As celebrações destes dias oferecem-nos uma janela por onde avistar mais vastos horizontes, ou uma claraboia para admirar o céu estrelado. Melhor ainda, abrem-nos uma PORTA: “Eu vi uma porta aberta no céu e… uma voz disse-me: sobe até aqui…” (Apocalipse 4,1). Entremos pois por essa porta aberta. O Paraíso abre as suas portas permitindo uma visita! Uma ocasião a não perder!…

Permiti-me que partilhe convosco algo da minha “visita”!…

Todos iguais ou todos diferentes?
Primeira surpresa: o Céu é um maravilhoso e imenso mosaico da diversidade!

Eu vi uma grande multidão, que ninguém poderia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Apocalipse 7,9). Não há “céus” diferentes para separar e evitar o “diverso”… numa eterna e monótona uniformidade! Mas um único para acolher e integrar a diversidade. Todas as diversidades: geográficas, temporais, raciais, culturais como também religiosas, convivendo alegremente, gratos pela riqueza da variedade que oferece uma contínua e perene novidade!

Surpresa ulterior: a riqueza de temperamentos e sensibilidades! Todas elas respeitadas. Todas elas purificadas.“Uma gota de divino existe em cada homem. Somos as folhas dessemelhantes de uma única árvore” (Cardeal Martini). Desaparecidas as sombras próprias de todo carácter (os seus limites, a outra face da moeda!), resplandece o seu lado luminoso! Finalmente “o lobo convive com o cordeiro” (Isaías 11,6).

Repouso eterno?
Uma segunda surpresa: no Céu há azáfama, trabalha-se!…

O Céu não é lugar de ociosidade! Toda a gente trabalha! O “Patrão” é o primeiro a dar o exemplo: “O meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”, diz Jesus (João 5,17). E não é um trabalho “divino”, feito “desde o alto”; pelo contrário, muito humano, serviço humilde, feito de joelhos: “Quem vê a mim vê o Pai”, diz Jesus depois de ter lavado os pés aos seus discípulos.

Mudem, pois, de ideia os que pensam que o “repouso eterno” é justificação para o ócio. E fiquem descansados os que não aguentam “estar sem fazer nada”! Tal como vai o mundo, como poderíamos seguir adiante sem o auxílio do Céu? Não têm eles de atender continuamente aos nossos pedidos de ajuda?

Felicidade plena?
Uma terceira surpresa: a Felicidade do Céu não é uma “alegria descontraída”!

E como poderia sê-lo se é o lugar da Caridade perfeita? Como poderiam os nossos irmãos e irmãs alhear-se do nosso sofrimento e das nossas penas? E Deus sobretudo! A solidariedade de Cristo, a sua compaixão, as suas lágrimas (João 11,42) são emblemáticas. A Escritura não se coíbe de falar da “profunda tristeza de Deus” (Génesis 6,6). E São Paulo pede-nos que “não entristeçamos o Espírito de Deus” (Efésios 4,30). Não é de admirar pois que certos videntes tenham ouvido Nossa Senhora falar da “tristeza” de Deus e de seu Filho, e a tenham visto “chorar”!…

O Céu é o “lugar” da Solidariedade extrema e da Caridade perfeita. A alegria no Céu será “total” quando for partilhada por todos, quando “Deus enxugar todas as lágrimas, e não houver mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor…” (Apocalipse 21,4).

Prémio conquistado pelos nossos méritos?
Quarta surpresa: o Céu não é exclusividade dos “justos”!

O Céu não é o “salário” concedido unicamente aos justos que o teriam merecido pelas boas obras. Ficaremos talvez pasmados ao encontrar lá “certas” pessoas e ao abraçar, embaraçados, algum nosso “inimigo”! Porque Deus é Aquele que “come com os pecadores e senta-se à mesa com eles” (Marcos 2,15). A bondade de Deus tem grandes braços, que toma o que se dirige a ela” (Dante). Por isso para ir para o Céu “basta querer”, diz S. Tomás.

Lá compreenderemos bem a desconcertante parábola de Jesus, dos trabalhadores convidados a trabalhar na Vinha que recebem todos a paga por inteiro. Parábola que teve uma aplicação eloquente no caso do “bom ladrão”, “contratado” ao último momento…

No Céu entra-se só por Amor. Por isso a mística sufista muçulmana Rabia de Bassora (+ 801) dizia que, se pudesse, apagaria o inferno e queimaria o Céu para que todos amassem a Deus desinteressadamente, não por medo do inferno ou esperança do Céu!…

Conclusão

Perdoai a minha ousadia. Esta minha “visão” é certamente deturpada pelo meu olhar míope e ofuscado. Uma mísera e nublada sombra da realidade, pois o Céu é a Grande Surpresa que Deus nos reserva! Que a Esperança dele ilumine as “trevas” da nossa vida!

P. Manuel João Pereira Correia (comboniano)