MARGARIDA SANTOS LOPES
Revista Além-Mar, Novembro 2021

Rádios católicas em África
Formar, informar, transformar

São mais de 200, de Angola à Zâmbia(1). Chegam a muitos milhões de pessoas. Promovem a paz, os direitos humanos, a educação, a saúde, o desenvolvimento. Tentam curar traumas. Dão voz aos que não têm voz. Às vezes, são silenciadas. Contamos aqui três histórias de resiliência e sucesso: Rádio Sol Mansi, na Guiné-Bissau; Rede de Rádios Católicas do Sudão do Sul e montes Nuba; Projecto Ditunga, na República Democrática do Congo.

Entre 1998 e 1999, uma guerra civil na Guiné-Bissau «dividiu amigos e familiares». Vendo que as rádios «foram uma “arma” fundamental» no conflito e que «toda a população escutava “religiosamente” programas com propaganda das partes beligerantes», o missionário católico italiano Davide Sciocco teve uma ideia: «Se a rádio foi usada para promover a guerra, porque não criar uma rádio para favorecer a paz, a reconciliação e o desenvolvimento?»

Foi assim que, em 14 de Fevereiro de 2001, nasceu a Rádio Sol Mansi (RSM), relata à Além-Mar, numa entrevista por correio electrónico, Casimiro Jorge Cajucam, director desde 2016 da estação fundada pelo padre Sciocco e apoiada pelo Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (Pime) na Guiné-Bissau, aqui presente desde 1947.

«“Sol Mansi” significa “amanhecer” – amanhecer para um dia melhor, uma nova história, uma nova vida, um novo horizonte», explica Casimiro Cajucam, um leigo que começou a carreira na rádio como correspondente da sua paróquia, de Cristo Redentor, quando frequentava o terceiro ano da licenciatura em Comunicação Social. Hesitou em assumir a liderança e só a aceitou porque «quando um cristão é chamado a servir, não deve dar a luta à costa».

Hoje, segundo um estudo da Universidade Católica de Lisboa conduzido entre 2018 e 2020, «a Rádio Mansi é claramente, sobretudo graças à autoridade da sua informação imparcial, a mais ouvida das 50 emissoras radiofónicas activas na Guiné-Bissau», destaca o jornal L’Osservatore Romano.

As primeiras emissões da RSM começaram em Mansoa, 60 quilómetros a norte de Bissau, a capital, com um pequeno emissor de 250 watts e um raio de alcance limitado, refere Casimiro Cajucam, que é também correspondente da Rádio Vaticano. «De início, as pessoas não acreditavam e até gozavam com a iniciativa, porque nada tinha de profissional.» A situação mudou quando um jornalista da Rádio Renascença, a pedido de Sciocco, chegou para dar uma ajuda preciosa.

«Em 2008, a RSM já era a Rádio Nacional da Igreja Católica, com cobertura em todo o território nacional», regozija-se o director. «O estúdio em Mansoa passou a funcionar como uma rádio-escola, oferecendo semanas de formação prática a todas as 25 rádios comunitárias da Guiné-Bissau – uma média de mais de 50 formandos a cada ano.»

Duas décadas após a sua criação, a RSM «é uma das rádios de referência, não só em termos de audiências como de credibilidade», principalmente porque «nunca parou de construir pontes de diálogo com as diferentes religiões e grupos étnicos» num país onde, segundo o Pew Research Center, 45% dos 1,9 milhões de habitantes são muçulmanos, 31% seguem crenças indígenas e 22% são cristãos, diz Casimiro Cajucam.

Em Agosto de 2009, a Rádio Sol Mansi assinou «um acordo histórico de colaboração» com a Rádio Corânica de Mansoa. «Numa particularidade talvez única no mundo, a emissora católica transmite um programa islâmico e a emissora islâmica transmite um programa católico», salienta Cajucam.

Este diálogo foi acolhido de braços abertos pelas várias denominações religiosas, assim que a rádio abriu portas em Mansoa. A prova de que a coexistência se preserva está no facto de «o programa Voz do Islão e o programa Voz que grita no deserto, da comunidade evangélica, continuarem na grelha de programação e serem os mais antigos da emissora».

Os programas da RSM (um dos mais ouvidos é Dez Minutos com Deus) abordam todos os temas, até os mais delicados, como a mutilação genital feminina, uma prática só punida por lei em 2011. «Sobre este assunto trabalhamos com o Comité Nacional para o Abandono de Práticas Nefastas», esclarece o director da RSM. Segundo dados oficiais, citados pela DW, «39% das crianças guineenses com menos de 15 anos foram excisadas em 2010 (antes da criminalização)», estimando-se que metade das mulheres tenham sido vítimas deste procedimento que causa lesões permanentes, físicas e psíquicas.

«Também falamos de casamentos precoces e forçados, realidade ainda bem patente na sociedade guineense, sobretudo no interior. Falamos do Estado de Direito, de democracia, justiça e igualdade de género. Falamos das mulheres em geral e das mulheres das aldeias. Falamos de saúde, juventude, narcotráfico [o país é, supostamente, usado por traficantes estrangeiros para transportar cocaína e outras drogas da América Latina para a Europa], corrupção, ética profissional, doutrina social da Igreja. Os nossos programas estão de acordo com a realidade e a necessidade do país.»

Pressões políticas e militares

No auge da pandemia de covid-19 (só em Setembro foram levantados o estado de emergência e o confinamento), a Rádio Sol Mansi «assumiu um papel preponderante», destaca o director. «Com as igrejas fechadas, a Santa Missa, as orações e a catequese em duas dioceses foram asseguradas via rádio. No plano social, continuamos a ter um papel preponderante na sensibilização para e a prevenção do coronavírus.»

Porque ganhou «respeito e credibilidade na sociedade guineense», é na RSM que as pessoas «confirmam a veracidade das notícias que ouviram noutras rádios», garante Cajucam. «Mesmo assim, não faltam pressões. [Recentemente] fizemos uma entrevista a uma porta-voz do Departamento de Estado Americano sobre um comunicado em que se oferecia cinco milhões de dólares por informações que conduzam à condenação ou detenção de António Indjai, ex-chefe das Forças Armadas da Guiné-Bissau. Só quando demos esta notícia é que as pessoas acreditaram. Dois dias depois, recebemos uma chamada telefónica do general Indjai, proferindo várias ameaças.»

«Outras pressões vêm da classe política e da elite governamental, cuja estratégia passa, por um lado, por amedrontar os jornalistas, e por outro, por os aliciar ou tê-los sob seu controlo», critica o director da RSM. «Só fomos silenciados aquando do golpe militar de 12 de Abril de 2012. Aliás, todas as rádios foram silenciadas pelos militares golpistas durante 48 horas.»

Nos actuais três estúdios da Rádio Sol Mansi, trabalham 22 homens e 11 mulheres. A emissora conta também com uma rede de 50 correspondentes em todo o país, «que lhe permite dar voz aos que são excluídos do círculo da comunicação». Os noticiários são emitidos 50% em português e 50% em crioulo (a língua de mais de 90% da população), mas só 10% dos programas são produzidos em português (falado por 27,1%).

Os jornalistas e técnicos recebem formação com colegas de Portugal, do Brasil, ou de Cabo Verde, da Fundação Pro Dignitate, em Lisboa, ou da Rhode Island College, em Providence, nos EUA. Fazem estágios em vários países, de Angola ao Zimbábue. A RSM tem ainda uma equipa de «crianças jornalistas – dez repórteres e três da área de programas, que saem, fazem reportagens e entrevistas» dirigidas aos mais pequenos.

«Os nossos produtos são de facto muito bons!», assegura Casimiro Cajucam. «O sucesso está no trabalho. Esta emissora é verdadeiramente a voz dos que não têm voz», num Estado onde 88% das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza (menos de 2 dólares por dia) e onde a esperança de vida é de 47 anos. A RSM afirmou-se uma «rádio modelo, pela isenção, objectividade e conteúdo das suas mensagens».

Bakhita e os Combonianos

Ajudar a construir a paz na mais jovem nação do mundo, independente desde 2011, mas ferida por um conflito que parece não ter fim, é também o objectivo da Rede de Rádios Católicas do Sudão do Sul e montes Nuba (CRN), este ano galardoada com o prestigiado Prémio Internacional Pax Christi.

A rede de nove rádios2 comunitárias que chega a mais de sete milhões de pessoas foi premiada por «promover a reconciliação, curar os traumas, ser uma plataforma para o diálogo construtivo, oferecer informação de confiança e dar uma atenção especial a grupos marginalizados, incluindo mulheres, crianças e todos os que não sabem ler ou escrever».

Na sede da CRN em Juba, a capital, a voz da directora da CRN, Mary Ajith Goch, alegra-se quando a Além-Mar a contacta por WhatsApp: «A cerimónia de entrega do prémio será só em Dezembro, mas estamos muito felizes, porque este é o reconhecimento do trabalho que temos vindo a fazer desde há vários anos. Ganhámos um novo ânimo e sentimo-nos encorajados a fazer mais pelo nosso povo.»

E a CRN bem precisa de estímulo. Uma das suas emissoras, Radio Saut Al Mahaba / Voice of Love (Voz do Amor), em Malakal, foi destruída em 2014 durante combates – ou «crimes de guerra», segundo a Human Right Watch – entre soldados governamentais e grupos da oposição. A própria cidade, a segunda maior do país, ficou vazia depois de tantos horrores e tantas vezes mudar de mãos.

«Só agora começámos a reerguer-nos, porque nada restou, nem as paredes», informa Mary Ajith. «Pilharam tudo. Mudámo-nos para o perímetro da Catedral, esperando que agora respeitem o espaço da igreja. Queremos ir para o ar em breve, mas ainda nos falta algum equipamento e fundos.»

A Voz do Amor pertence à Diocese de Malakal, no Estado do Alto Nilo, e é dirigida, desde 2009, pela missionária italiana Elena Balatti. Foram irmãs combonianas, juntamente com os Missionários Combonianos, que iniciaram a CRN, uma forma de celebrarem a canonização do fundador da congregação, Daniel Comboni, em 2003.

«A ideia inicial era termos uma emissora em onda média, a partir do Quénia, porque, nessa altura, o Sudão não nos dava uma licença», explica-nos o padre José Vieira, que colaborou na criação da primeira estação, a Rádio Bakhita. «Só em 2005, com o tratado de paz, é que pudemos avançar, mas desistimos da onda média porque, durante o dia, o calor era intenso. Tínhamos de transmitir de manhã ou à noite e, por isso, decidimo-nos por uma rede de rádios em cada diocese no Sul e nos montes Nuba, área controlada pelos rebeldes do SPLM-N» (Movimento de Libertação do Sudão-Norte).

Fez-se um estudo de viabilidade e, logo em 2005, começou a formação de jovens, muitos deles vindos de campos de refugiados no Uganda e no Quénia, que tinham formação em inglês. Em 2016, um desses refugiados formados pela CRN seria Mary Ajith, mas contaremos adiante a sua história.

A princípio, apesar da ajuda crucial de dois técnicos italianos de alta e baixa tensão, a Rádio Bakhita consistia apenas «em dois contentores, alinhados um ao lado do outro, unidos por uma parede – do lado direito, um estúdio de emissão; do lado esquerdo, o gabinete da directora, a irmã mexicana Cecília Sierra Salcido, e a redacção; no meio dos contentores, umas mesitas para fazer programas», especifica José Vieira. «Era uma coisa muito rudimentar.»

«Com temperaturas de 45º, os contentores eram autênticas frigideiras», adianta o padre português. «Lembro-me de que, quando não podíamos usar o ar condicionado durante as gravações, porque os microfones eram muito sensíveis e captavam todos os barulhos, nós suávamos por todo o lado.»

Mais tarde, a rádio-bandeira da CRN foi ampliada. Fizeram-se estúdios de cimento, insonorizados. «Fomos para o ar na noite de Natal de 2006, numa missão experimental, mas a primeira emissão oficial e regular só arrancou a 8 de Fevereiro de 2008, dia de Santa [Josefina] Bakhita – a primeira santa do Sudão», uma antiga escravizada que o Papa João Paulo II canonizou em 2000.

De início, este foi um projecto integralmente pago pela Família Comboniana.

Ajudar as comunidades

Hoje, toda a rede de nove rádios2, cada uma com «uma média de 10-15 jornalistas», é propriedade da Conferência Episcopal do Sudão do Sul, embora os Combonianos mantenham «um papel consultivo e de ponte para parcerias», como refere a actual directora, Mary Ajith.

Para José Vieira, uma das grandes qualidades da Rádio Bakhita foi aproveitar sinergias. «Fazíamos noticiários que cobriam todo o país, sem gastar praticamente nada, porque cada um dava e partilhava o que tinha. Esta filosofia atraiu outras emissoras, como a Dom Bosco, dos Salesianos, em Tonj, das primeiras a juntarem-se à rede.»

Outro factor para a conquista de audiências: comunicar em várias línguas. Os cerca de 10 milhões de habitantes do Sudão do Sul pertencem a 64 grupos étnicos (o maior é o povo Dinca – o primeiro a converter-se ao Cristianismo –, seguindo-se as tribos Nuer, Shilluk, Azande, Bari, Kakwa, Murle, Mandari e outras) e exprimem-se em mais de 60 línguas.

A Rádio Bakhita, com os seus «jornalistas poliglotas», transmite em inglês, árabe simplificado, bari e dinca; outras estações da rede juntam ao árabe e inglês, as línguas tira, otoro, lera, muru, otuho, madi, acholi, didinga, topasa, shiluk, nuer, balanda e zande.

«Quando a Bakhita chegou, já havia outras emissoras [hoje são mais de 30], como a do Governo, que emitia em onda média; as privadas, que só davam música e publicidade; ou a da ONU (Miraya/Espelho), que não tocava em política ou religião para manter a imparcialidade», relembra José Vieira.

«Nós anunciámo-nos como uma rádio comunitária que forma e informa. Os problemas da comunidade eram a prioridade. Tínhamos programas religiosos, claro, mas também de saúde, com dois médicos. Usávamos teatro educativo, orientado por algumas ONG, dirigido a crianças e jovens. Dávamos aulas de inglês. Procurava-se aliviar as dores da guerra. Noticiávamos a actualidade internacional, nacional e local. Para as eleições de 2010 e referendo de 2011, entrevistámos todos os candidatos, mesmo os unipessoais, sem agenda, e ensinámos as pessoas a votar – preparando blocos de 10 minutos e linguagem simples. Cada um dos nossos radialistas explorava o que era novo no seu bairro para ser debatido diariamente.»

A missão da Bakhita, observa a directora da CRN, Mary Ajith, «ainda assenta em quatro pilares: evangelização, informação, educação e entretenimento». «Continuamos a abrir a emissão com o Rosário e orações matinais e seguimos com o noticiário e programas diversos. Os mais ouvidos são a Santa Missa e os que abordam a construção da paz. Porque, em tempo de instabilidade, as pessoas querem saber se as suas aldeias, muitas delas remotas, são seguras – e a rádio é, quase sempre, o seu único meio de comunicação.»

Saber, por exemplo, se vai recomeçar a guerra (quase permanente desde 1955, apenas com 4-5 anos de paz; desde Agosto que há combates mortíferos entre fiéis e rivais do vice-presidente, Riek Machar, que terá sido afastado do seu partido) ou se as raras estradas transitáveis desapareceram. Em Outubro, o Sudão do Sul enfrentou o que a ONU descreveu como «as mais implacáveis cheias das últimas décadas», que inutilizaram vias rodoviárias, inundaram campos, destruíram colheitas e deixaram sem abrigo «mais de 700 mil pessoas», muitas delas já em risco de fome.

Censura e insegurança

Os ouvintes adoram entrar em directo na rádio, para falar sobre a falta de água e de higiene ou o mau funcionamento das escolas; sobre corrupção na indústria petrolífera (receitas têm sido, alegadamente, desviadas e usadas para enriquecer alguns e financiar bandos que cometem atrocidades) ou sobre casamentos infantis. No Sudão do Sul, «52% de todas as meninas casam-se antes dos 18 anos, por vezes aos 12, o que as priva de direitos básicos e até da vida», alerta a Unicef. «Cerca de um terço de todas as meninas engravida antes dos 15. Bebés nascem prematuros, o que os predispõe a doenças crónicas. Com o encerramento das escolas, devido à covid-19, e mais tempo passado em casa, muitas meninas ficaram mais expostas a abusos sexuais.»

Se a antena aberta para desabafar mágoas é o que mais atrai os ouvintes, é também um gerador de pressões por parte das autoridades. Tal como José Vieira, também Mary Ajith diz que a CRN foi intimada pelo Governo a «dedicar mais tempo à palavra de Deus e menos à política». Um dos programas «altamente vigiados» é Wake Up Juba (Desperta, Juba), «um talk-show em que quem participa não se abstém de criticar os dirigentes». Certos tópicos, que ela não especificou, tornaram-se «linhas vermelhas».

«A censura e a insegurança, o nosso maior desafio, não nos poupam», confirma à Além-Mar, em declarações por correio electrónico, Bogere Charles Mark Kanyama, 35 anos, director interino da Bakhita, emissora que chega a mais de um milhão de ouvintes e tem uma área de cobertura de 300 km2. «Em 2015, a nossa estação foi encerrada só porque um dos jornalistas falou com Riek Machar, na altura o líder da oposição.»

No entanto, o presidente, Salva Kiir Mayardit, é católico, cujos pés o Papa João Paulo II beijou quando o recebeu, a ele e a Machar, em Abril de 2019, para os convencer a consolidar um ténue acordo de armistício, firmado no ano anterior, depois da guerra civil que começou logo após a independência e causou 400 mil mortos, 2,1 milhões de deslocados internos e 2,5 milhões de refugiados (cálculos da ONU) – uma das maiores crises humanas desde o genocídio ruandês de 1994.

«A popularidade da Bakhita – embora esteja a perder-se devido a circunstâncias que escapam ao nosso controlo – deve-se ao facto de ser a única rádio católica que aborda questões sociais e políticas», crê o director interino. «Wake Up Juba é um programa essencialmente político. Hoje, a censura impede muitos jornalistas de elucidar o público, e este tem cada vez mais dificuldade em encontrar plataformas para responsabilizar o Governo. Nós, sendo uma instituição da Igreja, não abdicamos de criar fóruns que permitam às pessoas exprimirem-se livremente.»

Outro problema que a Bakhita e a CRN enfrentam é a míngua de fundos, apesar de significativos apoios à formação e programação, por parte de várias ONG, da Voz da América ou da BBC Media Action, e da ajuda na aquisição de equipamento por parte de organizações como a Internews, da Califórnia.

A publicidade pode servir de almofada financeira, mas quando há princípios a defender, às vezes perde-se dinheiro, como aconteceu com José Vieira. Não aceitou difundir anúncios da companhia malaia Petronas, por estar envolvida numa «violenta campanha de expulsão de populações em Unity State, para uma exploração de petróleo sem critérios, que polui terras e cursos de água», com metais pesados e químicos tóxicos.

Directores jovens

Tal como Mary Ajith, o jovem Bogere Charles juntou-se à CRN em 2016. Recebeu formação da agência Journalists for Human Rights (JHR), com sede em Toronto, no Canadá, e entrou na Rádio Bakhita como estagiário do Media Development Institute of South Sudan. Foi depois repórter, editor, gestor de programas e agora substitui o anterior director, Alfred Soka, que saiu do país para continuar os estudos. «Foi a minha dedicação ao trabalho e a Deus que me fez chegar tão longe», exulta.

Mary Ajith, que teima em «lançar sementes de paz e esperança», baseia o optimismo na sua experiência de vida. Tinha 2 anos, em 1991, quando escapou de uma chacina na terra natal, Bol. Toda a população fugiu e milhares foram mortos, incluindo o pai e a maioria dos familiares.

«Fiquei inicialmente ao cuidado de uma escola de freiras, numa terrinha entre o Sudão do Sul e o Quénia, mas depois atravessei a fronteira para viver num campo de refugiados», revela. «Foi um tempo duro. Eu, a minha mãe e os meus quatro irmãos não fomos bem acolhidos. Dependíamos totalmente da ONU, mas consegui estudar e licenciar-me em Comunicação na Universidade de Nairobi. Em 2010, regressei ao meu país.»

Hoje, o papel de Mary Ajith é coordenar as várias estações da CRN, angariar fundos e recursos, trabalhar 12 horas por dia e ainda levar trabalho para casa. «O futuro parece sombrio, mas se continuarmos com determinação, veremos luz ao fundo do túnel e o futuro será brilhante.»

O Projecto Ditunga

Na República Democrática do Congo (RDC), assolada por vários conflitos armados, insegurança alimentar (19,6 milhões de pessoas precisam de ajuda urgente) e várias epidemias – cólera, sarampo, ébola e agora a covid-19 –, outra rádio, na província de Kasai-Oriental, procura oferecer a quem a ouve um «conforto holístico», assim descrito pelo fundador e director, padre Apollinaire Cibaka Cikongo, em entrevista por correio electrónico à Além-Mar.

«O Projecto Ditunga [PRODI] é uma associação sem fins lucrativos criada em 2006, graças a pessoas de boa vontade e ao financiamento da fundação pontifical Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que «acreditaram no sonho de apoiar o trabalho da Igreja e das comunidades rurais na região de Ngandanjika e arredores», informa o sacerdote. A rádio com o mesmo nome começou as emissões em 17 de Julho de 2010. Está no ar, ininterruptamente, das 5h50 às 23h00, transmitindo em ciluba (80%), uma das quatro línguas nacionais da RDC e a principal de Kasai-Oriental, e em francês (20%).

Nos últimos 15 anos, numa missão que «integra todos os eixos do desenvolvimento humano», o Projecto Ditunga, embora de cariz religioso, num país onde 55% da população é católica e a Igreja de Roma é uma das principais forças políticas, sociais e morais, não cuida apenas do espírito. Fomenta também a vida associativa, a agricultura, a criação de gado – «soberania alimentar» – e a protecção do ambiente. Dinamiza a escolarização de crianças e a formação permanente de adultos. Contribui para o desenvolvimento cultural, social e económico das mulheres. Promove a nutrição, a saúde e a higiene. Defende os direitos humanos e a cultura democrática.

São mais de 100 os projectos da iniciativa Ditunga. Beneficiando «2146 famílias de camponeses», precisa o sacerdote da diocese e professor da Universidade Oficial de Mbuji-Mayi, capital do Estado de Kasai-Oriental e a segunda maior cidade da RDC, depois de Kinshasa.

Numa fazenda-escola, são criadas galinhas e porcos e aqui se plantou uma floresta artificial de 32 hectares, um palmeiral, campos de mandioca e de outras culturas. Abriram-se 72 escolas, do ensino pré-escolar ao universitário, e um instituto superior de construção civil. Edificaram-se dois hospitais e cinco centros de saúde. Construíram-se onze centros de formação especial dirigidos a mulheres, em particular camponesas e analfabetas.

Na defesa dos direitos humanos, é dada ênfase a 433 crianças órfãs, acolhidas em três grandes centros, 244 pessoas com albinismo, reclusos e protagonistas de delitos comuns e conflitos intercomunitários. O Projecto Ditunga desenvolve ainda actividades culturais, artísticas e científicas, assim como a formação e a informação crítica e objectiva, por meio de seminários, ateliês e media. Organiza, igualmente, obras pastorais e sociais da Igreja Católica e de outras comunidades de fé.

No que toca ao apostolado da Igreja, especifica Cikongo, 54 anos, autor de várias obras como La maison du Nègre, Libérer la théologie africaine ou Le mal congolais, o apoio «consiste em conceder-lhe espaços privilegiados na Rádio Ditunga, em construir igrejas e capelas para as comunidades pobres (há seis), em atribuir bolsas de estudo a seminaristas e apoio logístico a sacerdotes».

Graças a uma «altitude favorável – 805 metros – e a potentes transmissores», a Rádio Ditunga, com 16 jornalistas na redacção e quatro correspondentes, nacionais e locais, pode ser ouvida num raio de 350 quilómetros em linha recta. Cikongo estima a audiência em cerca de 5 milhões de pessoas. Em onze anos de existência, a emissora «reinventou-se na fidelidade à sua identidade eclesial e comunitária. Conseguimos dotar-nos de uma grelha que vai ao encontro das expectativas de um público bastante complexo e heterogéneo».

Não há temas tabu, garante Apollinaire Cikongo, que anima um programa dominical em francês e em ciluba, no qual aborda «todos as questões sociais e da actualidade», organizando depois debates contraditórios. Em Março e Abril, por exemplo, fez três emissões sobre poligamia, assunto sobre o qual diz divergir da «maioria dos pastores das seitas cristãs». As uniões polígamas são legais na RDC. Todavia, enquanto os homens podem ter várias mulheres, estas não têm protecção legal, nem direitos sobre o registo e a custódia dos filhos, nem direitos de propriedade ou de herança.

Outro tema muito discutido é o da violência doméstica, mas, apesar de «as mulheres serem muitas vezes cúmplices do sofrimento que lhes é imposto por tradições arreigadas na sociedade», Apollinaire Cikongo realça que a situação «está a evoluir bem». A Rádio Ditunga contribuirá para «lutar contra os casamentos precoces» e encorajar as meninas a ir à escola. Pelo menos 8000 seguiram este caminho, graças a bolsas de estudo.

O importante papel da emissora de Cikongo ficou evidente durante a covid-19, sobretudo em 2020, com todas as medidas de distanciamento físico. Durante três meses, foi «a escola primária e secundária de muitos alunos, uma escola de saúde e higiene, mas sobretudo um laço entre comunidades, a capela de muitos católicos e não católicos».

«Não é fácil trabalhar com liberdade» na RDC, admite o director. No entanto, «a situação tem melhorado desde a alternância política em Dezembro de 2018», quando Félix Tshisekedi sucedeu a Joseph Kabila. «Antigamente, era habitual sermos interpelados por autoridades locais e provinciais, e pelos serviços de segurança. Os períodos de campanha eleitoral eram os mais perigosos, com ameaças de encerramento ou de morte contra um ou outro jornalista. Mas, graças a Deus, nunca passaram de ameaças e de intimidação.»

«Somos “Projecto” porque somos um sonho», lê-se na página da internet da Rádio Ditunga. «Somos o sonho de um mundo em que cada ser humano tem o que comer e pode viver com saúde, em condições ambientais dignas; o sonho de um mundo em que o ser humano não é um analfabeto, à mercê da destruição causada por ignorância, superstição e manipulação; o sonho de um mundo em que o ser humano, plenamente responsável pelos destinos políticos da sua aldeia, goza dos seus direitos e deveres.»

1. Dados de Cameco (Catholic Media Council) https://www.cameco.org/fr/repertoires/radios-tv-catholiques-en-afrique/

2. Bakhita Radio, Juba; Radio Voice of Peace, El Obeid; Radio Emmanuel, Torit; Radio Saut al Mahaba – Radio Voice of Love, Malakal; Good News Radio, Rumbek; Radio Easter FM – The voice of Truth and Love, Yei; Radio Anisa – The Voice of Truth and Peace, Yambio; Voice of Hope, Wau; Radio Dom Bosco, Tonj.