JOSÉ VIEIRA
Revista Além-Mar Dezembro 2021

O avião aterrou no aeroporto de Adis-Abeba por volta das seis da manhã de 30 de Outubro. Na contagem etíope, eram zero horas, o início do novo dia. Para mim, é a hora zero de uma nova fase de serviço missionário comboniano, vinte e um anos depois da minha primeira estada na Etiópia. As montanhas gastas e enrugadas que vigiam o horizonte do aeroporto, em cambiantes cinza e laranja, afirmam que estou a pisar num país antigo, grandioso. Sagrado.

A cidade, cercada de áreas de habitação social novas, está mais limpa, arrojada, maior. As construções de zinco entre o aeroporto e o centro deram lugar a grandes edifícios modernos, de muitos andares. As avenidas, mais largas e bem pavimentadas. O metro de superfície atravessa, em viaduto, a capital com duas linhas.

O primeiro-ministro, Abiy Ahmed Ali, dá, de sorriso rasgado, as boas-vindas de um póster gigante na empena de uma torre na Praça da Cruz, o centro da cidade, que também cresceu em altura com edifícios de linhas arquitectónicas ousadas.

Ao caminhar pelas ruas da cidade para a sentir, um miúdo fixou-me com olhos grandes e ridentes e gritou: «China!» Esperava ouvir «Ferenji!», estrangeiro! A China está por detrás de uma boa parte do progresso da cidade e do país. A que custo, não sei!

Duas décadas passam depressa e deixam marcas indeléveis de mudança. Contudo, em Novembro de 2020, o país voltou à guerra no Estado do Tigré. Os Tigrinos, a etnia que deteve o poder no país desde 1991 até 2018, pegaram em armas para obter mais autonomia do governo federal. Na capital, a guerra sente-se sobretudo através das filas longas para a compra de pão. E no estado de emergência desde o início de Novembro.

Chego vinte e um anos mais velho para iniciar uma nova fase da minha vida em Qillenso, a missão que me acolheu há quase três décadas. Inserida na floresta que o mapa digital mostra mais esparsa, tem luz eléctrica e é servida por uma estrada alcatroada. O sinal da rede móvel é fraco: só se apanha no topo da colina – afiançam-me.

Inspiram-me as palavras de Paulo aos cristãos de Tessalónica: «Tanta afeição sentíamos por vós, que desejávamos ardentemente partilhar convosco não só o Evangelho de Deus, mas a própria vida, tão queridos nos éreis.» Estou mais velho, mais cansado, mas venho por amor ao povo Guji – que me amou durante oito anos e que me fez renascer – para partilhar o Evangelho e a vida, a minha vida.

Nas despedidas, algumas vozes interpelaram-me: «Porque partes? Aqui és tão preciso!» Uma amiga foi franca: «Parece-me uma inutilidade ires… Cá também há trabalho de missão, se calhar até bem mais necessário.» Peço emprestados uns versos a Sophia de Mello Breyner Andresen: «E eu tenho de partir para salvar/Quem sou, para saber qual é o nome/Do profundo existir que me consome/Neste país de névoa e de não ser.»

Vim, porque tinha de partir, sair da minha zona de conforto, recomeçar, vir às periferias do mundo dizer «Deus ama-te» através do meu amor, pobre e pequeno. Vim, porque a missão é um privilégio, é uma graça que Deus me faz.