Embora provavelmente sem o conhecimento da maioria dos católicos em todo o mundo, no sábado, 10-10-2021, o Papa Francisco abriu oficialmente um processo de consulta global de dois anos. A consulta global faz parte do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, que pode a mudar radicalmente a forma como a Igreja Católica toma decisões.
“Minha expectativa é que uma nova forma de fazer as coisas, que nos permitirá ver uma sinodalidade sendo vivida em todos os níveis da Igreja, está em andamento”, disse a espanhola Carmen Peña Garcia, participante do evento de sábado e domingo no Vaticano.
A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 11-10-2021.
13 Outubro 2021
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“O Sínodo não deve ser reduzido a este momento, a estes dois anos, porque a sinodalidade é um apelo à corresponsabilidade e à co-participação de todo o povo de Deus na vida e na missão da Igreja, sendo o batismo a carteira de identidade que dá o direito de participar”, ela disse.

Durante o próximo ano, será lançada uma consulta a nível paroquial, com os fiéis sendo convidados a participar das sessões de diálogo. Em março, haverá um encontro diocesano e nacional, seguido de um continental, com o processo, em princípio, concluído em outubro de 2023, com a assembleia geral do Sínodo dos Bispos, a realizar-se em Roma.

No sábado, as pessoas presentes eram em sua maioria leigos, sacerdotes e religiosos, sendo que alguns países não tinham uma representação episcopal presente. Devido às restrições impostas pelo Covid-19, o escritório do Sínodo do Vaticano solicitou que as representações fossem por continente e não por países.

Alguns participantes tiveram que enfrentar um processo de meses para obter o sinal verde de seus governos para voar para Roma, como foi o caso da leiga Susan Pascoe, da Austrália. Todos os bispos do País estão atualmente participando de um Conselho Plenário em nível nacional, cuja primeira sessão está sendo realizada nesta semana, assim nenhum veio. Ao voltar para casa, Pascoe terá que se isolar em um hotel por duas semanas.

Membro da Comissão de Metodologia do Sínodo que trabalhou tanto para a Igreja australiana quanto para o governo australiano, ela disse que valoriza “a autenticidade do processo. Vejo esperança neste processo e confio nele. Portanto, espero que outros católicos respondam ao convite feito pelo papa para que participem”.

Foi feito um convite para que todos os batizados participem, disse Peña Garcia, mas não se aplica apenas a eles, porque “a Igreja quer estar em diálogo com o mundo também. Acho que temos que encorajar as pessoas a participar, para que você não apenas ouça as vozes dos participam sempre, mas claro, sempre respeitando o livre arbítrio!”

Dirigindo-se aos que duvidam do processo, por temerem que vai acabar com tudo o que a Igreja ensina, Peña Garcia para que as pessoas “não tenham medo”.

“Precisamos ouvir, mas os princípios e o depósito da fé não estão mudando”, disse ela.

Outro membro da comissão teológica do Sínodo, o leigo Rafael Luciani, venezuelano que é professor do Boston College, argumentou que, no contexto atual, o sínodo tem dois componentes principais: foi convocado em uma situação de crise e reforma necessária, e não se trata de um sínodo sobre tópico específico, mas sobre a própria Igreja.

“A sinodalidade é a essência e a identidade da Igreja, é uma dimensão constitutiva que define o ser e o funcionamento da Igreja”, disse ele ao Crux . “Uma reconfiguração da Igreja está em jogo, quando se trata de como nos relacionamos como seres pessoas na Igreja, as dinâmicas comunicacionais como o diálogo, a escuta e o discernimento, e a maneira como as estruturas da Igreja devem responder à responsabilidade em um contexto que é cada vez mais exigente. ”

Agatha Lydia Natania, da Indonésia e membro do conselho da juventude do Sínodo, disse que muitas vezes a voz dos jovens não é ouvida na Igreja.

“Eu realmente espero que os jovens não somente sejam ouvidos, mas que realmente façam parte do processo”, disse ela a jornalistas no sábado, no final da sessão de abertura. “Temos essa energia, e também criatividade, quando se trata de aproximar as pessoas. Muitos jovens estão deixando a Igreja porque sentem que a instituição não os escuta ”.

O Sínodo, disse ela, é uma ferramenta importante para canalizar a vontade dos jovens para que expressem seus pensamentos, especialmente em nível local.

O britânico Austen Ivereigh, biógrafo papal e uma das pessoas leigas que participaram da primeira sessão do sínodo, disse que há uma “enorme lacuna” entre a enormidade da tarefa que temos pela frente e “nossa prontidão como Igreja em realizá-la”. Ele está convencido de que este poderia ser “o maior e mais transformador evento da minha vida, pelo menos desde o Vaticano II. Pode ser o maior exercício de consulta da história da humanidade. Mesmo assim, acho que poucos católicos estão cientes disso ainda, e os bispos estão, em sua maioria, quietos e se escondendo”.

O fato de que a maioria ainda não sabe nada ou quase nada sobre o Sínodo, disse Ivereigh ao Crux , é porque a Igreja hoje não é sinodal e há muito pouca experiência de um processo sinodal que não se restringe somente ás ordens religiosas, ou seja, ao interior da Igreja.

“Acho que vai ser um começo lento, com muita incerteza e falsas expectativas”, disse ele. “Mas eu acho que o Povo de Deus vai começar a se dar conta disso, o Espírito Santo vai estar presente e fará o processo decolar”.