Comboni – MCCJ

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Estamos na véspera da abertura do nosso Capítulo Geral, um acontecimento importante na vida do Instituto. É um momento de avaliação, discernimento e tomada de decisões para os anos vindouros. Após a fase de preparação e partilha em que todos estivemos envolvidos, de uma forma ou de outra, os nossos olhos estão agora virados para os irmãos que escolhemos como nossos representantes. Acompanhamo-los com a nossa confiança e a nossa oração, para que esta assembleia possa ser um verdadeiro “cenáculo de apóstolos”, onde a escuta mútua e a abertura à voz do Espírito possam criar as condições ideais para abrir as portas à Novidade de Deus.

Vamos observar, rezar e formulamos os nossos desejos e votos! O contexto do mundo e da igreja é particularmente desafiante, com as suas nuvens ameaçadoras e flashes de luz. Não é tempo para um optimismo fácil, do “tudo acabará bem”, nem para o pessimismo catastrófico, mas uma oportunidade para renovar a confiança no Senhor que navega connosco no mesmo barco.

O quadro em que este nosso Capítulo tem lugar parece-me particularmente significativo: abre a 1 de Junho, aniversário da fundação do Instituto, continua com Pentecostes, e avança para a festa do Coração de Jesus. Estes três aniversários sugerem-me três auspícios para o nosso Capítulo. O primeiro sobre a missão do Instituto hoje; o segundo sobre a nossa fraternidade à luz do Cenáculo de Pentecostes; o terceiro sobre a nossa espiritualidade comboniana do Coração de Cristo. Três ícones ilustrarão a minha reflexão.  

1. EVANGELIZAÇÃO – Relançando o Duc in altum, renovando a ousadia de fazer-se ao largo.

Duc in altum! (Lc 5,4) foi o lema e o ícone proposto pela Igreja para o terceiro milénio: “Duc in altum! Esta palavra ressoa para nós hoje, e convida-nos a fazer memória agradecida do passado, a viver o presente com paixão, a abrir-nos com confiança ao futuro” (JP II, Novo millennio ineunte, n.1). A Carta concluiu com este convite repetido ao Duc in altum: “Avancemos com esperança! Um novo milénio abre-se perante a Igreja como um vasto oceano para se aventurar” (n. 58). Certamente, ninguém poderia ter previsto o tsunami do terrorismo, que alguns meses mais tarde perturbaria a ordem da coexistência internacional, quanto mais o tsunami dos abusos, que ainda abala seriamente a credibilidade da Igreja. 

Os nossos Capítulos de 1997 e 2003, na viragem do milénio e entre a beatificação e canonização de Comboni, também respiravam este “sentimento de entusiasmo” (cf. Carta do CG apresentando os AC 1997), que levou a “olhar para o futuro com optimismo” (AC 2003, nº 1). O declínio numérico do Instituto que começaria pouco depois contribuiu para arrefecer um pouco esse optimismo e entusiasmo.

Hoje estamos a viver momentos, a nível global e eclesial, que podem abalar ainda mais a nossa confiança, fazendo-nos retrair. Duc in altum, com mares tempestuosos, pode parecer-nos uma utopia, e pode incitar à “prudência” de nos limitarmos a pescar em águas pouco profundas e mais calmas (ou seja, o nosso status quo).

O Papa Francisco salientou, em várias ocasiões, que “hoje não estamos a viver numa era de mudança, mas numa mudança de época”. A nebulosidade dos contornos desta mudança epocal e as incertezas resultantes para o futuro podem levar-nos à tentação de nos limitarmos a “lavar” (Lucas 5:2) ou “reparar” (Marcos 1:19) as redes (da Regra de Vida, Ministerialidade, Economia e Formação), à espera de tempos melhores para nos atrevermos a outra coisa.

Além da “terceira guerra mundial em pedaços” (que agora corre o risco de se tornar global!), com graves repercussões no Sul do mundo, especialmente em África, gostaria de salientar a gravidade da pandemia, não tanto por causa da emergência sanitária, mas especialmente pela (inesperada?!) aceleração do processo de secularização no mundo ocidental (o fenómeno das “igrejas vazias”). Alguns analistas falam de uma aceleração de dez anos. Muitos pastores da Igreja ainda esperam (quase certamente iludindo-se!) que, uma vez passada a emergência pandémica, regressemos à normalidade anterior. Se o fenómeno diz respeito principalmente ao mundo ocidental, não é certo que mais cedo ou mais tarde não terá repercussões graves também no Sul. O que isto significa é que uma profunda mudança de mentalidade, de abordagem da vida eclesial e do método de evangelização, é exigida na Igreja. Creio que o actual processo sinodal, que procura introduzir o princípio da sinodalidade na Igreja (“o que a todos diz respeito deve por todos ser discutido e deliberado”), é uma tentativa de responder à necessidade urgente de procurar uma evangelização verdadeiramente “nova”, não só nas igrejas antigas de tradição cristã, mas globalmente, nesta mudança epocal sem precedentes a que estamos a assistir. Quantos de nós tomámos consciência da extensão desta mudança eclesial em curso (que ouso dizer que é copérnicana)? Em que medida é que a levámos a sério e estamos dispostos a deixar-nos envolver neste processo?

Penso que, a fim de repensar a nossa evangelização, precisamos de um golpe de asa decisivo para nos sintonizarmos com o novo vento que o Espírito quer transmitir à sua Igreja e ousadamente relançá-lo no Duc in altum.

Concretamente para nós combonianos, na minha opinião, este Duc in altum dirigido ao nosso Instituto exige que nos ocupemos de certas necessidades urgentes. Destacarei quatro delas:

– Não deixar de procurar novas formas de empenho missionário, na evangelização e animação, com criatividade e com uma audácia humilde mas teimosa, aceitando mesmo o fracasso. Isto implica estruturas mais simples e mais provisórias (as Combonianas poderiam ser um exemplo para nós neste caso!). A leitura do livro dos Actos dos Apóstolos que a liturgia nos oferece para a época pascal é particularmente esclarecedora: o Espírito fecha-nos portas, mas abre-nos outras, que somos chamados a discernir. Podemos correr o risco de sacrificar as novas forças em função da sobrevivência de estruturas antigas que tiveram o seu dia, preocupados mais em reabrir portas que se fecham do que em procurar novas portas que se abrem!

– Ter cuidado com o perigo da “paroquialização” da nossa presença, o que comprometeria a fidelidade ao nosso carisma missionário específico. Pode ser uma tentação sedutora, nestes tempos de incerteza sobre o nosso papel numa Igreja em mudança. Mas onde está o nosso profetismo carismático, se no final operamos como qualquer outra paróquia diocesana? Uma paróquia comboniana só se justificaria em função de um objectivo missionário muito preciso e com uma abordagem comboniana específica. Fazer o que todos os outros fazem seria trair o nosso carisma e as expectativas da Igreja!

– Lutar contra o clericalismo, ainda muito presente em certas áreas do Instituto, tanto na mentalidade como na abordagem do trabalho missionário. O Papa nunca se cansa de repetir que o clericalismo é um obstáculo no caminho da Igreja e a matriz de tantos vícios que obscurecem o nosso testemunho!

– Sensibilizar e preparar os confrades para as questões de JPIC, que têm um peso cada vez mais preponderante no serviço e testemunho missionário. Creio que estamos muito despreparados nesta área!

2. COMUNIDADE CENÁCULO – Repensando a FRATERNIDADE

Ícone – o Cenáculo de Pentecostes: “Quando entraram na cidade, subiram para a sala do andar superior onde se costumavam reunir… Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com algumas mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e os seus irmãos” (cf. Actos 1,13-14).

A expressão “cenáculo de apóstolos” parece cara a Comboni. Encontramo-la seis vezes nos Escritos, se não me engano (2027, 2622, 2648, 4088, 4119, 4763). Em duas delas refere-se ao nosso Instituto como “um novo cenáculo de Apóstolos africanos” (2622) e “como um pequeno Cenáculo de Apóstolos para África” (2648). 

Há muito que usamos esta expressão como uma espécie de ícone para a nossa vida comunitária. Sem dúvida que tem sido e continua a ser um forte apelo inspirador para a comunidade comboniana. Parece-me, no entanto, que devemos resgatar esta expressão da utilização demasiado estreita, e mesmo um pouco intimista, em que por vezes está confinada. Devemos trazê-la de volta ao seu sentido original, a do Cenáculo de Pentecostes. Ali encontramos uma comunidade bastante ampla, uma comunidade apostólica onde, para além dos apóstolos, há mulheres, incluindo a Mãe de Jesus, e a sua família e amigos. Lucas fala mesmo de cento e vinte pessoas (Actos 1,15). O Cenáculo não é um quarto ou uma sala de estar para uns poucos íntimos, mas sim o lugar de uma comunidade alargada.

Onde quero chegar? Parece-me que chegou o momento de tornar as nossas comunidades mais abertas e inclusivas, abrindo-as à totalidade da riqueza e variedade do carisma comboniano, partilhado com as Combonianas, Seculares, LMCs e amigos. Desde há cerca de cinquenta anos, as Combonianas têm tomado, e com razão, o seu próprio caminho de autonomia, como tantos outros institutos femininos muitas vezes demasiado dependentes do ramo masculino, o que os impediu de expressar a sua originalidade e riqueza. Agora que atingimos esse objectivo, não deveríamos repensar a nossa colaboração apostólica? Claro que a amizade, comunhão e colaboração nunca faltaram, mas creio que Comboni ficaria muito feliz se esta comunhão carismática se desenvolvesse. Muitas vezes os contactos são limitados ao nível dos Conselhos, a algumas iniciativas esporádicas ou à amizade entre indivíduos. 

A relação com as Seculares parece ainda mais fraca. Quantos de nós estão mesmo remotamente conscientes da sua vida e das suas escolhas missionárias? Quanto aos LMC, penso que todos nós assistimos a ao seu nascimento com alegria. Mas com o passar do tempo, cresce em mim uma certa perplexidade acerca do caminho que estamos a tomar. Talvez a minha seja ignorância ou exagero, mas parece-me que a nossa orientação geral é que cada um siga o seu próprio caminho. Todos irmãos e irmãs, em bom companheirismo e cooperação, mas cada um em sua casa! Pessoalmente acredito que uma maior partilha do carisma deve ser perseguida a nível da Família Comboniana. Alguma coisa foi tentada em Limone. Eu iria mais longe: não poderíamos dar um passo em frente de uma simples (e esporádica) CO-LABORAÇÃO para algum novo modo de CON-VIVÊNCIA?

O nosso Capítulo de 1991 tinha convidado as províncias a procurar “novas formas de vida comunitária” (AC 32.2). O resultado foi decepcionante, apesar do empenho do GC na altura, devido à resistência. Seria hoje uma pura utopia prever experiências de vida comunitária e de trabalho partilhado a nível da Família Comboniana?

3. ESPIRITUALIDADE – Cultivando a INTERIORIDADE

Ícone – O quarto do profeta Eliseu: “Preparemos para ele um pequeno quarto lá em cima, feito de alvenaria, coloquemos uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro, para que quando ele vier até nós, se possa retirar ali” (cf. 2 Reis 4,8-10).

Estou realmente a demorar demasiado, por isso vou tentar limitar-me agora a algumas pistas e a um sublinhado.

Acho este ícone bíblico (convido-vos a ler o texto!) particularmente revelador. Para o golpe de asa para o qual o Espírito nos convida, precisamos do Cenáculo da comunidade (na cidade, “na sala do andar superior”). Mas, a nível pessoal, cada um de nós também precisa do “pequeno quarto lá em cima” do Profeta, “em alvenaria”, ou seja, sólido e estável, onde possamos cultivar a interioridade a que nos convida a espiritualidade do Coração de Jesus. A sobriedade e a essencialidade devem aí prevalecer: uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro. A cama recorda-nos a necessidade de um equilíbrio saudável entre o trabalho e o descanso; a mesa e a cadeira, a reflexão e o estudo; a lâmpada, a meditação da Palavra, “uma lâmpada para os nossos passos” (Salmo 119,105). 

Gostaria de me deter um pouco na reflexão e no estudo, o que nos leva, em primeiro lugar, à formação permanente. O Instituto está a fazer um grande e louvável esforço para organizar cursos, mas parece-me que não conseguimos criar hábitos pessoais de formação permanente. Além disso, no que diz respeito ao estudo, atrever-me-ia a dizer que embora tenhamos conseguido uma rotação no serviço da autoridade nas províncias jovens, o mesmo não se pode dizer da preparação cultural dos nossos jovens irmãos. Os actuais desafios da sociedade e da missão exigem uma maior especialização no nosso serviço, incluindo qualificações académicas, particularmente em matérias que se relacionam com a nossa especificidade carismática. Cursos mais ou menos breves de preparação imediata para um serviço específico, embora úteis e necessários, parecem-me insuficientes. É alarmante que o tempo esteja a retirar as figuras que têm sido um ponto de referência, provocação e estímulo à reflexão e sensibilização missionária, tanto dentro do Instituto como na nossa presença na Igreja e na sociedade, sem que surjam outras novas. Parece-me que nos estamos a empobrecer culturalmente. 

Apesar das constantes emergências que o Instituto e as províncias têm de enfrentar, é necessário identificar, já na fase conclusiva da formação de base, aqueles irmãos que, devido às suas capacidades e talentos particulares, apoiados por uma boa solidez vocacional, poderiam ser orientados para estudos de especialização. Não se trata de criar uma “elite”, muito menos de encorajar o carreirismo, mas de promover um serviço valioso que requer abnegação e sacrifício. Isto não pode ser realizado quando já se tem a idade de quarenta anos. Creio, portanto, que o actual processo de formação orientado para o período de “serviço missionário” deve ser personalizado, tendo em vista certos serviços para a missão do Instituto.

Peço desculpa pela duração da minha reflexão e concluo com uma proposta de oração para este tempo de Capítulo: acrescentar um sexto mistério à recitação pessoal do rosário, meditando sobre a descida do Espírito Santo sobre a Igreja no Cenáculo. Que a presença de Maria obtenha para nós a graça da descida do Espírito no nosso “Cenáculo do Capítulo”!

P. Manuel João Pereira Correia
Castel d’Azzano, 31 de Maio de 2022
Festa da Visitação da Virgem Maria