Formação Permanente – Português 2022
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LEITURA ORANTE DA BÍBLIA
ENCONTRO COM A PALAVRA

Fazer arder o coração (Lc 24,32)

APRESENTAÇÃO

Estão reunidos aqui alguns temas sobre a Leitura Orante da Bíblia. A Leitura Orante (Lectio Divina) tem que ser o eixo da nossa espiritualidade. Dirigido a todas as pessoas – leigos, leigas, religiosos, religiosas, agentes de pastoral –, o assunto é bastante amplo. A Palavra de Deus é como o arroz e feijão de todos os dias. Não há diferença entre o arroz que se come em nossa casa e na casa do nosso vizinho. É o alimento de todos para todos os dias. A diferença está somente no tempero!

A grande novidade eclesial acontecida nos últimos anos do milênio recém findo foi o reencontro das comunidades com a Palavra de Deus. É difícil explicar como foi que tudo aconteceu. De repente, desde os anos sessenta, cresceu o interesse de todas as pessoas nas comunidades pela Bíblia, como nunca antes em toda a história da América Latina. Realmente, o povo das nossas Comunidades está usando a Bíblia para tudo, ou quase tudo! Esta presença tão forte da Bíblia na vida das comunidades revela que ela é como luz que faz enxergar melhor a vida, é como força que faz agir melhor e é como autoridade que faz decidir melhor.

Na Leitura Orante da Bíblia, apesar das diferenças próprias de cada comunidade, existe um método, cujas características básicas são comuns a todos, o qual podemos aprender. Um método é muito mais do que só umas técnicas e dinâmicas. É uma atitude que se toma frente ao texto da Bíblia e frente à própria vida. Este método é muito simples: 1. Vamos ler a Bíblia a partir da nossa luta e da nossa realidade; 2. Esta leitura, antes de tudo, é uma leitura comunitária, uma prática orante, um ato de fé; 3. Esta leitura deve ser obediente, isto é, respeitando o texto e se colocando à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele assim o exigir.

A Leitura Orante não é apenas um exercício de leitura que retoma ou reinterpreta algumas palavras do passado, mas tem a ver com o próprio processo de crescimento e libertação de um povo e com a sua caminhada através da história. A Leitura Orante ajuda a realizar a obrigação que temos de captar e experimentar a novidade de Deus presente na história humana, verbalizá-la e transformá-la em Boa-Nova para o povo e, por último, encarná-la e expressá-la em novas formas de vida de tal maneira que, por meio dela, o povo possa perceber, novamente, o seu alcance para a vida e despertar para a sua missão.

A Leitura Orante da Bíblia é, assim, como a velha árvore do fundo do quintal que nunca envelhece, pois, todo ano, fornece frutos novos! Nova experiência de Deus, nova leitura do passado, nova consciência da realidade: são os três pólos, inseparavelmente unidos entre si, que geraram e continuam gerando a (re)-leitura das palavras sagradas que nos vêm do passado. É isto o que nos propomos nas páginas seguintes: vivência comunitária, onde se experimenta Deus de maneira nova, fidelidade ao texto bíblico que representa a tradição e o passado, e atenção aos problemas da realidade. E é isto o que desejamos. (LEC)

I. AS VÁRIAS MANEIRAS DE SE OLHAR E LER A BÍBLIA

O que está na Bíblia não está só na Bíblia. Está também na vida de todos os que procuram viver na fidelidade à Palavra. Abrindo a Bíblia nós não abrimos um livro estranho, mas sim um livro que fala de nós mesmos, de nossa vida, da nossa caminhada e da nossa luta. Na Leitura Orante da Bíblia, vamos olhar para o que é nosso, “escrito para nós” (1Cor 10,11). Vamos descobrir, com a ajuda da Bíblia, que a Palavra de Deus está na nossa vida, na nossa história, na história de nosso povo.

Olhando de longe, a Bíblia parece uma parede imensa, onde cada tijolo contribui a seu modo para fazer aparecer o desenho do projeto de Deus. Apesar de enorme, feito de muitos tijolos, de muitos textos e livros, o desenho tem uma grande unidade. De ponta a ponta, transparecem nele os traços de um rosto. É o rosto do próprio Deus com os traços humanos de Jesus Cristo. É Jesus que, de maneira discreta, dá unidade a todas as partes da Bíblia.

Olhando mais de perto, nós percebemos o que de longe não aparece.

Cada tijolo é diferente do outro no tamanho, na forma, no peso, no valor, na época e no material de fabricação. Cada livro da Bíblia é diferente do outro no gênero literário, na língua, no autor ou autora, no assunto, na época e lugar em que foi escrito, no objetivo, no destinatário, na mensagem. Do ponto de vista literário, a Bíblia tem uma variedade imensa. E a gente se admira ao ver como uma variedade tão grande consegue construir uma unidade tão forte e tão bonita.

Olhando bem de perto, nós percebemos o incrível: cada tijolo, além de contribuir para o grande desenho do Projeto de Deus, tem o seu próprio desenho: e o desenho pequeno de cada tijolo nem sempre combina com o grande desenho do Projeto de Deus. Os tijolos falam de outras lutas e outras histórias; revelam conflitos e situações que não aparecem no grande desenho. Parece uma confusão muito grande. Maior, porém, é a admiração! Tudo isto mostra que a Palavra de Deus se encarnou realmente em palavras humanas. Tornou-se igual à nossa palavra em tudo, menos no erro e na mentira. A ação do Espírito Santo, que faz com que a Bíblia seja Palavra de Deus, não passa pelos distantes fios de alta tensão, mas sim pela fiação da rede doméstica, embutida na parede dos conflitos, das contradições e das confusões da vida humana. Por maior que possa parecer a contradição interna das várias partes da Bíblia, ela não destrói a unidade do Projeto de Deus nem nega a inspiração divina da Sagrada Escritura. Pelo contrário, revela o seu verdadeiro alcance!

Olhando novamente de longe, revendo tudo, nós descobrimos que não se trata de uma parede isolada, mas da parede de uma casa. E por incrível que pareça, é a parede da casa em que nós estamos morando. É de nossa casa! Olhando a Bíblia, estamos olhando para a nossa própria casa, olhando para o que é nosso.

É deste modo que vamos olhar a Bíblia. Vamos olhar para o que é nosso. Às vezes, de longe, outras vezes mais de perto, outras bem de perto. Ou seja, o estudo terá três níveis, misturados entre si: literário (ver de perto o texto), histórico (olhar a situação do povo) e teológico (escutar a mensagem de Deus). Mas qualquer que seja o olhar ou o nível, ele terá sempre o mesmo objetivo: descobrir que a palavra da Bíblia já estava pintada na parede da casa em que moramos. Queira Deus que essa descoberta produza em nós muita satisfação e alegria.

II. OS CRITÉRIOS DA LEITURA ORANTE DA BÍBLIA

Não basta a razão para descobrir todo o sentido da Bíblia. Segundo o Documento Dei Verbum do Concílio Vaticano II: “a Sagrada Escritura também deve ser lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita” e que “para captar bem o sentido dos textos sagrados, deve-se atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levada em conta a Tradição viva de Igreja toda e a analogia da fé” (DV 12). Estes critérios permitem descobrir o sentido pleno da Bíblia, impedir que o seu sentido seja manipulado e evitar que o texto seja isolado do seu contexto de origem que o gerou, da tradição que o transmite e da vida atual da Igreja a que deve servir.

A Leitura Orante da Bíblia é o coração da vida religiosa do cristão. Existe uma leitura da Bíblia que começa a ser feita pelas nossas Comunidades. Algumas características dessa leitura:

1. Levar, para dentro da Bíblia, os problemas da nossa vida. Ler a Bíblia a partir da nossa luta e da nossa realidade;

2. A leitura é feita em Comunidade. É, antes de tudo, uma atividade comunitária, uma prática orante, um ato de fé;

3. Uma leitura obediente, respeitando o texto e se colocando à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir.

Esta prática tão simples é profundamente fiel à prática da mais antiga Tradição da Igreja. Por isso mesmo, através dela, o Espírito de Deus chama nossa atenção para alguns elementos importantes e indispensáveis da leitura cristã da Bíblia, que nós tínhamos esquecido ou negligenciado: partir da realidade de hoje e criar um ambiente comunitário e orante de fé.

Os três critérios — REALIDADE, COMUNIDADE, TEXTO — são três ângulos específicos, cada um com características próprias. Ao se fazer a leitura, esses três critérios se articulam entre si em vista do mesmo objetivo: escutar Deus hoje. Esses três critérios constituem a mística da leitura da Bíblia que estaremos aprendendo neste curso. Eles dão unidade ao plano todo, unificam os grupos que dele participam ou vierem a participar e nos colocam no coração da Tradição da Igreja, marcada pela prática secular da Leitura Orante da Bíblia.

A Leitura Orante indica a prática de leitura que vamos fazer da Bíblia para alimentar a nossa fé, a nossa esperança, o nosso amor e o nosso compromisso.

A Leitura Orante da Bíblia, sempre foi a espinha dorsal da Vida Religiosa Cristã, desde os seus mais remotos inícios, já no tempo do monaquismo. Ela sempre reaparece quando se procura ler a Bíblia com fidelidade. Reapareceu nestes últimos anos, sem rótulo e sem nome, principalmente aqui na América Latina, no meio das Comunidades que recomeçaram a ler a Bíblia. Com a prática da Leitura Orante da Bíblia, aproximamo-nos dessa fonte inesgotável do passado que, no presente, está gerando e irrigando a vida nova das nossas Comunidades.

Depois de umas breves informações históricas e algumas considerações gerais, vamos analisar de perto os quatro degraus da Leitura Orante: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação. São os quatro passos da leitura da Bíblia, tanto individual como comunitária. São, também, e sobretudo, quatro atitudes permanentes que devemos ter diante da Palavra de Deus. Vamos ver em que consistem e como, quando articulados entre si, formam o método da Leitura Orante da Bíblia.

III. UM POUCO DE HISTÓRIA

Na sua origem, a Leitura Orante (Lectio Divina) nada mais era do que a leitura que os cristãos faziam da Bíblia para alimentar sua fé, esperança e amor e animar assim a sua caminhada. A Leitura Orante é tão antiga quanto a própria Igreja, que vive da Palavra de Deus e dela depende como a água da sua fonte (DV 7.10.21). Prolonga, assim, uma tradição das comunidades dos pobres (anawim) do Antigo Testamento.

A Leitura Orante é a leitura crente da Palavra de Deus, feita a partir da fé em Jesus, que disse: “O Espírito vos recordará tudo o que eu disse e vos introduzirá na verdade plena” (Jo 14,26;16,13). O Novo Testamento, por exemplo, é o resultado da leitura que os primeiros cristãos faziam do Antigo Testamento à luz dos seus problemas e à luz da nova revelação que Deus fez de si através da ressurreição de Jesus, vivo no meio da comunidade. No decorrer dos séculos, esta leitura crente e orante da Bíblia alimentou a Igreja, as comunidades, os cristãos. Inicialmente, não era uma leitura organizada e metódica, mas era a própria Tradição que se transmitia, de geração em geração, através da prática do povo cristão.

A expressão Lectio Divina (Leitura Orante) vem de Orígenes. Ele diz que, para ler a Bíblia com proveito, é necessário um esforço de atenção e de assiduidade: “Cada dia de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura!” E o que não se consegue com o próprio esforço, assim diz ele, deve ser pedido na oração, “pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas”. Deste modo, assim ele concluiu, chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos. Nestas reflexões de Orígenes, temos um resumo do que vem a ser a Lectio Divina (Leitura Orante).

A Lectio Divina (Leitura Orante) tornou-se a espinha dorsal da Vida Religiosa, como já dissemos. Em torno da Palavra de Deus, ouvida, meditada e rezada, surgiu e se organizou o monaquismo do deserto. As sucessivas reformas e transformações da Vida Religiosa sempre retomavam a Leitura Orante como a sua marca registrada. As regras monásticas de Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento fazem da leitura da Bíblia, junto com o trabalho manual e a liturgia, a tríplice base da Vida Religiosa.

A sistematização da Lectio Divina em quatro degraus veio só no século XII. Por volta do ano 1150, Guigo, um monge cartuxo, escreveu um livrinho chamado A Escada dos Monges. Na introdução, antes de expor a teoria dos quatro degraus, ele se dirige ao “caro irmão Gervásio” e diz: “Resolvi partilhar com você algumas das minhas reflexões sobre a vida espiritual dos monges. Pois você conhece esta vida por experiência, enquanto eu só a conheço por estudo teórico. Assim, você poderá ser juiz e corretor das minhas considerações”. Guigo quer que a teoria da Lectio Divina seja avaliada e corrigida a partir da experiência e da prática dos irmãos.

Em seguida, ele introduz os quatro degraus: “Certo dia, durante o trabalho manual, quando estava refletindo sobre a atividade do espírito humano, de repente se apresentou à minha mente a escada dos quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação. Essa é a escada dos monges, pela qual eles sobem da terra ao céu. É verdade, a escada tem poucos degraus, mas ela é de uma altura tão imensa e inacreditável que, enquanto a sua extremidade inferior se apóia na terra, a parte superior penetra nas nuvens e investiga os segredos do céu”. Depois disto, Guigo mostra como cada um desses degraus tem a propriedade de produzir algum efeito específico no leitor da Bíblia. Em seguida, ele resume tudo: “A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com espírito atento. A meditação é uma diligente atividade da mente que, com a ajuda da própria razão, procura o conhecimento da verdade oculta. A oração é o impulso fervoroso do coração para Deus, pedindo que afaste os males e conceda as coisas boas. A contemplação é uma elevação da mente sobre si mesma que, suspensa em Deus, saboreia as alegrias da doçura eterna”. Nesta descrição dos quatro degraus, Guigo sintetiza a tradição que vinha de longe e a transforma em instrumento de leitura para servir de instrução aos jovens que se iniciavam na vida monástica.

No século XIII, os Mendicantes tentaram criar um novo tipo de Vida Religiosa, mais inserida no meio dos “Menores” (pobres). Eles fizeram da Lectio Divina a fonte inspiradora do seu movimento renovador, como transparece claramente na vida e nos escritos dos primeiros franciscanos, dominicanos, servitas, carmelitas e outros mendicantes. Através da sua vida inserida, souberam colocar a Lectio Divina a serviço do povo pobre e marginalizado daquela época.

Houve, em seguida, um longo período em que a Leitura Orante (Lectio Divina) ficou praticamente esquecida. A leitura da Bíblia não era mais fomentada, nem mesmo nos Conventos e Mosteiros. Foi o infeliz efeito da Contra-Reforma na vida da Igreja. Insistia-se muito mais na leitura espiritual. O medo do protestantismo fez perder o contato com a fonte! O Concílio Vaticano II, porém, retomou a antiga tradição e, no seu documento Dei Verbum, recomenda com grande insistência a Lectio Divina (Leitura Orante) (DV 25). Ela reapareceu, de maneira nova, sem rótulo e sem nome, no meio das comunidades, onde as pessoas recomeçaram a leitura da Palavra de Deus, sendo cultivada e estudada, explicitamente, por leigos e religiosos.

IV. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A LEITURA ORANTE DA BÍBLIA

Pela Leitura Orante, procuramos atingir o que diz a Bíblia: “A Palavra está muito perto de ti: na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30,14). Na boca, pela leitura; no coração, pela meditação e pela oração; na prática, pela contemplação. O objetivo da Leitura Orante é o objetivo da própria Bíblia: “Comunicar a sabedoria que leva à salvação pela fé em Jesus Cristo” (2Tm 3,15); “instruir, refutar, corrigir, formar na justiça e, assim, qualificar o homem de Deus para toda a boa obra“ (2Tm 3,16-17); “proporcionar perseverança, consolo e esperança” (Rm 15,4); ajudar-nos a aprender dos erros dos antepassados (cf. 1Cor 10,6-10).

A Leitura Orante supõe alguns princípios, sempre presentes na leitura cristã da Bíblia:

1. A unidade da Escritura. A Bíblia é uma grande unidade, onde cada livro, cada frase têm o seu lugar e a sua função para nos revelar o Projeto de Deus. As suas várias partes são como tijolos numa grande parede: juntos formam o desenho do Projeto de Deus. O princípio da Unidade da Escritura proíbe isolar os textos, arrancá-los de seu contexto e repeti-los como verdades isoladas e absolutas. Um tijolo só não faz a parede. Um traço só não faz o desenho. A Bíblia não é um caminhão de tijolos, mas uma casa onde se pode morar.

2. A atualidade ou encarnação da Palavra. Nós cristãos, quando lemos a Bíblia, não podemos esquecer a vida, mas devemos carregá-la conosco, dentro de nós. Tendo a vida diante dos olhos, descobrimos na Bíblia o reflexo daquilo que nós mesmos estamos vivendo. A Bíblia torna-se assim o espelho do que se passa na vida e no coração de todos. Descobrimos que a Palavra de Deus se encarna não só naquelas épocas do passado, mas também hoje, para poder estar conosco e ajudar-nos a enfrentar os problemas e a realizar as esperanças: “Oxalá ouvíssemos hoje a sua voz!” (Sl 95,7).

3. A fé em Jesus Cristo, vivo na Comunidade. Lemos a Bíblia a partir da nossa fé em Jesus Cristo, vivo no meio de nós. Jesus é a chave principal da leitura que fazemos. A fé em Jesus ajuda a entender melhor a Bíblia, e a Bíblia ajuda a entender melhor o significado de Jesus para a vida. A leitura feita em comunidade faz com que Bíblia, Tradição e Vida formem uma unidade viva.

A Leitura Orante teve um início bem simples, com métodos elementares à altura do povo:

1. ler e reler, cada vez mais, até conhecer bem o que está escrito;

2. repetir de memória, com a boca, o que foi lido e compreendido e ruminá-lo até que, da boca e da cabeça, passe para o coração e entre no ritmo da própria vida;

3. responder a Deus na oração e pedir que nos ajude a praticar o que a sua Palavra nos pede;

4. o resultado é uma nova luz nos olhos que permite saborear a Palavra e enxergar o mundo de maneira nova. Com essa luz nos olhos, começa-se, novamente, a ler, a repetir, a responder a Deus, e assim por diante… Um processo que não termina nunca, sempre volta, mas que nunca se repete tal qual.

Uma última consideração sobre o alcance e o objetivo da Leitura Orante. Uma palavra é, antes de tudo, um meio de transmitir uma idéia. As palavras, tanto as nossas como as da Bíblia, dirigem-se, em primeiro lugar, à razão, que pode captar as idéias. Mas uma palavra não é só veículo de idéias. Tem também outras dimensões. Por exemplo, ela possui uma força poética (no sentido literal: poesia vem do grego “poiein”, fazer). Não só diz, mas também faz! Faz o que diz! Ora, no estudo que nós fazemos da Bíblia, geralmente só nos preocupamos em descobrir a idéia, a mensagem da Palavra de Deus. Veremos que a Leitura Orante procura atingir e ativar também as outras dimensões. Ela é mais completa. O seu resultado é mais amplo.

V. OS QUATRO DEGRAUS DA LEITURA ORANTE DA BÍBLIA

Os quatro degraus da Leitura Orante são: leitura, meditação, oração e contemplação. Nem sempre é fácil distinguir um do outro. Por exemplo, o que alguns autores afirmam da leitura, outros o atribuem à meditação, e assim por diante. A causa desta falta de clareza está na própria natureza da Leitura Orante. Trata-se de um processo dinâmico de leitura, em que as várias etapas nascem uma da outra. É como a passagem da noite para o dia. Na hora de amanhecer, alguns dizem: “É noite ainda!” Outros dizem: “O dia já chegou!” Além disso, trata-se de quatro atitudes permanentes. A atitude da leitura, por exemplo, continua também durante a meditação. As quatro atitudes existem e atuam, juntas, durante todo o processo da Leitura Orante, embora em intensidade diferente conforme o degrau em que a pessoa ou a comunidade se encontra. O importante, nesta nossa reflexão, é que apareçam as características principais de cada uma dessas quatro atitudes que, juntas, integram a Leitura Orante.

1. A leitura: conhecer, respeitar, situar

A leitura é o primeiro passo para se conhecer e amar a Palavra de Deus. Não se ama o que não se conhece. É também o primeiro passo do processo da apropriação da Palavra: ler, ler, ler! Ler muito para familiarizar-se com a Bíblia; para que ela se torne nossa palavra, capaz de expressar nossa vida e nossa história, pois ela “foi escrita para nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11). Esse processo de reapropriação da Palavra já está em andamento nas Comunidades.

A leitura é uma atividade bastante elementar: ler, pronunciar bem as palavras, se possível em voz alta. Este primeiro passo é muito importante e muito exigente. Não pode ser feito de maneira superficial. Para muitos, a Bíblia é o meio principal de alfabetização e funciona como gramática.

Pela leitura freqüentamos a Bíblia como se freqüenta um amigo. Há uma semelhança muito grande entre a maneira de se conviver com o povo e com a Bíblia. Os dois exigem o máximo de atenção, respeito, amizade, entrega, silêncio, escuta. Os dois, tanto o povo como a Bíblia, não se defendem logo, quando são agredidos ou manipulados, mas os dois acabam vencendo o agressor pelo cansaço. a leitura da Bíblia ajuda a criar em nós os olhos certos para ler a vida do povo e vice-versa.

A leitura, assim como a convivência com o povo, não pode depender do gosto do momento, mas exige da pessoa uma determinação constante e contínua. A leitura deve ser perseverante e diária. Exige ascese e disciplina. Não pode ser interesseira, mas deve ser desinteressada, gratuita, em vista do Reino e do bem do povo.

A leitura é ponto de partida, não é ponto de chegada. Faz o leitor pisar no chão. Prepara o leitor e o texto para o diálogo da meditação. Para que a meditação não seja fruto de uma fantasia irreal, mas tenha fundamento no texto e na realidade, é necessário que a leitura se faça com critério e atenção. “Estudo assíduo, feito com espírito atento”, dizia Guigo. Através de um estudo imparcial, a leitura impede que o texto seja manipulado e reduzido ao tamanho da nossa idéia, e faz com que ele possa ser parceiro autônomo no nosso diálogo com Deus, pois ela estabelece o sentido que o texto tem em si, independente de nós. Assim, aleitu ra cria no leitor uma atitude crítica, criteriosa e respeitosa diante da Bíblia. É aqui, na leitura, que entra a contribuição da exegese para o bom andamento da Leitura Orante. A leitura, entendida como estudo crítico, ajuda o leitor a analisar o texto e a situá-lo em seu contexto de origem. Esse estudo tem três níveis:

a) Literário: aproximar-se do texto e, através de perguntas bem simples, analisar o seu tecido: quem? o quê? onde? por quê? quando? como? com que meios? como o texto se situa dentro do contexto literário do livro de que faz parte?

b) Histó rico: através do estudo do texto, atingir o contexto histórico em que surgiu o texto ou em que se deu o fato narrado pelo texto, e analisar a situação histórica em dimensões como: econômica, social, política, ideológica, afetiva, antropológica e outras. Trata-se de descobrir os conflitos que estão na origem do texto ou nele se refletem para, assim, perceber melhor a encarnação da Palavra de Deus na realidade conflitiva da história humana, tanto deles como nossa.

c) Teológico: descobrir, através da leitura do texto, o que Deus tinha a dizer ao povo naquela situação histórica; o que Deus significava para aquele povo; como Ele se revelava; como o povo assumia e celebrava a Palavra do Senhor.

O estudo científico do texto não é o fim da leitura. É apenas um meio para se chegar ao fim. A intensidade do uso da exegese na Leitura Orante depende não do exegeta, mas das exigências e circunstâncias dos leitores. Para um tipo de parede usa-se uma broca mais resistente do que para outro. Mas o objetivo é o mesmo: furar a parede. Não se usa broca de mármore para furar parede de papelão! O objetivo da leitura é este: furar a parede da distância entre o ontem do texto e o hoje da nossa vida, a fim de poder iniciar o diálogo com Deus na meditação. Qual a broca que fura essa parede? De um lado, é “o estudo assíduo, feito com espírito atento” (Guigo). De outro, é “a própria experiência da vida” (Cassiano). Paulo VI dizia que se deve “procurar uma certa conaturalidade entre os interesses atuais (hoje) e o assunto do texto (ontem), para que se possa estar disposto a ouvi-lo (diálogo)”. Com outras palavras, a broca é esta: aprofundar tanto o texto de ontem quanto a nossa experiência de hoje! Às vezes, a Leitura Orante não traz resultado e o texto não fala, não por falta de estudo do texto, mas sim por falta de aprofundamento crítico da nossa própria experiência de vida, hoje, aqui.

A leitura, quando bem-feita, ajuda a superar o fundamentalismo. Quando mal feita, faz só aumentá-lo. O fundamentalismo é uma grande tentação que se instalou na mente de muita gente. Ele separa o texto do resto da vida e da história do povo e o absolutiza como a única manifestação da Palavra de Deus. A vida, a história do povo, a comunidade, já não teriam mais nada a dizer sobre Deus e a sua Vontade. O fundamentalismo anula a ação da Palavra de Deus na vida. É a ausência total de consciência crítica. Ele distorce o sentido da Bíblia e alimenta o moralismo, o individualismo e o espiritualismo na interpretação dela. É uma visão alienada que agrada aos opressores do povo, pois ela impede que os oprimidos tomem consciência da iniqüidade do sistema montado e mantido pelos poderosos. Superar o fundamentalismo só é possível à medida que, através da leitura, o leitor consiga ver o texto dentro do seu contexto de origem e, ao mesmo tempo, perceber nele o reflexo da situação humana, tão conflitiva, confusa e controvertida, que hoje vivemos.

Qual o momento de se passar da leitura para a meditação? É difícil precisar o momento exato em que a natureza passa da primavera para o verão. É diferente, a cada ano, em cada país. Mas existem alguns critérios. O objetivo da leitura é ler e estudar o texto até que ele, sem deixar de ser ele mesmo, se torne espelho de nós mesmos e nos reflita algo da nossa própria experiência de vida. A leitura deve familiarizar-nos com o texto a ponto de ele se tornar nossa palavra. Cassiano dizia: “Penetrados dos mesmos sentimentos em que foi escrito o texto, nos tornamos, por assim dizer, os seus autores”. E aí, como que de repente, nos damos conta de que, por meio dele, Deus está querendo falar conosco e nos dizer alguma coisa. Nesse instante, dobramos a cabeça, fazemos silêncio e abrimos o ouvido: “Vou ouvir o que o Senhor nos tem a dizer!” (Sl 85,9). É nesse momento que a leitura se transforma em meditação e que se passa para o segundo degrau da Leitura Orante.

2. A meditação: ruminar, dialogar, atualizar

A leitura respondeu à pergunta: “O que diz o texto?” A meditação vai responder à pergunta: “O que diz o texto para mim, para nós?” A questão central que se coloca daqui para a frente é esta: o que é que Deus, através desse texto, tem a dizer hoje, aqui, para nós? A meditação indica o esforço que se faz para atualizar o texto e trazê-lo para dentro do horizonte da nossa vida e realidade, tanto pessoal como social. O texto que foi escrito para nós deve falar para nós. Dentro da dinâmica da Leitura Orante, a meditação ocupa um lugar central.

Guigo dizia: “A meditação é uma diligente atividade da mente que, com a ajuda da própria razão, procura o conhecimento da verdade oculta”. Qual é esta verdade oculta? Através da leitura descobrimos como o texto se situava no contexto daquela época, qual a posição que tomava nos conflitos, qual a mensagem que tinha para o povo. De lá para cá a situação mudou, o contexto é outro, os conflitos são diferentes. No entanto, a fé nos diz que esse texto, apesar de ser de outra época e de outro contexto, tem algo a nos dizer hoje. Nele deve existir um valor permanente que quer produzir no presente a mesma conversão ou mudança que produziu naquele tempo. Ora, a verdade oculta de que falava Guigo é este valor permanente, esta mensagem que lá existe para o nosso contexto e que deve ser descoberta e atualizada pela meditação. Como fazer a meditação?

Uma primeira forma de se realizar a meditação é sugerida pelo próprio Guigo. Ele manda usar a mente e a razão para poder descobrir a “verdade oculta”. Entra-se em diálogo com o texto, com Deus, fazendo perguntas que obrigam a usar a razão e que procuram trazer o texto para dentro do horizonte da nossa vida. Medita-se refletindo, interrogando: o que há de semelhante e de diferente entre a situação do texto e a nossa hoje? Quais os conflitos de ontem que existem hoje? Quais dentre eles são diferentes? O que a mensagem deste texto diz para a nossa situação? Que mudança de comportamento ele sugere para mim que vivo na América Latina, no Brasil, em São Paulo, no ABC, em Santo André? E para nós, cristãos, católicos, em que ponto nos condena? O que ele quer fazer crescer em mim, em nós? etc.

Outra maneira de se fazer a meditação é repetir o texto, ruminá-lo, mastigá-lo até descobrir o que ele tem a nos dizer. É o que Maria fazia quando ruminava as coisas em seu coração (Lc 2,19.51). É o que recomenda o salmo ao justo: “Meditar dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1,2). É o que Isaías define com tanta precisão: “Sim, Javé, o teu Nome e a lembrança de Ti resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8).

Após ter feito a leitura e ter descoberto o seu sentido para nós é bom procurar resumir tudo numa frase, de preferência do próprio texto bíblico, para ser levada conosco na memória e ser repetida e mastigada durante o dia, até se misturar com o nosso próprio ser. Através dessa ruminação, nós nos colocamos sob o julgamento da Palavra de Deus e deixamos que ela nos penetre, como espada de dois gumes (Hb 4,12), pois água mole em pedra dura tanto bate até que fura! “Ela vai julgando as disposições e intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença. Tudo está nu e descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas” (Hb 4,12-13). Nós, muitas vezes, nos escondemos atrás de máscaras e ídolos, ideologias e convenções, doutrinas repetidas e tradições humanas (cf. Mc 7,8-13). Pela meditação ou ruminação, a Palavra de Deus vai entrando aos poucos, vai tirando as máscaras, vai revelando e quebrando a alienação em que vivemos, devolvendo-nos a nós mesmos, para que nos tornemos uma expressão viva da palavra ouvida, meditada e ruminada.

Cassiano aponta outro aspecto importante da meditação, como conseqüência da ruminação. Ele diz: “Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não percebemos o texto como algo que só ouvimos, mas sim como algo que experimentamos e tocamos com nossas mãos; não como uma história estranha e inaudita, mas como algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso coração, como se fossem sentimentos que formam parte do nosso próprio ser. Repitamo-lo: não é a leitura que nos faz penetrar no sentido das palavras, mas sim a própria experiência nossa adquirida anteriormente na vida de cada dia”. Aqui já nem parece haver diferença entre Bíblia e vida, entre a Palavra de Deus e a nossa palavra. Ora, conforme Cassiano, é nesta quase identificação nossa com a Palavra da Bíblia que está o segredo da percepção do sentido que a Bíblia tem para nós. Cassiano diz que a percepção do sentido do texto não vem do estudo, mas da experiência que nós mesmos temos da vida. O estudo coloca os fios, a experiência adquirida gera a força, a meditação aperta o botão, faz a força correr pelos fios e acende a lâmpada do texto. Tanto o fio como a força, ambos são necessários para que haja luz. A vida ilumina o texto, o texto ilumina a vida.

A meditação também aprofunda a dimensão pessoal da Palavra de Deus. Uma palavra tem valor não só pela idéia que comunica, mas também pela pessoa que a pronuncia e pela maneira como é pronunciada. Na Bíblia, quem nos dirige a Palavra é Deus, e Ele o faz com muito amor. Uma palavra de amor desperta forças, libera energias, recria a pessoa. Meditando a Palavra de Deus, o coração humano se dilata até adquirir a dimensão do próprio Deus, que pronuncia a Palavra. Aqui aparece a dimensão mística da Leitura Orante. Um lavrador de Pernambuco dizia: “Fui notando que se a gente vai deixando a Palavra de Deus entrar dentro da gente, a gente vai se divinizando. Assim, ela vai tomando conta da gente e a gente não consegue mais separar o que é de Deus e o que é da gente. Nem sabe muito bem o que é Palavra dele e palavra da gente. A Bíblia fez isso em mim!”

Pela leitura se atinge a casca da letra e se tenta atravessá-la para, na meditação, atingir o fruto do espírito (S. Jerônimo). O Espírito age dentro da Escritura (2Tm 3,16). Através da meditação ele se comunica a nós, nos inspira, cria em nós os sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5), ajuda-nos a descobrir o sentido pleno das palavras de Jesus (Jo 16,13), faz experimentar que sem Ele nada podemos fazer (Jo 15,5), ora em nós com gemidos inefáveis (Rm 8,26) e gera em nós a liberdade (2Cor 3,17). É o mesmo Espírito que enche a vastidão da terra (Sb 1,7). No passado, ele animava os Juízes e os Profetas. No presente, ele nos ajuda a descobrir o sentido profético da história do nosso povo, que se organiza e luta por uma sociedade mais justa. A meditação nos ajuda a descobrir o sentido espiritual, isto é, o sentido que o Espírito de Deus quer comunicar hoje à sua Igreja através do texto da Bíblia.

A meditação é uma atividade pessoal e também comunitária. A partilha do que cada um sente, descobre e assume no contato com a Palavra de Deus é muito mais do que só a soma das palavras de cada um. A busca em comum faz aparecer o sentido eclesial da Bíblia e fortalece em todos o sentido comum da fé. Por isso é tão importante que a Bíblia seja lida, meditada, estudada e rezada não só individualmente, mas também e sobretudo em comum. Pois trata-se do livro de cabeceira da Igreja, da Comunidade.

Qual o momento de se passar da meditação para a oração? Não é fácil dizer quando, exatamente, uma pessoa passa da juventude para a idade adulta. Mas existem alguns critérios. A meditação atualiza o sentido do texto até ficar claro o que Deus está pedindo de nós, que vivemos aqui na América Latina. Ora, quando fica claro que Deus pede, está chegando o momento de se perguntar: “E agora, o que vou dizer a Deus? Assumo ou não assumo?” Quando fica claro o que Deus pede, fica clara também a nossa incapacidade e a nossa falta de recursos. É o momento da súplica: “Senhor, levanta-te! Socorre-nos” (Sl 44,27). Quando fica claro que Deus nos interpela através do irmão explorado e necessitado e que Ele ouve o grito dos pobres, está chegando o momento de unir nossa voz ao grito dos pobres, para que Deus, finalmente, ouça o seu grito e venha libertar o seu povo. Com outras palavras, a meditação é semente de oração. Basta praticá-la e ela, por si mesma, se transforma em oração.

3. A oração: suplicar, louvar, recitar

A atitude de oração está presente desde o começo da Leitura Orante. No início da leitura invoca-se o Espírito Santo. Durante a leitura sempre aparecem pequenos momentos de oração. A meditação já é quase uma atitude de oração, pois, por si mesma, se transforma em prece. Mas dentro da dinâmica da Leitura Orante, apesar de tudo ser regado com oração, deve haver um momento especial, próprio, para a prece. Esse momento é o terceiro degrau, o da oração. Através da leitura procuramos descobrir: “O que o texto diz?” A meditação aplica a leitura à nossa vida: “O que o texto diz para mim, para nós?” Até agora, era Deus quem falava. Chegou o momento da oração propriamente dita: “O que o texto me faz dizer, nos faz dizer a Deus?”

A atitude de oração diante da Palavra de Deus deve ser como aquela de Maria, que disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A palavra que Maria ouviu não era uma palavra da Bíblia, mas sim uma palavra percebida nos fatos da vida, por ocasião da visita do anjo. Maria foi capaz de percebê-la, porque a ruminação (cf. Lc 2,19.51) tinha purificado o seu olhar e o seu coração. Os puros de coração percebem a ação de Deus nos fatos (cf. Mt 5,8). Rezando e cantando (cf. Lc 1,46-56), eles a encarnam na vida. Essa atitude de oração deve ser realista e não ingênua, o que se alcança pela leitura. Deve nascer da experiência do nosso nada e dos problemas reais da vida, o que se alcança pela meditação. Deve tornar-se uma atitude permanente de vida, o que se alcança na contemplação.

A oração, provocada pela meditação, inicia por uma atitude de admiração silenciosa e da adoração ao Senhor. A partir daí brota a nossa resposta à Palavra de Deus. Desde os tempos do Novo Testamento, os cristãos descobriram que nós não sabemos rezar como convém. É o próprio Espírito que ora em nós (Rm 8,26). Quem melhor fala a Deus é o próprio Deus. Por isso, a oração dos Salmos ainda é a melhor oração. O próprio Jesus usou freqüentemente os salmos e orações da Bíblia. Ele é o grande cantor dos Salmos (Sto. Agostinho). Com Ele e n’Ele, os cristãos prolongam a Leitura Orante pela oração pessoal, pela oração litúrgica e pelas preces da Igreja.

Nesta grande comunhão eclesial é importante que a Palavra de Deus suscite em nós, cristãos, uma intensa vida de oração individual. Dependendo do que se ouviu da parte de Deus na leitura e na meditação, a resposta pode ser de louvor ou de ação de graças, de súplica ou de perdão, pode ser até de revolta ou de imprecação, como o foi a resposta de Jó, de Jeremias e de tantos Salmos. Como na meditação, é importante que esta oração espontânea não seja só individual, mas também tenha sua expressão comunitária, em forma de partilha.

A oração, provocada pela meditação, também pode ser recitação de preces já existentes. Neste ponto o Ofício Divino presta uma grande ajuda. Ele espalha a leitura através das horas do dia. Infelizmente, a Liturgia das Horas que, nos primeiros séculos, alimentava a oração pessoal do Povo de Deus ficou restrita aos monges e clérigos. O monge ouvia a Palavra, memorizava-a e a levava consigo para ruminá-la nos intervalos, durante o trabalho manual. Além disso, uma das primeiras tarefas do monge, ao entrar no mosteiro, era decorar os salmos para que servissem de porta-voz e apoio no seu diálogo com Deus.

Hoje em dia, já não podemos repetir o esquema dos antigos monges e das primeiras comunidades. Os tempos mudaram. Fica, porém, a inspiração, o modelo e o desafio: decorar algum salmo para as horas de precisão; carregar consigo alguma frase da Bíblia para ruminá-la ao longo do dia, nos intervalos, durante o trabalho, no ônibus, no roçado; criar um esquema de vida, adaptado ao nosso modo de viver, que alcance para nós o mesmo objetivo.

Além do que já vimos, a Leitura Orante procura acentuar um outro aspecto muito importante da oração, a saber, a sua ligação bem concreta com a vida, com a caminhada e a luta do povo. É um assunto delicado e difícil, que exige uma breve reflexão para situá-lo.

A Palavra de Deus vale não só pela idéia que transmite, mas também pela força que comunica. Não só diz, mas também faz. Um exemplo concreto é o sacramento: a palavra “Isto é o meu corpo!” faz o que diz. Na Criação, Deus fala e as coisas começam a existir (Sl 148,5; Gn 1,3). O povo judeu, muito mais do que nós hoje, tinha sensibilidade para valorizar esses dois aspectos da palavra e mantê-los unidos. Eles diziam na língua deles: dabar, o que significava, ao mesmo tempo, palavra e coisa: diz e faz, anuncia e traz, ensina e anima, ilumina e fortalece, luz e força, Palavra e Espírito. Ora, a Leitura Orante, que tem suas raízes no povo judeu, também valoriza os dois aspectos e os mantém unidos. Pela leitura, procura descobrir a idéia, a mensagem, que a palavra transmite e ensina. Pela meditação, e sobretudo pela oração, ela cria o espaço onde a palavra faz o que diz, traz o que anuncia, comunica a sua força e nos revigora para a caminhada. Os dois aspectos não podem ser separados, pois ambos existem unidos na unidade de Deus, no seio da Santíssima Trindade. Desde toda a eternidade, o Pai pronuncia a sua Palavra e coloca nela a força do seu Espírito. A Palavra se fez carne em Jesus, no qual repousa a plenitude do Espírito Santo.

Infelizmente, na prática pastoral, estes dois aspectos da Palavra estão separados. De um lado, os movimentos carismáticos; de outro lado, os movimentos de libertação. Os carismáticos têm muita oração, mas muitas vezes carecem de visão crítica. Às vezes, não fazem a leitura como deve ser feita: não situam o texto dentro do seu contexto de origem e, por isso mesmo, tendem para uma interpretação fundamentalista, moralizante e individualista da Bíblia. Por isso, a sua meditação e oração, muitas vezes, carecem de fundamento real no texto e na realidade. Os movimentos de libertação têm muita consciência crítica, fazem boa leitura mas, às vezes, carecem de perseverança e de fé, quando se trata de enfrentar situações humanas que, dentro da análise científica da realidade, em nada contribuem para a transformação da sociedade. Às vezes, eles têm uma certa dificuldade para enxergar a utilidade de longas horas gastas em oração sem resultado imediato. A Leitura Orante, quando bem conduzida nos seus vários passos, talvez possa ser uma ajuda para corrigir as falhas e aproximar o que não deveria estar separado.

Finalmente, na oração reflete-se ainda o itinerário pessoal de cada um no seu caminhar em direção a Deus e no seu esforço de esvaziar-se de si para dar lugar a Deus, ao irmão, ao pobre, à comunidade. É aqui que se situam as noites escuras com suas crises e dificuldades, com seus desertos e tentações, rezadas, meditadas e enfrentadas à luz da Palavra de Deus (Mt 4,1-11).

Qual o momento de se passar da oração para a contemplação? Aqui não há resposta. A contemplação é o que sobra nos olhos e no coração, depois que a oração termina. Ela fica para além do caminho da Leitura Orante, pois é o seu ponto de chegada. Por ser o ponto de chegada é também ponto de partida de um novo começo de leitura, meditação, oração. A contemplação é como a fruta da árvore: já estava dentro da semente. Vai crescendo aos poucos, amadurece lentamente.

4. A contemplação: enxergar, saborear, agir

A contemplação é o último degrau da Leitura Orante. É o seu ponto de chegada. Cada vez, porém, que se chega ao último degrau, este se torna patamar para um novo começo. E assim, através de um processo sempre renovado de leitura, meditação, oração, contemplação, vamos crescendo na compreensão do sentido e da força da Palavra de Deus. Nunca se chegará ao ponto de poder dizer: “Agora realizei todo o objetivo da Palavra de Deus na minha vida!”, pois sempre haverá pela frente um olhar mais penetrante, uma leitura mais profunda, uma meditação mais exigente, uma oração mais engajada, uma contemplação mais transparente. Até todos os véus caírem, até que a realidade toda seja transformada e chegue à plenitude do Reino. Mas, até lá, ainda resta um longo caminho (1Rs 19,7).

A contemplação reúne em si todo o caminho percorrido da Leitura Orante: até agora, você se colocou diante de Deus, leu e escutou a Palavra, estudou e descobriu o seu sentido; com ele você se comprometeu e começou a ruminá-lo para que entrasse na dinâmica da sua própria vida e passasse da cabeça para o coração; você transformou tudo isto em oração diante de Deus como projeto para a sua vida; o sal da Palavra desapareceu na sua vida e lhe deu um novo sabor; o pão da Palavra foi mastigado e lhe deu força para uma nova ação. Agora, no fim, tendo tudo isto na mente e no coração, você começa a ter um novo olhar para observar e avaliar a vida, os fatos, a história, a caminhada das comunidades, a situação do povo na América Latina, os pobres. É o olhar de Deus sobre o mundo, que assim se comunica e se esparrama. Este novo olhar é a contemplação. Novo olhar, nosso sabor, nova ação! Ela envolve todo o ser humano.

Santo Agostinho dizia que, através da leitura da Bíblia, Deus nos devolve o olhar da contemplação e nos ajuda a decifrar o mundo e a transformá-lo, para que seja, novamente, uma revelação de Deus, uma teofania. A contemplação, assim entendida, é o contrário da atitude de quem se retira do mundo para poder contemplar a Deus. A contemplação como resultante da Leitura Orante é a atitude de quem mergulha dentro dos fatos para descobrir e saborear neles a presença ativa e criativa da Palavra de Deus e, além disso, procura comprometer-se com o processo de transformação que esta Palavra está provocando dentro da história. A contemplação não só medita a mensagem, mas também a realiza; não só ouve, mas coloca em prática. Não separa os dois aspectos: diz e faz; ensina e anima, é luz e força.

Para os fundamentalistas, a Palavra de Deus está só e unicamente na Bíblia. O mundo, a vida, a história, tudo isto é antro de perdição. Só se salva quem aplica a Palavra da Bíblia na sua vida e se afasta do mundo, da política, da luta do povo, dos problemas do bairro etc. A contemplação corrige este defeito dos nossos olhos e nos converte. Faz descobrir que não é Deus que está ausente da realidade. Nós é que não percebemos a sua presença! Nós é que somos cegos (cf. Is 42,19). A Leitura Orante pinga um colírio, abre os olhos dos cegos e os faz enxergar. Tira o véu e ajuda a descobrir o desenrolar do Projeto de Deus dentro da história que hoje vivemos; a perceber como Cristo, centro de tudo, nos faz passar do nosso antigo testamento para o Novo Testamento. Faz descobrir o sentido das coisas, faz comprometer-se com o Reino. Guigo tem várias descrições da contemplação. Ele diz: “A leitura busca a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede e a contemplação a saboreia. A leitura leva comida sólida à boca, a meditação a mastiga e rumina, a oração prova o seu gosto e a contemplação é a própria doçura que alegra e recria. A leitura atinge a casca, a meditação penetra no miolo, a oração formula o desejo e a contemplação é o gosto da doçura já alcançada”. O que mais chama a atenção nos escritos de Guigo é a sua insistência em descrever a contemplação como uma saborosa curtição da doçura que existe na Palavra de Deus. Na contemplação, ao que tudo indica, a experiência de Deus suspende tudo, relativiza tudo e, como que por um instante, antecipa algo da alegria que “Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

Guigo diz as coisas com palavras do Século XII. Um agricultor disse as mesmas coisas com as palavras do povo nordestino do século XX: “Quando eu fui começando essa caminhada aqui na Escola Bíblica, eu fui vendo e sentindo que a Bíblia não é brincadeira. Que ela muito exige da gente. Exige que a gente viva o que a gente ouve, lê e vai aprendendo. Aí eu achei que não ia agüentar a barra. Eu pensei em deixar a Escola Bíblica. Agüentei mais um pouco e aí fui notando que se a gente vai deixando a Palavra de Deus entrar dentro da gente, a gente vai se divinizando. Assim, ela vai tomando conta da gente e a gente não consegue mais separar o que é de Deus e o que é da gente. Nem sabe muito bem o que é Palavra dele e palavra da gente. A Bíblia fez isso em mim. Aí eu não consegui deixar a Escola Bíblica”. Todo o processo da Leitura Orante está nessas palavras. Está descrito de um jeito a fazer inveja ao próprio Guigo! Saborear a doçura (exigente) do Senhor e curtir a alegria da sua presença no meio de nós é o que a gente vê acontecer aqui, na vida desse agricultor. Como ele há muitos milhares. A contemplação é o que a gente vê acontecer nas Comunidades. Apesar de toda luta, sofrimento, derrota, enganação, pobreza, fome, doença, o que mais chama a atenção é a alegria do povo. Alegria, apesar de tudo! É a promessa de Jesus que se realiza: “Ninguém vai conseguir tirar a alegria de vocês!” (Jo 16,22). Alegria que nasce de uma certeza maior: presença certa dos amigos nas horas incertas, presença certa de Deus em todas as horas. Alegria que nasce da esperança de, um dia, vencer na luta e de melhorar este mundo: “Nossa alegria é saber que um dia, todo este se libertará, pois Jesus Cristo é o Senhor do mundo, nossa esperança realizará!” A contemplação é tudo isto!

A contemplação, como ponto final da escada, é patamar para um novo começo. É como subir numa torre muito alta. Você alcança o primeiro patamar por uma escada de três lances: leitura, meditação e oração. Na janela do primeiro patamar, você descansa e contempla a paisagem.

Compilação, organização e produção digital: Luiz Edgar de Carvalho

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