António Marujo | 7 Jun 2022
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Mudanças à vista no Vaticano, rumores – até agora infundados – sobre a saúde e eventual renúncia do Papa. Nos últimos dias, a convocatória de um consistório para a nomeação de novos cardeais, seguido de uma reunião do Colégio Cardinalício, a entrada em vigor da nova Constituição da Cúria Romana e o facto de o Papa continuar a trabalhar e mover-se em cadeira de rodas fizeram aumentar os comentários sobre a sua eventual resignação, bem como sobre a dança de nomes que se prepara no Vaticano.

Uma das mudanças implica o cardeal português José Tolentino Mendonça, dado como certo como futuro responsável do novo Dicastério para a Cultura e a Educação, que reúne as competências até agora atribuídas à Congregação para a Educação Católica e para o Conselho Pontifício para a Cultura.

Em ambos os casos, os responsáveis destes dois organismos estão à beira dos 80 anos: na Cultura, o cardeal Gianfranco Ravasi completa essa idade (limite para votação num eventual conclave) no próximo mês de Outubro; na Educação, o cardeal Giuseppe Versaldi fará 79 anos em 30 de Julho próximo.

A nomeação do cardeal Tolentino pode acontecer ainda antes do consistório e da reunião dos cardeais, previstos para final de Agosto. Neste novo lugar, o actual arquivista e bibliotecário da Santa Sé passará a ter responsabilidades sobre a rede escolar católica do mundo inteiro, que inclui 1 360 universidades católicas e 487 universidades e faculdades eclesiásticas com 11 milhões de alunos e outras 217 mil escolas com 62 milhões de crianças. No outro “pelouro”, Tolentino Mendonça coordenará também o diálogo da Igreja universal com o mundo da cultura – não só a literatura ou as artes e o património, como também o desporto, a ciência e a Inteligência Artificial, como recorda o semanário católico inglês The Tablet.

Poeta, teólogo e biblista, o cardeal Tolentino, com 56 anos, juntaria nesse cargo vários aspectos do trabalho que já fez em Portugal: foi ele o criador do Secretariado da Pastoral da Cultura, foi capelão e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), foi ele que colocou a Igreja a reconhecer o trabalho de várias personalidades que, embora na órbita católica, não eram valorizadas pela instituição: o cineasta Manoel de Oliveira, o actor e encenador Luís Miguel Cintra, a artista Lourdes Castro, o padre e cientista Luís Archer, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, a classicista Maria Helena Rocha Pereira e o poeta Fernando Echevarría.

No texto que o The Tablet dedica ao tema, refere-se que tendo em conta que a maior parte das escolas católicas é dirigida por leigos, muitos deles mulheres, “não há razão para que o novo prefeito tenha de ser um clérigo”. Na Constituição Praedicate Evangelium, que regula o funcionamento da Cúria Romana, essa possibilidade está prevista e o semanário inglês diz que uma candidata potencial a dirigir o novo dicastério poderia também ser a actual reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil, 56 anos, a primeira mulher a ser eleita presidente da Federação Internacional das Universidades Católicas. Professora de estudos culturais com uma especialização em diversidade e conflito, a reitora tem a seu favor também o facto de ter publicado já em várias línguas e ter estudado na Alemanha e nos Estados Unidos.

O Tablet apresenta, no entanto, outros cadndidatos: Linda LeMura, presidente do LeMoyne College dos jesuítas em Syracuse (Nova Iorque, EUA), desde 2014, filha de imigrantes italianos, com 62 anos; Emilio Marin, 71 anos, especialista em Relações Internacionais na Universidade Católica da Croácia, e membro do Institut de France; ou ainda Francis Campbell, 52 anos, vice-chanceler da Universidade de Notre Dame (Austrália), diplomata que trabalhou com o antigo primeiro-ministro Tony Blair. Estes dois últimos foram também embaixadores dos seus países na Santa Sé e conhecem o Vaticano.

De qualquer modo, vários observadores consultados pelo 7MARGENS coincidem na análise de que o lugar estará talhado para o cardeal Tolentino: foi Ravasi, também biblista, que chamou Tolentino para integrar o grupo de consultores do até agora Conselho Pontifício para a Cultura, e foi também o cardeal italiano que o sugeriu como nome para fazer o retiro quaresmal do Papa e da Cúria em 2018.

Renúncia do Papa? “Pouca substância”

Como Papa se tem deslocado de cadeira de rodas, crescem rumores sobre eventual renúncia. Nos últimos dias, cresceram, entretanto, os rumores na imprensa italiana sobre uma eventual renúncia do Papa. De acordo com uma síntese feita pela Associated Press a partir do que os jornais italianos publicaram, e que foi também reproduzida em alguns meios de comunicação portugueses, estaria em causa o facto de o Papa ir a L’Aquila presidir a uma missa, em 28 de Agosto, entre o consistório e a reunião dos cardeais.

A celebração que Francisco irá presidir foi iniciada pelo Papa Celestino V, o primeiro a renunciar, e Bento XVI também o fez – com a diferença que isso aconteceu em 2009, quatro anos antes de o actual emérito renunciar. O facto de o consistório e a reunião dos cardeais decorrerem ainda em Agosto é visto também por vários jornais como um sinal dessa eventual renúncia.

Nada mais absurdo, considera o historiador Christopher Bellitto, para quem Francisco pode renunciar, mas não antes de Bento XVI morrer: “Ele não vai permitir que existam dois ex-papas por aí”, afirmou à Associated Press.

O cardeal Rodriguez Maradiaga, coordenador do conselho de cardeais criado pelo Papa, classificava estas sugestões como “ilusões de óptica, ilusões cerebrais”, em declarações ao Religión Digital.

Num comentário publicado no Il Sismografo, o jornalista Luis Badilla considera que estes comentários traduzem “poucos conteúdos reais” e “pouca substância”. De momento, diz, não parece existir “uma única razão para pensar na renúncia do Papa Francisco”.

Badilla admite que a renúncia é uma possibilidade teórica, “em particular por motivos de saúde, mas de momento é algo completamente inexistente”. “Não basta ser obrigado a usar uma cadeira de rodas para antecipar uma renúncia do Papa”, diz o texto, reproduzido em português pelo serviço de informação da Unisinos.

Badilla acrescenta o ridículo de alguns argumentos: “É demasiado fantasioso, quase engraçado, pensar que o Papa chama todos os seus cardeais ao Vaticano para um consistório de grande relevância, mas que então – enquanto os cardeais trocam pontos de vista no Vaticano – vai anunciar a sua renúncia em L’Aquila.”