A palavra felicidade nos Evangelhos é menos que um hápax, pois a ela não corresponde qualquer ocorrência. Estranho, quando se pensa que a felicidade na modernidade se tornou quase um direito de natureza e um imperativo moral.

Se se observar o campo semântico que esta palavra gera nos Evangelhos, pode procurar-se sob a voz «bem-aventurança» ou sob a voz «alegria». Mas em ambos os casos a mensagem que estes dois termos veiculam está muito distante daquilo que possa ser a atual ideia de felicidade.

As bem-aventuranças de Jesus não têm nada a ver com o instinto para o prazer e para a exaltação do eu que a «felicidade» postula: bem-aventurados os pobres em espírito, bem-aventurados aqueles que estão no pranto, bem-aventurados os mansos.

O mesmo pode dizer-se da palavra alegria. Jesus diz que há mais alegria no dar do que no receber. O sentido que agrupa estas afirmações é o de cultivar a renúncia, reduzir as pretensões do eu, carregar as dificuldades e as cruzes próprias e dos outros.

Dostoievski está em perfeita sintonia com este ideal evangélico: «O homem não nasce para a felicidade. O homem ganha a sua felicidade e sempre com o sofrimento», anota no terceiro caderno dos materiais preparatórios para “Crime e castigo”. Ele liga a felicidade à fadiga, ao esforço, à imagem da «porta estreita»: «A felicidade adquire-se com o sofrimento», escreve no mesmo caderno.

É evidente que estas afirmações exprimem um paradoxo, formam um oximoro, a partir do momento em que colocam a par dois sentimentos que resultam um tanto contraditórios par a sensibilidade moderna.

Todavia, aquilo que para Dostoievski urge sublinhar é a fecundidade da relação entre felicidade e sofrimento. A propósito, numa carta de agosto de 1870 à neta Sof’ja, que ao tempo tinha 24 anos e à qual tinha dedicado o romance “O idiota”, escreve: «Sem o sofrimento também não entenderás a felicidade. O ideal passa através do sofrimento como o ouro atravessa o fogo. O reino dos céus obtém-se com o esforço».

Mais uma vez, é o modelo da «porta estreita» que o escritor faz brilhar entre as linhas da exortação à jovem. É verdade que se trata de uma mensagem “inatual”, mas que não cessa de fazer refletir também os modernos.

O cineasta Andrei Tarkovski, por exemplo, no seu testamento espiritual, perguntava: «Onde está escrito que a nossa vida na Terra deve ser feliz, que nos é dada por isso, e não por algo de mais importante para o homem?».

Lucio Coco
In L’Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 13.07.2021
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