Guerra na Ucrânia, fome no mundo
MARGARIDA SANTOS LOPES
Revista Além-Mar Maio 2022

Ao interromper a cadeia de abastecimento de cereais e fertilizantes para a agricultura, a invasão russa na Ucrânia está a criar uma crise alimentar global que afectará centenas de milhões de pessoas, sobretudo nos países mais pobres. Teme-se uma explosão de conflitos sociais.

No Norte da Ucrânia, o agricultor Grigoriy Tkachenko recusou-se a abandonar a aldeia de Lukashivka, nas proximidades da cidade de Chernihiv, para poder sustentar a família e alimentar os soldados que defendem a pátria. Mas a sua quinta foi destruída por bombas dos invasores russos e agora ele está desesperado, porque «quase nada resta». 

Na Somália, sem pão e sem água, Suray teve de sair de casa numa busca desesperada para salvar os sete filhos. Caminharam durante duas semanas para chegar a Baidoa, capital do Estado do Sudoeste. Nenhuma das crianças sobreviveu, nem o bebé que ela amamentava. Para as sepultar, aldeões ajudaram a mãe a cavar uma campa rasa numa terra estéril depois da seca mais grave das últimas quatro décadas. «Perdi-me na minha dor», disse ela. 

As histórias de Tkachenko e de Suray, contadas pelo jornal The New York Times e pela organização World Vision, respectivamente, são alguns dos dramas humanos exacerbados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, os dois maiores «celeiros do mundo». 

O Programa Alimentar Mundial (PAM) admitiu que cortou as rações diárias a 3,8 milhões de pessoas no Iémen, no Chade e no Níger, para poder atender às necessidades de outros 3 milhões na Ucrânia e países vizinhos. «Estamos a tirar a comida aos esfomeados para dar aos famintos», lamentou David Beasley, o director executivo desta agência das Nações Unidas, que nunca precisou de fazer isto em sessenta anos de existência. 

A Ucrânia e a Rússia são os motores que alimentam o mundo. A invasão coincidiu com o início da estação de plantio, transformando desde logo mais de 30% dos férteis terrenos agrícolas ucranianos em zonas de guerra, segundo a ONU. Depois, foram encerrados os portos do mar Negro, impedindo as exportações. Seguiu-se novo aumento dos elevadíssimos preços do petróleo, encarecendo a compra e distribuição de produtos básicos, deixando em situação de catástrofe os Estados mais pobres e vulneráveis em África, no Médio Oriente e na Ásia, já assolados pela tempestade perfeita de conflito, clima e covid-19. 

Desde o dia 14 de Fevereiro que aviões e carros de combate, mísseis e mercenários russos reduzem a escombros cidades e lugarejos, casas, escolas, hospitais e outros edifícios. Mas a destruição que, segundo a ONU, poderá causar «a maior crise alimentar global desde a Segunda Guerra Mundial» é a dos campos agrícolas, que cobrem 70% da superfície do segundo maior país da Europa. 

Com 32 milhões de hectares de terras aráveis, a Ucrânia assegura metade das exportações mundiais de sementes e derivados de girassol para a União Europeia, e é um dos maiores exportadores de trigo e milho. Nos anos 1930, era Odessa e não Chicago o centro de comércio internacional de cereais. Explica o Banco Mundial que esta riqueza, suplementada por uma vantajosa localização geográfica (proximidade com a Rússia e a UE, serventia de portos de águas profundas, acesso aos maiores compradores de cereais no Médio Oriente e no Norte de África) deve-se ao seu solo negro, chernozem, altamente rico numa matéria orgânica chamada húmus, que oferece condições excepcionais à produção de vastas culturas, especialmente cereais (14,8 milhões de hectares em 2020) e oleaginosas (10 milhões). 

Em consequência da guerra, pelo menos 20% das colheitas de Abril estão perdidas, informou o primeiro-ministro. Embora muitos agricultores tivessem lançado sementes à terra e o Governo os tenha isentado do serviço militar e da defesa territorial, a realidade é que muitos deixaram os campos que cultivavam, ou os camiões e comboios de mercadorias que conduziam, para combater nas linhas da frente. Além disso, as forças russas têm minado muitas propriedades, destruído maquinaria, silos de armazenagem e depósitos de combustível, o que dificulta ainda mais a recuperação. 

Algumas das principais áreas de produção de cereais situam-se nas regiões de Donetsk e Luhansk, no Leste da Ucrânia, para onde a Rússia, que ali apoia grupos separatistas, está a encaminhar as suas tropas depois de ter sido incapaz de conquistar Kiev, a capital. No entanto, mesmo que parasse agora a guerra – que em menos de dois meses causou 4,3 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos –, faltaria tempo para retomar as exportações, não apenas de cereais, mas também de fertilizantes (a Rússia é o maior produtor mundial). 

O preço do trigo, que já havia aumentado 80% entre Abril de 2020 e Dezembro de 2021, deverá continuar a subir se as operações militares não cessarem e os portos e caminhos-de-ferro forem danificados, disse ao New York Times David Laborde, investigador no International Food Policy Research Institute, em Washing- Comprometidas as próximas colheitas, dentro de quatro meses, «a situação ficará mesmo sombria, porque os países que dependem do trigo da Rússia [o maior produtor, com 76 milhões de toneladas em 2021, das quais 35 milhões para exportar] e da Ucrânia serão duramente atingidos.»

Crise sem precedentes 

Quase 283 milhões de pessoas enfrentam actualmente insegurança alimentar aguda ou estão em risco elevado, e 45 milhões estão «à beira da fome», avisa o PAM, salientando que estes números poderão duplicar devido à guerra entre os que lhe fornecem 50% do trigo com que alimenta mais de 115 milhões de bocas em 117 países e territórios. 

«As pessoas vão reagir se não conseguirem pagar a comida, matar a fome», prevê, em declarações à revista Foreign Policy, Catherine Bertini, investigadora no Chicago Council e ex-directora do PAM, recordando as sublevações populares que, em 2011, ajudaram a derrubar regimes ditatoriais no Egipto e na Tunísia. No Sudão, por exemplo, milhares de pessoas têm vindo para a rua, sem medo de balas e gás lacrimogéneo, para protestar contra um aumento de 80% do trigo proveniente da Rússia e da Ucrânia. No Iraque, centenas de agricultores revoltaram-se contra a subida dos preços dos fertilizantes. 

Arif Husain, economista-chefe e director de investigação no Programa Alimentar Mundial da ONU, não tem dúvidas de que a crise que hoje se vive é muito pior do que as de 2006-2008 (quando os preços médios do milho, arroz e trigo aumentaram, respectivamente, 70%, 180% e 120%, empurrando para a pobreza 105 milhões de pessoas) e de 2010-2012 (que afectou 40-44 milhões de pessoas). «É pior porque agora temos uma guerra no Iémen, uma guerra na Síria, uma guerra na Etiópia, uma guerra no Norte da Nigéria, uma guerra no Afeganistão…» 

«Se pensam que o inferno chegou à Terra, é melhor prepararem-se», avisou David Beasley, o director executivo do PAM, em entrevista ao site Politico. «Se negligenciarmos o Norte de África, o Norte de África virá até à Europa; se negligenciarmos o Médio Oriente, o Médio Oriente virá até à Europa», em vagas migratórias. E as condições económicas não se degradaram apenas naquelas regiões [ver páginas 22-23]. 

«Em Paris, Chicago ou Bruxelas, o que pensam que vai acontecer se não houver comida suficiente? É fácil sentarem-se na vossa torre de marfim, quando não sois vós a passar fome», criticou Beasley, após uma reunião na Bélgica, onde foi pedir um aumento das contribuições para que o PAM, galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2020, possa ajudar os que mais necessitam.

Entre comer mal e ter fome 

A solução imediata, reconhece Arif Husain, é monetária. Porque, embora ainda se produzam alimentos em quantidade suficiente para alimentar o mundo, o grande problema continua a ser o preço e o acesso numa cadeia de abastecimento global a que faltam resiliência e soberania. 

Vejamos: embora o consumo tenha acelerado muito nas últimas décadas, porque com o crescimento demográfico aumenta a procura, o comércio internacional de cereais representa apenas uma pequena parte da produção, explica o economista e engenheiro alimentar Bruno Parmentier no site Futura Planète. A maioria dos cereais é consumida pelos países que os produzem. «Em 2020, por exemplo, só 119 milhões das 761 milhões de toneladas produzidas atravessaram fronteiras.» 

Os países que produzem mais do que consomem são poucos; para o trigo, sobretudo Rússia, Estados Unidos, Canadá, Ucrânia, França, Austrália e Argentina; para o arroz, Índia, Paquistão, Vietname, Tailândia e EUA: para o milho, EUA, Brasil, Argentina e Ucrânia. 

«Infelizmente, os países estruturalmente importadores são mais numerosos do que os exportadores», anota Parmentier. «Não têm superfícies agrícolas e recursos naturais, e a situação agrava-se de ano para ano porque aumentam as populações, mas a área de terras cultiváveis ou a disponibilidade em água não cessam de diminuir.» 

Estados industrializados como a Suíça, o Japão ou a Coreia do Sul podem ser incapazes de se alimentar sozinhos, mas não terão problemas em comprar – a qualquer preço – os produtos de que necessitam, adianta Parmentier. «Não é o que acontece com o Egipto – o maior importador mundial de trigo (12 milhões de toneladas em média) – que tem de alimentar 102 milhões de habitantes num deserto, e onde o único vale cultivável é o do Nilo, representando apenas 4% da superfície do país.» Também não é o caso do Bangladesh, «cuja população deverá aumentar de 165 milhões para mais de 200 milhões em 2050 (com 1400 habitantes por km2, será o mais densamente povoado do mundo), onde a subida das águas, resultante das alterações climáticas, irá amputar-lhe um terço da sua actual superfície». 

A guerra é igualmente um obstáculo «em países onde os homens são soldados e as mulheres refugiadas, os campos são abandonados», realça Parmentier. «Mas também é pouco provável que tenham acesso a sementes seleccionadas, fertilizantes, pesticidas, tractores e debulhadeiras ou combustível para os pôr em marcha. E se, por milagre, conseguirem fazer as colheitas, os seus sistemas de armazenamento, transporte e venda não serão os mais eficazes.» 

A guerra na Ucrânia ameaça «os verdadeiros pobres do planeta, aqueles cuja ração diária de cereais é sempre a mesma: ou arroz, ou milho ou mandioca», conclui Parmentier. «São eles os mais sensíveis ao aumento dos preços, porque, para eles, é a diferença entre comer mal e ter fome.» 

Se os apoios que as agências da ONU imploram não chegarem, o secretário-geral, António Guterres, prevê «um tsunami de fome e o colapso do sistema alimentar global».