo da morte, escreveu uma espécie de epitáfio para a sua tumba. Falando à sua alma, nele a exortava a dar um último olhar às belezas e aos deleites deste mundo, pois –dizia –, “estás prestes a descer a lugares incolores, árduos e despojados”[2]. O Hades! Pode-se imaginar o choque espiritual que devia provocar, em uma atmosfera como esta, o anúncio de uma vida infinitamente mais plena e mais luminosa daquela que se deixava com a morte. Explica-se assim porque a ideia e os símbolos da vida eterna são tão frequentes nas sepulturas cristãs das catacumbas.

Na Primeira Carta de São Pedro, a atividade da Igreja ao exterior, isto é, a propagação da mensagem, é apresentada como um “dar a razão da esperança”: “Santificai o Senhor Jesus Cristo em vossos corações e estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir”. (1Pd 3,15-16). Lendo as narrativas sucessivas à Páscoa, tem-se a sensação de que a Igreja nasce de uma palavra de ordem de “esperança viva” (1Pt 1,3) e, com esta esperança, moveram-se à conquista do mundo.

Também hoje temos necessidade de uma regeneração da esperança, se quisermos empreender uma nova evangelização. Não se faz nada sem esperança. Os homens vão aonde se respira ar de esperança e fogem de onde não percebem a presença dela. A esperança é aquela que dá a coragem aos jovens para formar uma família ou seguir uma vocação religiosa e sacerdotal, é aquela que os mantém longe da droga e de semelhantes rendições ao desespero.

A Carta aos Hebreus compara a esperança a uma âncora: “É para nós como uma âncora da alma, segura e firme” (Hb 6,18-19). Segura e firme, porque lançada à eternidade. Mas temos também uma outra imagem da esperança, em certo sentido, oposta: a vela. Se a âncora é o que dá ao barco a segurança e a mantém firme em meio às ondulações do mar, a vela é, ao invés, o que a faz caminhar e avançar no mar. Ambas estas coisas faz a esperança com o barco da Igreja.

Quanto ao passado, hoje estamos em uma situação de vantagem em relação à esperança. Não devemos mais passar o nosso tempo em defender a esperança cristã dos ataques externos; podemos, então, fazer a coisa mais útil e frutuosa, que é aquela de proclamá-la, oferecê-la e irradiá-la no mundo. Fazer da esperança um discurso não tanto apologético, porém mais kerigmático.

Vejamos ao que aconteceu a propósito da esperança cristã há mais de um século nesta parte. Antes, houve o ataque frontal contra ela da parte de homens como Feuerbach, Marx, Nietzsche. A esperança cristã foi, em muitos casos, o objetivo direto da crítica deles. Vida eterna, além, paraíso: todas estas coisas eram vistas como a projeção ilusória dos desejos e necessidades insatisfeitos do homem neste mundo, como um “desperdiçar no céu os tesouros destinados à terra”. Os cristãos buscavam defender o conteúdo da esperança cristã, frequentemente, com um mal disfarçado desconforto. A esperança cristã estava “em minoria”. Raramente se falava e se pregava sobre a vida eterna.

Após ter demolido a esperança cristã, a cultura ateia marxista não demorou a se dar conta de que não podiam deixar as pessoas humanas sem esperança. E eis que inventou o “Princípio esperança”[3]. Com ele, a cultura marxista não pretendia ter demolido a esperança cristã, mas, pior, ter ido além dela e ser a sua legítima herdeira. Para o autor do “Princípio esperança” (princípio, note-se bem, não virtude), é certo que a esperança é vital para o homem. Ela é real e tem uma saída, que é “a revelação do homem oculto”, ou seja, de possibilidades ainda latentes da humanidade. A manifestação do Filho do homem, Cristo, é substituída pela manifestação do homem oculto, a parusia é substituída pela utopia.

Por cerca de duas décadas, lembro-me, não se falava de outra coisa nas universidades e, a muitos cristãos, não parecia real que houve alguém do outro lado que aceitasse assumir seriamente a esperança e instaurar um diálogo. Ainda mais porque a inversão era tão sutil e a linguagem, frequentemente semelhante. A pátria celeste se tornava a “pátria da identidade”; não o lugar onde o homem finalmente vê Deus face a face, mas onde vê o verdadeiro homem, no qual se tem então a identidade perfeita entre o que pode ser e o que é. A chamada “teologia da esperança” nasceu em resposta a este desafio, por vezes aceitando, infelizmente, a sua configuração. O que menos se percebe em todos estes escritos é justamente o que Pedro chama de “esperança viva” (1Pd 1,3), o tremor da esperança. Não vida, mas ideologia.

Agora, dizia eu, a situação mudou em parte. A tarefa que temos à frente, em relação à esperança, não é mais a de defendê-la e de justificá-la filosófica e teologicamente, mas de anunciá-la, de mostrá-la e de doá-la a um mundo que perdeu o sentido da esperança e afunda sempre mais em um pessimismo e niilismo, que é o verdadeiro “buraco negro” do universo.

Gaudium et spes

Um modo de tornar ativa e contagiante a esperança é aquele formulado por São Paulo quando diz que “a caridade tudo espera” (1Cor 13,7). Isto vale não apenas para a pessoa individualmente, mas também para o conjunto da Igreja. A Igreja tudo espera, tudo crê, tudo suporta. Ela não pode se limitar em denunciar as possibilidades de mal que há no mundo e na sociedade. Não se deve certamente negligenciar o temor do castigo e do inferno e deixar de alertar as pessoas sobre as possibilidades de mal que uma ação ou uma situação comporta, como as feridas provocadas ao ambiente. A experiência, porém, demonstra que se consegue mais por via positiva, insistindo sobre as possibilidades de bem; em termos evangélicos, pregando a misericórdia. Talvez jamais o mundo moderno tenha se mostrado tão bem disposto para com a Igreja e tão interessado em sua mensagem, como nos anos do Concílio. E o motivo principal é que o Concílio dava esperança.

Mas, deste modo, não nos expomos – pergunta-se – a sermos desiludidos e parecermos ingênuos? Esta é a grande tentação contra a esperança, sugerida pela prudência humana, ou pelo medo de sermos desmentidos pelos fatos, e é o que está acontecendo, em parte, também em relação ao Concílio. Como se o ter ousado falar de “alegria e esperança” (gaudium et spes) tivesse sido uma ingenuidade, da qual devamos até mesmo nos envergonhar um pouco. É o que muitos pensaram do Papa João quando do seu anúncio do Concílio.

Devemos retomar a palavra de ordem de esperança iniciada pelo Concílio. A eternidade é uma medida muito ampla; ela nos permite esperar de todos, não abandonar ninguém sem esperança. O Apóstolo dava aos cristãos de Roma o mandato para abundar na esperança. “Que o Deus da esperança – escrevia – vos encha de toda alegria e paz em vossa fé. Assim, vossa esperança abundará, pelo poder do Espírito Santo (Rm 15,13).

A Igreja não pode oferecer ao mundo melhor dom do que lhe dar esperança; não esperanças humanas, efêmeras, econômicas ou políticas, sobre as quais ela não tem uma competência específica, mas esperança pura e simples, aquela que, mesmo sem saber, tem por horizonte a eternidade e por fiador Jesus Cristo e a sua ressurreição. Será então esta esperança teologal a servir de estímulo a todas as demais esperanças humanas legítimas. Quem viu um médico visitar um doente grave, sabe que o maior alívio que pode lhe proporcionar, melhor do que todos os remédios, é dizer-lhe: “O médico espera; tem boas esperanças para você!”.

A esperança, assim entendida, transforma tudo o que toca. O seu efeito é maravilhosamente descrito na seguinte passagem de Isaías:

Até os adolescentes se afadigam e cansam,
e mesmo os jovens às vezes tropeçam!
Aqueles, porém, que esperam no Senhor,
renovam suas forças,
criam asas como de águia,
correm e não se afadigam,
caminham e não se cansam (Is 40,30-31).

Deus não promete tirar os motivos do cansaço e da exaustão, mas dá esperança. A situação em si permanece a que era, mas a esperança dá a força para se elevar acima dela. No Apocalipse, lê-se que “quando viu que tinha sido lançado à terra, o dragão começou a perseguir a mulher que tinha dado à luz o menino. Mas a mulher recebeu as duas asas da grande águia e voou para o deserto, para o lugar onde é alimentada” (Ap 12,13-14). A imagem das asas da águia se inspira claramente no texto de Isaías. Por isso, ocorre-nos dizer que à Igreja inteira foram dadas as grandes asas da esperança, para que com elas possa, toda vez, escapar dos ataques do mal, superar de imediato as dificuldades.

“Levanta-te e anda!”

A porta do templo, chamada “Porta Formosa”, é conhecida pelo milagre que ocorreu junto dela. Um coxo era colocado diante dela para pedir esmola. Um dia, passaram aí Pedro e João e sabemos o que aconteceu. O coxo, curado, pôs-se em pé e, finalmente, quem sabe depois de quantos anos que lá permanecia abandonado, atravessou também ele aquela porta e entrou no templo, lê-se, “saltando e louvando a Deus” (At 3,1-9).

Algo do tipo poderia ocorrer também a nós em relação à esperança. Também nós nos encontramos, frequentemente, espiritualmente, na posição do coxo no limiar do templo: inertes, apáticos, como se paralisados diante das dificuldades. Mas eis que a divina esperança nos passa ao lado, levada pela palavra de Deus, e diz também a nós, como Pedro ao coxo: “Levanta-te e anda!”. E nós nos colocamos em pé e finalmente entramos, no vivo da Igreja, prontos para assumir, de novo e alegremente, tarefas e responsabilidades. São os milagres cotidianos da esperança. Ela é realmente uma grande taumaturga, uma grande operadora de milagres; reergue milhares de coxos, milhares de vezes.

Além do que para a evangelização, a esperança é de auxílio em nosso caminho pessoal de santificação. Ela se torna, em quem a exerce, o princípio do progresso espiritual. Permite descobrir sempre novas “possibilidades de bem”, sempre algo que pode ser feito. Não deixa que nos acomodemos na apatia e na melancolia. Quando você se sente tentado a dizer a si mesmo: “Não há mais nada a fazer”, eis que a esperança aparece e lhe diz: “Reze!”. Você responde: “Mas eu rezei!”, e ela: “Reze ainda!”. E também caso a situação se tornasse dura ao extremo e tal que pareça não haver mais nada mesmo a fazer, eis que a esperança lhe indica ainda uma tarefa: suportar até o fim e não perder a paciência, unindo-se a Cristo na cruz. O Apóstolo, ouvimos, recomenda “abundar na esperança”, mas logo acrescenta como isso se torna possível: “pelo poder do Espírito Santo”. Não pelos nossos esforços.

O Natal pode ser a ocasião para uma mexida de esperança. O grande poeta moderno das virtudes teologais, Charles Péguy, escreveu que Fé, Esperança e Caridade são três irmãs, duas maiores e uma menor. Caminham pela estrada de mãos dadas: as duas maiores, Fé e Caridade, aos lados, e a menina Esperança, ao centro. Todos, ao vê-las, pensam que são as duas maiores que levam a pequenina no centro. Errado! É ela quem leva tudo”[4]. Pois se vem a faltar a esperança, tudo para.

Se quisermos dar um nome próprio a esta criança, não podemos chamá-la senão de Maria, aquela que aqui – diz outro grande poeta das virtudes teologais, Dante Alighieri –, “para a humanidade”, é “viva fonte de esperança”[5].

Fonte: Vatican News

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Tradução de Fr. Ricardo Farias

[1] Cf. Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, 45,2 (Quid prodest bene vivere si non datur semper vivere?).

[2] Citado em M. Yourcenar, Memórias de Adriano, tr. it. L. Storoni Mazzolani, Einaudi, Torino 1988.

[3] Cf. Ernst Bloch, Il principio speranza, 3 voll., Berlino 1954-1959.

[4] Cf. Ch. Péguy, Le porche de la deuxième vertu, Œuvres poétiques complètes, Gallimard, Paris 1975, pp. 534-539.

[5] Cf. Dante Alighieri, Paraíso XXXIII,12.