13° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 9,51-62


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Espaço para a profecia
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
A Palavra de Deus também funciona como um espelho. Como um espelho onde nós encontramos histórias com as quais nos podemos identificar, histórias que trazem uma profundidade de sentido até à nossa vida, nos colocam perguntas, colocam-se a conversar com aquilo que somos, aquilo que vivemos, aquilo que trazemos dentro de nós. É uma espécie de mosaico. É sempre uma narrativa muito ampla, muito aberta mas capaz de tocar pontos concretos do itinerário que cada um de nós, cada um de nós sem exceção, está a fazer. Este conjunto de histórias, à maneira de um repositório, acaba por traduzir de forma muito concreta aquela que é a vontade de Deus inspirar a nossa vida, transformar, transfigurar, iluminar, reconciliar profundamente a nossa vida.

A primeira história é aquela do profeta Elias e do profeta Eliseu. É muito belo porque o profetismo não tem a ver com a família, o profetismo acontece de surpresa, Deus manifesta-se na vida de forma surpreendente. E é importante estarmos abertos para as surpresas de Deus. O modo como Deus vai entrar na vida de cada um de nós é um modo único, é um modo diferente. É importante cada um de nós estar aberto para essa surpresa.

Eliseu estava com os seus bois e o seu arado a trabalhar na terra, as expetativas dele seriam continuar ali, e passa o profeta Elias e tira-lhe a capa. Isto é, desafia-o a começar um destino novo com o qual ele não contou. E então, Eliseu faz um gesto de grande beleza: mata as juntas de bois e com a madeira do próprio arado faz um banquete para os seus e despede-se, e começa um tempo novo de vida.

Mas, ele quer começar esse tempo novo de vida com um momento de dádiva, transformando aquilo que tem numa dádiva, numa oferta aos outros. Isto para nós é um desafio muito grande, porque nem sempre aquilo que temos nós conseguimos transforma-lo em dádiva, conseguimos transforma-lo em oferta, em lugar de encontro, em potenciador da relação. Mas, o que temos são apenas coisas, são apenas bois e são apenas arados. Ser capaz de transformar os bois e arados numa festa é alguma coisa para a qual Deus desafia cada um de nós. No fundo, o que é que fazemos com aquilo que possuímos? E como é que sentimos que estamos a ser chamados?

Nós somos um povo de profetas. Então, na vida de cada um de nós tem de haver espaço para a profecia. Não são apenas: ah, a madre Teresa de Calcutá é uma grande profeta, Jean Vanier é um grande profeta. Sim, sem dúvida são vozes proféticas mas o que Deus quer é um povo de profetas. Isto é, cada um de nós, no seu espaço, no seu território existencial possa fazer acender a profecia. Como é que nós fazemos acender a profecia? A profecia é sempre um gesto disruptivo, é sempre um gesto novo, é sempre um gesto capaz de trazer a força do Espírito Santo.

Outra imagem muito forte, e ao mesmo tempo de grande realismo, é aquela que nos é oferecida por S. Paulo na Carta aos Gálatas. S. Paulo explora aqui uma coisa que ele vai trabalhar muito também noutras epístolas, que é esta: cada um de nós experimenta princípios contraditórios dentro de si. Que ele resume em dois: o princípio da carne e o princípio do Espírito. O princípio da carne leva-nos para um lado, aquilo que é o Espírito em nós leva-nos para outro, e cada um de nós experimenta o conflito, experimenta a dificuldade de ser. Tanto assim que S. Paulo noutra carta vai dizer isto: “Quem me libertará deste corpo de morte? Porque eu não faço aquilo que acredito, mas acabo por fazer aquilo que odeio, aquilo que não quero.” E nós sabemos que é assim. Tantas vezes não fazemos aquilo que achamos que é o bem, aquilo que acreditamos que é o bem e acabamos por ficar escravos apenas da nossa carne e da nossa vontade e vivemos esta contradição interna. S. Paulo dá-nos este retrato. Quer dizer, Deus sabe aquilo que nós vivemos, Deus sabe o que está em cada um de nós, Deus conhece-nos a fundo. E, nesse sentido, esta contradição humana, esta dificuldade de viver, de ser, que cada um de nós experimenta é mesmo assim. Contudo, a palavra de Paulo é esta: “Não podemos desistir de dar na nossa vida prioridade ao Espírito. Não podemos desistir de fazer experiência de liberdade.” E às vezes para nós a liberdade mais difícil é a liberdade face ao nosso “eu”, face ao nosso ego. Porque o nosso “eu”, às vezes, tem exigências tirânicas; o nosso “eu”, às vezes, é uma prisão que nos prende. Nós temos de ouvir a voz do nosso eu, mas ao mesmo tempo não podemos ficar submissos a essa voz. Temos de ter uma liberdade, temos de experimentar um desapego face às exigências do nosso eu, na nossa vontade, nas nossas necessidades. Experimentar uma liberdade, um espaço de liberdade. E é essa liberdade, esse desapego, essa relativização de nós mesmos que também cria espaço para a liberdade do Espírito, para a criatividade do Espírito na nossa vida.

O Evangelho de hoje também é uma sucessão de imagens com as quais nos temos de confrontar. A primeira é esta: Jesus ia a passar na peregrinação de Jerusalém, os discípulos vão preparar-lhe um lugar na Samaria, mas como os samaritanos odeiam os judeus quando sabem que Jesus vai para Jerusalém fecham-lhes a porta. E os discípulos dizem: “Senhor, queres que mandemos cair fogo do céu para queimar esta gente dura de coração?” E Jesus diz: “Não, vamos para outro lugar.” Reparem a forma como Jesus ultrapassa o conflito. Às vezes nós ficamos presos a lutas que não vão a lado nenhum, às vezes nós ficamos a combater por causas que só aumentam a violência, que já não dão possibilidade de encontro e o que é belo é esta sabedoria do Evangelho que diz: “Não, vai para outro lugar. Vai-te embora, desiste disso. Tu não vais mudar a rixa, o conflito entre os samaritanos e os judeus. Começa uma outra coisa, vai para outro sítio.” E este ir embora é, no fundo, também uma possibilidade de começar uma coisa nova.

Aquele discípulo que vem dizer: “Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.” E Jesus diz-lhe: “As raposas têm as suas tocas, as aves os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” Isto é, nós seguimos Jesus, cada um de nós segue Jesus mas não é para chegar a um lugar, não é para ter um prémio, não é para entrar num parque de estacionamento, não é para ficar parado, não é para ficar seguro. A religião não é uma seguradora, não é a ‘Fidelidade’, não é a ‘Tranquilidade’, não é uma seguradora. A religião é um clube de risco, é para quem, de facto, quer arriscar. E, muitas vezes, precisamente os crentes, precisamente aqueles que se abandonam, aqueles que aceitam Deus têm de viver no nada, no Deus dará, no Deus dará. Têm de fazer a experiência da Providência, têm de sentir que Deus não está a por a mão por baixo, têm de sentir o silêncio de Deus. Têm de sentir que a vida é um risco, é um acreditar. E o acreditar não é: eu somo dois mais dois e então percebo que é assim. Não, eu não consigo somar nada, mas acredito que é assim. Este atirar a vida para diante é a confiança daqueles que seguem Jesus.

Aquela palavra daquela pequena história é uma palavra que para nós nos desassossega porque aquele homem veio dizer a Jesus: “Senhor, eu sigo-Te mas deixa-me primeiro ir despedir-me dos meus pais.” É um pedido honesto, é um pedido certo, até o profeta Elias permitiu que Eliseu se fosse despedir da sua família. Mas porque é que Jesus diz: “Não, não deixa lá isso. Quem coloca as mãos na charrua não pode olhar para trás senão deixa de ser digno de Mim.” Há aqui um paradoxo claramente, Jesus usa também metáforas paradoxais. Mas o que é que Jesus nos quer dizer? Nós temos de ser capazes de experimentar na nossa vida a prioridade de Deus, a prioridade do Reino de Deus. Porque é muito difícil amar a Deus sobre todas as coisas, é muito difícil. É muito difícil colocar Deus em primeiro lugar na nossa vida. Porque é que é difícil? Porque há tantas coisas que são importantes, há tantas coisas igualmente necessárias. E às tantas nós vivemos a adorar tantos deuses, nós vivemos presos a tantas coisas sem a capacidade de perceber qual é a coisa mais importante, qual é o passo que nós temos de dar. Por isso, Jesus diz: “Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o Reino de Deus.” Isto é, temos que nos projetar para diante, temos de acreditar que aquilo que o Senhor pede a cada um de nós é, de facto, aquele lugar de encontro e de reencontro. Mesmo que nós não estejamos a ver como é que as coisas se vão passar, como é que vão ocorrer. Maria também não sabia quando o anjo veio ter com ela. Mas, Deus pode, Deus faz, Deus é capaz, a Deus nada é impossível. E é nesta Palavra, é nesta experiência que nós temos de ancorar a nossa vida.

Vamos assim aceitar receber esta Palavra, expor-nos a ela e que este conjunto de histórias correspondam a outros tantos desafios concretos capazes de dialogar com aquilo que nesta hora nós estamos a viver.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XIII do Tempo Comum

http://www.capeladorato.org

A exigência de ser cristão
Raymond Gravel

Neste 13º Domingo do Tempo Comum, Lucas nos faz caminhar com Jesus na estrada que leva a Jerusalém, onde terão lugar os acontecimentos fundadores da fé cristã. É uma longa caminhada que todos os cristãos de todos os tempos devem fazer para se tornar verdadeiros discípulos de Cristo. É uma caminhada difícil e se Lucas nos coloca nela é para nos fazer tomar consciência da urgência da missão cristã que é a nossa ainda hoje. E como esta missão comporta suas exigências, temos que conhecê-las antes de nos comprometermos com elas. Mas quais são essas exigências?

1. A liberdade

A fé não se impõe; ela se propõe. Se alguém se recusa a crer, é seu direito mais sagrado, e, como Igreja, não temos o direito de obrigar as pessoas a acreditar naquilo que nós acreditamos e na maneira como nós acreditamos. Não devemos agir como se tivéssemos a verdade sobre Deus e sobre o mundo! Não foi esta a atitude dos discípulos Tiago e João que queriam impor aos samaritanos o Cristo Pascal? “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para acabar com eles?” (Lc 9, 54). Não é também essa a nossa atitude, enquanto Igreja, quando intervimos na sociedade para impor a nossa moral e as nossas convicções?
É possível a Igreja não compartilha certos valores da nossa sociedade secularizada, diversificada e laica; ela pode manifestá-los, certamente, mas deve saber fazê-lo no respeito aos outros. Dom Martin Veillette, ex-presidente da Assembleia dos Bispos católicos de Québec, escreveu sobre o aborto: “Nós sabemos que a nossa convicção não é compartilhada por todos os nossos compatriotas. Devemos, portanto, como sociedade, encontrar uma maneira de viver e de caminhar na escuta e no respeito mútuos”.

Em sua carta aos Gálatas, que é a segunda leitura de hoje, São Paulo nos diz ainda que Cristo nos libertou e se ele o fez, foi para que nós fossemos verdadeiramente livres (Gl 5, 1a). Nós não podemos impor nada aos outros; temos de nos libertar das amarras da nossa antiga escravidão (Gl 5, 1b). E quais são essas amarras? A circuncisão (Gl 5, 2), a lei (Gl 5, 4) e o egoísmo, que nos impedem de amar uns aos outros (Gl 5, 13). São Paulo acrescenta, e é a parte da leitura de hoje, que a única lei que conta é a lei do amor: “Amar o próximo como a si mesmo” (Gl 5, 14). E explicita: “Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, tomem cuidado! Vocês vão acabar destruindo-se mutuamente” (Gl 5, 15). E para viver verdadeiramente a liberdade que vem de Cristo, como mulheres e homens livres devemos nos deixar conduzir pelo Espírito de Cristo: “Mas, se forem conduzidos pelo Espírito, vocês não estarão mais submetidos à Lei” (Gl 5, 18).

2. A despossessão

É fácil dizer que queremos seguir Cristo e tornar-nos seus discípulos. Mas, tornar-se discípulo de Cristo significa preferi-lo a tudo: “Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26). E no evangelho de hoje, o Cristo de Lucas diz a quem quer segui-lo: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9, 58). Isso não quer dizer que não podemos possuir nada, mas que devemos ser livres em relação às nossas posses, de sorte que possamos livremente partilhá-las com os outros.

3. A urgência da missão

Ao ler o versículo assim como nos é apresentado – “Jesus disse a outro: ‘Siga-me’. Esse respondeu: ‘Deixa primeiro que eu vá sepultar meu pai’” (Lc 9, 59) –, podemos ter a impressão de que se trata aqui de um prazo muito curto, o tempo de participar do funeral do pai que acabou de morrer. Caso fosse isso, a resposta de Jesus seria muito drástica: “Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos” (Lc 5, 60). Portanto, precisamos aqui compreender que o homem pede antes a Jesus: que ele lhe dê tempo para viver com seu pai até sua morte! Mas o tempo da missão urge, e é agora que é preciso se comprometer. Comprometer-se a seguir Jesus é deixar o mundo dos mortos e entrar na vida agora. Se não nos preocuparmos com a vida futura, já estamos do lado da morte, e isso é contrário à fé cristã e à missão que nos foi confiada.

4. Olhar para frente

Seguir Cristo, responder ao seu chamado, não é viver na nostalgia do passado: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa primeiro que eu vá me despedir do pessoal de minha família” (Lc 9, 61), é olhar para frente, é construir o futuro: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus” (Lc 9, 62). Na Igreja, quando nos apoiamos exclusivamente na tradição, no passado, sobre aqueles e aquelas que nos precederam, recusamo-nos a tomar novos caminhos, explorar novos desafios e arriscar o futuro; de que sorte que se torna impossível construir o Reino, demasiado ocupados que estamos em salvaguardar um passado que desapareceu, maneiras de fazer e maneiras de viver que não correspondem mais às realidades das mulheres e dos homens do nosso tempo. Queremos pôr a mão no arado, mas puxar para trás, em vez de seguir para frente.

O exegeta francês Jean-Paul Berlocher escreve: “Em síntese, pegar firme no arado e olhar reto para frente, para o sulco a ser feito, este é o ideal daquele que segue seu Senhor. Cada dia o cristão é convidado a relativizar suas seguranças, a hierarquizar seus deveres e seus afetos em vista de um melhor serviço do Reino de Deus”. Basicamente, é o futuro que devemos preparar. Se Cristo está vivo, ele o é, atualmente, nas mulheres e homens de hoje. Não podemos mudar o passado; só podemos construir o futuro a partir do que somos hoje. E como o futuro resta a ser feito, na estrada da vida, vamos depressa! Não é hora de recuar! É hora de seguir em frente e depressa! Mas o que apressa tanto?

O teólogo francês Gérard Bessière escreve, e termino com isso: “Eles são lançados para frente. Como se o fogo os perseguisse no caminho empoeirado. Não há forma de parar. Velhas brigas com os samaritanos? Passemos. Chamar um raio sobre eles? Jesus grita contra seus discípulos que não compreenderam nada: violência e vingança não existem mais no mundo novo em direção ao qual eles se apressaram. Devemos soltar as amarras para o desconhecido. Onde dormiremos esta noite? As raposas e os pássaros têm suas tocas e seus ninhos. O Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça. Não há mais aldeia, casa, posse: deixamos tudo. Vivemos no futuro. Resta a família? Nem essa. Enterrar o pai, depositar na terra sua última raiz, tornar o dever mais sagrado? Jesus responde: deixa que os mortos enterrem seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino. Ir, ao menos, despedir-se da família? Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus. Para onde vão com tanta pressa? Para Jerusalém. Para a Sexta-feira Santa”.

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